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Andriy Portnov tinha acabado de deixar os filhos no Colégio Americano, uma escola internacional de elite em Pozuelo de Alarcón, na periferia de Madrid. Estava vestido com roupa desportiva e preparava-se para entrar no seu carro, um Mercedes de cor preta. As crianças já tinham entrado nas aulas. Eram 9h15, menos uma hora em Lisboa, quando se ouviram cinco tiros. Segundo o relato do jornal espanhol El País, pelo menos três atingiram Portnov, incluindo um mortalmente, na nuca.

Em poucos minutos, as autoridades espanholas estavam ali em peso, incluindo a polícia científica, inspetores especializados em homicídios e até os serviços de informação. Até agora, ainda não houve detidos — acredita-se que tenham estado envolvidos no homicídio dois ou três atacantes, que conseguiram fugir —, mas a identificação da vítima fez disparar alarmes por toda a Europa: Portnov, de 52 anos, foi no passado assessor de Viktor Yanukovych, o político pró-russo que foi Presidente da Ucrânia entre 2010 e 2014 e foi deposto na sequência dos protestos pró-europeus de 2013 e 2014 na Ucrânia.

Nascido em 1973 em Lugansk (cidade reconhecida pela comunidade internacional como parte da Ucrânia, mas administrada de facto pela Rússia e capital da autoproclamada República Popular de Lugansk, considerada por Moscovo uma região russa), Portnov formou-se em Direito e, em 2004, começou uma carreira marcada por várias controvérsias. De acordo com o The Kyiv Independent, Portnov lançou-se na esfera política logo em 2005, como responsável da equipa jurídica da então primeira-ministra ucraniana, Yulia Tymoshenko.

Esteve nessas funções até 2010. Pelo meio, entre 2006 e 2010, foi também deputado no parlamento ucraniano. A partir de 2010, tornou-se um dos homens fortes do Presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, que liderou o país entre 2010 e 2014. Como principal responsável pela equipa jurídica do Presidente, Portnov foi, na descrição do mesmo jornal, o número dois da administração de Yanukovych.

A vida de Portnov mudou radicalmente na sequência da revolução de 2014. Nas décadas anteriores, a Ucrânia, um país que ganhou independência com o colapso da União Soviética, em 1991, fez um caminho gradual de aproximação ao Ocidente e, concretamente, à União Europeia. Dentro da Ucrânia, porém, as forças separatistas pró-russas — sobretudo situadas nas regiões do leste do país — opuseram-se a esse processo de ocidentalização. As tensões atingiram um pico no final de 2013, quando a Ucrânia estava a poucos dias de assinar um acordo de associação com a União Europeia, já com vista a uma futura adesão ao bloco europeu.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

A assinatura do documento foi cancelada pelo então Presidente, o pró-russo Viktor Yanukovich, por pressão de Moscovo. A queda do acordo fez eclodir fortes protestos na Ucrânia, que ficaram conhecidos como a Revolução de Maidan (devido ao nome da praça onde decorreram, a Praça da Independência), que se prolongaram entre 2013 e 2014 e levaram à deposição de Yanukovich. A anexação da Crimeia pela Rússia, em resposta, levou ao aumento da violência nas regiões mais orientais do país entre os separatistas e as forças ucranianas.

Com a deposição de Yanukovich, que foi acolhido por Moscovo, também Portnov teve de abandonar a Ucrânia. Primeiro, fugiu para a Rússia (que lhe atribuiu cidadania) e, mais tarde, para a Áustria. Nessa altura, Portnov chegou a ser alvo de sanções por parte da União Europeia e do Canadá. Em 2019, segundo conta o The Kyiv Independent, regressou à Ucrânia — de onde voltou a fugir em 2022, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. Em 2021, Portnov foi também incluído na lista de pessoas sancionadas pelos Estados Unidos.

Portnov é uma figura altamente controversa na Ucrânia. Em 2018, chegou a ser investigado pelos serviços de segurança da Ucrânia por traição, por ter estado, alegadamente, envolvido nos esforços russos de anexação da Crimeia. Foi também investigado por corrupção e peculato. Esta investigação seria, mais tarde, arquivada. Mais recentemente, Portnov esteve envolvido numa disputa judicial na Ucrânia contra vários meios de comunicação social ucranianos, acusando-os de difamação depois de ter sido classificado como pró-russo. Segundo o El País, jornalistas ucranianos revelaram em 2020 que Portnov esteve envolvido em esforços para desacreditar a Revolução de Maidan.

De acordo com a Reuters, Portnov estaria a viver em Madrid pelo menos desde abril de 2024, altura em que há registos de ter tratado, na capital espanhola, da documentação necessária para transferir uma propriedade na Ucrânia para os filhos. De resto, há também vários relatos na imprensa internacional de que Portnov tem sido um colaborador da Rússia durante a guerra — e de que terá várias propriedades e investimentos em Moscovo.

Este foi o terceiro homicídio deste género em Espanha desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Em abril de 2022, o oligarca russo Sergey Protosenya e a sua família foram encontrados mortos em Lloret de Mar; em fevereiro de 2024, um piloto russo que tinha desertado foi encontrado morto em Alicante. Ao El País, jornalistas ucranianos que estiveram envolvidos em investigações a Portnov, não descartam a possibilidade de se tratar de um ataque de “falsa bandeira” levado a cabo pela própria Rússia, com o objetivo de criar a convicção de que teria sido a Ucrânia a cometer o assassinato.