Começou por brilhar no CSKA Sófia, foi aposta do Celtic pela mão da antiga referência do Liverpool John Barnes, rumou sete anos depois à Premier League via Aston Villa, sendo internacional pela Bulgária desde que os tempos em que jogava ainda no seu país. Aos 32 anos, Stiliyan Petrov era titular indiscutível do conjunto de Birmingham. A seguir a uma derrota contra o Arsenal, sentiu febre. Que não baixava. Os exames diagnosticaram-lhe uma leucemia aguda. O jogo de futebol passou a ser o jogo da vida, numa batalha onde contou sempre com o apoio do clube que não só manteve o seu nome no plantel como deixou o papel de capitão ao búlgaro. Após meses de sessões intensas de tratamento, o cancro entrou em remissão. Uns meses depois, anunciou o final da carreira de jogador.

“Ainda hoje, quando os meus filhos escrevem o meu nome no Google, a primeira coisa que aparece é: venceu o cancro”, recordou numa entrevista ao The Guardian no ano passado. A pandemia trouxe novos desafios mas nada do que antes passara: se em 2012 criou uma bolha em relação à mulher, aos filhos e aos pais por saber que estava com o sistema imunitário em baixo e que qualquer vírus ou bactéria colocava a vida em risco, agora passou estes tempos de confinamento com mulher e filhos na sua casa em Birmingham. Os tempos mudaram, a vida de Petrov também. Mais do que mudar, evoluiu. Ainda arriscou uma carreira de treinador nos escalões de formação do Aston Villa mas investiu na sua formação com vários cursos da UEFA onde foi conhecendo mais ex-jogadores.

“Apareceu tudo do nada. O meu futebol, os meus sonhos, tudo me foi retirado. Tudo o que tinha planeado, tudo o que achava que iria acontecer, tudo o que pensava atingir desapareceu num só segundo. Coloquei tudo de lado, o que tinha de fazer era lutar pela minha vida. A minha batalha era para sobreviver. Uma batalha para continuar a ser uma pessoa, um pai, um marido, alguém que queria mais depois do futebol. Mas não conseguia”, contou numa entrevista ao The Independent em outubro, pouco mais de um mês antes de estar na Web Summit.

Há três anos, quando estava a estudar num Masters da UEFA para jogadores internacionais, começou a discutir uma ideia com outros antigos atletas como o inglês Emile Heskey, o espanhol Gaizka Mendieta ou o jamaicano com nacionalidade inglesa Michael Johnson: o que os tinha levado durante a carreira a querer ser quando chegassem ao final do tempo como jogadores? Assim começou a nascer a Player4Player, um grupo que trabalha com atletas ainda no ativo ou que terminaram a carreira para facilitar o momento depois da retirada, partindo até de um estudo da Premier League onde 40% dos atletas podiam enfrentar a bancarrota três anos depois de pendurarem as chuteiras, entre outras questões como a saúde mental que afetam todos os aspetos da vida extra futebol.

“A ideia esteve sempre lá, sempre esperámos que as pessoas nos guiassem”, destacou Stiliyan Petrov no início da conversa moderada por Pedro Pinto e onde estiveram também Heskey e Mendieta. “Temos recebido por um lado satisfação, porque a indústria consegue perceber que existem novas oportunidades, e por outro excitação pelos caminhos que se abrem para evoluírem na vida e como pessoas. O maior problema é que o sistema falhou na proteção dos jogadores do futebol. As nossas carreiras são curtas, as nossas vidas são longas. Aquilo que quisemos fazer foi mostrar que existem outros caminhos. A maioria de nós dizem que não têm preocupações, que vão para treinadores ou comentadores, mas está tudo a fazer o mesmo, está a ficar congestionado. Ninguém estava a explorar outros caminhos e o desafio é encontrar o percurso certo, as oportunidades certas para todos”, prosseguiu, falando um pouco do trabalho que a Player4Player tem desenvolvido no último ano.

“Nenhum clube nos dá essa informação, os jogadores não sabem o que implica uma segunda carreira. A experiência que temos é importante é importante não só pela carreira que tivemos como pelos estudos que fomos fazendo ao longo de todo este processo. Quando as pessoas pensam em futebolistas, a ideia vai muitas vezes para Ronaldo e Messi, que ganham milhões. Nem todos são assim, nem todos ganham esses milhões e este guia é importante para criar novos caminhos e gerir as finanças de outra forma”, destacou Mendieta, antigo médio internacional espanhol de 46 anos que se destacou no Valencia e que passou por Lazio, Barcelona e Middlesbrough.

“O principal erro da maioria é pensarem que nunca acaba. Temos uma carreira curta e a seguir uma vida com mais 60 anos, de dedos cruzados e se tudo correr bem. Entramos no futebol aos nove, planeamos tudo: ser profissional, jogar naquela posição, atingir aqueles clubes. Depois acaba e para isso não havia nada planeado. Se queres entrar nos negócios, se queres saber o que podes estudar, não estás preparado. O melhor conselho que posso dar a um jogador entre os 18 e os 21 anos é que siga a sua educação. Foi a chave para a minha progressão. Temos tempo para estudar e até é bom para sair da bolha do futebol, que pode envolver muito stress, e colocar-nos fora disso em alguns momentos”, acrescentou Emile Hesley, ex-avançado internacional inglês de 42 anos que passou por Leicester, Liverpool, Birmingham, Wigan, Aston Villa, Newcaslte Jets e Bolton.