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Quando Jorge Jesus foi confirmado como o novo treinador do Benfica, muitas vozes se apressaram a dizer que alguns jogadores, alguns habituais titulares com Bruno Lage e até já com Rui Vitória, acabariam por sair do onze inicial. A lista, que também incluía palpites certeiros como Franco Cervi, era normalmente liderada por Grimaldo. Um indiscutível nas últimas épocas encarnadas, o claro dono da lateral esquerda da defesa da equipa mas um jogador que passa por pouco do metro e setenta — baixo, em teoria, para as exigência de Jesus, que prefere defesas altos e encorpados.

Ora, Jesus chegou, preocupou-se com o ataque e contratou Darwin e Waldschmidt, preocupou-se com o meio-campo e contratou Everton, preocupou-se com o centro da defesa e contratou Otamendi, Vertonghen e Todibo, preocupou-se com uma alternativa a André Almeida na direita da defesa e contratou Gilberto. Ou seja, não contratou ninguém para substituir Grimaldo, garantindo a aposta no espanhol, e achou que estava bem servido com Nuno Tavares, a alternativa que já estava dentro do plantel. Grimaldo ainda se lesionou no início da temporada, obrigou o treinador a lançar o jovem lateral no onze inicial, mas assim que recuperou agarrou novamente a titularidade.

Fast forward para janeiro e Grimaldo é um dos titulares indiscutíveis de Jorge Jesus. Esta terça-feira, na Reboleira, o lateral espanhol foi poupado no jogo da Taça de Portugal contra o Estrela da Amadora mas entrou na segunda parte, quando foi preciso acelerar o ritmo para acabar de vez com a eliminatória. Grimaldo entrou mas correu para uma zona que não costuma pisar: terrenos mais adiantados, na esquerda, à frente do lateral Nuno Tavares e a aparecer em espaços interiores. No Estádio José Gomes, Jorge Jesus deu pistas a Sérgio Conceição sobre o que iria fazer esta sexta-feira no Dragão.

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A cerca de uma hora do apito inicial, apareceu a surpresa: Grimaldo era titular contra o FC Porto mas Nuno Tavares também. Um pequeno exercício de memória ajudava então a perceber, desde logo, que o espanhol iria precisamente assumir a posição em que entrou na Amadora, no início da semana. Os instantes iniciais do jogo mostraram um Grimaldo muito interventivo, a oferecer a largura a Darwin — que com esse movimento arrastava um defesa e deixava uma auto-estrada entre lateral e central do FC Porto — e a aparecer em velocidade no corredor interior, solto para receber quer da faixa central quer da ala.

Foi precisamente assim que surgiu o primeiro golo do Benfica. Nuno Tavares apareceu muito aberto na esquerda, cruzou para a entrada da grande área e Seferovic teve a inteligência de dar um passo atrás para fazer um passe de primeira; Grimaldo, vindo de trás, apareceu em velocidade e picou a bola à saída de Marchesín. Apesar de ter perdido preponderância na segunda parte, não só porque o FC Porto se habituou um pouco mais à novidade tática de Jesus mas porque o jogo caiu em qualidade e intensidade, o espanhol terminou a partida com três passes para finalização, quatro passes ofensivos importantes e seis recuperações de bola — tudo para além do golo que marcou.

Mas o destaque do Benfica em particular e do jogo no geral não pode ser só Grimaldo. Nuno Tavares, o jovem lateral de 20 anos, atuou numa posição híbrida em que tinha de ser uma espécie de terceiro central quando defendia, deixando o corredor inteiramente entregue a Grimaldo, e desdobrar num defesa ofensivo quando atacava, para cobrir o movimento interior do espanhol. Com um desafio tático e estratégico complicado, Nuno Tavares cumpriu, começou a jogada que deu o golo do Benfica e nunca comprometeu. Mas esta sexta-feira, no Dragão e com o FC Porto, Nuno Tavares poderá ter alcançado algo mais: se Jorge Jesus decidir apostar definitivamente em Grimaldo enquanto médio, a esquerda da defesa fica livre para o jovem lateral. Ou seja, Nuno Tavares poderá ter conquistado esta sexta-feira a titularidade na equipa de Jorge Jesus.