Jorge Jesus continua a ser aquele treinador para quem a perfeição é algo que não existe mas para a qual pretende trabalhar todos os dias. É por isso que, mesmo quando está a ganhar de forma tranquila, fica ainda mais agitado na sua zona técnica, puxando ainda mais pelos seus jogadores e corrigindo de uma maneira mais expressiva as lacunas que possa encontrar. E vai até ao pormenor, como se viu no “raspanete” que deu em Gabriel, que foi um dos melhores em campo, por ter saído a correr de campo para dar lugar a Taarabt quando a equipa estava a ganhar por 2-0 e atravessa uma fase de maior densidade competitiva com jornadas europeias seguidas.

Pizzi foi um diabo à solta no inferno do anjo Gabriel (a crónica do Benfica-Standard Liège)

No final do encontro, o técnico saiu disparado para a zona do meio-campo (nem reparando que o homólogo belga Philippe Montanier ia na sua direção para o habitual cumprimento) para reunir todos jogadores, técnicos e demais elementos ligados ao futebol. Intenção? Agradecer aos quase 5.000 adeptos que, com um visível distanciamento social, regressaram ao estádio da Luz quase oito meses depois. E o técnico não só elogiou o comportamento dos presentes como deixou até um pedido, inspirado com aquilo que via no Brasil com o Flamengo.

“Eram 5.000, mas pareciam 55.000. Foi muito bom, foi um estímulo muito grande. Até acho que os jogadores jogaram mais. Estou convencido disso. Não há hipótese. O futebol sem público não tem paixão, sentimento… Eu vim de um país que é o país do futebol, onde toda a gente vai ao jogo com a camisola. Nós aqui vimos ao jogo com o cachecol, o colorido não é tão bonito. Gostava que quando tivermos jogo peço aos adeptos que venham com a camisola do Benfica, que fica mais bonito”, comentou o técnico na zona de entrevistas rápidas após um encontro que, mais do que o resultado, deixou Jesus satisfeito pela qualidade exibicional da equipa.

“Foi importante ganhar, como é óbvio, mas quando se ganha com esta qualidade, melhor ainda. Foi o melhor jogo que o Benfica fez desde que cá cheguei. Não só pelos três golos mas porque jogámos contra uma equipa que praticamente não teve jogo ofensivo. Repare que não tiveram chances de golo. Foi uma equipa que nos dificultou muito a tarefa com a sua organização defensiva, em 5x4x1 com muitos jogadores atrás, mas gostamos destas equipas. Estamos a adaptar-nos bem e sabíamos que com o tempo iria surgir espaço e as oportunidades. Foi um jogo com uma qualidade muito boa em termos ofensivos mas também no plano defensivo, até porque é muito importante para mim não sofrer golos”, resumiu o treinador depois do 3-0 ao Standard Liège, que colocou os encarnados com o melhor rendimento ofensivo nos oito jogos iniciais desde 2009/10, o seu primeiro ano na Luz.

Ainda assim, o momento da noite na flash interview da SportTV aconteceu quando Jorge Jesus foi confrontado com as palavras de Mehdi Carcela, antigo jogador dos encarnados que comparou o atual Benfica com o Barcelona. “Não direi o Barcelona… O de há uns anos atrás sim porque o de agora não tem nada. Não quero que seja parecido com o de agora, ao outro é que não me importo nada. Mas este é o Benfica com uma ideia de jogo cada vez mais identificada pelos jogadores, que estão cada vez mais confiança, com os jogadores a aparecerem cada vez mais. O Nuno, [Tavares] por exemplo, entrou e fez um excelente jogo. O Diogo como lateral, para primeira vez, gostei do jogo. Praticamente toda a gente jogou muito bem. Ao longo destas semanas temos estado a fazer adaptações com o Diogo a lateral, mas quando tínhamos o André não há tempo para isso. Com o André lesionado, comecei a trabalhar nessa questão. O Diogo começou então a dar indicações muito boas do que pensava dele. Não é novidade nenhuma, pois ele já tinha sido lateral na seleção, pelo menos foi isso que ele me disse”, disse.