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No tempo politicamente polarizado que é o nosso, um livro sobre o fim da República de Weimar e a ascensão do nazismo, que suscita paralelismos entre o contexto da Alemanha de 1930-33 e o actual cenário político em muitos países ocidentais, está fadado a ser polémico. E o facto de o seu autor, o historiador Johann Chapoutot (n.1978, França), ter dado mostras de estar ideologicamente próximo de La France Insoumise (LFI), partido de extrema-esquerda liderado por Jean-Luc Mélenchon, personagem de discurso acrimonioso e convicções dogmáticas, poderá levar a que alguns potenciais leitores nem sequer se aproximem de Os Irresponsáveis, presumindo que o ponto de vista do autor é irremediavelmente enviesado.
Porém, independentemente das afinidades ideológicas de Johann Chapoutot, este tem sólidas credenciais na matéria em apreço, pois tem consagrado a vida ao estudo do nazismo: a sua tese de doutoramento, sobre o tema “O nacional-socialismo e a Antiguidade”, foi convertida em livro e publicada em 2008, inaugurando uma bibliografia que já atinge uma quinzena de obras, quase todas centradas no nazismo. Les irresponsables: Qui a porté Hitler au pouvoir? (2025) é uma das mais recentes e chega a Portugal com pequeno desfasamento em relação à edição original, sob o título Os Irresponsáveis: Quem pôs Hitler no poder?, com tradução de Pedro Elói Duarte e por iniciativa das Edições 70.
Pode não se ter apreço pelas simpatias políticas de Chapoutot, ou discordar das suas apreciações sobre determinados partidos ou políticos, mas Os Irresponsáveis assenta num abrangente, rigoroso e equilibrado estudo da documentação disponível (“arquivos, diários íntimos, discursos, memórias e artigos de imprensa”) sobre o período da história alemã que vai de Março de 1930 a Janeiro de 1933 e constitui leitura proveitosa para todos os que tenham interesse em compreender como morrem as democracias – até mesmo uma democracia “num país cujo nível de alfabetização, prestígio universitário e património literário, filosófico, artístico e científico suscitava a admiração dos seus vizinhos” (Chapoutot, pg. 30).
O desemprego cria nazis?
Na introdução de Os Irresponsáveis, Johann Chapoutot leva a cabo uma comparação entre a forma como os manuais escolares de história do 9.º ao 11.º ano de escolaridade no seu tempo (a primeira metade da década de 1990) e no presente tratam a República de Weimar e a ascensão do nazismo e conclui que os manuais modernos não só dedicam ao assunto muito menos espaço, como o tratamento é superficial, simplista e pouco rigoroso. Em seu entender, a “indigência dos manuais” [sic] não decorre apenas de uma tendência geral de “abaixamento do nível” de exigência do ensino; espelha “uma dinâmica historiográfica e editorial” e a proliferação nos mass media e no debate público de uma profusão de ideias imprecisas ou até falsas sobre aquele período.
Chapoutot dá o exemplo de um manual do 9.º ano de escolaridade, publicado em 2016, que afirma que “a crise económica provoca um fortíssimo aumento do desemprego na Alemanha. Hitler aproveita-se das dificuldades”, e contrapõe que os resultados eleitorais do Partido Nazi (NSDAP, na sigla alemã) nem sempre acompanharam a evolução das taxas de desemprego, havendo períodos em que a relação entre as duas variáveis foi divergente.
Taxa de desemprego na Alemanha, 1928-36
A ideia de que o nazismo ascendeu a reboque do desemprego e das dificuldades económicas dos eleitores alemães é uma ideia muito difundida hoje, e é até frequente ouvir comentadores políticos que associam as dificuldades económicas do povo alemão ao crash de Wall Street em 1929 e à hiperinflação. Ora, o segundo fenómeno é fácil de descartar: causou enorme instabilidade política e social na Alemanha, mas teve lugar em 1921-23 e em 1924 já estava sob controlo. Quanto ao crash de 1929, a história é bem mais complexa: é certo que em 1931-32, a Alemanha atravessou uma profunda crise económica, mas é consensual que a causa desta foi a falência, em Maio de 1931, do Creditanstalt, um dos mais importantes bancos austríacos, que, por sua vez, levou à falência do banco alemão Darmstädter und Nationalbank, num efeito de contágio que rapidamente se alargou às restantes instituições financeiras alemãs e austríacas.
Corrida aos bancos em Berlim, em Julho de 1931
Acontece que a falência do Creditanstalt não foi um eco do crash de 1929 – até 1931, a economia europeia, ainda que abalada pelas dificuldades que a economia dos EUA atravessava, ainda se mantinha estável. O Creditanstalt foi “metido ao fundo” por uma operação deliberada do Estado francês e dos bancos franceses, que tinham visto com grande apreensão a assinatura, em Março de 1931, de um tratado de união aduaneira entre a Alemanha e a Áustria. A França, que detinha à data uma influência sobre os mercados financeiros muito superior à actual, pretendera, com o “ataque” ao Creditanstalt, sabotar a economia da Alemanha e da Áustria e impedir que estes países regressassem à posição de força que detinham em 1914, mas o “golpe” francês teve repercussões que excederam largamente o previsto por quem o concebeu: o colapso da economia austro-germânica propagou-se a toda a Europa e a França, embora tenha resistido durante algum tempo, também acabou por arrastada pelo turbilhão que criara (ver capítulo “Nenhum país é uma ilha” em A Europa no fosso da barbárie). As estruturas da economia mundial, já enfraquecidas pelo crash de 1929, desmoronaram-se e a Grande Depressão instalou-se. Como faz notar Brendan Simms, em Europa: A luta pela supremacia, de 1453 aos nossos dia (ver capítulo “Hitler conquistou o poder com um empurrão da França?” em A caminho do poder: Histórias dos mapas da Europa) “foi a crise geopolítica europeia de princípios dos anos 1930 que causou a Grande Depressão e não o contrário”.
Refeitório de uma instituição de acolhimento de pessoas sem abrigo, Berlim, 1932
A associação entre crise económica e desemprego e a ascensão do nazismo, que hoje circula insistentemente, assenta num exemplo histórico ambíguo – a conquista do poder pelos nazis na Alemanha, numa altura em que o desemprego começava a diminuir – e ignora exemplos contemporâneos de sinal contrário. Por exemplo, nos EUA, nas eleições presidenciais de Novembro de 1932, numa altura em que existiam nos EUA 12 a 13 milhões de desempregados (quase um em cada quatro trabalhadores), Herbert Hoover, o incumbente republicano, foi “cilindrado” (59 votos contra 472 no colégio eleitoral) pelo democrata Franklin D. Roosevelt, que pôs em prática o New Deal, um programa que incluía algumas das políticas mais “socialistas” que os EUA conheceram e que mereceram a aprovação do povo americano, uma vez que este o reelegeu em 1936, 1940 e 1944.
Cartaz do final da década de 1930, publicitando uma das políticas “socialistas” de Franklin D. Roosevelt: “Mais segurança para as famílias americanas: A viúva de um operário qualificado receberá pensões mensais a partir dos 65 anos. Em certos casos, um dependente idoso poderá também ser contemplado”
O povo vota sempre a pensar na sua carteira?
Não há dúvida de que a saúde económica de um país é um factor relevante – e, muitas vezes, o mais relevante – nas escolhas dos eleitores, mas a ideia de que estes apenas são guiados pelo dinheiro que têm (ou esperam vir a ter) na carteira – sintetizada na célebre frase “It’s the economy, stupid”, atribuída a James Carville, estratega da campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992 – é uma simplificação extrema.
Curiosamente, ao mesmo tempo que acusa a direita de ser “economicista”, a esquerda tem tendência a interpretar a realidade social e política com base em fenómenos estritamente económicos. Assim sendo, insiste em atribuir a presente ascensão da extrema-direita às sucessivas crises económicas decorrentes dos desvarios do capitalismo e ao empobrecimento da classe média em resultado das políticas “neoliberais”. Esta interpretação é, ao mesmo tempo, uma forma de a esquerda evitar fazer um auto-exame e reconhecer que o crescimento da extrema-direita poderá resultar de 1) A esquerda ter feito das “causas identitárias” (de etnia, sexo, género, etc.) o fulcro do seu discurso e ter relegado os problemas “comezinhos” das classes desfavorecidas para segundo plano; 2) A esquerda não ter governado de forma competente ou ter perdido credibilidade devido a casos de corrupção; 3) As propostas da esquerda não serem realistas nem convincentes ou não terem sido deficientemente comunicadas, o que resulta, em muitos casos, de a convicção de superioridade moral típica da esquerda fazer com que esta entenda que está dispensada de argumentar de forma coerente e persuasiva e que lhe basta afirmar, tautologicamente, que “as políticas de esquerda são boas porque são de esquerda”.
O discurso dominante nos media sobre a evolução do panorama político na Alemanha dos nossos dias oferece um exemplo da insuficiência das leituras estritamente economicistas da realidade: é raro o comentador que não atribui os pujantes resultados eleitorais da Alternative für Deutschland (AfD) nos territórios correspondentes à antiga República Democrática da Alemanha ao nível de prosperidade baixo e às taxas de desemprego elevadas destes, por comparação com os territórios da antiga República Federal Alemã, o que levará os habitantes da ex-RDA a sentirem-se abandonados pelo poder central e tratados como cidadãos de segunda. É, sem dúvida, uma explicação a considerar, pois é um facto que a reunificação alemã, apesar de ter sido, genericamente, um sucesso, não conseguiu operar o milagre de “puxar” a obsoleta, rígida e “estatizada” economia da ex-RDA para o nível da economia da ex-RFA e o processo de transição levou ao encerramento de muitas empresas “orientais” ineficientes, gerou um abrupto incremento nas taxas de desemprego e resultou na migração dos alemães orientais mais empreendedores e dotados para a parte ocidental.
Resultados das eleição federais alemãs de 2025, mostrando os partidos vitoriosos em cada círculo eleitoral: a cinzento, CDU/CSU (democratas cristãos); a azul claro, AfD (extrema-direita); a vermelho/rosa, SPD (sociais-democratas): a verde, Verdes
Contra a tentação de ler a história à luz de explicações simplistas
Porém, há outros factores que poderão ser igualmente determinantes nesta inclinação da ex-RDA para votar AfD. Um deles é o facto de os alemães de leste não terem tido, durante o período de existência da RDA (1949-90), contactos significativos com culturas não-europeias. Não só a percentagem de residentes estrangeiros era superior a oeste do que a leste (7-8% e 1%, respectivamente), como na RDA, o Estado, hipercentralizado e obcecado com microgestão, tendia a tratar os trabalhadores provenientes de nações comunistas não-europeias (como Angola, Moçambique ou Cuba) de forma segregada, minimizando o seu contacto com os alemães; assim, é compreensível que, a leste, a xenofobia e o racismo estejam mais enraizados e haja maior inclinação para aprovar as políticas de imigração restritivas (e a ideia de “remigração”) defendidas pela AfD.
Também deve considerar-se que o regime comunista da RDA promoveu, desde o início, uma “narrativa” que atribuía integralmente a culpa pelo nazismo e pela II Guerra Mundial à ideologia nacional-socialista e ao capitalismo e inocentava o povo alemão. O Governo da RDA nunca pagou reparações nem apresentou desculpas aos indivíduos, às minorias e aos países que foram vítimas do III Reich, alegando que a RDA não só não era herdeira do III Reich, como era estruturalmente antifascista: uma vez que se regia por princípios opostos aos dos nazis, não aceitava quaisquer responsabilidades pelo passado nazi.
Em contrapartida, a RFA aceitou pagar reparações pelos danos decorrentes da actuação do III Reich, que contemplaram quer indivíduos – as vítimas do Holocausto e das políticas antijudaicas receberam, até 2018 ,um total de 86.800 milhões de dólares – quer estados como Israel e a Grécia (sobre a segunda, ver Uma factura detalhada para Angela Merkel). A RFA debateu amplamente a questão da culpa alemã e tomou medidas para preservar a memória dos terríveis eventos de 1939-45, nomeadamente ao inscrever, a partir o final da década de 1960, um adequado tratamento das atrocidades nazis nos programas escolares. O momento mais visível e marcante da assunção de culpas pela RFA ocorreu em 1970, quando, numa visita de Estado à Polónia, o chanceler Willy Brandt, espontaneamente e quebrando o protocolo, se ajoelhou no Monumento aos Heróis do Ghetto de Varsóvia , momento que ficou gravado na história como “Kniefall von Warschau” (Genuflexão de Varsóvia).
Varsóvia, 1970: Willy Brandt no Monumento aos Heróis do Ghetto
Na RDA, só em Abril de 1990, após a queda do Muro de Berlim e a primeira eleição livre no país, o parlamento aprovou uma declaração em que assumia partilha de culpas pelo Holocausto – um acto tardio e sem consequências práticas, já que a RDA seria formalmente extinta seis meses depois. É, pois, natural que os alemães de leste se sintam mais inclinados a alinhar com a AfD quando esta pugna pela restauração do orgulho dos alemães na sua história, incluindo na sinistra história que se desenrolou entre 1933 e 1945 (ver capítulos “O ajuste de contas com o nazismo” e “Já podemos limpar o registo criminal do III Reich?” em O nazismo visto a partir de uma aldeia nos Alpes da Baviera).
Por outro lado, o próprio argumento que associa o êxito da AfD na ex-RDA ao desemprego é abalado quando pomos de parte as “idées reçues” e examinamos os números: as votações da AfD na ex-RDA têm, genericamente, vindo a aumentar desde a sua fundação, em 2013 (nas eleições federais: 4.7% em 2013, 12.6% em 2017, 10.3% em 2021, 20.8% em 2025), ao mesmo tempo que o diferencial entre as taxas de desemprego na ex-RDA e na ex-RFA tem registado uma tendência genérica de descida – em Março de 2026, era 8.1% na ex-RDA e 6.1% na ex-RFA.
Evolução das taxas de desemprego na ex-RDA e na ex-RFA, 1994-2018
Os territórios da ex-RDA continuam a registar um PIB per capita inferior ao dos territórios da ex-RFA, mas a tendência geral tem sido, igualmente, de diminuição do diferencial. Este não cessou de dilatar-se enquanto a RFA e a RDA eram países distintos, sofreu diminuição abrupta em 1992-95 e tem vindo a diminuir muito lentamente desde então. É certo que o PIB per capita de 38.450 euros na Saxónia-Anhalt (o estado mais “pobre” da ex-RDA) poderá parecer magro face aos 62.200 euros da Baviera (o estado mais “rico” da ex-RFA), mas fica apenas um pouco abaixo do PIB per capita médio da União Europeia (41.600 euros) e está bem acima do PIB per capita português (28.400 euros).
PIB per capita nos diferentes estados da Alemanha, 2025
O que pode concluir-se daqui é que não é recomendável que nos fiemos em teorias reducionistas, em explicações “one size fits all” e na sociologia de sofá e que devemos aceitar que a sociedade é extremamente complexa e que os eleitores são impelidos por considerações e factores muito variados, que dependem do tempo e do lugar (ver capítulo “A irresponsável leveza do voto” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce).
Uma escolha, um cálculo e uma aposta
Após este desvio pela tempo presente, regressemos ao ocaso da República de Weimar e a Os Irresponsáveis. Chapoutot rejeita a tese de que a conquista do poder por Hitler foi inevitável e resultou sobretudo da crise económica, contrapõe esta visão: “A chegada dos nazis ao poder resultou de uma escolha, de um cálculo e de uma aposta. Escolha das elites económicas (industriais, financeiros, seguradoras) e patrimoniais (rendeiros, accionistas, Besitzbürgertum – burguesia proprietária). Cálculo de uma racionalidade fria: perante os ganhos constantes do Partido Comunista [Kommunistische Partei Deutschland ou KPD], um partido revolucionário que ambicionava instaurar, a curto ou médio prazo, uma Alemanha Soviética (Sowjetdeutschland), a força militante do NSDAP e os numerosos membros das suas milícias […] ofereciam um contrapeso tranquilizador, que era preciso, a todo o custo, pôr ao serviço de uma defesa resoluta da ordem social e económica. Por fim, aposta: como os nazis eram inexperientes, flanqueá-los de políticos astutos e experimentados permitiria domesticá-los no quadro de um poder partilhado, num governo de coligação” (pg. 32).
Sessão inaugural do Reichstag resultante das eleições federais de 1930, em que o NSDAP elegeu 107 deputados, um salto extraordinário face aos 12 lugares conquistados nas eleições de 1928. Os deputados do NSDAP, envergando todos o uniforme do partido, surgem no extremo esquerdo da foto
Se é certo que o NSDAP foi o partido mais votado nas eleições federais de Julho de 1932 (37.3% dos votos, 230 deputados) e de Novembro de 1932 (33.1% dos votos, 196 deputados), a relação de forças no Reichstag e a aversão do presidente Hindenburg a Hitler não lhe permitia formar um governo viável – assim sendo, é impreciso afirmar que Hitler chegou ao poder por meios democráticos. Se é certo que, a 30 de Janeiro de 1933, Hitler acabou por ser empossado como chanceler por Hindenburg, seguindo os preceitos constitucionais, um dos seus primeiros actos do novo chanceler foi dissolver o Reichstag e convocar novas eleições para 5 de Março. E estas, ao contrário das eleições anteriores, estiveram muito longe de serem livres e justas, beneficiando do facto de, no novo gabinete, os nazis terem arrebatado os cargos que lhes davam o controlo das forças da ordem. Assim sendo, os resultados obtidos pelo NSDAP – 43.9% dos votos e 288 deputados – não foram um reflexo da vontade do povo alemão. De qualquer modo, os 288 deputados do NSDAP não constituíam maioria absoluta num parlamento com 647 lugares, pelo que Hitler usou subterfúgios jurídicos, francas ilegalidades e violência para debilitar ou inactivar o sector de esquerda no Reichstag e empregou persuasão e falsas promessas para levar a direita e o centro-direita a aliar-se ao NSADP. Só assim logrou obter a super-maioria que lhe permitiu, a 23 de Março de 1933, fazer passar a Lei de Concessão de Plenos Poderes, que, na prática extinguiu a República de Weimar, suprimiu a oposição e lhe conferiu poder absoluto.
Até 30 de Janeiro de 1933, o futuro da Alemanha ainda estava em aberto, mas, a partir do momento em que o NSDAP assumiu os lugares-chave da governação, o deslizamento para o totalitarismo tornou-se praticamente inelutável. A conturbada sequência de eventos que vão de 30 de Março de 1930, com a tomada de posse do chanceler Heinrich Brünning, até ao dia 30 de Janeiro de 1933 é dissecada por Chapoutot com implacável lucidez, abundante documentação e sólida argumentação, evidenciando que o colapso final da República de Weimar às mãos dos nazis dificilmente teria sido conseguida sem a cooperação, em boa parte inconsciente, de uma “troupe” de políticos e governantes desprovidos de coluna vertebral, guiados pelo oportunismo, pela ambição e pela vaidade, enfeudados à defesa de grupos de interesse, destros na arte da mescambilha e da conjura e disponíveis para subverter as regras da democracia a fim de alcançarem e manterem o poder e os privilégios. Escreve Chapoutot que “é difícil imaginar quanto dos acontecimentos tão catastróficos como a ascensão dos nazis ao poder […] se deve a sussurros, vinganças pessoais e intrigas de bastidores, fomentadas por personagens servis e sem interesse, que brincavam à grande política, cheios de si próprios” (pg. 75).
Heinrich Brünning, c.1930
Os três chanceleres do “sistema”
Entre os políticos que mais contribuíram para o descrédito das instituições democráticas estão os três chanceleres que precederam Hitler – Heinrich Brünning, Franz von Papen (1 de Junho de 1932 a 3 de Dezembro de 1932) e Kurt von Schleicher (3 de Dezembro de 1932 a 30 de Janeiro de 1933). Todos eles faziam parte do “sistema” (Das System) que era, simultaneamente, o alvo da sanha do NSDAP e do KPD.
Num cartaz de 1932 do KPD lê-se “Basta deste sistema”
Nazis e comunistas nutriam profundo desprezo pelo sistema parlamentar dominado pelos partidos moderados, que acusavam de ser débil e ineficiente e de estar ao serviço, não do povo alemão, mas dos grandes empresários e proprietários rurais – como é usual nos partidos populistas de extrema-direita, o NSDAP envergava, em público, as vestes de adversário do Grande Capital, ainda que, em privado, se reunisse com este para lhe assegurar que não eram inimigos da livre iniciativa e da propriedade privada e para obter financiamentos.
Franz von Papen, 1933
Porém, apesar de fazerem parte do “sistema”, estes chanceleres não dispunham de maioria no Reichstag, pelo que governaram quase exclusivamente mediante “decretos de emergência”, estratagema só possível com a conivência do presidente Paul von Hindenburg, pelo que os seus governos foram apodados de “gabinetes presidenciais”.
Franz von Papen foi o mais calamitoso dos três: foi nomeado chanceler através de um “golpe de secretaria”, sob a forma de um decreto presidencial de Hindenburg (que, inexplicavelmente, se lhe afeiçoara), contra a vontade do Zentrum, que fora, até então, o seu partido (ainda que Papen se situasse na franja mais direitista), e agarrou-se ao poder com uma obstinação feroz, uma autoconfiança petulante e uma retórica grandiloquente. Esta atitude era completamente desligada da realidade, já que, a partir de certa altura, a soma dos resultados eleitorais dos partidos que o apoiavam pouco ultrapassava os 10% e, a 12 de Setembro de 1932, numa manobra parlamentar inepta, viu o seu Governo ser alvo de uma moção de censura que reuniu 512 votos a favor e 42 contra (o que levou Goebbels expôs a ilegitimidade da sua governação num artigo intitulado “O chanceler sem povo”). A perversão das regras democráticas atingira um ponto tal que nem esta moção, nem mais uma flagrante derrota nas eleições que convocou para Novembro de 1932, desalojaram Papen do poder – acabou por ser demitido pelo presidente Hindenburg, que, a 3 de Dezembro, nomeou para o seu lugar o arqui-intriguista Schleicher, que fora até então ministro da Defesa de Papen.
Kurt von Schleicher, 1932
Papen empreendeu, de imediato, diligências para regressar ao poder, quiçá acicatado pela ideia de desforrar-se da traição cometida por Schleicher, e iniciou negociações secretas com Hitler, propondo a este uma coligação em que Papen ficaria como vice-chanceler e Hitler obteria finalmente o ambicionado cargo de chanceler, que lhe fora sistematicamente negado apesar das maiorias parlamentares que o NSDAP obtivera em Julho de 1932 e Novembro de 1932. Hindenburg, que sempre recusara nomear Hitler para chanceler, cedeu à persuasão de Papen e ao conselho leviano de membros da sua entourage.
O gabinete que tomou posse a 30 de Janeiro de 1933: sentados, da esquerda para a direita, Hermann Göring, Adolf Hitler e Franz von Papen
Papen, como sempre animado pela insuflada opinião que tinha de si mesmo, presumiu que a inexperiência de Hitler lhe permitiria ser o verdadeiro chefe do novo gabinete, mas foi Hitler quem, num ápice, assumiu integralmente as rédeas da governação e remeteu Papen para um papel secundário, sobretudo após as eleições viciadas de 5 de Março de 1933 – ainda que se tenha mantido, formalmente, como vice-chanceler.
21 de Março de 1933: Hitler e Papen a caminho da primeira sessão do Reichstag após as eleições de 5 de Março
Papen ainda teve um débil assomo de rebeldia num discurso proferido na Universidade de Marburg, a 17 de Junho de 1934, em que apelou ao restabelecimento de algumas liberdades suprimidas pelo Governo; Hitler não gostou, mas como Papen ainda lhe dava jeito para manter uma aparência de legalidade, não o afastou. Na “Noite das facas longas” (30 de Junho de 1934), a purga nas hostes nazis que suprimiu as últimas ameaças de dissidência e consolidou o poder de Hitler, Papen foi poupado, mas passou pela humilhação de ser colocado durante vários dias em prisão domiciliária (alegadamente para sua protecção). A morte de Hindenburg, a 2 de Agosto de 1934, e a consequente acumulação em Hitler dos cargos de chanceler e presidente (tornada legal por uma oportuna alteração legislativa forçada por Hitler na véspera da morte do presidente), deixou Hitler com todos os trunfos na mão e Papen, reconhecendo-o, abandonou o posto de vice-chanceler a 7 de Agosto. Hitler colocou-o como embaixador em Viena (1934-38), posto em que intrigou em favor da anexação da Áustria pela Alemanha (Anschluss); uma vez esta concretizada, Hitler remeteu Papen para o pouco relevante papel de embaixador em Istambul (1939-44), que terminou quando a Turquia, vendo que a sorte da guerra se inclinava claramente para os Aliados, cortou relações diplomáticas com a Alemanha.
O venerando presidente
Paul Ludwig von Beneckendorff und Hindenburg (1847-1934) era, aparentemente, a mais lídima encarnação dos valores tradicionais germânicos, uma relíquia da glória imperial da Alemanha e um paradigma de probidade, respeitabilidade, prudência, lealdade, sensatez e conformidade às regras. Nasceu numa família aristocrática da Prússia Oriental; lutou na Guerra Franco-Prussiana de 1870; em 1914 foi promovido a marechal (Feldmarschall, o posto mais elevado da hierarquia militar) e colocado a comandar as forças alemãs na Frente Leste, onde obteve vitórias decisivas sobre os russos; em 1916 ascendeu a chefe de Estado Maior e aproveitou-se da frouxidão e alheamento do kaiser Wilhelm II (cujo interesse e conhecimento em termos militares se esgotava nos uniformes) para, em conjunto com o general Erich Ludendorff, assumir, na prática, a governação da Alemanha entre 1916 e 1918. Este homem com aura de herói nacional tinha-se reformado da vida militar em 1919 e foi eleito presidente em 1925 e reeleito em 1932.
Sob esta imponente fachada formal, ocultava-se outro Hindenburg, que “detesta os sociais-democratas nos quais vê […] ‘elementos anti-sociais’ […]; desconfia, por princípio e por formação simultaneamente protestante e bismarckiana, dos membros do centro católico (Zentrum), com excepção daqueles que decide distinguir e adoptar (Brünning, Papen) […]; abomina os sindicatos e tem um ódio particular aos comunistas. Repugna todas as tendências de modernização próprias da sociedade de Weimar, da emancipação feminina ao êxodo rural, das novas músicas ao cinema; e mantém uma desconfiança profunda em relação aos judeus e aos polacos. […] Tem como grande objectivo político e pessoal fazer surgir uma comunidade do povo (Volksgemeinschaft), cuja tradução política, aos seus olhos, é uma união das direitas, […] um gabinete nacionalista e conservador do arco patriótico, no Zentrum até aos nazis” (pg. 65-66).
O próprio Hindenburg confiou a um membro do seu círculo íntimo que o que pretendia era “um gabinete plenamente ‘antimarxista’ e ‘antiparlamentar’, ou seja, ‘sem negociações de coligação nem acordos’ e, sobretudo, sem sociais-democratas […] [uma vez que] ‘a economia e as finanças exigem, pelo menos durante algum tempo, o afastamento da influência social-democrata’” (pg. 37).
Hindenburg em 1927
Este suposto exemplo de rectidão moral colocara-se, em 1927, no bolso dos grandes empresários industriais, financeiros e agrários, ao aceitar destes um vultoso suborno (ou, usando palavras mais benevolentes, uma “liberalidade”): o latifúndio dos Hindenburg em Neudeck, na Prússia Oriental, que tinha sido arrestado por um banco, devido às dívidas contraídas pela família, e cuja titularidade fora, entretanto, adquirida mediante a quotização desses empresários. Como se isto não bastasse, a propriedade dos Hindenburg receberia depois, como aconteceu com outros latifúndios, subsídios de legalidade duvidosa, ao abrigo do programa Osthilfe, supostamente destinado a desenvolver a agricultura no leste do país.
Não tendo apreço pelo parlamentarismo nem pela democracia, Hindenburg aliou-se, primeiro a Brünning e depois a Papen, nenhum deles munido do apoio parlamentar mínimo para governar, para alterar a natureza do regime: “o poder já não reside no Reichstag, mas sim no palácio presidencial de Wilhelmstrasse” (pg. 143).
O chanceler Hitler e o presidente Hindenburg cumprimentam-se durante as cerimónias do Dia de Potsdam, a 21 de Março de 1933
A governação, exercida quase exclusivamente através de decretos presidenciais, passou a depender das simpatias e ódios de um octogenário ultraconservador, com uma “completa falta de lealdade ou de humanidade” (pg. 98), e aconselhado por uma camarilha de cortesãos, em que se destacava o seu filho, o coronel Oskar von Hindenburg (1883-1960), que, a partir da eleição do pai, em 1925, desempenhou, na prática as funções de seu ajudante-de-campo – Chapoutot descreve-o como “um imbecil, […] um oficial de papel, catapultado para os círculos do poder pela eleição paterna, que se dava ares de alta política, mas velava sobretudo […] pela renovação da propriedade familiar” (pg. 259).
Oskar von Hindenburg, c.1930
“Em última análise, é o rancor de von Papen, os assuntos familiares de Hindenburg e os conselhos mal inspirados do seu filho [Oskar] que conduzirão à nomeação de Hitler para a chancelaria” (pg. 75). A verdade é que o NSDAP atingira o seu cume nas eleições de Julho de 1932 e não só sofrera nas eleições de Novembro de 1932 – as últimas livres e justas que a Alemanha conheceu, antes de 1949 – uma quebra de dois milhões de votos e 24 deputados, como o partido dava sinais de perda continuada de popularidade e de crescimento de tensões internas. Como aponta Chapoutot, o revés eleitoral de Novembro de 1932 gerou no meio político alemão a ideia de que o NSDAP batera no tecto e entrara em crise: “a imprensa é unânime a constatar que ‘o partido está preso numa espiral de declínio’, como assinala o Vossische Zeitung de 5 de Dezembro [de 1932]” (pg. 211). Assim sendo, não era inevitável, nem sequer era expectável, que, menos de dois meses depois, o presidente Hindenburg estivesse a nomear Hitler chanceler.
Hindenburg numa ilustração de 1934 por Ludwig Hohlwein
O insigne constitucionalista
As maquinações que converteram a República de Weimar num regime presidencialista tiveram o respaldo de um dos mais eminentes juristas alemães, Carl Schmitt (1888-1985).
Em 1924, Schmitt manifestara “as maiores reservas relativamente aos poderes excepcionais e à ditadura do presidente do Reich”, quando este cargo era ocupado por Friedrich Ebert, um social-democrata, mas emitiu parecer favorável à atribuição de poderes excepcionais ao retintamente conservador presidente Hindenburg (pg. 37). Na sua Teoria constitucional (Verfassungslehre), de 1928, Schmitt “faz do presidente o único verdadeiro poder legítimo, em virtude da Constituição de 1919, cuja interpretação desvia num sentido plebiscitário e autoritário, […] [e] sustenta que, contra a democracia representativa – pela qual nutre as piores desconfianças, cada vez mais acentuadas com o tempo – o presidente encarna na Alemanha ‘a ideia de uma democracia directa’ […] Ele é concebido como um homem que reúne na sua pessoa a confiança de todo o povo, para lá das viseiras e dos limites das organizações e das burocracias partidárias’. […] É realmente o presidente do Reich que […] é o verdadeiro chefe não só do Estado, mas o chefe político do país” (Chapoutot, pg. 64-65).
Carl Schmitt, c.1929
No artigo “O protector da Constituição” (“Der Hütter der Verfassung”), publicado em 1929, “Schmitt concluiu toda a reflexão que desenvolvera ao longo dos anos 20 sobre o pluralismo parlamentar – nefasto, aos seus olhos – para lhe opor a figura presidencial, encarnação, por intermédio do sufrágio, da totalidade do povo” (pg. 105). Nele, Schmitt “deplora ‘a dispersão política dos partidos, devida principalmente ao modo de escrutínio proporcional’, que transforma o Parlamento ‘num espelho dos interesses sociais e económicos e das suas contradições’. […] [Assim sendo, cabe ao presidente] ‘salvar a unidade política de todo o povo de um Parlamento que se tornou o instrumento de tendências pluralistas’” (pg. 106).
Berlim, Agosto de 1930: campanha para as eleições federais do Zentrum, o partido católico de centro
Esta concepção do parlamento como lugar de dissensão, desordem, conflito e tagarelice estéril tem tido muitos adeptos, sobretudo entre governantes autocráticos e políticos populistas (incluindo os do nosso tempo), ainda que usem, invariavelmente, linguagem menos refinada e raciocínios menos subtis do que o Dr. Schmitt, já que as massas aderem mais facilmente às promessas de “fazer a limpeza de que o país precisa!” e de “acabar com a bandalheira!” e apoiam (com um fervor que, há que reconhecê-lo, contagia eleitores de todos os quadrantes políticos) a ideia de reduzir substancialmente o número de deputados de uma instituição à qual votam profundo desprezo e na qual não depositam confiança.
Schmitt apoiou Papen, depois, Schleicher, e, perante o triunfo de Hitler, mudou mais uma vez de campo: a 1 de Maio de 1933 aderiu ao NSDAP e foi recompensado com os cargos de presidente da Associação Nacional-Socialista dos Juristas Alemães e de conselheiro do Estado da Prússia e passou a ser visto como “protegido” de Hermann Göring e “confidente” de Hans Frank (então ministro da Justiça da Baviera, mais tarde Governador-geral da Polónia).
Schmitt justificou a purga da Noite das Facas Longas (30 de Junho de 1934), em que foram assassinados, entre outros, o ex-chanceler Schleicher, que ele apoiara e de quem fora amigo durante longos anos, com o artigo “O Führer protege a lei” (“Der Führer schtüzt das Recht”), que branqueia os sangrentos eventos como uma acção indispensável para punir a deslealdade dos assassinados e assegurar a unidade política do povo alemão; celebrou as Leis Raciais de Nuremberga (1935), que proibiram casamentos e relações sexuais entre alemães e judeus e restringiram os direitos cívicos dos segundos (restrições expandidas, pouco tempo depois, a “ciganos, negros e seus bastardos”), como “uma Constituição libertadora”; e proferiu, em 1936, a conferência “Judaísmo nos estudos jurídicos”, em que reivindicou que os textos legais deixassem de citar autores judeus, pois “temos de libertar o espírito germânico de todas as imposturas”.
“O Führer protege a lei”: Artigo de Carl Schmitt no n.º de 1 de Agosto de 1934 do Jornal dos Juristas Alemães
No final de 1936, Schmitt perdeu algum favor junto da hierarquia nazi, por razões pouco claras (houve quem o acusasse de “oportunismo” e quem recordasse o seu empenhado apoio a Schleicher e a sua tardia filiação no NSDAP), o que o forçou a abandonar a presidência da Associação Nacional-Socialista dos Juristas Alemães e todos os cargos no NSDAP. Todavia, manteve-se como professor na Universidade de Berlim e conselheiro do Estado da Prússia. Este recheado curriculum justifica que a posteridade o recorde como “principal ideólogo do nazismo” e “Jurista Supremo do III Reich”, mas, no presente contexto de ascensão da extrema-direita, Schmitt está em franco processo de reabilitação e os intelectuais conservadores não têm pejo em apontá-lo como referência.
A elite empresarial
O escopo temporal de Os Irresponsáveis termina a 30 de Janeiro de 1933, com a nomeação de Hitler como chanceler. Já se mencionou, no capítulo “Uma escolha, um cálculo e uma aposta”, que um passo decisivo para a tomada completa do poder pelos nazis foram as eleições que Hitler convocou para 5 de Março desse ano, e que deram ao NSDAP 43.9% dos votos e 288 deputados. Falta dizer que esse triunfo nas urnas foi alcançado graças a 1) uma campanha de violência e da intimidação contra os militantes de centro, esquerda e extrema-esquerda exercida pelas milícias nazis, que contaram com a inacção ou com a colaboração activa das forças da autoridade sob controlo de governantes nazis; e a 2) uma campanha de propaganda maciça, que teria sido impossível a um NSDAP com a tesouraria esgotada pelas sucessivas eleições de 1932 (duas para o Reichstag, uma presidencial, com duas voltas), não fossem os fundos providenciados pela elite empresarial e financeira alemã.
Fritz Thyssen, magnata do aço e um dos principais financiadores do NSDAP
Este financiamento foi negociado, a 20 de Fevereiro de 1933, numa reunião secreta entre Hitler e outros cabecilhas do NSDAP e 25 grandes empresários e banqueiros alemães, um evento que foi subtilmente envolto em excipiente ficcional por Éric Vuillard, em A ordem do dia (L’ordre du jour, 2017), sobre o qual se escreveu em O caminho para a II Guerra Mundial: Como o impensável se tornou inevitável.
Perante os representantes de uma fracção apreciável do PIB alemão – como Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, um dos nomes cimeiros da Friedrich Krupp AG, um colosso da indústria pesada (com particular relevância na produção de armas) e o maior grupo empresarial da Europa; Georg von Schnizler, do conglomerado químico IG Farben; Fritz von Opel, fundador do fabricante automóvel Opel; ou Günther Quandt, com interesses nas áreas da mineração, indústria química, metalomecânica e fabrico de baterias e de automóveis – Hitler declarou que “não é possível manter a iniciativa privada na era da democracia”, acusou esta de ter permitido que “o comunismo se infiltrasse na mente do povo alemão” e concluiu que não havia outra solução que não fosse o esmagamento completo do comunismo, o que requereria que ele assumisse o controlo absoluto do Estado. É legítimo presumir que os empresários e banqueiros endossaram o diagnóstico e o plano de Hitler, uma vez que providenciaram meios para o pôr em prática.
O discurso de Hitler a 20 de Fevereiro foi apenas uma versão mais dramática e urgente do que ele andava a dizer em privado às elites empresariais e financeiras alemãs, ao mesmo tempo que nos seus discursos às massas invectivava o Grande Capital. É disto exemplo o discurso proferido por Hitler a 26 de Janeiro de 1931, no Clube da Indústria de Düsseldorf, perante uma sala apinhada (a ponto de ter sido necessário instalar um sistema de reprodução sonora numa sala adjacente, de forma poder acolher todos os magnatas sequiosos de ouvir o líder do NSDAP), a que Chapoutot dá amplo destaque: “Depois de ter demonstrado que o patronato e os nazis partilham o mesmo universo mental […], os mesmos valores […] e as mesmas referências ideológicas (oposição de princípio à democracia, darwinismo social, racismo), Hitler abre um horizonte de prosperidade e de lucros potencialmente infinito: com o rearmamento da Alemanha e o projecto de um império colonial no próprio solo europeu, o NSDAP convida a uma autêntica orgia de dividendos” (pg. 196).
Gustav Krupp é condecorado por Hitler com a Insígnia de Ouro do NSDAP, em reconhecimento pelos serviços prestados ao nazismo e ao III Reich; a condecoração foi atribuída em 1940, numa altura em que Gustav já cedera, por motivos de saúde, a liderança do império Krupp ao filho Alfred
O magnata da imprensa
O Partido Nazi ocupa um lugar tão preponderante na história política da República de Weimar, que acontece esquecermo-nos de que não era o único partido de extrema-direita alemão. Após o final da I Guerra Mundial tinham, surgido vários partidos, grupúsculos e organizações neste quadrante do espectro político, mas a maior parte deles nunca teve grande expressão e, por volta de 1930, a extrema-direita representada no Reichstag concentrava-se no NSDAP e no Partido Popular Nacional Alemão (Deutschenationale Volkspartei ou DNVP), um partido ultraconservador, monárquico, anti-semita e que não reconhecia o Tratado de Versailles nem a Constituição de Weimar, mas era, ainda assim, mais “moderado” do que o NSDAP. Na verdade, durante a primeira parte da sua história, o DNVP situou-se na direita, tendo-se radicalizado e ganho um cariz mais autoritário a partir de 1928, quando a sua liderança foi assumida por Alfred Hugenberg (1865-1951).
Alfred Hugenberg, 1933
Após ter presidido ao conselho de administração da Krupp entre 1909 e 1918, Hugenberg criara “um império mediático sem precedentes na Alemanha”, que incluía os 26 jornais do grupo August-Scherl Verlag, a agência publicitária Allgemeine Anzeigengesellschaft, a produtora de cinema Universum-Film-AF (UFA), a produtora de actualidades cinematográficas Deulig, a agência noticiosa Telegraphen-Union e a produtora de conteúdos Wirtschaftsstelle für die Provinz (WiPro), uma linha de montagem de “editoriais, artigos e reportagens prontos a usar […] que o grupo envia para os títulos de imprensa assinantes deste serviço”. Estima-se que cerca de 1600 jornais alemães recorriam aos serviços da “fábrica de notícias” de Hugenberg, permitindo a este transformar “paciente e obstinadamente o espaço e o debate público alemães em incubadoras de ideias de extrema-direita durante toda a década de 1920” (pg. 77).
Hugenberg, que fazia parte do DNVP desde a sua fundação, foi escolhido para liderar o partido em 1928, após este ter obtido um mau resultado nas eleições para o Reichstag: 14.2% dos votos (73 deputados), quando em 1924 alcançara 20.5% (103 deputados). Porém, os resultados sob a liderança de Hugenberg foram ainda mais decepcionantes, oscilando entre 5.9% (37 deputados), em Julho de 1932, e 8.7% (51 deputados) em Novembro de 1932.
Campanha do DNVP às eleições para o Reichstag de 1930, Berlim-Neuköln. O cartaz na parte inferior alerta para a ameaça do capitalismo judaico
A deslocação do DNVP para a extrema-direita pode tê-lo feito perder votos, mas aproximou-o do NSDAP (que, entretanto, crescera de 2.6% dos votos em 1928 para valores acima de 30% em 1932) e conferiu-lhe relevância política: após os dois partidos terem integrado a extremamente efémera Harzburger Front, que só existiu durante o dia 11 de Outubro de 1931, voltaram a aliar-se no gabinete, liderado por Hitler, que foi empossado a 30 de Janeiro de 1933, cabendo a Hugenberg as pastas da Economia e da Agricultura. As eleições (adulteradas) de Março de 1933 reforçaram apreciavelmente o NSDAP, mas deixaram o DNVP praticamente na mesma – 8.0% de votos e 52 deputados – pelo que o estatuto de “super-ministro” de Hugenberg poderia parecer um acto de invulgar generosidade pela parte de Hitler.
O gabinete do chanceler Hitler, 30 de Janeiro de 1933: Hugenberg é o último a contar da direita, de pé
Tal como Franz von Papen, Hugenberg aceitara aliar-se com Hitler crendo que seria capaz de manipulá-lo e de concretizar a ambição de ser o “ditador económico” da Alemanha. Em vez disso, foi, como Papen, reduzido à irrelevância e a 29 de Junho de 1933 foi constrangido a demitir-se – o DNVP tinha sido dissolvido dois dias antes e muitos dos seus membros proeminentes transferiram-se para o NSDAP.
Até ao fim do III Reich, Hugenberg limitou-se a desempenhar, na qualidade de deputado não-inscrito e de “convidado do NSDAP”, uma função decorativa num Reichstag esvaziado de poder e de sentido, reduzido a servir de palco ocasional a discursos do Führer. Como reconhecimento pelos seus serviços como “idiota útil”, Hugenberg foi distinguido em 1943 com o Escudo da Águia do Reich Alemão.
Quando os impérios dos media se colocam ao serviço da ideologia
Chapoutot vê em Hugenberg um “precursor de figuras contemporâneas como Rupert Murdoch, Silvio Berlusconi ou Vincent Bolloré, esses grande patrões da imprensa e da televisão que puseram a sua fortuna ao serviço de uma ambição política ou de um projecto antidemocrático” (pg. 77).
Quando Hugenberg construiu o seu império de media, a imprensa já tinha muitos anos de experiência de interferência nas decisões políticas, manipulação da opinião pública e promoção de ideários populistas – é disso exemplo extremo a actuação dos jornais tablóides dos magnatas William Randolph Hearst e Joseph Pulitzer na viragem dos séculos XIX-XX. O Hugenberg-Konzern (o império dos media de Hugenberg) representou um novo estádio evolutivo nesta relação maligna, sobretudo por o seu líder ter sido dos primeiros a aperceber-se das vastas potencialidades da produção industrial de “conteúdos” e do funcionamento integrado das várias empresas de um conglomerado dos media para a doutrinação das massas e o controlo da sociedade. Todavia, ainda que tenha contribuído para tornar a política alemã mais polarizada, confrontacional e sensacionalista e para promover, genericamente, ideias de extrema-direita, o Hugenberg-Konzern revelou-se impotente para incrementar os modestos resultados eleitorais do partido liderado pelo seu proprietário. Pior ainda, após a tomada do poder por Hitler e a dissolução do DNVP, as empresas do Hugenberg-Konzern foram inteiramente colocadas, como todos os restantes media alemães, ao serviço da máquina de propaganda do III Reich, acabando, na prática, por serem absorvidas por esta (nomeadamente pela Eher-Verlag, o grupo editorial do NSDAP).
Alfred Hugenberg, acompanhado por figuras maiores do NSDAP (Robert Ley, Joseph Goebbels e Walther Funk, da esquerda para a direita), nas comemorações do 25.º aniversário da UFA, na sala-capitânia da empresa em Berlim, 4 de Março de 1943
Foi Silvio Berlusconi quem teve o (duvidoso) mérito de ser o primeiro magnata dos media a conseguir usar eficazmente o seu grupo empresarial, a Mediaset, para se alcandorar ao cargo de primeiro-ministro (que ocupou em 1994-95, 2001-06 e 2008-11) e para se tornar numa das mais influentes figuras da vida política italiana durante mais de três décadas.
Quando se examina a evolução das relações malsãs entre grandes grupos de media e política nas últimas décadas, é discernível uma tendência para o favorecimento de ideários populistas de direita e de extrema direita. No que respeita a Berlusconi, ainda que o partido que fundou e liderou, o Forza Italia, se situasse, formalmente, no centro-direita, as sucessivas alianças de Berlusconi com partidos de extrema-direita – Lega Nord (depois, só Lega), Alleanza Nazionale e Fratelli d’Italia – levaram, por um lado ,à “normalização” destes e, por outro, a que a Forza Italia incorporasse elementos do ideário da extrema-direita.
Vincent Bolloré não frequenta os palcos da política, mas tem revelado uma visível inclinação para a extrema-direita. Bolloré é o 9.º homem mais rico de França e CEO do conglomerado Bolloré S.E., cuja origem remonta a 1822 e cuja actividade se reparte pelo fabrico de películas plásticas, pela agro-indústria, pelas baterias e mobilidade eléctrica, pelo transporte e armazenamento de combustíveis fósseis e pelos mass media, sector em que entrou em 2004 com a aquisição da história agência noticiosa Havas.
Vincent Bolloré, 2013
A Bolloré S.E. é a maior accionista do megaconglomerado de media, cultura e entretenimento Vivendi, cujo sector de televisão e cinema está sob o chapéu do grupo Canal+. Um dos canais de TV mais relevantes deste grupo é o CNews, surgido em 2017, que é conhecido pela sua linha editorial sectariamente conservadora e nacionalista e fortemente empenhada nas “guerras culturais”, o que tem levado a que o canal seja visto como um análogo francês da Fox News. O CNews foi elogiado por Benjamin Netanyahu, em 2024, por aquele canal “combater pela civilização judaico-cristã, que tanto deu ao mundo”, e tem concedido amplo tempo de antena a Éric Zemmour, fundador e líder do partido Reconquête, que acolhe os eleitores que entendem que o Rassemblement National de Le Pen/Bardella é demasiado “soft” com os imigrantes, o wokismo e o Islão.
O favorecimento da extrema-direita pelas empresas do império Bolloré levou, há poucas semanas, a que mais de uma centena de escritores publicados pela Grasset (pertencente ao Louis Hachette Group, o 6.º maior grupo editorial do mundo, controlado por Bolloré) anunciassem publicamente a sua desvinculação da histórica editora, por “recusarem ser reféns de uma guerra ideológica que procura impor o autoritarismo na cultura e nos media”.
Quando Nicolas Sarkozy foi eleito presidente de França, em 2007, Vincent Bolloré colocou à disposição do chefe de Estado o seu jacto e o seu iate Paloma (na foto)
O apoio de Rupert Murdoch (lugar 112 no ranking de multimilionários da Forbes) e do seu império de media ao conservadorismo vem pelo menos da década de 1980, quando providenciou cobertura favorável a Margaret Thatcher, mas também o trabalhista Tony Blair contou com o seu apoio. Nos EUA, os favores de Murdoch contribuíram, em 1980, para a eleição do presidente Ronald Reagan e, em 2006, para a reeleição da senadora Hillary Clinton, mas este equilíbrio perdeu-se a partir do momento em que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, em 2016. Desde então, a Fox News – o canal de TV por cabo com maior audiência dos EUA – tem vindo a mostrar-se inequivocamente alinhado com o movimento MAGA (comprova-o – se tal fosse necessário – o facto de duas dúzias de altos cargos da Administração Trump 2.0 terem sido preenchidos com comentadores da Fox News). Entretanto, dada a provecta idade de Rupert Murdoch (nasceu há 95 anos), a sua sucessão e a partilha do seu império têm gerado conflitos entre os herdeiros, com acesas disputas em torno dos activos mais valiosos e influentes: a News Corp (The Wall Street Journal, New York Post e um longuíssimo etc.) e a Fox Corporation (Fox News, Fox Business, Fox Sports, etc.). Em Setembro de 2025, um acordo entre os litigantes colocou a News Corp e a Fox Corporation sob o controlo total do filho mais velho de Rupert, Lachlan Murdoch, que é visto como o mais conservador dos irmãos e como mais conservador do que o pai (embora conste que não tem simpatia por Trump).
O historial de promiscuidade entre o império Murdoch e o poder atravessa mais de quatro décadas: Rupert Murdoch com Ronald Reagan, Sala Oval da Casa Branca, 18.01.1983
Em Agosto de 2025, um mês antes do desfecho da “Sucessão Murdoch”, a Skydance Media, de David Ellison, adquirira a Paramount Global (que inclui, entre muitas outras empresas, a CBS), dando origem a um supergigante dos media, a Paramount Skydance, numa operação financiada pelo pai de David, o multimilionário Larry Ellison (fundador e líder da Oracle e 5.º homem mais rico do mundo). Um mês depois, já a voracidade de David Ellison se voltava para outro gigante, o grupo Warner Bros. Discovery (que inclui, entre muitas outras empresas, a CNN). Após uma disputa por esta “presa” com a Netflix, Ellison acabou por levar a melhor: a 27 de Fevereiro foi anunciado que a Paramount Skydance iria comprar a Warner Bros. Discovery por 110.000 milhões de dólares, mais uma vez numa operação realizada com a cobertura financeira dos fundos bolsos do “papá” Ellison. Entretanto, em Janeiro de 2026, por pressão da Administração Trump, a operação nos EUA da rede social TikTok tinha sido adquirida pela TikTok USDS Joint Venture LLC, um consórcio cujos maiores accionistas são, além da chinesa ByteDance (20%), que era, originalmente, a detentora de 100% do capital; a Oracle (15%); o fundo de investimento Silver Lake (15%); e a MGX (15%), o fundo de investimento estatal dos Emirados Árabes Unidos na área da IA.
O secretário de Estado Mike Pompeo (da primeira Administração Trump) e Larry Ellison (à direita), em 2020
A Federal Communications Commission (FCC), homóloga americana da “nossa” ERC , não tem levantado obstáculos a esta inaudita concentração de media nas mãos de Larry e David Ellison. Não é de estranhar, já que a FCC, ainda que sendo, em teoria, um órgão independente de supervisão, é presidida por Brendan Carr, cuja sujeição a Donald Trump é tal que este não tem pejo em instrui-lo, publicamente, a cancelar ou não renovar as licenças das empresas de media que incorrem no seu desagrado (ver capítulos “Em nome da liberdade de expressão” e “Neutralizando os cães de guarda” in Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 4: Liberdades). Por outro lado, desde 2016 que Larry Ellison se assumiu como um dos mais generosos financiadores do Partido Republicano e, em particular, de políticos e de iniciativas da MAGAsfera; tem também concedido vultosos donativos às Forças Armadas israelitas (através da instituição de caridade americana Friends of the Israel Defense Forces) e é amigo pessoal de Benjamin Netanyahu. Após a aquisição da Paramount pela Skydance, David Ellison tem vindo a introduzir mudanças na CBS de forma a que ela se torne menos incómoda para Trump e o presidente americano já pediu publicamente a Ellison que, uma vez concretizada a aquisição da Warner Bros. Discovery, faça o mesmo com a CNN, que é um dos mass media que mais o abespinha. Donald Trump tem expressado publicamente quanto valoriza a amizade que o une a Larry e David Ellison – e Larry parece também prezar essa relação, pois o patrão da Oracle, cuja “residência principal” se situava em Woodside, na Califórnia, adquiriu uma mansão de 173 milhões de dólares em Manalapan, Palm Beach (a mais vultosa transacção imobiliária da história da Florida), para estar mais perto do seu amigo.
Jeff Bezos, fundador da Amazon e 3.º ou 4.º homem mais rico do mundo (consoante o dia e as cotações da bolsa), posou, durante algum tempo, como paladino da liberdade de expressão e adquiriu, em 2013, o The Washington Post, supostamente para assegurar a continuidade do jornalismo independente. Em 2017, o jornal passou a exibir no cabeçalho a frase “A democracia morre na escuridão”, mas, desde o final de 2024, Bezos tem vindo a cercear a liberdade editorial e a moldar o jornal à sua mundividência – por exemplo, em Fevereiro de 2025, comunicou que a secção de opinião passaria a publicar apenas artigos que promovam “as liberdades individuais e o mercado livre”. A reorientação imposta ao The Washington Post coincide com a aproximação de Bezos a Trump, quiçá ditada primordialmente pelos vultosos contratos que têm sido negociados entre o Governo dos EUA e a Amazon Web Services (AWS).
A segunda tomada de posse de Donald Trump incluiu um refulgente friso de tecnoplutocratas, visível no canto superior direito desta foto: da direita para a esquerda, podemos ver Elon Musk, Sundar Pichai (Google), Jeff Bezos, Lauren Sanchez (a esposa de Bezos) e Mark Zuckerberg
Como prova mais conspícua da crescente deferência de Bezos para com Trump temos Melania (2026), um pseudo-documentário que tenta arduamente persuadir o espectador de que o frivolo e árido quotidiano de uma mulher-troféu é um assunto fascinante. O filme custou à Amazon MGM Studios 40 milhões de dólares (28 milhões dos quais pagos directamente à “Primeira Dama”), mais 35 milhões de dólares para promoção, o que faz dele, por larga margem, o documentário mais caro de sempre, gerou apenas 17 milhões de receitas, mas o prejuízo é irrisório perante o valor dos contratos actuais e potenciais com a AWS.
[Trailer do documentário Melania (2026): uma “liberalidade” de 40 + 35 milhões de dólares, com os cumprimentos de Jeff Bezos:]
Finalmente, há que dar ênfase a um tipo de mass medium que, no tempo de Alfred Hugenberg, não só não existia como nem sequer aflorava na mente dos pensadores mais imaginativos e audazes: as redes sociais. É nelas que, cada vez mais, se trava o confronto político (ainda que não o debate político) e se decidem eleições, já que um número crescente de habitantes do planeta, incitados a desconfiar da idoneidade dos mass media tradicionais, etiquetados pelos próceres da extrema-direita como “jornalixo” ou “fake news” (ver capítulo “Os media tradicionais sob suspeição” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital), tem vindo a elegê-las como fonte preferencial, ou até exclusiva, de “informação”. Acontece que as redes sociais – pelo menos aquelas que cativam maior número de utilizadores – são a antítese da independência, da transparência e da sensatez, pois são controladas por tecnoplutocratas sem escrúpulos, cujos principais interesses são o lucro, a propalação do seu ideário e a manutenção de boas relações com governantes com instintos autocratas, e são moldadas por algoritmos que favorecem o conflito, o tribalismo, o fanatismo, o sensacionalismo, o relativismo ontológico e a desinformação – sem surpresa, estas redes têm desempenhado papel preponderante no florescimento do populismo de extrema-direita (ver capítulo “Turbas e redes sociais” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital) e capítulos 4 a 11 de História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais).
[Jordan Bardella, presidente do Rassemblement National desde 2022, é o político francês com maior número de seguidores (2.3 milhões) no TikTok e, por razões que a filosofia política não consegue explicar, este é o seu vídeo com maior número de visualizações (2.7 milhões) no YouTube:]
O porta-estandarte da civilização ocidental
Enquanto a capa da edição original de Os Irresponsáveis segue o figurino sóbrio e minimalista da prestigiada colecção NRF Essais, da Gallimard, que não admite imagens, a edição portuguesa recorreu a um detalhe de uma das mais espectaculares criações da propaganda nazi. Como é usual na indústria livreira, em Portugal e no resto do mundo, a consideração pelos pintores, ilustradores e fotógrafos é escassa e os “bonecos” são apenas um ingrediente anódino e fungível que se adquire a um banco de imagens, ou se extrai do acervo de imagens pertencentes ao domínio público, a fim de confeccionar o “produto livro”, pelo que as fichas técnicas raramente creditam o título, o autor e a data da imagem usada na capa, embora costumem creditar o designer gráfico que concebeu a capa – e é o que acontece neste caso.
A imagem em apreço é “O porta-estandarte” (Der Bannertrager, 1934-36), da autoria de Hubert Lanzinger, pintor e escultor austríaco que hoje é recordado quase exclusivamente por este quadro.
“O porta-estandarte”, de Hubert Lanzinger
Lanzinger estudou entre 1901 e 1908 na Academia de Belas-Artes de Viena – a mesma a que o jovem (e pouco talentoso) Hitler se candidatou, sem sucesso, em 1907 e 1908 – e, a partir do início dos anos 30, orientou a sua produção para obras em sintonia com a propaganda nazi.
Para a composição deste quadro, a formação académica de Lanzinger levou-o a buscar inspiração na gravura “O cavaleiro, a Morte e o Diabo” (1513), de Albrecht Dürer, que, em 1933, tinha ganho especial notoriedade nos círculos nazis, por Willy Liebel, o presidente da câmara de Nuremberga, ter oferecido uma preciosa impressão original a Hitler, por ocasião do famoso congresso/liturgia do NSDAP que tinha lugar anualmente naquela cidade; na ocasião, Liebel justificara a escolha equiparando Hitler a um “cavaleiro sem temor nem mácula”.
“O cavaleiro, a Morte e o Diabo”, de Dürer
“O porta-estandarte” foi revelado ao público na Grande Exposição de Arte Alemã (Große Deutsche Kunstausstellung) que teve lugar em Munique, em 1937, e agradou imenso a Hitler, que o adquiriu e manifestou intenção de exibi-lo no Führermuseum, um museu colossal, destinado a albergar os expoentes da “arte ariana”, que pretendia erguer em Linz, a cidade da sua juventude. Os eventos não seguiram o curso previsto por Hitler, o Führermuseum nunca foi construído, o Reich de Mil Anos terminou abruptamente em 1945 e “O porta-estandarte” foi confiscado pelo exército dos EUA, não sem que antes um soldado americano tivesse golpeado o rosto de Hitler com uma baioneta (deixando marca ainda hoje visível).
Entretanto, em 1941, a revista americana Life reproduzira o quadro nas suas páginas, com o comentário: “É duvidoso que Hitler alguma vez tenha montado a cavalo”. A alfinetada era, provavelmente, certeira: ao contrário dos generais e outras altas patentes do III Reich, provenientes maioritariamente de famílias “com pergaminhos” e que dominavam, desde jovens, a arte equestre, não há registo de que Adolf Hitler, filho de um modesto funcionário alfandegário, terminantemente avesso ao exercício físico e que cumprira serviço militar numa unidade de infantaria, primeiro como soldado raso, depois como Gefreiter (um furo abaixo de cabo), alguma vez tenha tentado equilibrar-se em cima de uma sela (as funções de estafeta desempenhadas na Flandres foram desempenhadas a pé ou de bicicleta).
Mas a função da propaganda é criar ficções convenientes e inspiradoras, independentemente da sua plausibilidade, e para os efeitos da mundividência nazi, a ideia de Hitler como “cavaleiro sem temor nem mácula”, reincarnação moderna dos heróicos cavaleiros teutónicos que tinham levado o cristianismo e a civilização aos territórios semibárbaros da Europa de Leste, não poderia ser mais adequada (quiçá Hitler, entusiasta da ópera de Wagner, tenha também visto no quadro uma alusão a Lohengrin, o cavaleiro do Santo Graal). Lanzinger teve o cuidado de conferir a Hitler uma postura muito erecta e rígida e uma expressão de determinação firme (para não dizer fanática) e de evitar dotar a armadura e os arreios da montada de qualquer adorno. A excepção a esta austeridade é a bandeira, que basta para definir o espírito e a missão deste Teutão moderno, cujos inimigos são, não o paganismo, mas o bolchevismo e a judiaria internacional (que, para os nazis, eram a mesma coisa).
A Cruzada Prussiana: O Sacro Imperador Germânico Frederico II dá ordem, em 1226, aos cavaleiros teutónicos para a conquista da “Prússia”, correspondente hoje ao nordeste da Polónia, aos Estados Bálticos e ao oeste da Bielo-Rússia. Quadro por Peter Janssen (1844-1908)
O messianismo, sobretudo na vertente da exaltação do líder providencial que irá devolver a nação à sua grandeza pretérita (por contraste com a ruína presente, que é obra dos “políticos” e dos “parasitas”), é uma das marcas do nazismo (e do fascismo italiano), que foi recuperado pela extrema-direita do século XXI. É certo que o “culto do líder” foi frequente nos regimes totalitários de extrema-direita e de extrema-esquerda ao longo do século XX e ainda tem hoje uma das suas mais aberrantes manifestações na república comunista hereditária da Coreia do Norte, mas era raro ou muito atenuado nas democracias liberais. O século XXI tem, porém, vindo a assistir à emergência, em regimes democráticos, de líderes de partidos de extrema-direita que assumem posturas messiânicas, cultivam uma imagem de determinação indómita e intransigência e privilegiam uma comunicação grandiloquente e histriónica; a fim de seduzir o eleitorado mais conservador e temente a Deus, alguns afadigam-se em simulacros de devoção, salpicam o discurso com vagas alusões de cariz religioso e pretextam ter abraçado a política, não por motivação rasteira, mas por injunção divina.
O exemplo mais extremo e exuberante desta tendência é Donald Trump, que não só assume a pose messiânica como se tem comparado explicitamente com Jesus – associação que também tem sido feita por vários dos seus apaniguados (incluindo a sua “orientadora espiritual”, Paula White). O atentado de que foi alvo num comício em Butler, Pennsylvania, a 13.07.2024, consolidou a imagem de Trump como “ungido de Deus”, salvo miraculosamente das balas assassinas por intervenção angelical.
A máquina de merchandising da Trump Organization e a máquina de propaganda da MAGAsfera (é difícil perceber onde acaba uma e começa a outra) têm potenciado (e explorado) a idolatria em torno de Trump, produzindo uma torrente de imagens que o representam em fatiota de lycra, musculatura hipertrofiada e pose de super-herói; exibindo os seus dotes como boxeur, piloto de combate, maestro, motociclista, astronauta ou guitarrista; repelindo as hordas de assassinos, violadores e psicopatas vomitados pelas prisões e pelos hospícios de todo o mundo, rumo à Terra da Oportunidade; socorrendo os desvalidos; curando os enfermos; protegendo os cristãos; cavalgando na pradaria; combatendo o crime; expulsando os corruptos de Washington; salvando a civilização ocidental dos antifa e dos “radical left lunatics”. A referência estética desta iconografia não é, claro, Dürer ou outros mestres clássicos, mas as pagelas, os catecismos, os comic books de super-heróis e os vídeo-jogos. Algumas destas imagens são criadas, por iniciativa própria, por émulos tardios de Lanzinger (sem o métier deste), como é o caso de Jon McNaughton, um admirador de Trump que lhe tem dedicado uma torrente de obras (ver galeria); outras foram fabricadas expressamente para os Trump Digital Trading Cards (uma colecção de“cromos” virtuais, vendidos a 99 dólares cada) e outras mescambilhas, virtuais ou com existência física, destinadas a “tosquiar” o rebanho MAGA.
A facilidade de gerar imagens através de uma simples “encomenda” (prompt) dirigida a um programa de inteligência artificial veio dar a cada membro da MAGAsfera, por pouco talento e sensibilidade que tenha para as artes, a possibilidade de contribuir para a galeria de figurações messiânicas de Donald Trump, que o próprio, embevecido com a devoção dos seus fiéis e com a forma extremamente lisonjeira como é representado, não hesita em exibir ao mundo na sua conta na Truth Social.
Imagem gerada por IA, colocada por Trump na Truth Social a 12.04.2026 e retirada pouco depois, após comentários negativos, alguns deles vindos da MAGAsfera
Qualquer semelhança com a realidade actual…
Na contracapa de Os Irresponsáveis, por cima do blurb, lê-se, em destaque: “Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”. É uma frase enigmática num livro de divulgação histórica sério e factual, mas adivinha-se que o editor pretenderia dizer seria “Qualquer semelhança com a realidade actual é pura coincidência”, ou seja, chamar a atenção, com ironia, para os paralelos entre os eventos na Alemanha de 1930-33 e o presente momento político em muitas democracias ocidentais.
Às “coincidências” que já foram assinaladas nos capítulos anteriores, podem somar-se estas:
● A governação mediante decretos presidenciais que vigorou na Alemanha no período em análise em Os Irresponsáveis (de Março de 1930 a Janeiro de 1933), que correspondeu aos mandatos dos gabinetes liderados por Brünning, Papen e Schleicher, que contou com a cumplicidade do presidente Hindenburg e que remeteu o Reichstag à irrelevância, tem afinidades com a governação mediante decretos presidenciais (“executive orders”) que tem vigorado nos EUA desde o início do segundo mandato de Trump e que tem remetido o Congresso à irrelevância (no primeiro ano do seu segundo mandato, Trump assinou 225 decretos presidenciais, contra 220 em todo o primeiro mandato). A deriva do regime político nos EUA em direcção ao presidencialismo é uma tendência antiga que se intensificou nos mandatos de Trump e que tem contado, em várias ocasiões, com a anuência ou a complacência do Supremo Tribunal (ver capítulo “Interlúdio jurídico: O presidente-imperador” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital).
Há quem, enfadado com o que percepciona como a cacofonia, a atrição, a tergiversação, a lentidão, o imobilismo e a inoperância dos regimes parlamentares, acolha com agrado a tomada do poder por “homens fortes”, que descartam “formalismos”, dispensam “cortesias”, atropelam princípios e subvertem leis – as suas decisões intempestivas e erráticas criam uma ilusão de movimento, um simulacro de progresso, que impressiona algumas almas, ainda que, feitas as contas, corroam a democracia, dividam a sociedade e representem um retrocesso para o país e para o mundo.
Um dos 26 decretos presidenciais assinados por Trump a 20.01.2025, o primeiro dia do seu segundo mandato
● Os nazis fizeram do combate ao “bolchevismo cultural” um dos seus cavalos-de-batalha, denunciando a “tentativa de enfraquecimento e efeminação da nação, desvirilizada pelos mimos permanentes de um Estado paternalista, que […] não cessa de tratar, cuidar e embalar uma população habituada, não a lutar, mas a receber passivamente a chucha das prestações sociais” (pg. 134). Esta retórica não era exclusiva dos nazis e também Papen se encarniçou contra este “papão”, que usaria a escola pública para “a difusão do Kulturbolschewismus, da homossexualidade ao feminismo, passando pela arte moderna e pela vida nocturna de Berlim”, em vez de formar “cristãos, membros fiéis do nosso povo e cidadãos trabalhadores” (pg. 172). Para Papen, o “bolchevismo cultural” é um “veneno que ameaça destruir os fundamentos morais” do país” (pg. 117), “quer privar-nos da religião, da família e dos direitos da pessoa para nos impor o arcabouço dos métodos colectivistas e assim assinar a sentença de morte de uma cultura milenar” (pg. 175).
Hoje, o termo “bolchevismo” caiu em desuso, e o “papão” que galvaniza a extrema-direita denomina-se hoje “marxismo cultural” ou “wokismo”, termos que se tornaram sinónimos e se foram dilatando desmedidamente até abrangerem tudo o que desagrade ao ideário de extrema-direita. As “guerras culturais” assumem hoje uma importância desproporcionada na luta política e a extrema-direita e a direita descobriram que o anti-wokismo – ou melhor, a denúncia indignada, vociferante e apocalíptica dos excessos e extravagâncias do wokismo – permite conquistar votos sem grande esforço, pelo que o papel de lídimo paladino dos “valores tradicionais” é hoje ferozmente disputado, como atesta a pungente reivindicação de Paulo Núncio, em entrevista ao Expresso, em Março passado: “Lideramos a luta contra o wokismo. O CDS é o original”.
Berlim, 1932: a Karl Liebknecht Haus, o quartel-general do KPD; no 3.º piso podem ver-se cartazes da Antifaschistische Aktion, uma distante precursora dos Antifa que hoje perturbam o sono da extrema-direita
● Em 1932-33, entre os centristas e os sociais-democratas alemães, discutia-se acesamente se “se deveria deixar a direita e a extrema-direita chegar ao governo, incluindo nazis, para que provassem aí a sua incompetência”. Herman Müller, figura proeminente do SPD, que tinha sido chanceler entre Junho de 1928 e Março de 1930 e fora sucedido por Heinrich Brünning, lamentava que alguns dos seus colegas de partido fossem adeptos desta estratégia e opunha-se a ela “de forma muito vigorosa” (citado por Chapoutot, pg. 43). Com efeito, no período entre as guerras mundiais como hoje, defender esta opção é uma aposta arriscada, pois pode acontecer que, uma vez no poder, a extrema-direita, ainda que governe desastradamente e não cumpra o prometido, tome medidas para que os eleitores não voltem a dispor de oportunidade para manifestar a sua insatisfação.
Herman Müller numa foto de 1928
Na Alemanha de 1933, foi isso que aconteceu.
Nos EUA da viragem 2020-21, Trump não impediu a realização de eleições, mas, quando estas lhe atribuíram menos votos do que a Joe Biden, recusou-se terminantemente a aceitar o veredicto das urnas (ainda se recusa) e tentou subverter e emperrar o processo de legitimação dos resultados e de transferência de poder, mas os “freios e contrapesos” funcionaram e a legalidade prevaleceu.
Na Hungria de 2026, o proto-autocrata Viktor Orbán, após 16 anos ininterruptos no poder, marcados por incompetência e corrupção generalizadas, por demolição metódica do estado de direito, da liberdade de expressão e do princípio de separação de poderes, e pela manipulação do sistema eleitoral, configurando a instauração de uma “democracia iliberal” (elogiada e tomada como modelo por Donald Trump e pelos ideólogos do movimento MAGA), sofreu uma derrota expressiva nas eleições, reconheceu-a e deu os parabéns ao seu opositor.
Alguns líderes de extrema-direita do nosso tempo afivelam com brio a armadura reluzente do “homem forte” e advertem que “em alguns casos vou [ser autoritário], e também não quero que ninguém vote ao engano, se querem votar em mariquinhas, não votem em mim” (ver capítulo “Alguém quer realmente o desmantelamento do sistema?” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce), mas quem será capaz de adivinhar como irão comportar-se se chegarem ao poder e que capacidade terão os freios e contrapesos do regime democrático para conter as suas ambições?
Viktor Orbán e o seu “grande fã” [sic] Donald Trump, na Sala Oval da Casa Branca, 07.11.2025
Resultados das eleições federais na Alemanha, 1919-1933: é de realçar a rápida erosão dos partidos moderados e o concomitante crescimento dos extremistas de direita (NSDAP + DNVP) e de esquerda (KPD) a partir das eleições de Setembro de 1930. Notas: 1) as eleições de Março de 1933 não foram livres; 2) o USPD foi uma dissidência do SPD que acabou por ser reabsorvida por este; 3) o BVP era o partido democrata-cristão da Baviera; 4) o DDP era um partido liberal de centro; 5) “Sonstige” significa “outros”, uma fracção que diminui visivelmente a partir do momento em que a polarização política aumentou
Na Europa do século XXI, a extrema-esquerda tornou-se, em quase todos os países, pouco relevante nos cálculos para a constituição de maiorias parlamentares, pelo que é a eventual constituição de alianças dos moderados com a extrema-direita que tem suscitado acesos debates.
Nalguns países, os partidos moderados têm adoptado o que se designa, em politiquês, por “cordão sanitário”, ou seja, os partidos que se proclamam inimigos da democracia liberal são excluídos de alianças governativas, ainda que, porventura, sejam o partido mais votado (desde que não obtenham maioria absoluta, claro). O termo, que tem origem nas medidas de contenção de doenças contagiosas (e que o mundo anglófono adoptou na versão francesa, “cordon sanitaire”), comporta uma carga pejorativa para os partidos visados, que ficam, assim, vistos como homólogos ideológicos da cólera, da febre amarela ou da peste bubónica. Na Alemanha, onde os partidos moderados têm sistematicamente excluído a AfD de coligações, a prática é designada por um termo mais neutro: “Brandmauer” (“muro corta-fogo”, em tradução literal). Por cá, é frequente usar-se o termo “linhas vermelhas” para designar os limites que os partidos moderados estabelecem no relacionamento com o Chega, que tem assumido explicitamente ser inimigo do “sistema” e ter por propósito pôr termo à III República (o regime em vigor desde 1974), por esta se encontrar capturada pelos “partidos” (pelos outros partidos, entenda-se).
Curiosamente, os “cordões sanitários” têm, por vezes, sido aplicados com critérios diferentes consoante o âmbito geográfico: um partido pode recusar alianças com um partido extremista a nível nacional e, todavia, aceitá-lo como parceiro num governo regional. Ora, se a recusa é de natureza ideológica e decorre de o partido extremista ser visto como ameaça à democracia, é difícil compreender como o que é inaceitável a nível nacional pode não o ser a nível regional. Mas foi o que aconteceu na Alemanha de 1930-32, em que o NSDAP foi admitido em coligações com partidos de centro e de direita nos governos estaduais da Turíngia, Braunschweig, Oldenburg e Anhalt, e é também o que tem acontecido no século XXI em alguns países.
Na controvérsia sobre “linhas vermelhas” e “cordões sanitários”, há, na direita e no centro, quem considere que os partidos desta área não devem estabelecer alianças com partidos de extrema-direita, não tanto por estes professarem ideias contrárias aos princípios democráticos e humanistas, mas simplesmente por a sua actuação ser tão errática, incongruente e oportunista que faz deles parceiros pouco confiáveis. É uma apreciação de natureza pragmática, que há que confrontar com a síntese feita por Chapoutot (pg. 129) da atitude dos nazis sobre a política: “A sua perspectiva é puramente utilitarista: tudo o que os idiotas úteis da direita e do centro lhes possam oferecer, eles aceitam, mesmo que prometam isto ou aquilo, tendo sempre em mente que não se consideram vinculados a nada senão à sua própria sede de poder”.
Madrid, 08.02.2025: primeira cimeira do partido europeu Patriotas.eu, que entre 2019 e 2024 se chamou Identidade e Democracia e que, não fosse o oxímoro flagrante, também poderia denominar-se Internacional Nacionalista
A história não se repete, mas gagueja bastante
Após dez capítulos essencialmente factuais, em que reconstitui detalhadamente os eventos, os coloca em contexto e analisa as motivações dos protagonistas, Chapoutot reserva o epílogo para uma pertinente e penetrante reflexão não só sobre os possíveis paralelismos entre a situação política na Alemanha de 1930-33 e a situação política na Europa de hoje, como sobre a validade de estabelecer paralelismos entre diferentes períodos históricos e diferentes geografias. Chapoutot conclui que é legítimo e produtivo estabelecer analogias históricas e delas retirar ensinamentos, desde que se tenham sempre presentes as diferenças de contexto.
“Não há igualdade ou identidade termo a termo (A não é C), mas existe uma identidade de relação (A/B = C/D). Por outras palavras, na configuração B, o termo A é efectivamente o equivalente funcional do termo C na configuração D” (pg. 247-48). Em termos mais prosaicos, pode dizer-se que “a história não se repete, mas gagueja bastante”.
Na esquerda e na extrema-esquerda, há muitos que, por desconhecimento, preguiça mental ou cegueira sectária, assumem que todos os modernos partidos de extrema-direita não são mais do que uma reencarnação do NSDAP ou do Partito Nazionale Fascista e que Donald Trump é o novo Hitler (ver Um mundo cheio de porcos fascistas? e capítulo “O fascismo já está entre nós?” em As marcas do fascismo estão entre nós?). Na verdade, já seria um equívoco amalgamar num único bloco as várias correntes de extrema-direita que coincidem no tempo e na geografia: Hitler e Alfred Hugenberg não eram “farinha do mesmo saco”, tal como não o eram Salazar e Rolão Preto. Mas ver a Alternative für Deutschland como herdeira do NSDAP seria hipótese ainda mais preguiçosa e frágil, que, aliás, se pulveriza instantaneamente quando se tenta imaginar como reagiria um Hitler ressuscitado em 2026 perante um partido que tem como co-líder uma mulher que se identifica como agnóstica e vive em união de facto com outra mulher, natural do Sri Lanka, com quem adoptou duas crianças (ver capítulo “As generalizações e as suas excepções” em Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce). Em Portugal, os que arrumam toda a extrema-direita (e, por vezes, parte da direita) na mesma gaveta coincidem, em boa parte, com os que crêem que a melhor forma de enfrentar o Chega é obter a sua ilegalização por, alegadamente, a sua ideologia ser fascista, racista e xenófoba e algumas das suas propostas serem inconstitucionais; porém, esta tentativa de se ganhar na secretaria o que não se ganhou nas urnas é pouco razoável e está condenada ao fracasso e estes autonomeados paladinos da democracia empregariam melhor o seu tempo e energia se se dedicassem a reflectir sobre as causas do declínio continuado dos partidos em que militam ou com que simpatizam, que, nalguns casos, se encontram já no limiar da irrelevância política.
Em contrapartida, é fundamental ter presente que, como se escreveu em Um mundo cheio de porcos fascistas? e em As marcas do fascismo estão entre nós?, que não é por serem inválidas as identificações simplistas e precipitadas entre figuras e partidos do passado e figuras e partidos do presente, que estes últimos devem ser vistos como menos perigosos ou censuráveis.
A História não é a secção de “resolução de problemas” do manual de instruções de um electrodoméstico, que consultamos para saber o que fazer quando “no écran surge uma notificação sobre encerramento inesperado” ou quando “o poder de sucção é fraco apesar de o saco do pó ser novo”, mas livros como Os Irresponsáveis oferecem-nos pistas valiosas para compreendermos o que está a acontecer no nosso tempo e termos uma ideia do que poderá acontecer no futuro próximo.
[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]