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Nos últimos anos, verifica-se que apenas menos de metade dos novos profissionais que se inscreveram na Ordem dos Médicos, ingressam no Serviço Nacional de Saúde. O número é conhecido numa altura em que a negociação do Orçamento do Estado é também marcada por exigências de mais condições para fixar os profissionais no SNS, tornando as carreiras mais atrativas.

As contas são do Correio da Manhã, que esta sexta-feira adianta que, se nos últimos seis anos o número de médicos inscritos na Ordem aumentou em 8824, nesses mesmos anos o aumento no SNS foi de apenas 4231, menos de metade. Entre 2019 e 2020 registou-se uma diferença ainda maior, com 1776 novos médicos, mas apenas 521 a ingressarem no Serviço Nacional de Saúde.

O Observador já tinha noticiado, na quarta-feira, que em várias especialidades se parte dos especialistas que estão no privado aceitassem exercer nos hospitais públicos, algumas das falhas de recursos humanos ficariam resolvidas. Os exemplos? Quase 60% dos radiologistas inscritos na Ordem dos Médicos estão a exercer no privado. Mais de metade dos ginecologistas/obstetras e dos dermatovenereologistas também. Por outro lado, também um terço dos médicos de família que exercem no privado resolviam a carência do público.

Em algumas especialidades, mais de metade dos médicos trabalha no privado. Em radiologia, são quase 60%

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Ainda segundo o mesmo jornal, se a média anual de ingresso na Ordem é de 1764 profissionais, no SNS o número desce para metade — são 846 por ano. Além disso, e como os partidos têm apontado, a meio do ano o número vai caindo, dado que no saldo líquido é preciso ter em conta quem sai do SNS, incluindo as reformas de uma classe que está envelhecida (no fim do ano passado, mais de um quinto dos médicos tinha mais de 65 anos).

Esta é uma das questões centrais na negociação do Orçamento do Estado, que atravessa um impasse, depois de tanto Bloco de Esquerda como PCP terem admitido votar contra o documento já na primeira votação, marcada para 27 de outubro. Os partidos de esquerda colocam no centro das suas exigências o SNS e rejeitam que seja suficiente prometer aumentos no investimento e até nas contratações: será preciso, defendem tanto BE como PCP, tornar as carreiras mais atrativas, com melhores salários e condições, para garantir que é possível segurar profissionais no SNS e evitar que “fujam” para o privado.

Até agora, o Executivo incluiu na proposta de Orçamento uma referência ao arranque do regime de “dedicação plena” dos profissionais ao SNS, mas sem mais detalhes, até porque esses são empurrados para a criação de um novo estatuto do SNS a aprovar entretanto.