Carlos Brito, quadro histórico do PCP, morreu esta quinta-feira aos 93 anos, avançou o Público e confirmou o Observador. O candidato apoiado pelos comunistas às eleições presidenciais de 1980 morreu em casa, no concelho de Alcoutim, depois de ter estado recentemente internado no Hospital de Faro.
Aos 17 anos, Carlos Brito começou a sua atividade política como opositor do Estado Novo integrando o MUD (Movimento Unidade Democrática) Juvenil, em Lisboa. Depois, esteve três vezes preso (em Caxias, no Aljube e em Peniche) durante a ditadura, num total de oito anos de prisão. Saiu em liberdade em 1966 e até ao 25 de Abril, esteve entre o exílio em França e a clandestinidade em Portugal.
Já durante em democracia, foi uma das principais caras do PCP, nomeadamente no Parlamento. Foi deputado constituinte e eleito para a Assembleia da República nas seis legislativas realizadas entre 1976 e 1991. Era um dos porta-vozes do partido tendo liderado a bancada dos comunistas durante 15 anos. Em 1980, foi candidato às presidenciais, tendo desistido, a meros dias da eleição, a favor da reeleição do General Ramalho Eanes.
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Após mais de quatro décadas como uma das mais destacadas figuras do partido, começou a opôr-se publicamente a decisões do Comité Central do PCP, que abandonou em 2000. Tinha como principais reivindicações a democratização interna do partido e o abandono da ideologia do “marxismo-leninismo”. Em 2002, foi sancionado pela direção do PCP a 10 meses de suspensão, período após o qual se “auto-suspendeu” indefinidamente. Apesar disso, nunca deixou de considerar se considerar comunista.
Foi um dos fundadores da Associação Política Renovação Comunista, um movimento apologista de coligações à esquerda e que nunca foi reconhecido pelo PCP. Por esta altura, regressou ao Algarve, onde também foi autarca e se dedicou à escrita, tendo publicado livros de ficção, poesia e memórias. Foi agraciado pelo seu amigo, e então Presidente da República, Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e com a Ordem da Liberdade, grau de Grande-Oficial, em 2004.
PCP lembra diferenças mas recorda contribuição na Revolução de Abril
O PCP recordou, em comunicado, o percurso antifascista e a “contribuição na Revolução de Abril” de Carlos Brito, apesar das “conhecidas diferenças e distanciamento político”. “Sem prejuízo das conhecidas diferenças e distanciamento político, registamos em Carlos Brito o seu percurso antifascista e a sua contribuição na Revolução de Abril, nomeadamente no plano parlamentar”, pode ler-se, numa breve nota de imprensa enviada pelo PCP.
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Também o Presidente da República, António José Seguro, lamentou a morte do histórico dirigente, recordando uma “figura incontornável da resistência antifascista e da democracia portuguesa”. Numa nota publicada na página da Internet da Presidência, António José Seguro apresentou as suas “sentidas condolências à família, aos amigos e aos seus companheiros de tantas lutas, associando-se ao luto de todos quantos, em Portugal, reconhecem em Carlos Brito uma das vozes mais íntegras da nossa vida cívica e política”.
Além de recordar o percurso de Carlos Brito, o Presidente da República frisou ainda que este foi um “homem de convicções firmes e de coragem cívica, que soube colocar a defesa da democracia, do diálogo e da renovação acima de qualquer outro interesse”. “Ao longo de uma vida de raro empenhamento cívico, Carlos Brito honrou Portugal pelo exemplo da sua resistência, pela elevação do seu pensamento político e pela permanente lealdade aos valores de Abril. A sua memória ficará associada à dignidade com que serviu a causa pública e à sua contribuição para uma democracia mais aberta, mais plural e mais exigente”, sublinhou ainda.
Já o secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro, frisou que a morte de Carlos Brito “é motivo de grande tristeza”, lembrando o seu percurso como “resistente antifascista” e “uma figura incontornável da vida política portuguesa das primeiras cinco décadas da democracia”.
José Luís Carneiro apontou também que Carlos Brito foi “uma referência de seriedade, cidadania e de combate pelos valores que eram os seus, mesmo com custos pessoais e com a incompreensão de alguns dos que tinham sido seus camaradas”.
Um revolucionário com percurso exemplar na luta pela democracia, diz Renovação Comunista
A Renovação Comunista considera que Carlos Brito, antigo dirigente e líder parlamentar do PCP, foi um revolucionário que resistiu com heroicidade à tortura nas prisões do Estado Novo, com percurso exemplar na luta pela democracia e socialismo.
Carlos Brito, natural de Moçambique, escritor, candidato nas eleições presidenciais de 1980, militante do PCP durante 48 anos e mais tarde fundador da associação política Renovação Comunista, morreu na quinta-feira aos 93 anos.
Em comunicado, a Renovação Comunista manifesta “enorme pesar” pelo “desaparecimento de um comunista e de um revolucionário com percurso exemplar na luta pela democracia e pelo socialismo no país”.
“Foi abnegado na luta nas duras condições da clandestinidade, onde assumiu uma posição cimeira na direção do PCP no interior do país”, recorda-se.
A Renovação Comunista realça depois “a heroicidade” com que o antigo líder parlamentar do PCP “defrontou a tortura da polícia política e os longos anos de prisão a que foi sujeito”.
“A sua indomável fibra revolucionária é exemplificada pela audaciosa fuga da prisão do Aljube, onde muito poucos o conseguiram igualar em tal façanha e alcançando nessa noite uma estrondosa vitória contra o fascismo”, refere-se.
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