A meio de fevereiro, há menos de um mês, o Sp. Braga foi à Luz ganhar ao Benfica. Antes disso, já tinha vencido o FC Porto no Dragão, já tinha eliminado o Sporting da Taça da Liga para voltar a bater o FC Porto e conquistar a competição no próprio estádio e já tinha voltado a derrotar o Sporting no Minho, desta feita para a Liga. Era a quinta vitória contra um dos chamados “três grandes” no espaço de um mês. E Rúben Amorim não conseguiu esconder que tudo o que se estava a passar era para lá de surreal.

“Há dois meses estava a treinar no Câmara de Lobos, num sintético, e há seis estava castigado, sem poder treinar”, atirou o então treinador minhoto, na sala de conferências do Estádio da Luz, para explicar que havia deixado de “pensar no futuro”. Em que pensará esta terça-feira Rúben Amorim, cerca de 15 dias depois desse jogo na Luz, enquanto novo treinador do Sporting? O futuro, com toda a certeza, terá de fazer parte da equação.

A primeira conversa informal, o aviso de Viana, Amorim e o acordo verbal: como Silas passou de opção a dispensado em 100 horas

Rúben Amorim chegou à equipa principal do Sp. Braga na viragem de 2019 para 2020, para substituir um Ricardo Sá Pinto com bons resultados na Liga Europa mas desgastado pelos desaires internos. Amorim, que estava na equipa B dos minhotos, tinha então o primeiro grande desafio da carreira de treinador, depois de ter orientado o Casa Pia no Campeonato de Portugal na temporada passada: pelo meio, surgiu um convite para assumir a equipa B do Benfica, o cargo que era de Bruno Lage, mas a reunião no Seixal com Luís Filipe Vieira acabou por não ter consequências práticas. Em Pina Manique, na primeira experiência como técnico, Rúben Amorim protagonizou uma polémica que lhe valeu uma suspensão (entretanto abolida) e que terminou com a própria demissão, quando deu indicações aos jogadores sem ter ainda o nível IV do curso de treinador – um nível IV que ainda não possui, tendo apenas o II, o que o impede de estar nas conferências de imprensa e de falar para dentro do relvado, papel que no Sp. Braga tem sido assumido pelo adjunto Micael Sequeira.

Com apenas 35 anos, o novo treinador do Sporting terminou a carreira relativamente cedo, aos 31, fator que só alimentou ainda mais a vontade de seguir a carreira de técnico. “No princípio ainda estava a ver outras coisas para fazer, porque para a vida familiar não é muito fácil. Não é como jogar futebol, ainda não é aquela paixão, mas é uma maneira de ficar ligado ao futebol e ao campo porque acho que, como terminei muito cedo, ainda me falta qualquer coisa e estou a tentar tapar esse buraco. Não me via como dirigente, muito menos como empresário, não tenho feitio para isso. Não é que não o fizesse, se não tivesse mais nada para fazer, teria de ficar ligado de qualquer maneira, mas é isto que quero tentar seguir. Não sei se vou ser bom se vou ser mau, mas vou ser”, dizia Rúben Amorim em 2017, numa entrevista ao Expresso, acabado de começar o grau I de treinador na Associação de Futebol de Lisboa e ainda a tirar uma pós-graduação na Faculdade de Motricidade Humana. No Sporting, o treinador de 35 anos vai treinar, por exemplo, Mathieu, que tem 36 – algo que não deve assustar um técnico que tem como principal inspiração José Mourinho mas cuja maior influência é Jorge Jesus, sob quem esteve durante sete anos, entre Belenenses e Benfica.

O antigo médio, aqui a disputar uma bola com Tévez num jogo da Liga Europa, chegou ao Benfica em 2008

“Enquanto jogador, tive muitos problemas com o Jesus. Mas tive como outros tiveram, porque o Jesus é um treinador que cansa. É muita intensidade e muita informação tática, todos os dias a carregar em cima do jogador, é muito perfecionista. Trabalhei muitos anos com ele e é óbvio que o meu nível de exigência é um bocadinho parecido com o dele, porque foram muitos anos (…) Mas não serei um treinador como Jorge Jesus, porque temos feitios diferentes, apesar de eu ter sido muito influenciado pelos anos em que estive com ele. Acho que serei duro, no sentido de ser chato, porque não consigo esconder as coisas, mas não serei como o mister Jorge Jesus”, dizia Amorim há dois anos, numa entrevista onde confessava ser benfiquista e reconhecia que pensava em ser treinador dos encarnados no futuro, numa resposta quase premonitória para o cenário atual.

“É certo que um treinador tem que ter as portas abertas em todo o lado mas, a meu ver, é preferível ser sincero com as pessoas, porque se for treinar um clube qualquer que seja adversário direto do Benfica, acho que as pessoas preferem que diga ‘sou do Benfica, mas sou profissional’, do que estar a dizer que era um boato. Já joguei contra o Benfica mil vezes, mesmo emprestado, e toda a gente sabe que quando chega o momento, separo as águas. Agora, vejo-me a treinar o Benfica, o que será treinar um grande clube mundial. Claro que só o tempo o dirá e é preciso tanta sorte, além do saber, por isso ainda nem penso nisso, só penso em começar a carreira e logo se vê”, atirava o técnico.

Rúben Amorim foi treinado por Jorge Jesus durante sete anos, entre Belenenses e Benfica, e garante que o agora técnico do Flamengo o influenciou

O carinho pelo clube da Luz, ainda que provavelmente tenha vindo de trás, é compreensível. Rúben Amorim passou sete temporadas no Benfica, ainda que com dois empréstimos ao Sp. Braga pelo meio e uma época final já com algumas passagens pela equipa B. Na Luz, conquistou quase tudo: três Ligas, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga, uma Supertaça Cândido de Oliveira e ainda chegou à final da Liga Europa, perdida em 2014 para o Sevilha. Passou pelas mãos de Quique Flores e pelas de Jorge Jesus, saindo do país pela primeira vez no primeiro ano de Rui Vitória no clube, rumo ao Al-Wakrah do Qatar, onde acabou por terminar a carreira.

Carreira que começou na formação do Pontinha, passou pelas camadas jovens do Corroios e do Benfica e foi parar ao Belenenses, onde o agora treinador subiu à equipa principal e onde se estreou na Primeira Liga, em dezembro de 2003 e com apenas 18 anos, numa vitória contra o Alverca. Tornou-se regular no onze da equipa lisboeta a partir de 2005/06, com José Couceiro e depois com Jorge Jesus, foi companheiro de Silas, que vai substituir agora no Sporting, e saiu para o Benfica em 2008. Cunhado de Luís Filipe, também antigo jogador do Benfica, Amorim foi internacional em 14 ocasiões, não tendo marcado nenhum golo, e esteve num jogo no Mundial da África do Sul em 2010 e noutro no Mundial do Brasil, quatro anos depois.

Amorim, aqui num jogo contra o Gana, foi convocado para os Mundiais de 2010 e 2014, na África do Sul e no Brasil

O antigo médio do Benfica foi sempre interpretado como uma voz sensata, um daqueles jogadores que olha para o futebol como mais do que um desporto e que se preocupa com a forma como este é tratado. Foi isso mesmo que sublinhou há dois anos, numa entrevista mais descontraída ao podcast “Maluco Beleza”, onde alertou para o facto de se estar “a perder” o que “realmente é importante”. “Há bons jogadores, talentos, bons estádios. Eu lembro-me de que quando era pequeno pedia sempre uma prenda, que era ver o Benfica no estádio. Os meus pais já tinham essa cultura e eu e o meu irmão ficámos fanáticos pelo Benfica. Só que quando passas muito tempo dentro do futebol perdes a paixão de adepto, aquela ingenuidade. Consegues perceber que há muita coisa para além das quatro linhas. Vês que há muitos jogos de interesse”, disse o agora treinador leonino.

Rúben Amorim ainda não tem currículo nem carreira suficientes para ter um estilo totalmente demarcado, uma estratégia óbvia ou uma linha de pensamento particular. É mais pragmático do que inventivo, mais Mourinho do que Guardiola, mais preocupado em vencer a equipa adversária e não perder do que em jogar bonito e ficar na história por isso mesmo. No Sporting, pelo menos de forma imediata, o treinador terá de ser mais um gestor de homens do que propriamente um arquiteto do futebol: terá de trabalhar com uma equipa desgastada física e emocionalmente, desconstruir hábitos e criar novas rotinas e começar a preparação de uma temporada que tem de ser quase obrigatoriamente melhor do que a atual. O desafio é digno de um David preparado para derrotar um Golias abstrato – e este David sempre quis encontrar um Golias deste tamanho.