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“Patrick”

Imaginem que um rapaz francês é preso na sequência de uma festa barulhenta e que no seu computador a polícia encontra vídeos dele a molestar sexualmente raparigas, e a ter relações sexuais, quando era menor, com um pedófilo. E imaginem que a seguir a polícia descobre que o rapaz foi raptado em Portugal quando era pequeno e levado para o estrangeiro, ou por uma rede de pedofilia, ou pelo próprio pedófilo com quem viveu. É o que acontece em “Patrick”, primeira longa-metragem do ator Gonçalo Waddington, que no entanto está ferida logo à partida por uma enorme inverosimilhança. O rapaz, Patrick em França mas de nome real Mário, não só é libertado pelas autoridades francesas, que deixam calmamente ir embora uma mina ambulante de informação sobre o meio da pedofilia, como recambiado para casa da família, de onde desapareceu há 15 anos, sem vigilância policial. Mesmo passando por cima disto, “Patrick” é um filme insatisfatório, porque o argumento mete o ponto morto e evita toda e qualquer forma de confronto ou conflito dramático. De volta à terra, Patrick/Mário (Hugo Fernandes) gasta o tempo a andar de um lado para o outro de cara fechada, perante a também implausível passividade da mãe e outros familiares, até um final previsível e cliché.

“As Maravilhas de Montfermeil”

O novo filme escrito e realizado pela atriz francesa Jeanne Balibar, que também faz uma das personagens principais, parece a resposta otimista e positiva ao crispado e pessimista “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, rodado no mesmo subúrbio problemático de Paris, e em que aliás Balibar também entra, no papel de uma comissária de polícia. Uma nova equipa chegou ao poder em Montfermeil, e está em marcha uma revolução que aponta à utopia. Os feriados tradicionais são abolidos e substituídos por dias que celebram a “diversidade”, e nos quais toda a gente tem que andar de quimono ou de “kilt”, é instituída a sesta obrigatória e criado um serviço para garantir a satisfação sexual dos munícipes. Este filme filia-se num certo cinema francês de veia utópico-anarquizante  muito típico dos anos 70, como “L’an 01”, escrito pelo desenhador e autor Gébé com base no seu livro homónimo e realizado por Alain Resnais, Jacques Doillon e Jean Rouch, “Themroc”, de Claude Faraldo, ou ainda “Não Toques na Mulher Branca”, de Marco Ferreri, mas atualizado e adaptado às causas do momento. “As Maravilhas de Montfermeil” foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.

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