Quando o juiz disse que Paul Doyle tinha usado o “carro como uma arma”, o ex-fuzileiro da marinha britânica e empresário abanou a cabeça. Não falou, a não ser para dizer o nome e a morada, depois de entrar cabisbaixo no tribunal esta sexta-feira, dentro de um fato escuro, camisa branca e gravata cinzenta. Parecia estar à beira das lágrimas, relata o jornal The Telegraph, enquanto a BBC reporta que não havia familiares ou amigos na sala.
No entanto, o britânico de 53 anos que irrompeu com o Ford Galaxy cinzento contra uma multidão de adeptos do Liverpool, ferindo 79 pessoas, entre elas duas crianças, é descrito pelos vizinhos como um “homem de família sensível”, sempre disposto a ajudar quem precisa. Por isso, não queriam acreditar que era mesmo o pai de três filhos o responsável pelo atropelamento que chocou Liverpool e o Reino Unido nesta segunda-feira à noite.
O carro era o “orgulho e alegria” do agora acusado por sete crimes, contou ao The Telegraph o mecânico que fez a manutenção do Ford Galaxy cinzento há alguns meses. “Ele era muito sensato. O carro tinha fotos da mulher e dos filhos no tablier. Ele tinha muito orgulho na família e na educação deles”, acrescentou ao jornal britânico.
O que o teria levado a tal ato criminoso? Ainda não se sabe. Mas nada na história até aqui conhecida de Paul Desmond Sanders Doyle poderia fazer prever um tal gesto do antigo militar da Marinha britânica que abandonou cedo essa carreira para seguir o ramo da cibersegurança.
Paul Doyle nasceu no dia 4 de novembro de 1971, precisa o comunicado da procuradoria britânica. Vivia com a sua mulher e os três filhos numa casa na zona de West Derby de Liverpool que terá sido comprada em 2017 por 227 mil euros.
Fã de desporto, especialmente de atletismo, participou em várias competições de triatlo e vivia uma vida aparentemente normal, passando férias com os filhos e mulher e publicando as fotos nas redes sociais na Disneylândia, Austrália ou Japão, por exemplo.
“É um tipo fantástico”, contou um dos vizinhos do acusado ao Telegraph sem se identificar. “Veio ajudar-nos quando o nosso alarme disparou uma vez e depois fez o mesmo com os nossos vizinhos mais próximos”, acrescentou, sublinhando ainda que eram uma “família muito simpática“.
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De fuzileiro e do McDonald’s à cibersegurança
A página da rede social Linkedin de Doyle oferece uma visão do seu percurso profissional. Começou em 1990, quando entrou nos Royal Marines — o equivalente aos fuzileiros — onde ficou quatro anos antes de abandonar a vida militar e entrar para a faculdade em 1995. Três anos depois concluiu um bacharelato em Psicologia e Matemática na Universidade de Liverpool, diz o seu perfil no Linkedin.
O primeiro emprego listado nesta página é como gerente de um McDonald’s, onde terá trabalhado apenas seis meses em 1999. Nos anos seguintes, lê-se, foi engenheiro de segurança de redes e no ramo da cibersegurança e da informática, tendo assumido quatro cargos nesta área nos quais nunca trabalhou mais de dois anos.
Suspeito de atropelamento em massa em Liverpool acusado de ofensas à integridade física graves
Porém, em março de 2009, Doyle terá começado a trabalhar como gestor de redes na secção regional do Serviço Nacional de Saúde britânico (conhecido pela sigla NHS), onde esteve mais de quatro anos. Em 2020, diz ter obtido uma certificação como “hacker ético” da empresa EC-Council, que ensina a usar as técnicas de hacking para fortalecer as estruturas de segurança de uma determinada empresa ou organização.
Segundo o Telegraph, Paul Doyle terá ainda participado na gestão de duas empresas, a Farout Caps, que fornecia serviços de venda a retalho a partir da casa do próprio, e a Runcool, de venda de bens desportivos e para uso em atividades de exterior. Ambas foram dissolvidas entre 2018 e 2019.
À data, o Linkedin descreve-o como “chefe de cibersegurança” de um “centro de dados de hiperescala”, não especificando em que empresa nem onde seria este centro.
Ninguém percebe, até agora, o que o terá levado a investir com o carro para os adeptos que festejavam a vitória do Liverpool e que o levou a ser acusado formalmente de sete crimes de condução perigosa e ofensas à integridade física graves. Inicialmente, a polícia suspeitou do crime de condução sob o efeito de drogas, mas acabou por não o incluir na acusação final.
Nesta sexta-feira, ficou a saber qual será o seu futuro próximo: fica detido, determinou o juíz, pelo menos até 14 de agosto, onde será novamente ouvido, ainda antes do julgamento.