Posso ter nascido anósmico (quase sem olfato) mas estou há anos a desenvolver o faro por tudo o que é degradante. Deixem-me de olhos vendados em qualquer cidade do mundo, que vou feito Basset Hound ao beco mais escuro, ao bar ou tasco mais dúbio, sentar-me na mesa do pior personagem. Em tempos melhores, isto já me deu boas histórias para contar. Hoje, levou-me ao Palco Portugal da Web Summit e a esta crónica:

O ministro Pedro Siza Vieira fala melhor inglês do que a ministra Marta Temido

Não aprendi muito mais com a conversa dele, visto que foi uma espécie de resumo de 2020 ao estilo de recap de séries de TV: na primeira temporada houve a gripe espanhola, na segunda veio a Covid. Cada governo reagiu à sua maneira. Alguns personagens secundários e todos os vossos anões preferidos já eram.

A Patrícia Matos percebe mais do Jogo Rei do que eu

Jorge Jesus pode não acreditar que as mulheres percebem de futebol, mas esta assessora do Parlamento Europeu deu um show de bola. Ao contrário do seu assessorando, a Patrícia de verde não tem nada.

O Quaresma era guloso, não bebe álcool e nasceu com os pés tortos

Ouvi isto enquanto me servia da segunda pratada de pernil, do terceiro copo de vinho, e me questionava: mas o que é que isto tem a ver com a Web Summit? Até quando lhe perguntaram o que achava do futuro, Ricardo respondeu que estava super confiante nas próximas gerações da seleção.

Tenho uma nova expressão que adoro odiar: “influenciador social”

Foi assim que Quaresma foi rotulado por ter unido pessoas on e offline contra a única coisa que é pior de ouvir do que uma mesa redonda da Web Summit: o discurso de ódio de André Ventura. É um dom da Web Summit: até quando falamos de coisas que nos fazem felizes, como ver portugueses unidos a lutar contra fascistas, é com palavras que nos dão vontade de saltar para o meio da A1 para sermos varridos por um Tesla. Seria, quase de certeza, a primeira e única boleia que um condutor de Tesla oferecia.

A Farfetch é quase um negócio de verdade

Todos sabemos que é uma das mais bem cotadas startups portuguesas, mas eu descobri que a Farfetch é capaz de ser praticamente uma empresa a sério. Quando lhe perguntaram o que faz da sua startup um negócio sustentável (leia-se: verde), José Neves não falou em painéis solares, pegadas ecológicas ou ursos polares, mas sim que encontrara quem quisesse comprar o que ele tinha para vender. Ou seja, temos aqui a primeira startup Portuguesa que chegou ao nível de maturidade da feira da bagageira de Benfica.

A Marisa é meia hipster

Marisa respondeu à pergunta “o que é que mudavas na indústria da música” com “reintroduzia o vinil.” Não esperava que a Marisa se gabasse de já ouvir Amália antes de ela ser fixe. Mas onde é que ela passou os últimos anos, em que todos os nossos amigos decidiram que já tinham leitores de vinil há décadas, ou pelo menos, muito antes dos outros todos? Não sei, porque o entrevistador não perguntou. Passou para o próximo tema pertinente: acho que era se o ananás vai bem na pizza ou não.

Isto é tudo altamente performativo

Ver: o ponto anterior. O mundo é enorme, mas não grande o suficiente para haver um estrangeiro que queira saber três razões pelas quais a Marisa prefere música em vinil. Neste canal, os entrevistados são todos portugueses, os entrevistadores também, e insistem em falar em inglês para uma audiência portuguesa. Porque na Web Summit, Portugal é o maior país do mundo. Mesmo que não acreditemos nisso, é giro subir ao palco e fingir que é. Se não servir para mais nada (não serve), é uma boa massagem no ego nacional. Quando o dia acabar, e a Web Summit com ele, para mim, pelo menos, conta como um final feliz.

A AICEP precisa de ajuda

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal foi apresentada com um vídeo feito pelo sobrinho de alguém da organização. Pouco depois, o presidente Luís Castro Henriques deu uma apresentação ilegível a tentar convencer empreendedores estrangeiros a trazerem o seu negócio para cá. Pode fazer tudo parte do plano: não conseguindo chamar uma Amazon, talvez chame videógrafos e designers a montar cá uns quantos estúdios. Esses já sabem a quem oferecer serviços quando chegarem. Tenho é pena do sobrinho do Luís, que vai ter de arranjar outro tacho para pagar rodadas de UCAL aos amigos do secundário.

Alguns de nós ainda têm TPC para fazer

Numa mesa redonda sobre empreendedorismo social, o moderador conseguiu não acertar uma única vez nas palavras “Social Entrepreneurship” (empreendedorismo social). Não fosse a expressão o tema central da conversa, era mais fácil de desculpar. O que nos vale é que eu era a única pessoa a assistir.

O cão dos meus vizinhos fugiu

Perdi umas quantas palestras à custa da aventura, mas suspeito que não perdi grande coisa. O bicho entretanto já está em casa.

Até para o ano” são as palavras mais agridoces da língua portuguesa

Pouco antes das seis, o canal Português chegou à mensagem “O Canal Português fechou,” para nos lembrar que a Web Summit estava a acabar. Vou buscar o espumante da bairrada. A rolha salta, tão leve e alegre como eu. Mas nem a tinha servido quando a Mestre de Cerimónias rematou com: “Vemo-nos em 2021!” Nunca pensei vir a dizer isto, mas até dá vontade que 2020 não acabe. Bom. Entretanto a garrafa já está aberta. Perdi a vontade de celebrar, mas também não quero que se estrague.

Obrigado pela companhia, amigos. Vejo-vos para o ano, quando o circo voltar.

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.