A Federação Europeia de Editores enviou uma carta ao Governo português na qual alerta para a grave crise que o setor dos livros enfrenta atualmente e pede que a venda destes volte a ser permitida em hipermercados e em livrarias ao postigo. “O Governo está a ameaçar a diversidade cultural do país”, alerta em declarações ao Observador a diretora da Federação Europeia de Editores, Anne Bergmann-Tahon.

A carta, com apenas uma página, foi enviada para todos os ministérios na manhã desta terça-feira. “Portugal está em risco de assistir ao maior declínio de editores e livrarias desde 25 de abril de 1974”, pode ler-se. Os editores lembram ainda que, noutros países, os governos apoiaram os comerciantes desta área. “Infelizmente, o setor do livro português já sofreu um declínio nas vendas de quase 20% em 2020, enquanto os mercados do livro na maioria dos grandes países europeus sofreram diminuições muito menos severas”, acrescenta o texto.

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Ao Observador, Anne Bergmann-Tahon explica que a federação — que representa 29 associações europeias de editores de livros, revistas especializadas e de conteúdos educativos — decidiu escrever a carta depois de tomar conhecimento da “grave” situação do setor em Portugal. As livrarias portuguesas voltaram a encerrar a 15 de janeiro e os hipermercados foram proibidos de vender livros. Até ao momento, o Ministério da Cultura ainda não anunciou medidas específicas para o setor.

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Por isso, a diretora da Federação Europeia de Editores apela ao Executivo para que dê um passo atrás na proibição da venda de livros em hipermercados e que a venda destes artigos em livrarias ao postigo seja permitida durante o confinamento. “É indispensável”, afirma Anne Bergmann-Tahon.

Sabemos que a pandemia em Portugal está numa situação dramática, mas o Governo está a ameaçar a diversidade cultural no país. E com certeza isso não é algo que o Executivo quererá. Tudo o que pedimos é que permitam que as pessoas possam comprar livros nos hipermercados e que a venda de livros seja autorizada em livrarias ao postigo, com todas as precauções necessárias. Deixem os comerciantes vender livros, porque vendas online não são suficientes para o setor português”, apela a responsável em declarações ao Observador.

Anne Bergmann-Tahon lembra que há ainda outras soluções. Devido à pandemia, vários países europeus também encerraram livrarias e espaços que vendem livros, mas ajudaram o setor com apoios financeiros a livrarias, autores e editores, ou com a possibilidade de bibliotecas comprarem livros a comerciantes locais, com dinheiro cedido pelos governos. “É o caso da Itália ou da Bélgica”, relata.

Ouça as declarações de Anne Bergmann-Tahon ao Observador no jornal das 20h:

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Mas a carta da Federação Europeia de Editores vai mesmo mais longe e acusa Portugal de não estar a dar um bom exemplo à Europa e ao mundo, numa altura em que está à frente da presidência do Conselho Europeu da União Europeia.

Pensamos que Portugal podia estar a dar um exemplo melhor. Estamos num momento crucial para o setor dos livros. Estando à frente da presidência do Conselho da União Europeia, os olhos de todos os países estão fixados nas ações de Portugal”, explica a diretora da entidade.

“Este apoio do Governo português para o setor dos livros de forma a garantir a diversidade cultural é importante para Portugal e toda a Europa”, reforça Anne Bergmann-Tahon .

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Até ao momento, e de acordo com a diretora da Federação, o Governo ainda não respondeu ao apelo. O Observador contactou o Ministério da Cultura para uma reação, mas também não obteve qualquer resposta.

A tutela de Graça Fonseca vai reunir esta quarta-feira com associações e entidades do setor dos livros para ouvir todas as questões e propostas relacionadas com a área.