O movimento “Amigos de Miramar”, de Gaia, que em julho criou uma petição a pedir alterações ao projeto da Infraestruturas de Portugal (IP) para o troço ferroviário naquele local, considerou esta quinta-feira que a revisão feita ficou “aquém” do desejado.

Tendo em conta o total da obra, a Câmara [de Vila Nova de Gaia, distrito do Porto] e a Junta [de Freguesia de Arcozelo] tiveram uma atitude muito cooperante e a IP fez três projetos. Compreenderam a posição do movimento. Mas consideramos que [o projeto revisto e definitivo] fica aquém do que desejávamos e irá comprometer o cruzamento e a circulação na Rua Luís de Camões”, referiu à agência Lusa Alexandra Camacho, do grupo “Amigos de Miramar”.

Em causa estão os trabalhos de modernização integral do troço entre Espinho (Aveiro) e Vila Nova de Gaia (Porto), os quais incluem obras na zona de Miramar, nomeadamente a construção de um túnel na Avenida Vasco da Gama.

Esta empreitada da IP gerou contestação de moradores da zona que chegaram a criar uma petição pública com o título “Não Destruam Miramar: Não ao Túnel”.

Seguiram-se reuniões que juntaram moradores de Miramar e técnicos, tendo estas sido acompanhadas pela Câmara de Vila Nova de Gaia e pela Junta de Freguesia de Arcozelo, até que em setembro foi anunciado que o projeto original da IP para a Linha do Norte ia ser alterado em Miramar, prevendo-se a diminuição da altura e extensão do túnel, o que permitiria a preservação de plátanos centenários, essa uma das preocupações do movimento.

Em declarações à Lusa esta quinta-feira, Alexandra Camacho apontou que ficou, no entanto, por conciliar a questão do cruzamento da Rua Luís de Camões, lamentando que este fique “tapado” com o túnel, algo que “cria dificuldades de acessibilidade às casas dos moradores”.

Quem vem de poente para nascente [de costas para o mar] terá um túnel que termina no cruzamento da Luís de Camões. O argumento para não terminar o túnel antes é o declive que criaria. Mas nós consideramos que seria possível. A rua está elevada, logo, escavando seria possível diminuir a extensão do túnel”, descreveu a moradora, socorrendo-se de um estudo elaborado por um professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Paulo Pinho, que também é morador em Miramar.

Além da questão das acessibilidades, o movimento “Amigos de Miramar” lamenta o abate de mais cinco árvores centenárias que a extensão do túnel obriga a fazer.

Salvaguardando, no entanto, a “atitude muito cooperante das entidades envolvidas” e frisando que as alterações feitas ao projeto inicial “vão ao encontro da maioria das preocupações” do grupo, o movimento “Amigos de Miramar” apontou ainda, à Lusa, que “quer continuar a fazer parte da discussão futura” no que se refere ao arranjo exterior após obras.

O nosso movimento partiu da convicção de que é possível fazer cidadania ativa. As pessoas queixam-se, mas muitas vezes essas queixas esgotam-se nos partidos. O movimento quis ir além e pensamos que poderemos continuar a ter um papel na discussão sobre o arranjo exterior”, referiu Alexandra Camacho.

Sobre esta matéria, a “preocupação” principal do movimento prende-se com “a manutenção da traça típica da zona”, algo “muito dependente da replantação de árvores, questão prometida pelas entidades”, acrescentou a moradora.

A agência Lusa contactou a câmara de Vila Nova de Gaia que referiu “entender que a obra é determinante na segurança e na valorização do território”, mas remeteu mais esclarecimentos para a IP.

Tratando-se de uma obra das Infraestruturas de Portugal, o município entende que não deve pronunciar-se adicionalmente”, apontou a autarquia em resposta escrita.

A agência Lusa contactou a IP para solicitar detalhes sobre as alterações ao projeto original, mas até ao momento não obteve resposta.

A 3 de julho, altura em que o grupo “Amigos de Miramar” intensificou a divulgação da petição pública e pediu reuniões às várias autoridades locais, em resposta à Lusa, a IP esclareceu que a criação de um túnel em Miramar visa reduzir o “risco de acidentes”, admitindo que seria necessário remover árvores, mas garantindo que “o projeto prevê a reposição de todas as árvores retiradas, bem como o arranjo paisagístico de toda a zona envolvente, numa perspetiva de minimização efetiva dos impactes associados a esta importante intervenção”.

Esta obra faz parte de uma empreitada global de renovação do troço entre Espinho e Vila Nova de Gaia da Linha do Norte, que foi adjudicada por 55,3 milhões de euros, depois de ter recebido visto do Tribunal de Contas, conforme a IP tornou público em julho.