Oooohhhh lálálá lálálá! Quando o espanhol Gil Manzano deu o apito final no Groupama Stadium e o Lyon fechou a vitória pela margem mínima frente à Juventus na primeira mão dos oitavos da Champions, ninguém ficou muito “preocupado” em Turim a propósito de uma eventual eliminação precoce da principal prova europeia. E nem mesmo com os últimos encontros totalmente falhados na Serie A esse sentimento afetou muito os bianconeri. Não que se considerasse que de repente a Vecchia Signora iria passar do oito para o 80 mas porque tem um nome que conta tudo o resto: Cristiano Ronaldo. O português e a Liga dos Campeões estão há anos numa relação e é ali, naqueles grandes palcos onde muitos costumam tremer, que se sente no seu verdadeiro habitat natural.

“Se dependesse de mim, só jogava os encontros importantes, aqueles da Seleção Nacional e da Champions. São esses jogos que trazem as atmosferas difíceis e uma maior pressão. Mas temos que ser profissionais, jogar e treinar bem todos os dias para honrar a nossa família e o clube que representamos e que nos paga. A idade é apenas um número, ter 34, 35 ou 36 não significa que esteja no fim da carreira. Aliás, consigo mostrar isso com as exibições que tenho conseguido fazer. A maneira como jogo, a forma como estou em campo, o quanto ainda me sinto bem, como penso o jogo de forma mais madura, tudo faz diferença”, disse numa entrevista à France Football.

Mais do que palavras, Ronaldo é uma pessoa e um jogador de atos. E só na Liga dos Campeões conseguia fazer uma verdadeira equipa de recordes, de um a 11, sendo que se fosse preciso um banco de suplentes também havia.

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  1. Jogador com mais golos nas competições organizadas pela UEFA (171)
  2. Jogador com mais vitórias conquistadas em jogos da Liga dos Campeões (106)
  3. Mais golos marcados na Liga dos Campeões (128) e em provas da UEFA (131)
  4. Primeiro jogador de sempre a passar a barreira dos 100 golos na Champions
  5. Mais assistências em jogos da Liga dos Campeões (40)
  6. Primeiro jogador a marcar dez ou mais golos de forma consecutiva na Champions (2011/12-2017/18)
  7. Jogador com mais golos marcados na Champions numa temporada (17, 2013/14)
  8. Primeiro e único a marcar em três finais ganhas da Liga dos Campeões (2008, 2014 e 2017)
  9. Primeiro jogador a marcar em todos os seis jogos da fase de grupos numa só época
  10. Mais penáltis (16) e livres diretos (12) marcados na Liga dos Campeões
  11. Mais golos marcados na fase a eliminar (65), nos quartos (22) e nas meias (14) da Champions

Como se percebe, é uma questão de pensar num qualquer registo ofensivo e dificilmente não se encontra o nome de Cristiano Ronaldo (e se não for ele é Messi, como acontece numa luta particular entre ambos em relação ao número de equipas a quem conseguiram marcar, com vantagem nesta altura para o argentino por 34-33), que também nos oitavos tinha números que assustavam: em 31 encontros disputados nessa fase da Champions, marcara 23 golos. No último, em França, ficara em branco; agora, era solicitado como nunca pela Juve. “O Cristiano está a treinar da forma certa, ainda na quarta-feira marcou um excelente golo no treino. Ele jogou muitos jogos num curto período, descansou um pouco e agora tem treinado com intensidade e força”, comentou Sarri. Mas seria suficiente?

A Juventus revelou ainda mais nos últimos jogos uma grande diferença em relação a outras equipas presentes na Champions, estando ou não apuradas, como Bayern, Manchester City, Real Madrid, Atl. Madrid, PSG ou até os mais “modestos” Atalanta e RB Leipzig: chegamos a esta fase da temporada e ainda ninguém percebeu ao certo quem é a equipa base, qual é a ideia de jogo nem o que serve o sistema tático montado por Maurizio Sarri desde que chegou a Turim. Houve exibições mais conseguidas, certo. E houve na maioria das partidas uma capacidade maior de dominar em relação ao adversário – se não fosse assim, não tinha conseguido ser campeão pela nona vez consecutiva. Ainda assim, sobravam muitas vezes mais dúvidas que certezas. O mérito dos golos de Ronaldo ou Dybala era mais coletivo ou individual? A falta de dinâmica no meio-campo era por culpa própria ou do opositor? O números alto de golos sofridos era por um ocaso da defesa ou pelo demérito da equipa?

Era a estas perguntas tantas vezes sem resposta que a Juventus tinha de abordar esta noite em Turim, sabendo que a margem de erro era mínima e que não voltaria a contar de início com Dybala, que se lesionou no encontro do título com a Sampdória e não mais voltou a ser utilizado. A entrada, essa, não podia ser pior: já depois de uma ameaça de Aouar de fora da área, aproveitando um buraco entre linhas que lhe conferiu todo o espaço para um remate defendido para canto por Szczesny (8′), os franceses adiantaram-se mesmo no marcador aproveitando um carrinho pouco prudente na área de Betancur sobre Aouar (numa jogada muito contestada também por uma falta anterior que poderia ter deixado de ser marcado sobre Higuaín) que Depay não perdoou de penálti (12′).

Um golo antes do jogo valia prolongamento, a partir daí só três valeriam a passagem na eliminatória e partindo do pressuposto que não sofreria mais, mas a Juventus voltou a demorar até reentrar no jogo, ficando muito perto de marcar aos 20′ quando Bernardeschi conduziu a bola quase em cima da linha de fundo, tirou da jogada Anthony Lopes com uma finta de corpo mas viu Marcelo cortar para canto quando se preparava para encostar para o 1-1. Logo no minuto seguinte, Alex Sandro teve mais uma boa subida pelo flanco esquerdo, cruzou ao primeiro poste mas o desvio de Ronaldo saiu entre a cabeça e o ombro saiu por cima e deixou o português a olhar para o céu como que a perguntar o que se estava a passar de mal. Não foi aí, também não foi a cinco minutos do intervalo, com Anthony Lopes a fazer uma defesa fantástica a um livre direto do português (40′). Não foi no primeiro, não foi no segundo, foi no terceiro… mas de penálti: Pjanic bateu, Depay terá cortado com o braço (se o primeiro penálti pode ser discutível, este segundo foi muito, muito discutível…) e CR7 fez o empate em cima do intervalo (43′).

O avançado agarrou na bola, colocou-a debaixo do braço, ficou à espera da confirmação do VAR como se nada fosse, partiu de forma confiante mal ouviu o apito do alemão Felix Zwayer, marcou, foi buscar a bola e seguiu com ela para o meio-campo pontapeando-a para alguém colocar no círculo central para acelerar o recomeço. Os jogos das decisões é mesmo onde Ronaldo de sente melhor, ou não tivesse marcado o 66.º golo em eliminatórias da Liga dos Campeões, bem à frente neste capítulo de Messi (41), Lewandowski (21) ou Müller (21). Em paralelo, e numa época com vários recordes, mais uma marca simbólica em relação à história da Juventus: o capitão da Seleção Nacional tornou-se o primeiro jogador na história centenária a marcar 37 golos numa só temporada. No entanto, era na passagem aos quartos e na possibilidade de continuar a lutar pela Champions em que estava focado.

Bruno Guimarães ainda teve um remate perigoso de fora da área no quarto de hora inicial do segundo tempo mas as características do encontro tinham começado a mudar, com a Juventus a assumir muito mais a posse e a tentar de forma paciente acercar-se da baliza de um Lyon que teve sempre em Marcelo um defesa quase insuperável e que tentava sobretudo defender bem para depois ligar passes em progressão que pudessem apanhar desprevenida a formação visitada. Problema? Estavam a jogar contra Ronaldo. E o português inventou mais um momento de génio: como quando a bola chegava a Bernardeschi nunca havia cruzamentos bem medidos, o avançado foi ao lado direito buscar a bola, veio para o meio, rematou de pé esquerdo fora da área e fez um grande golo (60′).

A Juventus ficava apenas a um golo da reviravolta, Sarri lançou Dybala e tudo estava a começar a ficar a jeito para mais uma noite de glória europeia em Turim e na carreira de Ronaldo, que ficou a centímetros de fazer o terceiro golo no encontro de cabeça após um canto do argentino. No entanto, os minutos passavam, o Lyon ia conseguindo suster esse ímpeto ofensivo com algumas saídas perigosas pelo meio, Dybala teve de sair por sentir de novo um problema de ordem muscular na coxa e os bianconeri morreram mesmo na praia, em mais uma noite em que ficou provado que por muito bom que um jogador possa ser só consegue fazer milagres de vez em quando (e CR7 faz muitos). Dez anos depois, e mais uma vez contra o Lyon, Ronaldo caiu nos oitavos da Liga dos Campeões.