As autárquicas estão a três meses de distância e marcadas para o fim de semana em que o país estará inundado de notícias sobre o Orçamento. No PS temem-se eventuais cartadas eleitoralistas na AD, numa altura de especial fragilidade para o partido. O PS é dominante no poder local, mas vem de um trauma eleitoral imenso e o novo líder até chamou a si a responsabilidade direta pelo dossier das autárquicas.
Esta semana, José Luís Carneiro reuniu pela primeira vez a sua nova direção e distribuiu funções. André Rijo vai continuar com a coordenação autárquica, que já era a sua função na anterior direção, mas o novo líder quer ativar o gabinete autárquico, com representantes das cinco regiões do país (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve) para acompanhar da forma mais próxima possível os problemas locais.
O próprio Carneiro vai ficar com a orientação direta desse pelouro no partido nesta fase e intervirá nos casos mais bicudos, como já foi obrigado a fazer na semana passada no caso de Sintra — a concelhia socialista bloqueou o acordo autárquico com o Livre firmado por Ana Mendes Godinho e o processo teve de ser centralizado para ultrapassar esse problema.
“A ideia é reforçar a equipa para tentar resolver assuntos sensíveis”, diz fonte do partido ao Observador. Com o PS a ter mais de 50 autarcas em fim de mandato, abriram-se algumas “clivagens internas” que preocupam o topo do partido — naturais sucessores a não serem os escolhidos pelas estruturas concelhias e a potenciarem candidaturas independentes. Isto a juntar aos receios com a limitação de mandatos e a perda das referências nas autarquias nos últimos 12 anos.
É terreno fértil para problemas que a antiga direção do PS já tinha identificado, mas a que as últimas eleições vieram ainda juntar mais uma questão: a ameaça Chega. A direção não pretende, no entanto, que essa seja a rivalidade mais presente nestas eleições.
“Não queremos contribuir para o agigantar do Chega. O grande adversário é a AD”, comenta-se na direção ao mesmo tempo que também se admite que as ameaças maiores do partido de André Ventura “estão sinalizadas”. Os receios com esse avanço do Chega no terreno estão sobretudo mais a Sul, no Algarve, e também nos distritos de Setúbal e Santarém.
Foi para o Chega que o partido perdeu o segundo lugar, o de líder da oposição, no Parlamento, e agora está a apostar nas autárquicas para contrariar a ideia de um partido em queda livre e reafirmar-se como alternativa política. O próprio presidente do PS, Carlos César pressionou nesse sentido este sábado, no final da Comissão Nacional do partido, ao dizer que o PS precisa de “resultados autárquicos que demonstrem que é a alternativa à AD”.
Equipas em áreas setoriais e o homem do aparelho “modernizado”
Entretanto, no partido José Luís Carneiro já distribuiu pastas aos vários membros da direção que ficam com áreas políticas específicas e que vão ter de trabalhar em equipa em muitas delas. É o caso das antigas rivais (há 25 anos na JS) Ana Catarina Mendes e Jamila Madeira que vão estar na equipa que vai focar-se nas relações internacionais e assuntos europeus, que fica sob a responsabilidade de Francisco Assis.
O homem do aparelho será Luís Parreirão, que vai ficar como secretário para a modernização e organização do partido. O antigo secretário de Estado da Administração Interna e das Obras Públicas ficará com o cargo que até aqui se chamava secretário nacional para a organização. Carneiro junta agora a questão da “modernização” à função que, até aqui, passava por garantir o funcionamento interno, a mobilização dos militantes, a coordenação das estruturas locais e a execução das decisões dos órgãos nacionais, enfim a gestão da máquina partidária — ao comando da qual esteve durante muito tempo Jorge Coelho, o socialista de quem Parreirão foi braço direito.
João Torres, um dos poucos elementos da direção anterior que aceitou ficar na equipa de Carneiro, vai apoiar Parreirão nestas funções e vai ainda ter o pelouro dos movimentos sociais. Também o secretário nacional adjunto Jorge Sequeira vai acompanhar as questões da modernização e da organização.
Ana Catarina Mendes terá também a pasta das migrações e dos direito humanos, onde será coadjuvada por Isabel Santos e também por Susana Amador que, por sua vez, ainda acumulará com o desenvolvimento regional. Jamila Madeira vai, por seu lado, ser a cara do PS na área da habitação — onde será apoiada por Pedro Costa.
André Moz Caldas ficará com a justiça, a qualidade da democracia e os objetivos de desenvolvimento sustentável. E Filipe Costa, que com Caldas coordenou a moção estratégica de Carneiro, vai ficar com responsabilidades sobre as áreas da economia, energia e transição digital.
Maria Antónia Almeida Santos será a voz da direção apontada à área da saúde, comissão parlamentar a que chegou a presidir quando foi deputada pelo PS, e terá o apoio de Rosa Matos. Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada, vai ficar com responsabilidade pela área da cultura mas também dará apoio nas áreas do desenvolvimento regional e dos objetivos de desenvolvimento sustentável.
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O deputado Ricardo Costa será o secretário nacional para a economia e a indústria. Ricardo Bexiga ficará a apoiar nas áreas da justiça e da organização. João Azevedo integrará as equipas de economia e desenvolvimento regional. Miguel Cabrita ficará com o Trabalho e a Segurança Social, bem como Rita Mendes, e Pedro Coimbra com a economia e os fundos europeus.
Marcos Perestrello ficará com a Defesa, área onde foi secretário de Estado e é atualmente o presidente da Assembleia Parlamentar da NATO. E Sérgio Sousa Pinto ficará com funções políticas gerais, não tendo um pelouro específico atribuído.
A intenção do novo líder é que este órgão possa reunir-se a cada 15 dias e que possa fazer reuniões descentralizadas, na tentativa de aproximar a direção das estruturas do partido que estão no território. Mas depois da primeira reunião desta semana, o secretariado vai já reunir-se novamente no início da próxima, na segunda-feira, para preparar o debate do Estado da Nação.
No dia seguinte reúne-se a Comissão Política Nacional, o órgão de direção alargada que ao contrário do que é costume, nunca chegou a reunir-se depois das legislativas, para a habitual análise da situação política. É onde se sentam algumas vozes mais críticas, como Fernando Medina ou José António Vieira da Silva.