O Cineclube do Porto celebra esta segunda-feira 75 anos com “a resistência e a vitalidade” como marcas, embora o programa de aniversário tenha sido adiado devido à pandemia de Covid-19.

Em entrevista à Lusa, a presidente da direção do mais antigo cineclube do país, Joana Canas Marques, garante que a associação está hoje “de boa saúde”, com cerca de 200 sócios e atividade, das sessões regulares, na Casa das Artes, a outras atividades, sobretudo ligadas “ao acervo e à internacionalização do cinema português”.

Nas comemorações de três quartos de século, Canas Marques garante que o Cineclube deixa à cidade “uma mensagem de resistência e vitalidade”, por um lado por “uma associação com tantos anos em cima, que necessita continuamente de um conjunto de pessoas que a renovem” e, por outro, precisamente pela capacidade de “atrair novas gerações”, dado o “legado tão forte e importante no contexto do cinema na cidade do Porto”.

Em 1945, o sócio fundador do cineclube Hipólito Duarte dava conta da criação de uma instituição que precisou de “sacrifícios de meia dúzia de carolas”. “Para o manter serão precisos os sacrifícios de todos os verdadeiros amigos do cinema”, acrescentou então, no primeiro número de “O Boletim”.

Hoje, esta frase “ainda é válida, porque todos os movimentos associativistas têm esta questão do sacrifício”, e o espírito da fundação, nascido no seio de um grupo de amigos do liceu, mantém-se.

É o facto de gostarmos de cinema e gostarmos de viver a experiência do cinema, juntos em sala. […] [Um cineclube] é uma entidade orgânica de um conjunto de pessoas que gostam de partilhar ideias em torno do cinema”, explica Joana Canas Marques.

Estas instituições são hoje “ainda mais urgentes”, recorda a presidente, e se o Cineclube do Porto foi “uma estrutura de resistência à ditadura” durante o Estado Novo, neste momento esta força é canalizada para outros fins.

“Neste momento, é uma estrutura de resistência, uma forma comunitária e social de nos vermos em sociedade, de estarmos em sociedade. As associações são, hoje em dia, muito importante, porque apesar de haver muito mais cinema e estar mais disponível, é importante que as pessoas se encontrem e se unam por um projeto e algumas ideias para criar cultura“, recorda.

Joana Canas Marques destaca o trabalho contínuo, desde 2014, de recuperação e restauro do acervo, que, quando o Cineclube deixou uma sede com “poucas condições”, foi entregue a várias instituições, com o arquivo fílmico na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, a biblioteca e outro arquivo na Casa do Infante – Arquivo Municipal do Porto, e o equipamento no Museu da Imagem em Movimento, em Leiria.

Este material passou, assim, a ser catalogado e mais acessível a investigadores e outros interessados, também pela contratação de uma pessoa para este tratamento.

Neste acervo do Clube Português de Cinematografia – Cineclube do Porto, encontram-se mais de cinco mil entradas relacionadas com cinema, de linogravuras e serigrafias, de Alice Sousa, Armando Alves ou Ângelo Sousa, a “livros, filmes, equipamento” e outros objetos.

Filmes originais, acumulados ao longo de doações de várias décadas, e outros objetos, como um par de lunetas de Aurélio Paz dos Reis, pertencem a este arquivo.

Outra das marcas dos últimos tempos tem sido a internacionalização, e a presidente da direção destaca a programação da Semana do Cinema Português na Lituânia, em 2019, como um dos pontos altos, assim como a parceria com vários festivais e outros ciclos da cidade do Porto, como o BEAST, dedicado ao cinema da Europa de Leste, e a secção programática “Portuguese Abroad”, para filmes portugueses rodados no estrangeiro.

Para o futuro, o Cineclube do Porto gostava de se tornar “mais ativo” precisamente neste campo, e já tem “um conjunto de parceiros interessados”, bem como mais trabalho junto do acervo, e “mais do que isso, poder continuar a criar acervo”.

Isso “implica que a associação possa ter estabilidade para se manter na cidade e angariar novos espólios, e constituir uma biblioteca do cinema atualizada”.

As celebrações planeadas para assinalar a data de fundação do mais antigo cineclube português foram adiadas devido à pandemia de Covid-19, estando para já programadas para o próximo semestre.

Entre os destaques, nota para a edição de um livro sobre os 75 anos da instituição, com textos de nomes como José Manuel Costa, Paulo Cunha, José Alberto Pinto ou Marta Reis, mas também a edição em DVD de “Auto da Floripes”, uma cópia restaurada do filme filmado em 1959 em Viana do Castelo, e estreado no Porto, no Cinema Trindade, quatro anos depois.