Há quatro ministros que não vão transitar para para o segundo executivo liderado por Luís Montenegro. Se a saída de Pedro Duarte tinha sido anunciada e as de Margarida Blasco e de Dalila Rodrigues eram esperadas, uma das maiores surpresas do anúncio da nova composição do Governo acaba por ser a ausência de Pedro Reis.

A saída do ministro da Economia terá sido pedida pelo próprio por “razões pessoais“, segundo avança o Público com base numa fonte oficial do Governo. Reis protagonizou um episódio caricato numa conferência de imprensa em abril, na qual começou por dizer que “ninguém pode dar a garantia de que não há défice” em 2026 e terminou garantindo que é “claríssimo” que “não vai haver défice”.

O ministro estava encarregue de responder às perguntas que os jornalistas tinham preparadas para o primeiro-ministro sobre a previsão do Conselho de Finanças Públicas de um défice de 1% do PIB para 2026, e foi Luís Montenegro que fez sinal ao ministro para que corrigisse a afirmação inicial. Numa governação que não teve momentos de especial destaque, este acontecimento acaba por marcar a sua passagem pela pasta de Economia, ainda que essa não seja a razão oficial evocada para o seu afastamento.

Uma questão do foro pessoal também é justificação para a saída da ministra da Administração Interna que, ao contrário de Pedro Reis, não tinha sido cabeça de lista nas legislativas de 18 de maio. Como o Observador noticiou, a principal razão para seu o afastamento não foi política, mas antes fruto da indisponibilidade da própria ministra para continuar assumir funções governativas. As questões familiares que a levaram a aceitar com reservas o convite para integrar o último Governo estão na base da decisão de não querer ser reconduzida.

No núcleo duro do Governo eram-lhe reconhecidas fragilidades políticas, nomeadamente ao nível da comunicação, e são vários os momentos que marcam pela negativa a sua curta governação. Lembrando alguns episódios, Blasco falou na existência de “fruta podre” na PSP, concordou com a ideia de serviço militar para jovens delinquentes e foi uma figura política ausente durante os incêndios de setembro de 2024 e os desacatos que se seguiram à morte de Odair Moniz. Apesar das críticas que as suas gafes atraíram, Montenegro segurou a ministra que poderia ter sido reconduzida se não tivesse manifestado vontade de ficar de fora.

Pelo contrário, a saída de cena de Dalila Rodrigues não deverá deixar saudades no Governo. A ministra da Cultura foi somando vários episódios tensos com membros do Governo — em especial com a sua secretária de Estado Maria de Lurdes Craveiro — e com agentes do mundo cultural. O Expresso noticiou que às 17h desta quarta-feira, depois de ser público que não faria parte do novo Governo, Rodrigues demitiu a diretora artística para as Artes Performativas do CCB Aida Tavares,uma demissão “política” segundo a própria ao Observador, no derradeiro capítulo de uma disputa com os dirigentes desta instituição. Em declarações à Rádio Observador, a ministra da Cultura negaria, depois, com veemência as acusações e acusaria Tavares de se “vitimizar“.

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A sua passagem pelo Governo ficou marcada pelo afastamento de seis outros dirigentes de instituições culturais, num espaço de seis meses, decisões que lhe mereceram o epíteto de “ministra das exonerações“, que consideraria “injusto”. Outro momento inusitado da sua governação ocorreu quando o ministério da Cultura, após ter mudado a sua sede para o Campus XXI em conjunto com vários outros ministérios, regressou ao Palácio da Ajuda, fruto de uma decisão que terá sido tomada unilateralmente por Dalila Rodrigues. António Leitão Amaro ter-se-á reunido com a ministra e revertido o regresso à Ajuda, mas as marcas dessa ocorrência ficaram.

Ainda que tenha sobrevivido à mini-remodelação do Governo em fevereiro, a ministra continuou a protagonizar momentos que causaram algum embaraço aos governantes sociais-democratas. “As minhas políticas culturais são de caráter estruturante e quanto mais eu realizar, quanto mais ação desenvolver, mais trabalho deixo feito e, portanto, mais significativo será o meu legado“, disse, numa entrevista em abril. A antiga diretora do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém assumiu também então que queria continuar no Governo.

Pelo contrário, antes do Governo cair, já estava a ser preparada a saída de Pedro Duarte para este se poder dedicar em plenitude à corrida para a câmara municipal do Porto. A não inclusão do ministro dos Assuntos Parlamentares nas listas de candidatos à Assembleia da República e a oficialização da candidatura autárquica foram a confirmação que não integraria um (à altura eventual) novo executivo da AD.

A crise política, que levou à queda do Governo e que Pedro Duarte apelidou de “inútil”, acabou assim por servir para que a sua saída não provocasse uma remodelação do executivo em funções. Antes da instabilidade política, o ministro disse que tinha “uma tentação íntima gigantesca” de se candidatar a liderar município do Porto, que considerou ser a sua “cadeira de sonho” na política. Montenegro perde assim em Pedro Duarte uma das figuras mais reconhecidas do seu primeiro Governo, que já admitiu mesmo que se não sair vitorioso nas eleições autárquicas deixará a vida política ativa.