São as toalhas de casa de banho portuguesas por excelência e somam décadas de história. A fábrica onde outrora foram feitas já não labora. Fundada a 2 de outubro de 1845, a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas, conhecida apenas como Companhia de Torres Novas, foi em tempos um colosso da indústria nacional. Chegou a empregar à volta de 800 pessoas e a exportar para os quatro cantos do mundo. Fechou portas em 2011, mas o que parecia um ponto final definitivo em mais de 160 anos de história, era apenas um compasso de espera de menos de uma década.

No final do ano passado, um grupo de jovens empreendedores recuperou o nome e fez renascer a etiqueta Torres Novas, bem como três das coleções de toalhas de turco mais emblemáticas da velha companhia: Almonda (em homenagem ao rio que atravessava a fábrica), Luxus e Elegance. “O plano era este desde o início. A Torres Novas tem uma história e um significado importantíssimo para o país — foi uma das maiores e mais antigas fábricas têxteis em Portugal –, além de haver também aqui um fator emocional. Tínhamos de assegurar a sua continuidade”, admite Nuno Vasconcellos e Sá ao Observador.

Cartão da antiga Companhia de Torres Novas © Divulgação

Aos 30 anos, não é apenas um dos novos sócios da renovada marca. O elo familiar que evoca remonta a António Medeiros e Almeida, o homem que adquiriu a empresa em meados do século passado e que, por sua vez, integrou na equipa o sobrinho, Adolfo de Lima Mayer. É neste tio-avô, parte ativa no relançamento da Torres Novas, que reside a conexão com o passado da companhia. Agora octogenário, nunca deixou de produzir atoalhados, embora sem a antiga etiqueta.

Adolfo de Lima Mayer, uma contratação do século passado

Ainda caminhava para os 30 quando pisou pela primeira vez a então Companhia de Torres Novas, na qualidade de funcionário. Em 1963, o período era de mudança — Adolfo acabara de voltar de Moçambique, cumpridos cerca de dois anos de serviço militar, quando um tio lhe propôs um cargo inédito na empresa, já na altura centenária. “Vim ver se era capaz de criar um serviço comercial, que não existia até então, e fiquei toda a vida. Mais tarde, passei a diretor comercial e depois disso, com o 25 de Abril, a administrador. Foi uma altura difícil, ninguém queria administrar uma empresa nessa altura”, conta o próprio, hoje com 82 anos.

Adolfo de Lima Mayer © Divulgação

O patrão (e tio) em questão era António Medeiros de Almeida, o empresário que comprou a companhia em 1949 e que elaborou um ambicioso plano de modernização. Este foi posto em marcha a todo o vapor. Dentro da grande fábrica, a fiação e a produção têxtil eram a especialidade e era assim que se forneciam companhias igualmente grandes como a CUF. Mas a nova estratégia comercial traria novas frentes de negócio, nomeadamente a venda de produtos acabados.

Adolfo de Lima Mayer recorda ainda a estreita relação com fabricantes dinamarqueses, que relocalizaram parte da produção em Portugal, em meados da década de 70. A aprendizagem foi mútua e é no desbravar de um novo mundo tecnológico que a Companhia de Torres Novas começou a produzir os famosos atoalhados. “A partir daí, fomos conquistando vários mercados — no El Corte Inglés, em Espanha, em praticamente todos os países da Europa, na Austrália e em vários pontos na Ásia”, relembra.

“Não fomos capazes de ir fazendo os investimentos corretos”, admite hoje, na qualidade de acionista da mais recente versão da empresa onde trabalhou durante quase 50 anos. Os funcionários foram mantidos, mesmo quando as novas máquinas substituíam o trabalho de muitos deles. Portugal, à semelhança de tantos outros mercados, abriu-se ao mundo e a concorrência estrangeira enfraquece o negócio, tal como o desaparecimento de alguns dos maiores clientes.

Imagem da fábrica da Companhia de Torres Novas ainda em funcionamento © Divulgação

Em cima da mesa, pronta a avançar, esteve uma união com a portuguesa Lanidor, que pretendia criar uma linha de têxteis para a casa. O plano não foi para a frente e 2008 trouxe uma crise profunda no tecido empresarial português. O processo especial de revitalização (PER), entretanto elaborado, previa a redução do número de trabalhadores para um terço, cerca de 70, mas não passou no crivo dos credores e a Companhia de Torres Novas cessou atividade em 2011. “Foi das coisas que mais me magoou na vida”, indica.

Pouco tempo depois, o ex-administrador juntou-se a fabricantes parceiros e garantiu uma nova produção das famosas toalhas. Não pôde usar o mesmo nome, mas substituiu-o temporariamente pelo seu. A Lima Mayer era, afinal, um empreendimento a prazo. Com o apoio dos sobrinhos, caducado o antigo registo da marca, regressou a Torres Novas, ainda que não de forma literal (o complexo da antiga fábrica, na altura entregue ao Banco Espírito Santo, está praticamente todo abandonado). A reforma, essa, continua a vê-la ao longe.

Mais cores e novos produtos: a Torres Novas do futuro

Ao lado de Nuno está o primo, Miguel Castel-Branco, e a mulher, Inês Vaz Pinto, que equilibram a balança entre a consultoria e a comunicação. Os planos para relançar a nova Torres Novas, com alguns do produtos de sempre e com o antigo logotipo reatualizado, apontavam para o final de 2021. A pandemia trocou-lhes as voltas, sobretudo quando os efeitos se começaram a sentir no negócio de Adolfo. “A encomendas da hotelaria desapareceram. Ou avançávamos já ou morríamos até lá. Tivemos, por isso, de reduzir a coleção — tínhamos planeado lançar mais cores e uma série de outros produtos”, explica Nuno.

Os preços das toalhas variam entre os 4,49 e os 69,99 euros © Divulgação

O catálogo foi ajustado ao longo de meses a trabalhar a todo o vapor. O resultado chegou em novembro, com três linhas de toalhas (que diferem na gramagem do algodão), cada uma com três tamanhos, e uma paleta de cerca de 12 cores. Extras? Uma linha de tapetes que, tal como os atoalhados, são integralmente produzidos na única matéria-prima possível. Para os jovens empresários, com idades entre os 28 e os 31 anos, a recusa de fibras sintéticas foi requisito obrigatório. “O produto sempre foi feito maioritariamente em algodão, mas em é muito mais fácil usar poliéster quando se quer produzir em quantidades mais pequenas”, explica Nuno. Ainda assim, o compromisso está firmado e todos os artigos serão feitos em fibras naturais e recicláveis.

Com o lançamento antecipado, que inclui uma nova loja online, a Torres Novas tem agora um extenso catálogo de novos produtos, prontos a serem lançados até ao final do ano. Ainda este mês, deve chegar a linha Royale, uma coleção de toalhas também ela resgatada dos arquivos da companhia. No final do trimestre, chega uma coleção inédita e minimal e antes do verão, os novos sócios querem vender toalhas de praia. Por volta de setembro, será altura dos primeiros roupões.

Atualizado, o logotipo de sempre da Torres Novas © Divulgação

A produção é agora feita em Guimarães, num antigo parceiro da Companhia de Torres Novas. De lá, os produtos já seguem para todo o país. “Quisemos que os nossos clientes encontrassem os produtos nas lojas de sempre, ou seja, no comércio tradicional”, partilha Nuno. Em Lisboa, as toalhas e tapetes já estão à venda em locais de referência como a Pollux ou a Paris em Lisboa e avançar para norte é o próximo passo. Nuno fala de enxovais que perduram no tempo e de outros que já vai sendo altura de substituir. Sem dúvida que, a partir de agora, vão todos ficar um pouco mais portugueses.

Nome: Torres Novas
Data: 2020 (relançamento)
Pontos de venda: loja online e uma rede de 16 lojas em vários pontos do país
Preços: entre os 4,49 e os 69,99 euros

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