Margarida Blasco, atual ministra da Administração Interna, não deverá ser reconduzida num eventual segundo governo de Luís Montenegro. O líder social-democrata tem centrado as suas energias na campanha eleitoral exigente que tem pela frente e está ainda longe de endereçar convites para o próximo governo — até porque nada garante que, apesar do conforto dado pelas sondagens, venha a vencer de facto as próximas legislativas. Ainda assim, em caso de vitória, Blasco não deverá constar do próximo elenco. E não será a única governante de saída.
Ainda que Margarida Blasco tenha dado algumas dores de cabeça ao Governo (sobretudo no arranque da anterior legislatura), não se tratará exatamente de um afastamento por motivos políticos. Pelo menos, não é assim que esta possível saída está a ser explicada por quem vai acompanhado o processo de decisão. Ao que o Observador apurou, a antiga juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça estará indisponível para continuar por motivos pessoais e familiares, que já a levaram a aceitar, com algumas reservas, o convite de Luís Montenegro para integrar o XXIV Governo Constitucional.
O facto de não ter sido aposta de Luís Montenegro para ser cabeça de lista nestas eleições legislativas, ao contrário dos muitos colegas de Governo que o foram, já tinha sido interpretado como um sinal de que poderia não continuar no cargo. Apesar de tudo, esta exclusão em particular foi sendo explicada, dentro e fora do Governo, pelo facto de a ministra da Administração Interna não ter disponibilidade para fazer a campanha de proximidade a que os seus colegas de Executivo estão obrigados — muitos deles, a centenas de quilómetros da cidade em que residem, como Pedro Reis, que correrá por Castelo Branco, ou Ana Paula Martins, que lidera a lista da AD em Vila Real, por exemplo.
Esta será a leitura mais benigna possível, claro. Em rigor, há muito tempo que se instalou a convicção no núcleo mais duro do Governo de que Margarida Blasco tem graves fragilidades políticas na forma como comunica e que, apesar da ligeira evolução, continuam a ser um risco. Fragilidades que se tornam ainda mais evidentes numa pasta historicamente muito difícil e de grande exposição. Expô-la ao combate político nestas eleições seria um erro não forçado perfeitamente dispensável, concede-se a partir do Governo.
A confirmar-se que deixará de ser aposta de Luís Montenegro — caso o social-democrata vença as próximas legislativas, naturalmente — ficam para trás 11 meses de um mandato marcado por um mau arranque como ministra. Um mau arranque que contribuiu para que fosse dada frequentemente como remodelável — a referência à “fruta podre” na PSP, o ter concordado com ideia de serviço militar para jovens delinquentes, o desaparecimento durante os incêndios de setembro de 2024, tal como durante os desacatos que se seguiram à morte de Odair Moniz, as declarações sobre o direito à greve dos polícias ou sobre a manifestação dos sapadores em frente ao Parlamento.
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Montenegro segurou Margarida Blasco e a ministra pode dizer que conseguiu, por exemplo, pacificar dois sectores — os polícias e os bombeiros sapadores — altamente contestatários. Tudo somado, Blasco dificilmente conseguirá apagar a imagem de ministra propensa a gafes — “Não existe isso de ser ministro e não saber comunicar”, chegou a dizer um colega seu de Governo ao Observador —, mas poderá sempre orgulhar-se de ter conseguido resultados concretos numa pasta de elevada exigência.
Importa-se de repetir? Dalila Rodrigues em risco
Quem parece estar igualmente de saída é Dalila Rodrigues, ministra da Cultura. E, ao contrário de Margarida Blasco, não consta que vá deixar grandes saudades. Descrita como irascível, inconstante e imprevisível, a sucessora de Pedro Adão e Silva criou uns quantos embaraços no Ministério da Cultura, somando exonerações, quezílias internas e episódios tensos com agentes do setor, como contava o Observador ainda a 31 de janeiro.
Nessa altura, já se apontava a sua própria secretária de Estado, Maria de Lurdes Craveiro, como uma das vítimas da alegada irascibilidade de Dalila Rodrigues. A relação entre as duas deteriorou-se de tal forma que era uma apenas uma questão de tempo até haver mexidas no Ministério. Havia apostas sobre se sairiam as duas ou apenas uma, e a verdade é que Dalila Rodrigues (tal como todos os demais ministros) sobreviveu à mini-remodelação operada por Luís Montenegro. A corda rebentou do lado mais fraco, do lado de Maria de Lurdes Craveiro.
Ora, seria de esperar que, depois de uns quantos puxões de orelhas — que existiram e foram sérios, ao contrário do que a própria sempre se esforçou por dizer —, Dalila Rodrigues optasse por uma perfil mais discreto e cauteloso. Nem por isso. Ainda este fim de semana, em entrevista ao Jornal de Notícias, a ministra assumiu abertamente que quer continuar governo e continuar o seu mandato, esquecendo-se de dizer, como é da praxe, que compete ao primeiro-ministro escolher a equipa.
Não se pode dizer, aliás, que tenha sido modesta na forma como se referiu aos seus onze meses à frente do Ministério da Cultura. “As minhas políticas culturais são de caráter estruturante e quanto mais eu realizar, quanto mais ação desenvolver, mais trabalho deixo feito e, portanto, mais significativo será o meu legado“, explicou ao mesmo JN. Num Governo pouco dado a excessos de protagonismo individual, o tom de Dalila foi completamente ao lado. Cereja no topo do bolo, ainda responsabilizou Luís Montenegro pela escolha do novo secretário de Estado da Cultura.
O Observador sabe que estas declarações não caíram nada bem junto de alguns dos principais conselheiros de Montenegro. Se a continuidade de Dalila Rodrigues à frente do Ministério da Cultura já era improvável — também ela não foi escolhida para ser cabeça de lista da AD —, mais ainda se tornou depois desta entrevista. A antiga diretora do Museu Nacional de Arte Antiga e dos Jerónimos parece ter perdido a tolerância mesmo daqueles que, dentro do Governo de Luís Montenegro, a foram segurando.
Ana Paula Martins pode vir a ter uma sorte diferente. Incluída igualmente no grupo de remodeláveis crónicos, a ministra da Saúde tem recebido sucessivas manifestações de apoio por parte de Luís Montenegro. Em público e em privado. Por exemplo, o líder social-democrata já a defendeu, à porta fechada, em Conselhos Nacionais do partido, e fez questão de a promover a presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD. Além disso, e ao contrário das duas primeiras, Ana Paula Martins foi escolhida como cabeça de lista nestas eleições — prova de que é vista como ativo eleitoral. A convicção de que existe é de que, depois de um arranque muito difícil, a ministra será capaz de apresentar finalmente resultados.
*Artigo corrigido às 11h00