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Jovane, um virtuoso caído do céu para salvar um jogo que já estava desvirtuado (a crónica do Sporting-FC Porto da Taça da Liga)

Jovane saltou do banco para dar emoção e adrenalina a um jogo que já estava desvirtuado no início. Sporting venceu FC Porto com reviravolta carimbada nos descontos e vai à final da Taça da Liga (2-1).

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O jovem avançado chegou aos seis golos esta temporada

EPA

O jovem avançado chegou aos seis golos esta temporada

EPA

Habituámo-nos a ouvir dizer que o futebol estava desvirtuado. Que agora tudo era dissecado em programas onde vários comentadores debatiam durante horas sobre um fora de jogo de centímetros. Que agora os lances eram tão escrutinados que parecia que estávamos a assistir a uma aula de geometria descritiva. Que agora os jogadores já não eram só jogadores e eram opinion makers com direito de antena sobre todos os assuntos. Questionámos tudo, criticámos tudo, colocámos tudo em questão. Mal sabíamos nós o que ainda aí vinha. Mal sabíamos nós o que estávamos a tomar por garantido. Mal sabíamos nós o que era realmente desvirtuar o futebol.

A Covid-19 parou o futebol em março, permitiu que o futebol voltasse no início de junho, está a voltar a ameaçar o futebol a meio de janeiro. Desde o início da época, mais de 100 jogadores da Primeira Liga testaram positivo, sendo que outras dezenas de elementos de equipas técnicas e staffs de apoio também estiveram infetados. Adiaram-se jogos, perderam-se outros pela ausência de titulares, pensou-se sempre que o pior já tinha passado. O pior, se é que já o conhecemos, chegou agora. E era esta terça-feira, no pior dia de uma pandemia que já é indissociável de tudo o que dizemos, de tudo o que conversamos, de tudo o que pensamos, que Sporting e FC Porto se enfrentavam. Um jogo que outrora era sinónimo de picardias saudáveis, de rivalidades naturais, de entusiasmo mútuo. Um entusiasmo reduzido agora a indicadores mínimos e substituído por “falsos positivos” e “atentados à saúde pública”.

Ficha de jogo

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Sporting-FC Porto, 2-1

Meia-final da Taça da Liga

Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

Sporting: Adán, Gonçalo Inácio, Coates, Feddal, Pedro Porro, João Palhinha (Daniel Bragança, 85′), João Mário (Matheus Nunes, 69′), Antunes (Gonzalo Plata, 85′), Pedro Gonçalves, Nuno Santos, Tiago Tomás (Jovane, 78′)

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Suplentes não utilizados: André Paulo, Luís Maximiano, Borja, Eduardo Quaresma

Treinador: Rúben Amorim

FC Porto: Diogo Costa, Diogo Leite, Mbemba, Pepe, João Mário (Fábio Vieira, 90+1′), Zaidu (Manafá, 79′), Grujic, Uribe, Felipe Anderson, Corona (Nanu, 85′), Marega (Toni Martínez, 85′)

Suplentes não utilizados: Marchesín, Sarr, Loum, Romário Baró, Francisco Conceição

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Marega (79′), Jovane (86′ e 90+4′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Grujic (35′), a Pedro Porro (42′), a Feliipe Anderson (43′), a João Palhinha (52′), a Coates (57′), a Antunes (72′), a Fábio Vieira (90+6′)

Nuno Mendes e Sporar testaram positivo para a Covid-19 antes do jogo com o Rio Ave, falharam a receção aos vilacondenses e, escassos dias depois, testaram negativo. João Pedro Araújo, diretor do clínico dos leões, assumiu o erro em conferência de imprensa e garantiu que os dois jogadores estavam assim aptos para defrontar o FC Porto na Taça da Liga, mantendo-se apenas os casos positivo de Luís Neto e Bruno Tabata. Do lado dos dragões — onde Otávio, Sérgio Oliveira, Luis Díaz, Evanilson também estão infetados –, a incredulidade foi imediata. Através de um comunicado, o clube colocou em causa a participação na meia-final da Taça da Liga se o Sporting insistisse na ideia de utilizar Nuno Mendes e Sporar, os dois jogadores que terão tido “falsos positivos”. Os leões responderam com uma acusação de “tacanhez e mesquinhez” por parte dos dragões, o Sp. Braga juntou-se ao coro de críticas e mostrou-se “indignado” com a eventual utilização dos dois jogadores e Rúben Amorim lembrou o caso do Presidente da República, que também testou negativo várias vezes depois de ter um aparente “falso positivo” e não está isolado.

O capítulo seguinte surgiu já esta terça-feira. A cerca de uma hora do apito inicial, surgiu a notícia de que as autoridades de saúde não autorizaram Nuno Mendes e Sporar a participar na partida — já depois de os dois jogadores terem treinado com a restante equipa, de terem sido convocados por Rúben Amorim e de ser quase certo que pelo menos o lateral iria ser titular. Certo é que, e depois de toda a polémica, ambas as equipas entrariam no relvado do Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, para disputar a meia-final da Taça da Liga: algo que ficou claro quando os dragões começaram a partilhar imagens do balneário nas redes sociais do clube. O Sporting sem Neto, Tabata, Mendes e Sporar; o FC Porto sem os quatro infetados e também sem Taremi, que foi expulso contra o Benfica, mas já com Wilson Manafá e Fábio Vieira, ambos recuperados da Covid-19.

Os surtos de Moreirense e Boavista em novembro, o contágio de Benfica e Tondela em janeiro: os casos da Liga desde o início da época

Tudo isto numa meia-final onde Rúben Amorim tentava chegar à final para conquistar o troféu pelo segundo ano consecutivo, depois da vitória com o Sp. Braga em janeiro do ano passado, e ganhar o primeiro título com os leões; e onde Sérgio Conceição tentava marcar presença na final pela terceira época seguida e procurar vencer a competição interna que o FC Porto nunca arrecadou. Uma meia-final em que o Sporting não tinha a experiência de Neto, a juventude de Mendes, o golo de Sporar e a explosão de Tabata, uma meia-final em que o jogo não tinha o perfume de Otávio, a velocidade de Luis Díaz, a garra de Sérgio Oliveira. Uma meia-final que a Covid-19 — e não as horas de programas desportivos, a geometria descritiva ou as opiniões dos jogadores — desvirtuou. A polémica deixou de ser o fora de jogo e o golo anulado e passou a ser o “falso positivo” e a zaragatoa.

Assim, e com as devidas ausências, os leões alinhavam com Gonçalo Inácio no lugar de Neto no trio defensivo, sendo que Feddal estava de volta depois de ter cumprido castigo contra o Rio Ave: Amorim apostava em Inácio depois de ter dado a titularidade a Eduardo Quaresma na última partida. No meio-campo, Antunes era o responsável pelo corredor esquerdo e substituía Nuno Mendes, com Gonzalo Plata — que ocupou esta posição contra os vilacondenses — a sair do onze. Na frente de ataque, sem surpresas, Pedro Gonçalves e Nuno Santos estavam no apoio direto a Tiago Tomás, o homem mais adiantado. Do outro lado, Sérgio Conceição mexia no sistema tático, também para fazer face às baixas que tinha no plantel, e apresentava uma linha de três centrais, com Diogo Leite a fazer companhia a Pepe e Mbemba (algo que já tinha acontecido contra o Manchester City, na Liga dos Campeões). Zaidu tombava no corredor esquerdo, João Mário no lado contrário, Grujic e Uribe atuavam de início na zona do meio-campo e Corona e Felipe Anderson apareciam no apoio mais direto a Marega.

O jogo arrancou encaixado, com poucos espaços disponíveis, mas depressa o FC Porto assumiu a dianteira da partida. Grujic foi o responsável pelas primeiras aproximações à baliza de Adán, com um remate ao lado de fora de área (8′) e um cabeceamento que o espanhol encaixou (11′), e os dragões foram colocando em prática a movimentação que parecia desmontar a organização defensiva do Sporting. Corona, embora descaído na direita, entrava muitas vezes em zonas interiores e beneficiava do espaço que existia entre linhas e da atenção que Marega atraía sempre que alargava a trajetória. Foi assim que o mexicano criou praticamente sozinho uma das melhores ocasiões da primeira parte, ao aparecer no corredor central para fazer um passe de rotura para as costas da defesa leonina, onde Zaidu surgiu em velocidade na esquerda mas viu Marega chegar atrasado ao passe (16′).

O próprio Corona rematou por cima depois de uma nova desmarcação do avançado maliano na profundidade (20′) e, curiosamente, foi a partir desse lance que o Sporting conseguiu sacudir ligeiramente a pressão adversária — beneficiando também da maior precaução a que o FC Porto foi forçado, devido às dificuldades físicas que Zaidu estava a sentir. Os leões atuavam com as linhas mais próximas e recuadas do que o normal e davam prioridade ao corredor direito, onde estavam Pedro Porro e Pedro Gonçalves e de onde saíam tentativas de rotura ou cruzamento que acabavam normalmente sem consequências. A equipa de Rúben Amorim mostrava muitas dificuldades em chegar à área contrária e não conseguia responder à pressão agressiva que os dragões exerciam sobre o portador da bola, asfixiando por completo todas as linhas de passe que poderiam existir.

A primeira vez que os leões desmontaram a equipa do FC Porto apareceu já depois da meia-hora, na sequência de um lançamento de linha lateral na direita em que Pedro Porro virou por completo o jogo com um passe para o lado contrário. Antunes encostou à linha na esquerda e viu Nuno Santos descer no terreno para puxar a movimentação; o ex-Rio Ave solicitou de imediato Pedro Gonçalves, que apareceu no corredor central pela primeira vez na partida, e o avançado português rematou por cima já dentro da grande área depois de Pepe e Diogo Leite não conseguirem travar a transição rápida (34′). O Sporting alavancou nesse primeiro lance uma resposta à entrada mais positiva dos dragões e intensificou a pressão e a luta pelos duelos, com Nuno Santos a ficar na cara de Diogo Costa depois de um passe excecional de Tiago Tomás mas a permitir a defesa do jovem guarda-redes (37′).

Antes do intervalo, Marega teve a melhor oportunidade para abrir o marcador. João Mário apareceu na direita da grande área, tirou Antunes da frente com uma finta e atirou cruzado; Coates, quase em simultâneo com Adán, fez um corte para trás e colocou a bola certinha nos pés de Marega, que estava sem oposição em frente à baliza deserta; o avançado, porém, acertou no poste (41′). Os últimos instantes da primeira parte foram disputados já muito encaixados e com escasso discernimento, com Pedro Porro e Felipe Anderson a verem cartões amarelos consecutivos por faltas duras um sobre o outro — e Sérgio Conceição, devido aos protestos na sequência da falta do argentino sobre o brasileiro, a ver também um cartão amarelo.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Sporting-FC Porto:]

A segunda parte arrancou sem alterações nas duas equipas mas com uma oportunidade: Marega, mais uma vez, descaiu na direita para oferecer linhas de passe a Corona e o mexicano, na zona interior, solicitou o maliano com um passe em profundidade. Marega cruzou atrasado, encontrou Uribe na grande área mas o colombiano rematou por cima (47′). A aceleração inicial, porém, depressa deu lugar ao encaixe que já tinha sido uma constante na primeira parte e que parecia deixar claro que as duas equipas, com sistemas táticos muito semelhantes, se anulavam na maioria das situações.

Confrontados com uma espécie de continuação daquilo que tinha sido a primeira parte — ausência de risco, pouca criatividade e um ritmo moderado –, ambos os treinadores lançaram três jogadores para exercícios de aquecimento. Rúben Amorim mexeu pela primeira vez pouco depois do primeiro remate enquadrado do Sporting, um pontapé rasteiro de Nuno Santos que Diogo Costa encaixou (68′), e trocou João Mário por Matheus Nunes. O lance capital da partida poderia ter aparecido na sequência de uma transição ofensiva rápida do Sporting, depois de Porro lançar Nuno Santos em velocidade e o avançado tirar Diogo Costa da frente já para lá do meio-campo, mas Felipe Anderson culminou uma recuperação defensiva supersónica com um corte limpinho que secou a oportunidade leonina (74′).

Amorim fez a segunda substituição a pouco mais de dez minutos do fim, ao tirar Tiago Tomás por Jovane, e Sérgio Conceição respondeu de imediato com a saída de Zaidu para a entrada de Manafá, que foi para o lado esquerdo da equipa. O desbloqueador do resultado apareceu logo de seguida: Marega recebeu a bola na faixa central, avançou contra tudo e contra todos e chegou à grande área, totalmente rodeado por jogadores adversários, mas conseguiu rematar fraco e enrolado com o pé esquerdo (79′). Adán, que parece não ter visto o pontapé partir, ficou preso ao relvado e viu a bola avançar devagar e aos soluços para dentro da baliza.

O treinador do Sporting reagiu à desvantagem com as entradas de Daniel Bragança e Gonzalo Plata para as saídas de Palhinha e Antunes e Conceição trocou Corona e Marega por Nanu e Toni Martínez. O lance do empate, porém, surgiu inteiramente da cabeça de alguém que já estava dentro de campo: Jovane Cabral. Livre batido na direita do ataque leonino, alívio da defesa do FC Porto para a entrada da grande área e Jovane, do lado esquerdo, tirou da cartola um remate em jeito que bateu no poste mais distante da baliza de Diogo Costa e empatou o resultado (86′). Já nos descontos, Nuno Santos parecia ter desperdiçado a última oportunidade do tempo regulamentar, ao atirar um livre para a bancada, mas faltava o último pontapé de Jovane. O avançado recebeu na esquerda, depois de um transição rápida de Pedro Gonçalves pelo corredor central, e atirou rasteiro para voltar a bater Diogo Costa (90+4′).

O jovem avançado de 22 anos entrou na segunda parte para dar a volta ao resultado e oferecer um boost de adrenalina e emoção a um jogo que estava totalmente desprovido disso mesmo. Jovane, o virtuoso, saltou do banco de suplentes para salvar um jogo que estava desvirtuado desde o início. E o Sporting, depois de não ter vencido nenhum dos adversários diretos na temporada passada, derrotou o FC Porto e está na final da Taça da Liga pela terceira vez em quatro anos.

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