Deveriam ter sido apenas 15 minutos, mas como é habitual, Donald Trump não se deixou restringir pelo limite sugerido pelas Nações Unidas e alongou-se bastante. Passados seis anos, o Presidente dos EUA voltou a falar na Assembleia Geral da ONU e disse que já terminou a “era de calma e estabilidade” que reinava quando deixou o cargo em 2021. Ao longo de 55 minutos, voltou a falar no Prémio Nobel — “ganhar prémios não me importa tanto como salvar vidas” —, disse que a Europa caminhava “para o inferno” — “está na altura de acabar com a experiência falhada de fronteiras abertas” — e lançou duras críticas às Nações Unidas — “não está sequer perto de atingir o seu potencial”.

Foi de cabeça “e coração” que o republicano fez o seu discurso, que começou com queixas não pelas políticas da ONU, mas pelas condições dos seus equipamentos. “Acabei com sete guerras, lidei com líderes de cada um desses países e nunca recebi um telefonema das Nações Unidas. Tudo o que recebi das Nações Unidas foram umas escadas rolantes que, ao subir, pararam. E depois um teleponto que não funciona”, lamentou.

Presidente dos EUA garante ter parado seis ou sete guerras. Quais são e qual foi o papel de Trump?

Antes de subir ao púlpito para discursar na sede da ONU em Nova Iorque, Donald Trump, na companhia de Melania, chegou às escadas rolantes do edifício. Assim que a primeira dama subiu um degrau, com Trump mesmo atrás, sentiu-se “um puxão repentino”, descreveu numa publicação na Truth Social. “Se a primeira-dama não estivesse em grande forma, teria caído”.

Ultrapassado o primeiro obstáculo, o casal subiu o resto das escadas a pé, e pouco depois Trump detetou outro problema enquanto discursava: “Eu não me importo de discursar sem teleponto, porque o teleponto não está a funcionar. Só posso dizer que quem quer que esteja a controlar o teleponto está em grandes sarilhos”, disse, recebendo muitos risos dos líderes mundiais presentes. Após o discurso de Trump, a ONU garantiu que o teleponto já estava “a funcionar perfeitamente”.

Trump diz que política de “fronteiras abertas” levará Europa “para o Inferno”

Mesmo sem teleponto, que terá regressado enquanto discursava, Trump falou sobre vários temas sem fio condutor, apoiando-se num dossier e sem poupar críticas à Europa e mais uma vez à ONU.

A grande crítica ao Velho Continente surgiu por intermédio de uma das bandeiras do Presidente dos EUA: a imigração: “Está na altura de parar a experiência falhada de fronteira abertas. Têm que pará-la agora. Eu sou muito bom neste tema. Os vossos países vão para o inferno. Os vossos países estão a ser arruinados”, disse. Depois apontou baterias à ONU:

“As Nações Unidas deveriam parar invasões, não criá-las ou financiá-las”, atacou. “Não só não estão a resolver os problemas que devia”, como, “muitas vezes está a criar novos problemas para nós resolvermos. O melhor exemplo é o problema político número um dos nossos tempos, a crise de migração descontrolada”, afirmou.

“A ONU está a financiar um assalto aos países Ocidentais e às suas fronteiras”, acrescentou, num tom incisivo. Acusou ainda a organização de apoiar, “com comida, abrigo, transportes e cartões de crédito”, a entrada de migrantes ilegais nos EUA. “Nos EUA rejeitamos a ideia de que um número elevado de pessoas estrangeiras possa ser autorizado a viajar pelo mundo, espezinhem as nossas fronteiras e violem a nossa soberania, provocando crimes e esgotando a nossa rede de segurança social.”

Como fez inúmeras vezes ao longo do seu discurso, Trump puxou dos galões sobre este assunto em específico e disse que, agora, quem entrar ilegalmente nos EUA “vai para a prisão ou de volta” para o país de origem. Referiu também o combate aos cartéis de droga sul-americanos, especialmente os venezuelanos. “Recentemente começámos a usar o poder dos militares dos EUA para destruir os terroristas da Venezuela e as redes de tráfico lideradas por Nicolás Maduro”, disse, colhendo alguma indiferença da delegação da Venezuela presente, refere a BBC.

epa12400271 US President Donald Trump gestures as he departs after addressing the General Debate of the 80th session of the United Nations General Assembly (UNGA) at the United Nations headquarters in New York, New York, USA, 23 September 2025. EPA/LUKAS COCH NO ARCHIVING AUSTRALIA AND NEW ZEALAND OUT LUKAS COCH/EPA

Trump apontou o dedo à ONU e aos países europeus várias vezes ao longo do seu discurso

Previsões da ONU “que nunca se concretizam” sobre clima são “as maiores mentiras da história”

O Presidente norte-americano também denunciou a “fraude” das alterações climáticas, acusando os países europeus de “destruírem as próprias economias” ao apostar nas energias renováveis. Para Trump, a “pegada de carbono” não passa de uma “fraude inventada com más intenções”, que evidencia a intenção que os ambientalistas têm de “acabar com vacas, indústrias e empregos”.

“Se continuarem nesse caminho, os vossos países vão falhar. É suicídio económico. (…) Os que foram totalmente verdes estão hoje falidos”, disse, apontando a Alemanha como bom exemplo, por ter recuado nas metas ambientais. “Temos o maior contingente de petróleo e gás do planeta e ainda carvão limpo e bonito. Não precisamos de subsídios nem de ilusões”, sugeriu.

Nesse seguimento, classificou as previsões da ONU, “que nunca se concretizaram” como “as maiores mentiras da história”. “Primeiro era o arrefecimento global, depois o aquecimento, agora são as alterações climáticas. (…) É o maior embuste já feito à humanidade”. Destacou ainda a preparação dos EUA para eventos internacionais, como o Mundial de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028, e pediu à comunidade internacional que defenda a liberdade religiosa, alegando que “o cristianismo é hoje a religião mais perseguida do planeta”.

Europa tem que parar de comprar à Rússia para acabar com a guerra

Sem mencionar diretamente Vladimir Putin ou Volodymyr Zelensky (com quem se encontrou mais tarde), o Presidente dos EUA falou sobre a guerra na Ucrânia e descreveu a aplicação de “sanções” como uma das soluções. “Europa, parem já com as compras. Caso contrário, estamos todos a perder tempo. Estão a alimentar a guerra. E até países da NATO continuam a comprar energia russa. Estão a financiar o inimigo contra si próprios. Quem já ouviu falar em algo tão absurdo?”, interrogou.

Trump disse que Pequim e Nova Deli funcionam como os “financiadores principais” de Moscovo e ameaçou impor tarifas de grande escala à Rússia caso o Kremlin não aceite negociar a paz. “Serão tarifas devastadoras. E, se os aliados europeus não se juntarem, de nada servirá. São vocês que estão ao lado de Moscovo, não nós”, sublinhou, dizendo que só tomou conhecimento desta prática “indefensável” há duas semanas.

“As Nações Unidas têm um potencial tremendo, sempre o disse. Tudo o que parecem fazer é escrever uma carta muito forte e depois nunca seguem a carta. São palavras vazias e palavras vazias não resolvem guerras. A única coisa que resolve guerras é a ação”, atirou.

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Reconhecimento da Palestina é uma “recompensa” ao Hamas pelas “atrocidades horríveis”. “Libertem os reféns agora”

Durante os 55 minutos de discurso, Donald Trump não abordou o agravamento da crise humanitária em Gaza, que as próprias Nações Unidas confirmaram tratar-se de um genocídio. O Presidente dos EUA focou a resolução do conflito na Palestina na libertação imediata dos reféns e condenou os países que, como Portugal, reconheceram o Estado da Palestina.

“Como se quisessem incentivar o conflito contínuo, alguns países deste órgão estão a tentar reconhecer unilateralmente um estado palestiniano. A recompensa pelas atrocidades dos terroristas do Hamas seria muito grande”, denunciou. “Seria uma recompensa pelas atrocidades horríveis, incluindo de 7 de outubro, mesmo quando eles recusam libertar os reféns ou aceitar um cessar-fogo”.

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Para Trump, em vez de estes países cederem “às exigências de resgate do Hamas, aqueles que querem a paz devem estar unidos com uma mensagem: Libertem os reféns agora, apenas libertem os reféns”. “Temos que parar a guerra em Gaza imediatamente. Temos que parar com isto. Temos que negociar imediatamente. Tenho que negociar a paz. Temos que trazer de volta os reféns”, enumerou.

À boleia do conflito entre Israel e Hamas, Trump aproveitou para abordar o que diz ser “o maior perigo para o nosso planeta”: a ameaça nuclear do Irão.”Estas são as armas mais poderosas e destrutivas já construídas pelo Homem” e recordou que os EUA “têm muitas”.

“Tal como fiz no meu primeiro mandato, fiz da contenção desta ameaça a minha principal prioridade, a começar pelo Irão. A minha posição é bastante simples, o país que mais patrocina o terrorismo nunca poderá ter na sua posse armas tão perigosas”.

Lembrando o ataque norte-americano a instalações nucleares iranianas, em junho deste ano, Trump disse que mais nenhum país poderia ter feito o que os EUA fizeram. “Nenhum outro país tem o equipamento para fazer o que nós fizemos. Temos as melhores armas do planeta, odiamos usá-las”.

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Nobel da Paz? “Verdadeiro prémio” é salvar milhares de vidas, responde Trump

Como tem sido recorrente nos últimos tempos, sobretudo através de publicações na Truth Social, a sua rede social, Trump voltou a reclamar para si méritos suficientes para merecer um Nobel da Paz. “É triste que tenha de ser eu a resolver as guerras e não a ONU”, sublinhou.

Apesar de não ter mencionado diretamente o prémio atribuído pelo comité norueguês, o Presidente dos EUA disse que não procurava a paz para ser laureado, mas sim para salvar vidas. “Toda a gente diz que eu devo receber o Prémio Nobel da Paz por cada um destes acontecimentos [as guerras que diz que parou]. Mas para mim, o verdadeiro prémio serão os filhos e filhas que vivem para crescer ao lado das mães e pais porque milhões de pessoas já não estão a ser mortas por guerras intermináveis e inglórias. Ganhar prémios não me importa tanto como salvar vidas”.

Perante os líderes mundiais presentes na sede da ONU, Trump também aproveitou para criticar o seu antecessor e repetir que a guerra na Ucrânia não teria começado se ele não tivesse saído da presidência. “Era uma guerra que deveria ter durado três dias, mas já leva três anos e meio, com milhares de mortos semanalmente”.

“Eu terminei sete guerras, que disseram serem intermináveis. Terminei sete guerras e em todos os casos centenas de pessoas estavam a ser mortas”, prosseguiu. Além de dizer que “nenhum” presidente “conseguiu algo parecido com isto”, lembra que o fez “em apenas sete meses”. “Nunca aconteceu antes, nunca aconteceu algo parecido com isto. Estou muito honrado por tê-lo conseguido”.

Donald Trump alegou que o mundo era “próspero e pacífico” durante o seu primeiro mandato. “Desde aquele dia, as armas de guerra destruíram a paz que eu forjei em dois continentes. Uma era de calma e estabilidade deu lugar a uma das maiores crises do nosso tempo”.

Antes de terminar o discurso, Trump dirigiu a palavra ao Presidente brasileiro e confirmou um encontro entre os dois na próxima semana. “Combinamos encontrar-nos na semana que vem. Vimo-nos, ele viu-me, e abraçámo-nos. Eu só faço negócios com gente de que gosto. Quando eu não gosto, não gosto. Mas, por 39 segundos, nós tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal”, disse.

Lula da Silva falou mesmo antes de Donald Trump no púlpito da ONU. O encontro entre os dois deu-se nos corredores da sede das Nações Unidas, depois de o Presidente do Brasil ter dito que a “agressão contra o poder judiciário é inaceitável”, numa alusão à atuação de Washington com o Brasil.

“Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender a sua democracia reconquistada há 40 anos pelo seu povo e depois de duas décadas de governos ditatoriais. (…) Não há justificação para as medidas unilaterais e arbitrárias. (…) A nossa democracia e a nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como uma nação independente e como um povo livre de qualquer tipo de tutela”.

Ainda antes dos elogios a Lula, Trump disse que “o Brasil enfrenta tarifas pesadas em resposta aos seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e liberdades”, através da “censura, repressão, armamento, corrupção judicial e perseguição de críticos políticos nos Estados Unidos”.

No seu quinto discurso nesta assembleia, e o primeiro desde que regressou à Presidência dos Estados Unidos, Trump bateu o recorde pessoal de mais tempo a falar na sede da ONU. Em 2017 falou durante 42 minutos (o seu máximo), depois de se ter alongado 35 minutos no ano anterior.

Ainda assim, o Presidente dos EUA ficou bem longe do maior discurso de sempre neste contexto. O recorde, com 45 anos, pertence a outro líder do continente americano. Em 1960, Fidel Castro, então Presidente de Cuba, falou durante mais de quatro horas — 269 minutos, mais precisamente.

Depois do discurso, Trump encontrou-se com Javier Milei, Presidente da Argentina, Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia, e com António Guterres, Secretário-Geral da ONU. Na reunião com o português, o líder dos EUA reiterou que está “100%” comprometido com as Nações Unidas, apesar das críticas anteriores.

“O nosso país apoia as Nações Unidas a 100%. Acho o potencial das Nações Unidas incrível. Verdadeiramente incrível. Podem fazer tanto, eu apoio-as. Posso discordar [das Nações Unidas] às vezes, mas apoio-as totalmente”, disse.