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Lilia Moritz Schwarcz, autora de Sobre o Autoritarismo Brasileiro, defendeu este sábado em Óbidos, onde decorre o festival literário FOLIO, que a eleição de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018 não criou nenhum dos problemas existentes no Brasil. Pelo contrário, o atual Presidente brasileiro é “um sintoma e um resultado” de problemas anteriores.

Publicado em 2019, no rescaldo das eleições de 2018, Sobre o Autoritarismo Brasileiro explora temas determinantes e flagrantes na história do Brasil: o racismo, a desigualdade social, a corrupção, a violência, a escravatura e a intolerância, elementos que a historiadora e antropóloga considera não fazerem parte do “ADN dos brasileiros”. “Não acho que existe um determinismo histórico. [Os brasileiros] já tiveram muito tempo para lidar com esses elementos e precisam de ir para a frente”, defendeu, durante uma conversa com Isabel Lucas, autora de Viagem ao País do Futuro, na Livraria do Mercado.

Quando começou Lilia Moritz Schwarcz começou a escrever Sobre o Autoritarismo Brasileiro, o Brasil era o 10.º país mais desigual do mundo. Quando o terminou, era o 8.º. “Escrevi antes da Covid. O Brasil vai sair da Covid mais pobre e mais desigual”, afirmou, defendendo que a doença não se espalha de maneira igual em todos os setores da sociedade brasileira. “A Covid tem endereço, número de telefone e cor. Quem está mais a morrer são as populações negras das periferias. Elas não são vulneráveis fisicamente, são vulneráveis socialmente.”

A conversa entre as duas autoras foi moderada por Helena Ales Pereira, da Penguin Random House Portugal

Referindo-se ao governo de Jair Bolsonado, que tem promovido um retrocesso das políticas sociais e não só no país, a historiadora lembrou que o Brasil não é o único afetado por “essa onda retrógrada”. “Essa onda retrógrada, que vem desde a recessão de 2016, desaguou em países como Hungria, Polónia, Estados Unidos e Brasil. Isso foi um susto no Brasil porque Jair Bolsonaro não era uma personagem nova, já atuava há 27 anos como deputado federal. Durante esse tempo, não organizou uma equipa e apenas compôs uma emenda para os militares”, disse.

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“Esses políticos se apresentaram como antissistema, mas eles eram do sistema. No Brasil, Jair Bolsonaro e também os seus filhos [ocupavam cargos públicos]. [A eleição de 2018] foi a vitória de um grupo que já estava no sistema”, declarou, acrescentando que em Sobre o Autoritarismo Brasileiro só cita o nome do atual presidente brasileiro uma vez. “Porque acho que ele não é a causa de nada. Acho que é um sintoma e um resultado. É isso que vamos ter de entender. Esse é o desafio”, defendeu a historiadora e antropóloga.

Há “um Brasil que pulsa além do saque. Que pulsa além desse regime retrógrado”

Isabel Lucas, que aborda no seu livro Viagem ao País do Futuro a literatura e cultura brasileiras, disse ser da opinião que existe no Brasil uma “língua comum”, mas “maneiras diferentes de olhar o território consoante o território que se habita” e que “há uma parte do Brasil que se apropria da grande parte do Brasil para o extorquir”. “Há uma falta de amor de preservar aquele território comum”, declarou. Lilia Moritz Schwarcz mostrou-se mais otimista, defendendo que existe “uma luta de narrativas e um Brasil que pulsa além do saque. Que pulsa além desse regime retrógrado. Termino o livro com Guimarães Rosa. A vida esquenta, esfria, mas o que a vida pede de nós é coragem. Os brasileiros estão a precisar de muita coragem”.

Isabel Lucas publicou este ano Viagem ao País do Futuro, uma “viagem” à literatura e cultura brasileiras

Prova de que o Brasil “pulsa” é a reação que tem surgido às políticas do governo de Bolsonaro, nomeadamente em relação ao ambiente. Lembrando que o problema não é só a Amazónia e que as “áreas do Brasil central” também “estão ardendo, Lilia Moritz Schwarcz considerou que “esse governo só faz um bem: tem revoltado muito as pessoas em relação ao que não entrega. A questão do meio ambiente tem criado muita revolta. Claro que existem as elites que têm todo o interesse em destruir, mas acredito muito na sociedade civil brasileira e acho que está mostrando que existe vigilância” da parte dos cidadãos.

Questionada pela moderadora Helena Ales Pereira, da Penguin Random House, grupo editorial que publicou em Portugal os livros das duas autoras, sobre a questão do racismo, a autora de Sobre o Autoritarismo Brasileiro defendeu que é “uma questão urgente”, lembrando que o Brasil foi “último país a abolir a escravidão mercantil, porque ainda existem outros tipos de escravidão”. “A branquitude é norma e tudo o que é norma não precisa ser nomeado. Isso cria um conforto ontológico”, disse. Para a historiadora, “a questão racial tem de ter o protagonismo dos grupos negros, mas os brancos têm de assumir que é uma questão de todos. Não teremos uma democracia no Brasil enquanto formos racistas. Não é preciso dizer que não é se é racista, mas que se é antirracista”, defendeu.

O Observador viajou até Óbidos ao convite do FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos