O Instituto Nacional de Estatísticas divulgou esta quarta-feira um instrumento que permite estimar os impactos “significativos e transversais” que a pandemia do Covid-19 poderá ter na economia portuguesa. Partindo de um modelo de input-output (entrada e saída de fluxos) o INE apresentou uma simulação para o rasto que as perdas no turismo pode ter no Produto. E concluiu que uma diminuição de 25% na atividade turística levará a uma contração de 2,9% no PIB”. Este cenário que não corresponde a uma previsão de queda para a economia portuguesa, resulta do cruzamento de uma avaliação setorial com o seu peso no produto, bem como o efeito de cadeia que terá em outras atividades que são também fornecedoras de bens e serviços ao turismo.

Os economistas e instituições só têm uma certeza. A economia portuguesa vai sofrer uma recessão em 2020, provavelmente superior à verificada no pior ano do ajustamento económico. Mas ainda não é possível prever com alguma sustentação qual será a dimensão da queda. O Banco de Portugal divulgou a 26 de março duas projeções: uma mais otimista que aponta para 3,7% de queda do Produto Interno Bruto e um cenário adverso onde a economia pode encolher 5,7% este ano.

Mas há previsões bem mais negativas. A Universidade Católica trabalhou num conjunto de cenários em que o pior resultado pode dar uma brutal contração do produto de 20%.

De 2,9% a 20%? Seis cenários de recessão para Portugal devido à pandemia de Covid-19

Mais recente é a projeção do ISEG que indica um intervalo para a evolução do produto interno bruto este ano entre os 4% e os 8%.

ISEG prevê queda do PIB português entre 4% e 8% em 2020

Mas as instituições debatem-se ainda com a falta de informação concreta sobre o que está já a acontecer na economia portuguesa e, sobretudo, com a incerteza sobre quanto tempo vão demorar as medidas de saúde pública que estão a estrangular a atividade económica e como será o regresso à normalidade, cá e fora de Portugal.

Na simulação divulgada esta quarta-feira, e que tem por base matrizes relativas ao ano de 2017, o INE assume que o setor do turismo terá representado 11,5% do Produto em 2018. Como é reconhecidamente um dos setores mais afetados pela crise, com a maioria das unidades fechadas, é “expetável uma contração significativa da sua atividade”. Tendo por base uma simulação de redução anual da atividade em 25%, sentida ao nível dos visitantes estrangeiros e do turismo interno, o modelo usado pelo INE indica que isso resultaria numa redução de 2,9% do PIB anual.

Este cálculo, esclarece o INE, tem por base as hipóteses do sistema de matrizes procuram reproduzir uma representação simplificada das dinâmicas intersetoriais da economia observadas em 2017.

Em esclarecimentos ao Observador, fonte oficial do INE adianta que o cenário calculado “não deve ser entendido como uma estimativa de impacto global da pandemia COVID-19 no PIB português. Trata-se de facto da simulação de um cenário de redução de 25% do turismo (e não de outros setores da economia portuguesa). O cenário utilizado não deve ser entendido como uma previsão ou estimativa do INE de que o turismo vá ter uma redução dessa ou outra intensidade”.

Por outro lado, este impacto contem impactos diretos no turismo, mas também os induzidos em outros setores que dependem em parte desta atividade, como o aluguer de veículos, os transportes, os restaurantes e até os produtos agrícolas, agroindustriais e as bebidas que são produzidos ou importados para satisfazer a procura turística. E ainda no caso dos produtos agrícolas os fertilizantes, sementes, pesticidas, etc.

A metodologia segue um modelo de input-output em que a procura final é parcialmente endógena, considerada a opção mais abrangente porque permite ativar um conjunto mais vasto de variáveis do lado da produção, da distribuição do rendimento e da procura final. Segundo explica o INE, “o resultado desta maior complexidade é a existência de um efeito multiplicador do VAB (valor acrescentado bruto), e não apenas da produção”.

O modelo avalia o impacto de um choque de magnitude comparável nas variáveis fundamentais para a composição do Produto Interno Bruto, através de um multiplicador. Consumo final das administrações públicas, investimento (formação bruta de capitais fixos), exportações e consumo e rendimento final das famílias

O INE concluiu que o maior impacto no valor acrescentado bruto nas remunerações e consumo das famílias é o que resulta do consumo das administrações públicas, ou seja, dos gastos do Estado. Ainda que esta variável resulte num agravamento do saldo externo da economia portuguesa. Já as exportações permitem desagravar esse saldo externo, mas têm um efeito multiplicador bastante menor que o da variação do consumo do Estado.