Foi mais uma audiência história do Congresso dos EUA, que pôs em xeque os líderes de três grandes empresas tecnológicas. Mark Zuckerberg, fundador e líder do Facebook, Jack Dorsey, presidente executivo e fundador do Twitter, e Sundar Pichai, presidente executivo da Google, foram questionados durante mais de cinco horas e meia sobre a desinformação online e o alegado papel indireto que podem ter tido na invasão do Capitólio, a 6 de janeiro.

Dorsey assume ter tido “responsabilidade final” na suspensão de Trump. Líderes do Facebook, Google e Twitter ouvidos no Congresso

Na audiência “Nação da desinformação: o papel dos media sociais na promoção do extremismo e da desinformação”, Zuckerberg, Dorsey e Pichai foram acusados de promover a desinformação que está a dividir os EUA (e o mundo). Dos representantes democratas aos republicanos do Comité da Energia e Comércio, que promoveu esta reunião, houve pedidos de respostas curtas — a frase “basta dizerem sim ou não” foi repetida constantemente.

No final, mesmo com poucas respostas diretas dos líderes, uma coisa é certa: os políticos e os líderes tecnológicos querem e vão ter regras mais claras para as redes sociais. Isto vai começar por uma mudança da secção 230, a norma que permite às redes sociais não serem responsabilizadas por tudo o que os utilizadores fazem nelas. “A autorregulação chegou ao fim”, concluíram vários representantes políticos dos EUA.

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O que é a secção 230?

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A secção 230 é uma norma do Communications Decency Act [em português, “regulamento para a decência nas comunicações”] que diz que qualquer “serviço de informática interativo” não pode ser tratado como um meio de comunicação com carácter editorial, como são os jornais. Sob este princípio, nos EUA, as redes sociais e sites não podem ser punidos por aquilo que os utilizadores põem nestes. Devem, contudo, evitar que conteúdos ilegais sejam publicados. Joe Biden, o atual Presidente dos EUA, tem afirmado que quer revogar completamente esta norma. Este é um tema que já vem desde 2020, ainda durante a presidência de Donald Trump, e que tem dado dores de cabeça às redes sociais.

Mark Zuckerberg, Facebook. “Erramos e vamos errar” e “as pessoas mentem”

Mark Zuckerberg foi o primeiro a falar

Mark Zuckerberg foi o que teve de responder a mais perguntas dos congressistas. O líder do Facebook, que desde 2018 é questionado pelo Congresso dos EUA, ouviu críticas fortes: “O Facebook mostra amigos e vizinhos, mas isso está mesmo ao lado de vídeos e conteúdos de extremistas”, como disse inicialmente o congressista Frank Pallone, Jr., presidente do comité.

Quanto ao ataque ao Capitólio, que foi o principal incentivo para convocar esta audiência, Zuckerberg foi direto: “A desinformação não é um problema novo”, disse. E adiantou: “O ataque ao Capitólio foi um ultraje. Acredito que o antigo Presidente deve ser culpabilizado”. E defendeu-se: “Posso dizer o que temos feito: trabalhámos com as autoridades para ajudar previamente”. “Quando vimos que o antigo Presidente incentivou à violência, banimo-lo”, continuou.

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Antes da audição, Zuckerberg, à semelhança de Dorsey e de Pichai, revelou o testemunho que iria ler na parte inicial. Dos três testemunhos, o do líder do Facebook foi o mais extenso e deixava um pedido concreto: “Não se deve acabar com a seção 230, mas alterá-la“. “Acho que as plataformas têm de publicar relatórios de transparência que mostram as categorias de todos os parâmetros (…) Algo como o modelo que o Facebook tem feito em todos os trimestres para identificar os problemas”, referiu esta quinta-feira.

Sobre a desinformação que tem levado ao surgimento de grupos extremistas que o Facebook não bane, Zuckerberg foi evasivo nas respostas. Atitude semelhante à que teve quando foi questionado sobre o aumento do suicídio adolescente, que poderá estar correlacionado com a existência do Instagram e do Facebook. “Os estudos não têm respostas concretas”, referiu quanto ao aumento do suicídio adolescente nos EUA.

A congressista Cathy McMorris Rodgers fez uma das questão muito direta a Zuckerberg. “Deixaria as suas filhas utilizarem as suas plataformas?”. Zuckerberg respondeu: “As minhas filhas têm três e cinco anos, não utilizam as nossas plataformas. Deixe-me clarificar, deixo às vezes a mais nova usar o Messenger Kids para falar com os primos”. E cingiu os seus comentários a um problema que crê não poder ser resolvido. “A realidade é que qualquer sistema [automático] vai fazer erros”, alegou. Além disso, o responsável do Facebook justificou que esse é o problema que qualquer alteração à secção 230 não poderá resolver.“Permitem que pessoas com menos de 13 anos tenham contas?”, perguntou o congressista Billy Long. Zuckerberg respondeu: “As pessoas mentem”.

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Jack Dorsey, Twitter. “Se começarmos a moderar tudo vamos ter um serviço utilizado por pouca gente. Depois, não temos publicidade”

Jack Dorsey estava, ao que parece, sentado na sua cozinha durante a audição

Dos três líderes tecnológicos, Jack Dorsey, fundador e presidente executivo do Twitter, foi o mais excêntrico. E não foi só por estar a fazer a sessão sentado, ao que parece, na sua cozinha (a sessão decorreu por videoconferência devido à pandemia de Covid-19). O primeiro comentário foi feito logo sem hesitações. “Se começarmos a moderar tudo vamos ter um serviço utilizado por pouca gente. Depois, não temos publicidade” referiu, defendendo que, no final do dia, está a gerir um negócio.

Este não foi o único momento mais insólito de Dorsey. Na sequência de os congressistas exigirem perguntas de “sim ou não” , por só terem cinco minutos para perguntas, Jack Dorsey fez uma piada sobre isso no Twitter. Sim, durante a audição do Congresso publicou um questionário só a dizer “sim” ou “não”. Frustrada, uma congressista perguntou: “Quem é que está a ganhar na sondagem que ainda agora publicou?”. “O sim”, disse entre um sorriso.

Mesmo assim, este não foi o momento mais marcante de Dorsey na tarde desta quinta-feira Afinal, a rede social que lidera era a principal plataforma de comunicação do ex-presidente Donald Trump, tendo sido através desta que o antigo líder dos EUA fez os comentários polémicos que incentivaram os protestantes a invadirem o Capitólio a 6 de janeiro. Sobre isso, Dorsey assumiu que o Twitter teve um papel quanto a esse incidente e assumiu ter tido a “responsabilidade final” quanto à suspensão de Donald Trump da plataforma.

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Este é um problema para o futuro de Jack Dorsey. “Porque é que o regime comunista chinês e o líder do Irão podem continuar a utilizar a vossa rede social [e Trump não]?”, perguntou o congressista Greg Pence. “Estamos a rever a nossa política quanto a líderes mundiais”, assumiu Dorsey.

De resto, Dorsey tentou sempre ser telegráfico nas respostas, respondendo sim ou não quando lhe foi pedido. Mas defendeu-se também. A certo momento, Doris Matsui, congressista democrata, fez questões sobre o escalar de violência a pessoas de ascendência asiática nos EUA. “Não se está a fazer o suficiente”, afirmou. A política afirmou que o hashtag criado por Donald Trump sobre a Covid-19, “#chinavirus”, está a ter resultados prejudiciais. “Porque é que não o baniram?”, perguntou ao líder do Twitter. Dorsey disse sem hesitar: “Convém referir que este hashtag também tem é usado para contra-atacar [quem faz ataques racistas]”. No final, assumiu sempre, à semelhança de Zuckerberg: “Vamos fazer erros”.

Sundar Pichai, Google. “Não temos um centro de inteligência artificial na China” e “sentimos que há muita concorrência, a Amazon”

Sundar Pichai foi, dos três líderes tecnológicos, o que teve menos momentos tensos quanto às questões colocadas pelos congressistas

Dos três líderes tecnológicos questionados, Pichai foi um mais discretos. Para isto ajuda o facto de, dos três, Pichai ser o único que não é fundador da empresa que lidera. O presidente executivo da Alphabet Inc. e da Google (a primeira é a empresa-mãe da Google), só entrou nesta empresa em 2004. Larry Page e Sergey Brin, que fundaram a tecnológica, continuam a ser os principais acionistas e têm conseguido, através de Pichai, manter-se de fora de polémicas. Mesmo assim, este líder também teve de responder a perguntas difíceis.

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A principal questão que levou Pichai a dar uma resposta mais explicativa foi: “A Google tem concorrentes?”. O executivo respondeu: “Há muitas áreas nas quais estamos a entrar no mercado, como nos smartphones”, respondeu Sundar Pichai. “E sentimos que há muita concorrência, as pesquisas pela Amazon são cada vez são maiores. Vejo um setor vibrante de tecnologia”, continuou.

O líder tecnológico foi o único que assumiu ter visto o documentário “Social Dilema”. Isto foi em resposta a uma pergunta feita por uma congressista sobre o polémico documentário no qual antigos funcionários destas empresas dizem ter estado envolvido na criação de ferramentas imorais. Tirando isso, as respostas de Pichai foram mais longas apenas quando um dos congressistas acusou a Google de ter três centros de inteligência artificial na China. Isto foi algo com o qual Pichai não concordou, dizendo: “Não temos um centro de inteligência artificial na China”. Assumiu, no entanto, que a empresa está a reduzir a presença na China, não oferecendo no país os seus serviços bases “ao contrário dos colegas [Facebook e Twitter]”.

Lori Trahan, uma congressista do Massachusetts, foi outra das políticas que pôs Sundar Pichai mais em cheque. Trahan perguntou porque é que a app do YouTube Kids tem a função de “automatic play“, que põe a dar automaticamente um vídeo após o fim de outro Pichai tentou defender-se: “Tenho também filhos, compreendo”. Contudo, reconheceu que esse é um mecanismo que existe — “viciante”, como disse Trahan –, apesar de terem controlos parentais na plataforma para o contornar.

Outro dos congressistas perguntou diretamente a Sundar Pichai: “O YouTube promoveu vídeos a incentivar ao ataque a Capitólio?”. O presidente executivo da Google não respondeu, dizendo apenas que a empresa “tem feito um trabalho para remover vídeos relacionados”, depois de já ter referido que a Google tem trabalhado sempre com as autoridades.

A reunião acabou cinco horas e 32 minutos depois de ter começado. Ficou adiada, ainda sem nova data, para o Comité discutir como pode resolver o problema da desinformação nos EUA. Revogando ou alterando-se a secção 230, uma coisa parece certa: as redes sociais vão ter mais regulação.