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A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), organismo da Igreja Católica em Portugal que se dedica à promoção da justiça e da paz a partir do pensamento católico, pediu esta quarta-feira ao Governo português que dê passos concretos para a suspensão da cooperação com o governo de Israel devido ao “horror da situação que se vive na Faixa de Gaza”, afirmando que se não o fizer Portugal corre o risco de cair em “incoerência com os princípios de defesa dos direitos humanos”.
Num comunicado em que exprime a mais contundente posição da Igreja Católica em Portugal até ao momento acerca da guerra na Faixa de Gaza, o organismo, dependente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), acusa Israel de responder aos ataques terroristas do Hamas com uma “desproporcionalidade desmedida” e afirma: “É tempo de gritar pela paz.”
Além da nota, a comissão propõe ainda às comunidades cristãs portuguesas uma oração para o mês de junho, no qual lembra “o clamor que se ergue do pedaço de terra” que Israel transformou “em campo de concentração”. A oração na íntegra pode ser lida aqui.
“Esta guerra foi desencadeada como reação aos deploráveis ataques terroristas da responsabilidade do Hamas que vitimaram cidadãos israelitas inocentes. Alguns destes continuam até hoje como reféns — uma realidade que condenamos firmemente e que exige uma resolução imediata. É tão inegável a barbárie dos atos de 7 de outubro de 2023, quanto o direito de defesa de uma nação”, começa por assinalar o comunicado da CNJP, organismo liderado pelo juiz Pedro Vaz Patto.
“Porém, essa reação desde há muito excedeu critérios de legítima defesa e proporcionalidade. Provocou, e continua a provocar, a morte de várias dezenas de milhar de palestinianos inocentes. É particularmente abjeta e revoltante a morte e o sofrimento de crianças, a quem é negado o futuro”, diz a nota divulgada esta quarta-feira.
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A comissão sublinha que “a reação de Israel tem assentado em práticas que se qualificam como crimes de guerra e contra a humanidade, com o alvo sistemático de civis indefesos e a recusa de fornecimento de água e alimentos necessários à sobrevivência das pessoas que ali vivem”.
“Consideramos por isso, como tantas vozes internacionais que se fazem ouvir cada vez mais alto, que devem ser levados a sério os propósitos do governo israelita, com o apoio do governo norte-americano, de eliminação e deportação coletiva da população residente na faixa de Gaza. Estes propósitos não favorecem a libertação dos reféns israelitas, não reduzem a adesão de muitos palestinianos ao Hamas, nem contribuem para que, no futuro, os povos desta região possam viver em paz e segurança”, sustenta ainda o organismo.
A Igreja considera ainda “igualmente inaceitáveis tanto as manifestações de ódio contra o povo judeu como a associação automática entre críticas às políticas do governo de Israel e o antissemitismo, uma vez que a denúncia da situação atual é partilhada por muitas pessoas de fé e cultura judaicas”.
“Com esta nota, a Comissão Nacional Justiça e Paz repudia as práticas desumanas e desrespeitadoras do Direito da guerra, e espera da parte dos governos da União Europeia, pedindo em especial ao governo português, ações concretas de suspensão da cooperação com o governo de Israel, sob pena de incoerência com os princípios de defesa dos direitos humanos que regem essa União”, assinala.
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No comunicado, a CNJP associa-se ao secretário-geral da ONU, António Guterres, ao “sublinhar de que o caminho para uma paz justa para a Terra Santa só pode ser alcançado através do reconhecimento de dois Estados que correspondam aos direitos dos povos israelita e palestiniano”.
“A Comissão apela a todas as comunidades religiosas, em particular a comunidade católica, para que continuem unidas na oração pela Paz naquela região do mundo e em todos os contextos feridos pela guerra, dando testemunho de que a fé não pactua com a indiferença nem com a violência, mas é caminho de reconciliação, justiça e compromisso com a dignidade de todos os seres humanos”, diz ainda a nota.
“Exprimimos também a nossa solidariedade para com todas as pessoas da Terra Santa, em especial as que (sobre)vivem na Faixa de Gaza, e renovamos o propósito de rezar para que, apesar de tudo, elas não percam a esperança de um futuro de justiça e paz”, termina o comunicado.
Dependente da conferência dos bispos católicos portugueses, este organismo laical da Igreja Católica tem como finalidade “promover e defender a Justiça e a Paz, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja”.
“As suas principais funções são o estudo e divulgação da doutrina social da Igreja, apreciando e analisando problemas relativos ao desenvolvimento dos povos, aos direitos humanos, à justiça e à paz segundo o Evangelho”, segundo a página da CNJP.
Israel lançou em outubro de 2023 uma dura guerra contra a Faixa de Gaza, o pequeno enclave palestiniano controlado pelo grupo extremista Hamas, onde vivem cerca de dois milhões de pessoas, depois de o Hamas ter atacado o território israelita, matando centenas de pessoas e fazendo reféns. A guerra já provocou a morte a mais de 50 mil palestinianos — e a comunidade internacional tem acusado Israel de punir coletivamente o povo palestiniano pelos atos do Hamas.