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É conhecido o esforço financeiro que o fundador da Microsoft, Bill Gates, realiza em prol do combate à fome e à falta de medicamentos nas zonas mais pobres do mundo. Este apoio é sobretudo canalizado através da Fundação Bill e Melinda Gates, a sua mulher, organização fundada há 21 anos e considerada a maior fundação privada, com bens próximos dos 47 mil milhões de dólares, quase ¼ do PIB português. Além disso, Gates suporta uma série de projectos ambientais, sendo um dos mais recentes o apoio a startups na área das novas energia e na produção de baterias inovadoras. Daí que tenha causado alguma estranheza o mais recente investimento do bilionário norte-americano, em jactos privados, noticiado pelo Guardian, o que conduziu a acusações de hipocrisia.

Se ninguém coloca em causa a filantropia e a dedicação às causas ambientais do homem por detrás da Microsoft, o facto de a Cascade Investment Fund, que gere a fortuna pessoal de Bill Gates, avaliada em 134 mil milhões de dólares, se ter aliado ao fundo de investimento Blackstone para assumir o controlo sobre a Signature Aviation, o maior operador de jactos privados, fez soar alguns alertas. Sobretudo porque Gates está em vias de lançar o seu próximo livro, “How to Avoid a Climate Disaster: the Solutions We Have and the Breakthroughs We Need”, o que deu azo a algumas críticas e acusações de hipocrisia, uma vez que os jactos privados poluem 40 vezes mais do que os aviões comerciais, por passageiro transportado.

A britânica Singature Aviation gere anualmente 1,6 milhões de voos de pequenos jactos, aparelhos que, de acordo com a US Energy Information Administration, consomem cerca de 800 litros por hora, produzindo 6000 kg de CO2, o que a uma média de sete passageiros, implica emitir 857 kg por passageiro/h. Comparativamente, um avião comercial, um Boeing 737 com 200 passageiros a bordo, consome 2800 litros por hora, libertando 21.500 kg de CO2/h. O que por passageiro/h aponta para uma média de 107 kg de CO2, ou seja, oito vezes menos. A balança entre os dois tipos de avião podem ficar ainda mais desequilibrada caso se considere os pequenos jactos a voar apenas com um ou dois passageiros.

O avião é a forma mais rápida e confortável de percorrer grandes distâncias e a pandemia mais não fez do que disparar o interesse de muitas empresas e empresários em evitar o convívio com potenciais infectados nos aeroportos e dentro do próprio aparelho. Segundo um estudo da Universidade de Lund, na Suécia, Gates figura entre os maiores poluidores devido às suas constantes viagens, tendo realizado 59 voos durante os últimos 12 meses, o que supõe emissões de 1600 toneladas de carbono, muito superior à média de 5 toneladas/pessoa. Bill Gates argumenta que muito do trabalho que realiza para a fundação seria impossível de levar a cabo sem o avião.

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