Bênçãos, uma multidão, um braço que aparentava alguma rigidez, um encontro de 10 minutos com o vice-presidente dos EUA e um mal-estar quase repentino marcaram as últimas 24 horas do Papa Francisco. A difícil recuperação que tinha pela frente depois de resistir a uma bronquite (e mais tarde a uma “infeção polimicrobiana das vias respiratórias”) não o afastou muito tempo do espaço público.
Desde que teve alta, a 23 de março, o líder da Igreja Católica fez apareceu várias vezes em público, incluindo nas celebrações da Semana Santa e da Páscoa. E este domingo, 20 de abril não foi exceção: a agenda (pública) foi cheia. Ao início da manhã, muito debilitado e apenas por breves instantes, o Papa Francisco apareceu aos mais de 35 mil fiéis que estavam reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, para celebrar o Domingo de Páscoa.
▲ Para Francisco na missa de domingo
SOPA Images/LightRocket via Getty
Foi-lhe prescrito pelos médicos repouso com ventilação assistida, tendo sido até aconselhado isolamento, mas o Papa Francisco não quis seguir estas indicações. A missa de Domingo de Páscoa começou pelas 9h30 (hora de Lisboa) e a homilia, tal como já tinha acontecido em momentos anteriores, não foi lida por Francisco, mas sim por um cardeal escolhido pelo próprio, neste caso o italiano Angelo Comastri. No entanto, o texto foi escrito pelo líder máximo dos católicos. No final, o cardeal Comastri acrescentou um agradecimento a Francisco “pelo forte convite a despertar a fé em Jesus ressuscitado e vivo” e por estar “sempre presente”. “Obrigado, Papa Francisco e Feliz Páscoa”, terminou.
Morreu Francisco, o Papa que queria uma Igreja para “todos, todos, todos”
O momento mais marcante da celebração foi mesmo quando Francisco surgiu, no momento da leitura da mensagem “Urbi et Orbi”, uma bênção concedida em momentos especiais — como a Páscoa — dirigida à cidade de Roma e ao mundo. “Queridos irmãos e irmãs, Feliz Páscoa”, aproveitou para dizer ao microfone neste momento, levando a multidão a reagir efusivamente.
Surgiu sem tubos de oxigénio no nariz (ao contrário do que acontecera na celebração do Domingo de Ramos), alimentando a ideia de que estaria melhor. Mas, ainda assim, incumbiu o mestre das cerimónias litúrgicas, o arcebispo Diego Ravelli, de ler a sua mensagem. Era focada na necessidade de promover a paz e o desenvolvimento, apelando a um desarmamento por parte dos diferentes países e estendendo votos de paz ao Oriente Médio, aos povos africanos vítimas de violências (como a República Democrática do Congo, o Sudão e o Sudão do Sul) e a Myanmar, na Ásia.
Feliz #Páscoa!#PapaFrancisco pic.twitter.com/rgdwnUWCso
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“A luz da Páscoa convida-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e estão carregadas de consequências políticas e económicas… Quanto desprezo é incitado, às vezes, em relação aos vulneráveis, marginalizados e migrantes”, lia-se na mensagem do Papa. “Neste dia gostaria que todos nós voltássemos a ter esperança e confiança nos outros, incluindo naqueles que são diferentes de nós, ou que vêm de terras distantes, trazendo costumes, modos de vida e ideias diferentes — todos nós somos filhos de Deus.”
Sublinhando depois que “a nossa existência não foi feita para a morte, mas para a vida” e que “a Páscoa é a festa da vida”, o Papa Francisco apelou depois ao desarmamento, pedindo aos líderes políticos que não cedam à lógica do medo. “Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento. A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento”, escreveu.
E pediu que os recursos disponíveis sejam usados para ajudar quem mais necessita, para combater a fome e promover iniciativas que promovam o desenvolvimento: “Estas são as ‘armas’ da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte.”
Enquanto o Papa Francisco estava na Praça de São Pedro, alguns dos presentes notaram, no entanto, que algo não estava bem, escreveu o italiano Corriere della Sera. Segundo algumas pessoas, era visível que existia alguma rigidez num dos braços do líder católico, estando atrás do Papa uma pessoa responsável por lhe massajar o braço. Houve ainda quem apontasse que Francisco aparentava estar a respirar com mais dificuldade.
Um Papa no meio de uma multidão
Depois deste momento, e à semelhança do que acontecia quando o Papa ainda se encontrava de boa saúde, Francisco subiu para o seu veículo. O papamóvel deslocou-se então pela Praça de São Pedro, pelo meio da vasta multidão.
Segundo o seu enfermeiro pessoal, o Papa perguntou-lhe, antes da viagem: “Acha que consigo?” Massimiliano Strappetti acedeu e no fim, Francisco agradeceu-lhe: “Obrigado por me ter levado de volta à Praça.”
Passando entre os milhares de narcisos e túlipas que decoravam a praça principal do Vaticano, o líder dos católicos aproveitou para abençoar crianças e bebés e para cumprimentar alguns dos fiéis. Enquanto passava ouviam-se gritos como “Viva o Papa”.
“A #Páscoa é a festa da vida!”#PapaFrancisco pic.twitter.com/Y1Hfighknp
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Dez minutos com JD Vance e três ovos da Páscoa
Depois de uma longa e intensa manhã, na agenda de Francisco houve ainda espaço para, pelas 10h30 (hora de Lisboa), se reunir com o vice-presidente dos EUA na Casa Santa Marta, a sua residência oficial, localizada mesmo ao lado da Basílica de São Pedro.
No momento em que se encontraram, o norte-americano aproveitou para dizer ao Papa Francisco que era “bom vê-lo”. “Rezo por si todos os dias. Deus o abençoe. Sei que não se tem sentido bem, mas é bom vê-lo de melhor saúde”, disse.
▲ JD Vance no encontro com Francisco
Neste “cordial encontro” — conforme é descrito no comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé — foi expressa a satisfação pelas boas relações bilaterais que existem entre a Santa Sé e os Estados Unidos, lê-se no jornal oficial do Vaticano, Vatican News. Nos vídeos divulgados não há qualquer referência aos temas debatidos nesta reunião, mas segundo o jornal católico, houve também uma troca de opiniões acerca da situação internacional, em particular no que diz respeito aos países que estão em guerra, onde existem situações humanitárias difíceis e elevadas tensões políticas.
No curto encontro de cerca de 10 minutos houve também tempo para discutir temas como migração, refugiados e prisioneiros. E o Papa Francisco aproveitou ainda para entregar três ovos da Páscoa de chocolate para os filhos mais novos de JD Vance, terços e uma gravata do Vaticano, detalha o The Telegraph.
O encontro do #PapaFrancisco com o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance pic.twitter.com/TQFodzLZfs
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Esta segunda-feira, já depois de ser anunciada a morte do líder católico, o vice-presidente dos EUA escreveu na rede social que o seu “coração” estava unido aos “milhões de cristãos em todo o mundo que o amavam”. “Fiquei feliz por tê-lo visto ontem, embora estivesse, efetivamente, muito doente”, lê-se ainda na publicação.
I just learned of the passing of Pope Francis. My heart goes out to the millions of Christians all over the world who loved him.
I was happy to see him yesterday, though he was obviously very ill. But I’ll always remember him for the below homily he gave in the very early days…
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Depois do encontro com JD Vance, o Papa Francisco recebeu ainda Andrej Plenkovic, o primeiro-ministro da Croácia. “Foi um momento breve, mas profundamente emotivo, um encontro de bondade, sorrisos, e bênção”, descreveu o governante esta segunda-feira.
Estado de saúde piorou em 30 minutos
Depois do rápido encontro com JD Vance, o Papa Francisco descansou na tarde de domingo e teve um jantar tranquilo, revelou o seu enfermeiro pessoal, Massimiliano Strappetti, ao Vatican News. Os primeiros sinais de doença súbita surgiram cerca das 5h30 (4h30 em Lisboa), e uma hora depois, fez um gesto de despedida com a mão ao enfermeiro.
A morte ocorreu às 7h35 (6h35 em Portugal continental) devido a um AVC a que se seguiu um estado comatoso e um ataque cardíaco irreversível, descreve fonte oficial do Vaticano.
O primeiro a ser informado do sucedido foi o camerlengo, neste caso o cardeal Kevin Joseph Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Pouco tempo depois, às 9h56 (menos uma hora em Portugal continental), Kevin Joseph Farrell anunciava com “profunda tristeza” a morte “do santo padre Francisco”. E acrescentava: “Às 7h35 desta manhã, o bispo de Roma Francisco voltou para casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da Sua Igreja. Ele ensinou-nos a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão pelo seu exemplo de verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, encomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Uno e Trino.”
Artigo atualizado às 16h21 de dia 22 de abril, com os detalhes revelados pelo enfermeiro pessoal do Papa.
O camerlengo da Santa Romana Igreja, card. Kevin Joseph Farrell, fez o anúncio da morte do #PapaFrancisco pic.twitter.com/POpXkxwMCs
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