Título: Os Testamentos
Autor: Margaret Atwood
Editora: Bertrand Editora
Ano da Edição: março de 2020
Páginas: 456
Preço: 18,80€

O romance Os Testamentos foi publicado em inglês em setembro do ano passado. Chegou a Portugal no passado mês de março

Em 1985, Margaret Atwood publica A História de uma Serva, livro que rapidamente se torna um clássico, leitura essencial dentro do género do romance distópico. A ditadura teocrática aí descrita, a República de Gileade, situada onde antigamente eram os Estados Unidos da América, é um regime implacável que tem como linha orientadora uma interpretação ultra conservadora da Bíblia. As mulheres são reduzidas a um papel servil, separadas em categorias consoante o seu papel na sociedade. Entre estas, encontram-se as Servas, mulheres cujo propósito é darem filhos aos Comandantes, os líderes de Gileade, caso as Esposas destes sejam inférteis. Acompanhamos uma destas Servas, Offred, e é através dela que testemunhamos o verdadeiro horror daquela sociedade. A História de uma Serva é muito mais do que uma simples reflexão sobre o poder autoritário vs. a liberdade individual. É um olhar incisivo sobre o lugar da mulher na sociedade, a forma como é percecionada e os tipos de violência que sofre todos os dias.

Os Testamentos é a sequela de A História de uma Serva, e volta a colocar o foco na República de Gileade, 15 anos após o desfecho do último livro. O regime continua ativo e de boa saúde, mas forças externas, sediadas principalmente no Canadá, tentam derrubá-lo. São três as protagonistas: Tia Lydia, a figura feminina mais importante do regime, e que lidera a doutrinação das futuras Esposas e Servas, a única personagem que regressa do livro anterior; Agnes Jemima, filha de um Comandante, que se vai questionando sobre a validade e justiça da sociedade em que cresceu; e Daisy, uma adolescente canadiana que se vê envolvida com uma organização terrorista cujo objetivo é derrubar Gileade.

As histórias destas três mulheres parecem, a princípio, não se relacionar entre si. A distância entre elas, tanto social como física, acentua esse facto. Se o livro tivesse menos 200 páginas teríamos apenas uma antologia de vários pontos de vista femininos sobre Gileade, que dariam a oportunidade ao leitor de criar um quadro mais completo e detalhado deste mundo. Porém, estas linhas narrativas aparentemente paralelas começam a cruzar-se, a ocupar o espaço das outras, complementando-se e tornando-se mais complexas, até nos encontrarmos perante uma rede intrincada, fabricada desde o início sem o conhecimento do leitor.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Se é verdade que este desdobramento de protagonistas confere alguma riqueza e ritmo ao livro, renovando o interesse do leitor de cada vez que a narração passa para outra personagem, também o distrai de uma possível linha condutora que só se torna verdadeiramente evidente quando deixa de ser subtil. Isto acontece no último terço do livro, em que subitamente a narrativa ganha um ritmo apressado. De um drama sobre mulheres oprimidas, passamos a um thriller ao estilo 007, repleto de espiões, microfilmes, golpes de karaté, fugas e perseguições.

No entanto, muitos dos problemas abordados no livro anterior regressam, ainda que de formas diferentes. Em A História de uma Serva, a questão do poder masculino sobre as mulheres era clara tendo em conta o papel das Servas na sociedade de Gileade, que sofriam de dupla opressão, tanto de género como de classe. Apesar de serem mulheres, as Esposas e Tias, por pertencerem a uma classe social superior, parecem sofrer menos com o regime. Na sequela, Atwood reverte essa situação, dando um claro destaque apenas à opressão de género. Todas as mulheres, independentemente da sua posição social, são estigmatizadas, rebaixadas, vistas como meros objetos com um propósito específico.

Assim, é possível termos Tia Lydia, o símbolo máximo da opressão, que tortura mental e fisicamente outras mulheres até se tornarem obedientes, como uma personagem pela qual sentimos alguma empatia. Somos levados até às suas origens na República de Gileade e percebemos que esta figura austera fora uma mulher normal no mundo antes do regime, também ela torturada até aceitar pacificamente o seu futuro, quase nos fazendo sentir culpados por no livro anterior lhe termos desejado tanto mal.

Com Agnes, filha de um Comandante, também seria fácil desdenhá-la desde cedo. Afinal ela beneficia do trabalho escravo de outras mulheres, vivendo no maior dos luxos possível. Ainda assim, esta jovem sente-se à parte, horrorizada pela forma hipócrita como as altas patentes apregoam a castidade e fé, mas praticam o oposto. A inocência de criança e adolescente de Agnes contrasta com a experiência de vida e frieza da Tia Lydia, partilhando, no entanto, a sua condição feminina. A própria Daisy, que vive no Canadá, tem de fingir ser submissa a um homem para poder ganhar passagem para Gileade.

Há que notar, no entanto, que são raras as vezes que Atwood menciona aquela que talvez seja a maior fatia da sociedade de Gileade, as Econoesposas, mulheres dos homens das classes baixas, e que de certa forma reúnem em si as características das outras mulheres, pois são esposas que têm de dar descendência ao seu marido, ao mesmo tempo que cuidam da casa. Parece desaproveitado o potencial narrativo de toda esta classe.

Atwood continua o legado que iniciou em 1985, ainda que com algumas diferenças de ritmo e foco. A mensagem parece continuar a ser a mesma, e a ser dita de forma clara: 35 anos depois, ainda é relevante falar sobre opressão e violência de género, mesmo que desta vez haja uma esperança maior ao fundo do túnel.