Uma investigação de quase cinco meses determinou que Andrew Cuomo, atual governador de Nova Iorque, assediou sexualmente várias mulheres, incluindo atuais e ex-funcionárias. As conclusões, citadas pela Associated Press, foram comunicadas esta terça-feira pela procuradora-geral do estado de Nova Iorque, Letitia James, em conferência de imprensa.

Joe Biden concorda que o governador de Nova Iorque deve demitir-se e a ideia é defendida por vários outros democratas, incluindo os senadores Chuck Schumer e Kirsten Gillibrand e os congressistas Hakeem Jeffries e Mondaire Jones. O presidente da Assembleia de Nova Iorque, Carl E. Heastie, disse que o governador tinha perdido o apoio da maioria da Assembleia, ocupada pelos Democratas, e não poderia continuar no cargo.

A investigação, que foi conduzida por dois advogados externos contratados por Letitia James e incluiu entrevistas a 179 pessoas (incluindo queixosas, atuais e ex-funcionários e até membros da polícia), descreve a administração de Cuomo como um “ambiente de trabalho hostil”, marcado pelo “medo e intimidação”. De acordo com Letitia James, as várias entrevistas permitiram deduzir “um quadro profundamente perturbador, mas claro”: “O governador Cuomo assediou sexualmente funcionários e ex-funcionários do estado”. Numa ocasião em particular, Andrew Cuomo e membros staff tentaram retaliar contra uma ex-funcionária que o acusou de conduta inapropriada. O governador, segundo a investigação, também assediou pessoas fora da esfera governamental.

Andrew Cuomo. Governador de Nova Iorque volta a ser acusado de assédio sexual

No último inverno, Cuomo enfrentou mais do que uma acusação de assédio. Em fevereiro, num longo artigo publicado no The New York Times, a ex-assessora Charlotte Bennett, de 25 anos, contou como este lhe fez perguntas sobre a sua vida sexual, se ela era monógama nas relações e se alguma vez tinha tido sexo com um homem mais velho. Antes dela também a ex-assessora Lindsey Boylan acusou o governador de a ter beijado nos lábios e de lhe ter pedido que jogasse “strip poker” quando ambos se encontravam num jato privado. Entre outras acusações, Boylan alegou que Cuomo lhe tocava sem consentimento e, por diversas vezes, fez comentários inapropriados sobre a sua aparência — as acusações têm em conta o período entre 2016 e 2018.

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À data, Cuomo pediu às autoridades judiciais estaduais que nomeassem um advogado independente para investigar as alegações de que terá assediado sexualmente as duas mulheres que trabalharam para ele. Agora, Joon Kim, um dos advogados que liderou a investigação, diz que algumas mulheres sofreram toques indesejados nas “partes mais íntimas do corpo”, enquanto outras ouviram repetidos comentários ofensivos, “sexualmente sugestivos ou baseados em género”. “Nenhuma delas gostou. E todas acharam isto perturbador, humilhante, desconfortável e inapropriado.”

A AP recorda que Cuomo sempre negou ter tocado em alguém de forma inapropriada. No entanto, os argumentos de defesa mudaram: se inicialmente disse lamentar o facto de o seu comportamento com as mulheres ser “mal interpretado”, em meses mais recentes alega não ter feito nada de errado e questiona os motivos de quem lhe aponta o dedo — questionou inclusive a neutralidade dos advogados que lideraram a investigação em causa.

O relatório da procuradora-geral poderá desempenhar um papel importante tendo em conta um investigação em curso na Assembleia estadual sobre se existem ou não motivos para o impeachment de Andrew Cuomo.

Cuomo nega alegações de assédio sexual

Depois da conferência de imprensa que deu a conhecer a investigação independente que expõe o alegado comportamento inapropriado do governador de Nova Iorque, Cuomo levou a questão para as redes sociais e, num vídeo de 14 minutos publicado no Twitter, nega as acusações de que é alvo. “Quero que saibam diretamente por mim que nunca toquei em ninguém de forma inapropriada ou fiz avanços sexuais inapropriados”, diz, afirmando que este é um período “difícil e doloroso” para ele e para a família.

“Os fatos são muito diferentes do que foi retratado”, assegura na resposta preparada, acusando “outros” de terem fornecido “histórias horríveis à imprensa”. Andrew Cuomo afirma ainda que o advogado preparou um documento público que responde a todas as 11 mulheres cujas acusações foram investigadas pelo gabinete da procuradora-geral do estado de Nova Iorque.

Joe Biden pede demissão de governador de Nova Iorque e democratas estão prontos para impeachment

No rescaldo da investigação independente — um documento com mais de 165 páginas —, o presidente dos Estados Unidos da América pediu a demissão de Andrew Cuomo. Quando questionado na Casa Branca se o governador de Nova Iorque deveria deixar o cargo na sequência do escândalo, Joe Biden disse, sem rodeios, “sim”.

Biden, um amigo de longa data de Cuomo, evitou falar sobre as acusações de assédio sexual quando estas surgiram e começaram a fazer manchetes, mas em março assegurou que o governador deveria renunciar ao cargo caso a investigação comprovasse as alegações de conduta inapropriada. Citado pelo The New York Times, Biden reiterou a mensagem do passado: “O que disse foi que, se a investigação da procuradora-geral concluísse que as alegações estavam corretas, em março, eu recomendaria que ele renunciasse ao cargo”, afirmou. “É isso o que vou fazer hoje.”

Os membros da Assembleia de Nova Iorque pertencentes ao Partido Democrata reuniram de emergência, esta terça-feira, depois de conhecido o relatório e retiraram o apoio político ao governador.

“É muito claro para mim que o governador perdeu a confiança da maioria democrata da Assembleia e que não pode permanecer no cargo”, disse Carl E. Heastie, presidente da Asembleia de Nova Iorque, citado pelo The New York Times. “Agiremos com rapidez e procuraremos concluir nossa investigação de impeachment o mais rapidamente possível”.

Tão rápido quanto possível pode, ainda assim, significar mais um mês para concluir o inquérito e que o julgamento no senado do estado só começará perto do final de setembro, segundo o jornal. Fontes próximas do processo terão referido que os democratas estão prontos para avançar com o processo de impeachment (impugnação).

Atualizado às 8h50 de dia 4 de agosto