As altas temperaturas que se fizeram sentir em alguns países da Europa do sul e sudeste durante o mês de julho não dão sinais de tréguas. Uma onda de calor atinge agora a Grécia, Itália, Turquia e vários países nos Balcãs. Gregos e turcos, fustigadas por fogos, bateram mesmo recordes das temperaturas mais altas no início da semana — entre 44 e 47 ºC, na terça-feira — e a situação pode continuar a agravar-se ao longo da semana, destaca o site Severe Weather Europe.

Incêndio em Atenas. Seis residentes e um bombeiro hospitalizados devido à inalação de fumo

Estes dois países deverão entrar na próxima semana ainda com as temperaturas 10ºC acima da média para esta altura do ano. A onda de calor vai manter-se durante o mês de agosto na região mediterrânica, alimentada pelas correntes do norte de África, atingindo sobretudo o sudeste da Europa até à Turquia.

Cada onda de calor que agora acontece torna-se mais provável e mais intensa devido às mudanças climáticas”, disse Friederike Otto, diretora associada do Instituto de Mudança Ambiental da Universidade de Oxford e um dos autores do relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPP), que deverá divulgar um novo relatório no dia 9 de agosto.

O sudeste de Espanha e França também podem sentir alguns os efeitos desta vaga de calor, mas o principal fenómeno a atingir a Europa ocidental e central, incluindo Portugal, é um outro bem diferente e bem mais fresco: uma depressão vinda de norte, refere o site Severe Weather Europe. Assim, serão vários os países da Europa que vão ter um mês de agosto com as temperaturas abaixo da média dos últimos 20 anos, enquanto na Grécia e nos Balcãs se vive como num forno.

A depressão vinda de norte e a massa de ar quente vinda de sul e a influência em diferentes regiões da Europa — Pivotal Weather

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Em Portugal, a primeira semana de agosto terá temperaturas entre 1 e 6ºC abaixo do normal em praticamente todo o país, especialmente no interior, conforme indicação d o Centro Europeu de Previsão a Médio Prazo (ECMWF), divulgada pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). As temperaturas vão manter-se abaixo da média dos últimos 20 anos durante todo o mês (previsão de 2 a 29 de agosto), sobretudo no litoral centro e sul e, de forma menos pronunciada, no interior sul. Já em relação à precipitação, o mais provável é que haja mais chuva na primeira semana e menos na segunda do que a média para esta altura do ano.

Temperaturas voltam a descer, no entanto estão 11 concelhos com risco máximo de incêndios

Para Espanha, as previsões do ECMWF, divulgadas pela Agência Estatal de Meteorologia (Aemet), não são muito distintas de Portugal: nesta primeira semana haverá chuva em algumas regiões e temperaturas abaixo da média, sobretudo a norte. Até dia 22 de agosto, data limite do documento espanhol, as temperaturas vão aumentar no interior da península ibérica, mas a sul e no sudeste interior.

Temperaturas altas na Europa explicadas por uma cúpula de calor

O calor que se faz sentir na Grécia, Balcãs e Turquia deve-se a uma cúpula de calor, um fenómeno meteorológico semelhante ao que aconteceu no Canadá e Estados Unidos no final de junho e início de julho e que foi responsável pela morte de centena de pessoas e também vários incêndios. Este fenómeno ocorre quando uma massa de ar de elevada pressão fica parada sobre uma região do planeta durante vários dias ou semanas: o ar quente sobe pelo exterior e é pressionado novamente para baixo ao centro, à medida que aumenta ainda mais a temperatura atmosférica.

“Cúpula de calor” está a causar centenas de mortos, temperaturas até 50ºC e incêndios no Canadá. Que fenómeno é este?

O resultado são massas de ar extremamente quentes e secas e muito propícias à formação de grandes incêndios, como assistimos do outro lado do Atlântico e agora estamos também a ver no sul da Europa. Para agravar a situação dos fogos atuais, prevê-se um aumento dos ventos na região e não há previsão da ocorrência de chuvas, pelo menos, até meados de agosto. Ou seja, o calor de junho já tinha deixado “pasto seco” e agora o calor associado ao vento será uma faísca (ao contrário do que aconteceu em Portugal que teve um ano fresco e húmido e está a ter um verão também pouco quente).

No final da semana, quando os ventos normais de agosto voltarem, o risco de incêndios será ainda maior”, disse Christos Zerefos, professor de Física Atmosférica, citado pelo Politico. “Tudo estará seco e pronto para arder.”

O ano de 2021 têm sido marcado por fenómenos extremos de calor, cheias e outros desastres naturais (as cheias na China estão também a causar centenas de mortes), não só nos países tropicais e de baixo rendimento, mas também nos países mais ricos do hemisfério norte. O relatório do IPCC, a divulgar na próxima segunda-feira, vai reforçar a mensagem de que as alterações climáticas estão a tornar estes eventos piores e mais frequentes, segundo avançou o Politico.

Incêndios devastadores e cheias mortais são dois extremos de um mesmo problema