Índice
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[Este é o décimo primeiro de treze artigos sobre a civilização ocidental, abordando, entre outros aspectos, a sua génese, a imagem que tem de si mesma e do seu papel na história, a forma como o resto do mundo a vê e o momento de crise que actualmente atravessa. Os artigos anteriores podem ser lidos aqui:]
- Civilização ocidental: Uma história de miscigenação
- Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?
- Civilização ocidental: O fardo do homem branco
- Civilização ocidental: A Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria
- Civilização ocidental: Um conceito volátil
- Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C.
- Civilização ocidental: Como salvá-la dos seus salvadores?
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 2: Religião
- Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 3: Freios e contrapesos
Em nome da liberdade de expressão
Um dos fenómenos mais relevantes ocorridos no espaço político-mediático nas últimas décadas é a assunção pela extrema-direita do papel de paladina da liberdade de expressão. Acontece que, a coberto do que parece ser um nobre desígnio, o que a extrema-direita pretende é ter direito a criar e propagar impunemente todo o tipo de meias-verdades, mentiras e torpezas, ao mesmo tempo que tenta silenciar quem tenha opiniões contrárias e divulgue factos que infirmem as “narrativas” da extrema-direita. Embora as “narrativas” da extrema-direita disparem contra alvos variados, há um fio a uni-las: pretendem criar a percepção de que vivemos tempos apocalípticos, que as instituições democráticas foram tomadas de assalto pelo wokismo e pela esquerda radical e que estão completamente corrompidas, e que, em resultado da corrupção, incompetência e perfídia das elites, os países ocidentais vivem à beira da anarquia, com as ruas dominadas por gangs criminosos estrangeiros e massas de imigrantes a roubarem os empregos dos “nativos”, a viverem confortavelmente de subsídios estatais e a imporem os seus usos e costumes nefandos a quem cá vive há séculos (ver capítulo “O caos como estratégia” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital). A disseminação desta percepção é feita com o labor incansável das legiões de anónimos que, nas redes (ditas) sociais, dia e noite, geram, partilham e reencaminham posts, e multiplicam comentários e “likes”, e, amiúde, com a cooperação (inadvertida ou não) dos mass media tradicionais – em particular dos canais de televisão sensacionalistas, cujo modelo de negócio assenta em “casos de polícia” e em escândalos.
Parte do sucesso destas “narrativas” resulta do facto de conterem uma porção de verdade. A corrupção e a incompetência nos círculos políticos e a promiscuidade entre os meios político e empresarial são fenómenos reais e merecedores de toda a nossa atenção – ainda que a história mostre que os regimes extremistas, sendo eles mais ou menos democráticos, têm sofrido de maleitas similares e, frequentemente, em formas mais intensas e disseminadas. O parlamentarismo é propenso a debates improdutivos, mesquinhos, frustrantes, maçadores, ridículos, bizantinos e hipócritas – mas é, ainda assim, preferível à governação “expedita” do Homem Forte iluminado que os extremos políticos costumam favorecer. A imigração pode criar sérios problemas de disrupção social, sobretudo se for maciça e muito rápida, como tem acontecido frequentemente desde o final do século XX, devido à maior facilidade de deslocação e comunicação – mas tal não justifica a diabolização da figura do imigrante e a identificação de toda uma comunidade com os seus elementos mais desajustados e mal-intencionados.
Alguns propagadores da desinformação que gera a percepção do caos são apenas tolos ou ingénuos, mas os seus originadores estão plenamente conscientes do que estão a fazer – sabem que parte da sua narrativa é verdadeira e que parte é falsa ou distorcida e sabem talhar as falsidades e distorções em função da reacção que pretendem provocar nas massas.
Como observou o filósofo Daniel Innenarity, “a extrema-direita é uma ideologia que prospera no desprezo pela política, pelo que não só o facto de a política ser mal feita, mas também o retrato dramatizado das suas deficiências, beneficia-a” (entrevista ao Expresso, 23.05.2025). E acontece que há muitos media e muitos jornalistas que se convencem de que o papel do jornalismo como “cão de guarda” (watchdog) consiste exclusivamente em fazer “retratos dramatizados das deficiências da política”.
Ao mesmo tempo que promove a sua própria versão da realidade, a extrema-direita denuncia sistematicamente os mass media tradicionais como fabricantes de “fake news” ao serviço das elites corruptas e do wokismo. A denúncia dos jornais como produtores de “fake news” não começou com Donald Trump (ainda que este reclame a invenção do termo) e foi particularmente intenso na viragem dos séculos XIX-XX.
Notícias da treta, “fake news” e sensacionalismo: Detalhe de um cartoon por Frederick Burr Opper, publicado na revista satírica americana Puck de 7 de Março de 1894
Esta acusação era, em muitos casos, fundamentada, pois este foi o período áureo do “yellow journalism” (um termo afim de “jornalismo tablóide”), que era dominado pelo sensacionalismo, pelo sectarismo, pela maledicência, pela ênfase em casos violentos e escabrosos, pela falta de imparcialidade, de rigor e de escrúpulos e por uma ostensiva simpatia pelo zé-ninguém ou arraia-miúda (com que a maioria dos leitores se identificaria), em contraposição com a hostilidade manifestada em relação aos “poderosos”, às “elites” e ao “sistema”; esta tendência jornalística era estimulada pelos dois grandes magnatas rivais da imprensa americana de então, Joseph Pulitzer (cujo título-capitânia era o New York World) e William Randolph Hearst (cujo título-capitânia era o New York Journal).
William Randolph Hearst, vestido de bobo, dissemina “jornalismo amarelo” pela populaça: cartoon por L.M. Glackens, publicado a 12.10.1910
Embora continue hoje a existir imprensa com características “tablóides” e se produzam “notícias” ao serviço de agendas ocultas, o rigor e isenção na informação prestada pela maioria dos media tradicionais está muito longe dos lastimáveis padrões de há um século, o que não impede os extremistas, de direita e de esquerda, de promover a ideia de que todo o jornalismo de hoje está “avençado” ou é “serventuário” de interesses que se movem na sombra, ao contrário do que acontece nas redes (ditas) sociais, onde toda a informação que circula é pura, cristalina e fidedigna (desde que, claro, a fonte seja a seita, facção ou clube do leitor).
Esta tentativa de sequestro da realidade conta com a cumplicidade activa dos magnatas que detêm as redes (ditas) sociais, uma vez que o seu negócio lucra com a atmosfera de quezília, bullying, histrionismo e grosseria que é frequente no discurso extremistas e com o frisson associado aos cenários apocalípticos por ela gerados e difundidos. Inicialmente, a casta dos meta-barões ainda fingiu ser neutra e apolítica e ter como principal preocupação a liberdade de expressão, mas, em 2024, alguns metabarões assumiram, mais ou menos explicitamente, o favorecimento da extrema-direita populista. Uma vez que este assunto foi já abordado nos capítulos “O que separa a moderação de conteúdos da censura?”, “Quem lucra com a toxicidade das redes sociais?” e “Interlúdio: Paradoxos do populismo” em História para amanhã pt.2: Migrações, sustentabilidade e redes sociais, apenas se mencionará aqui o dúplice uso que Trump tem vindo a fazer do conceito de liberdade de expressão de forma a intimidar a comunicação social americana que não está ao seu serviço (i.e., as “fake news”).
Neutralizando os cães de guarda
Ao mesmo tempo que o cidadão Donald J. Trump tem movido processos contra vários mass media por, alegadamente, não o tratarem de forma isenta e por o difamarem, e tem exigido indemnizações astronómicas, o presidente Donald J. Trump tem usado o cargo para exercer pressão sobre esses mesmos mass media. O agente-chave desta pressão é Brendan Carr, que Trump nomeou director da Federal Communications Commission (FCC), entidade com afinidades com a nossa Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Carr, que é autor de um capítulo do manual de assalto ao poder conhecido como Project 2025, há muito que se insurge publicamente contra aquilo que vê como um tratamento injusto e desequilibrado de Trump pelos media e, assim que tomou posse como director do FCC, reabriu as investigações (que tinham sido arquivadas) contra as cadeias televisivas ABC, CBS e NBC por parcialidade. As acções judiciais do cidadão Donald J. Trump teriam, provavelmente, poucas hipóteses de sucesso, já que as leis e os tribunais americanos professam um entendimento muito lato da liberdade de expressão; mas uma vez que a FCC não só tem poder para investigar as empresas de media como para conceder, renovar e retirar licenças de emissão e para autorizar ou proibir operações de fusão e aquisição no sector, algumas dessas empresas têm realizado acordos extra-judiciais com o cidadão Donald J. Trump, envolvendo o pagamento de generosas indemnizações, esperando, em troca, que o FCC não bloqueie essas operações financeiras ou cancele as suas licenças. O resultado desta acção intimidatória combinada é os mass media passarem a praticar a autocensura nas matérias que envolvam Trump, como presidente, empresário e cidadão.
Um possível exemplo deste é o cancelamento anunciado pela CBS, em Julho de 2025, do programa Late Show with Stephen Colbert, que foi apresentado como “uma decisão puramente financeira”. Compreende-se que uma cadeia televisiva decida cancelar um programa com fracas audiências, mas o Late Show with Stephen Colbert é, há nove anos consecutivos, líder de audiências entre os “late-night talk shows” – é certo que os 2.4 milhões de espectadores que tem registado em 2025 estão longe dos 8.3 milhões de espectadores da sua primeira temporada, em 2015-16, mas as audiências televisivas estão, em todo o mundo, em erosão acelerada devido à competição cada vez mais forte das distracções online.
73.ª edição dos Primetime Emmy Awards, Los Angeles, 2021: Stephen Colbert recebe mais um prémio pelo Late Show with Stephen Colbert
A razão principal do cancelamento talvez seja outra: por um lado, Stephen Colbert tem sido um dos mais acerbos críticos de Trump no espaço público americano. Por outro lado, em Dezembro de 2024, Trump tinha processado a CBS (e a sua companhia-mãe, a Paramount), por, alegadamente, ter manipulado uma entrevista ao programa 60 Minutes com Kamala Harris, a 06.10.2024, de maneira a mostrar a candidata Democrata a uma luz mais favorável, pelo que Trump exigia como indemnização a absurda quantia de 20.000 milhões de dólares. A maioria dos peritos legais defendeu que o trabalho de edição realizado pelo 60 Minutes estava dentro dos procedimentos usuais em entrevistas, que o processo instaurado por Trump era “completamente destituído de mérito” e que era improvável que lograsse obter sequer um cêntimo de indemnização. Pela mesma altura, a Paramount começou a considerar a fusão com outra empresa de media, a Skydance, que estava disposta a pagar 8000 milhões de dólares pelas acções da rival, operação que requeria, inevitavelmente, a aprovação da FCC.
A 2 de Julho, a Paramount anunciou ter chegado a um acordo extra-judicial com Trump, dispondo-se a pagar-lhe 16 milhões de dólares (a que somariam mais 20 milhões pagos pela empresa resultante da fusão). A 14 de Julho, Colbert classificou o acordo como “um belo e gordo suborno”. A 17 de Julho, Colbert revelou que a CBS acabara de lhe anunciar que o seu programa terminaria em Maio de 2025. A 18 de Julho, Trump escreveu na rede Truth Social “Fiquei deveras encantado por Colbert ter sido despedido. O seu talento conseguia ser inferior aos seus níveis de audiência. Ouvi dizer que Jimmy Kimmel [outro humorista da “late-night TV” crítico de Trump] será o próximo. Tem ainda menos talento do que Colbert”. A 24 de Julho, a FCC autorizou a fusão da Paramount e da Skydance (ver também E agora, Stephen Colbert: Quem vai rir por último?).
“Isto é a América, onde pode ouvir a rádio na sua sala – não num esconderijo. Onde pode ouvir os dois lados de um debate e formar a sua opinião. Isto é a sua América”: Cartaz de 1942
Claro que este bullying sobre as empresas de media poupa a fidelíssima Fox News, de cujas fileiras saíram, até agora, 23 comentadores e apresentadores para ocupar altos cargos na Administração Trump 2.0, o que levou o humorista Bill Maher a comentar que já “sabia que havia cadeias de TV operadas pelo Estado, mas agora temos um Estado operado pela TV”. Na verdade, o próprio presidente é o exemplo mais paradigmático dessa situação, uma vez que é improvável que conseguisse chegar à Casa Branca se não tivesse ganho fama como estrela da trash TV, com o reality show The Apprentice, e se todos os canais televisivos não reproduzissem, amplificassem e comentassem, incessantemente, as suas mais irrelevantes proclamações, provocações e palpites.
À deriva no Golfo da América
A devoção de Trump pela “liberdade de expressão” não o impediu de perseguir a agência noticiosa Associated Press (AP) por esta se ter recusado a seguir o arbitrário rebaptismo do Golfo do México como “Golfo da América”. Como represália, a AP foi barrada de entrar em muitos dos eventos promovidos pela Casa Branca, nomeadamente as conferências de imprensa, e só conseguiu ser readmitida após ter apelado aos tribunais.
[Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, justifica a exclusão da Associated Press, Janeiro de 2025:]
É claro que o Governo dos EUA tem a última palavra sobre a toponímia oficial em uso no país, por a-histórica, infundada, ignara e ridícula que seja, mas só os organismos do Governo federal dos EUA estão obrigados a acatá-la. O que dá uma medida do poder intimidatório de Trump é que a maioria dos mass media de referência americanos, bem como os principais serviços de cartografia online (Google Maps, Apple Maps e Bing Maps) se submeteram ao seu capricho toponímico. Para que um regime democrático se converta num regime totalitário nem sempre são necessários tanques nas ruas e polícia política a bater à porta de madrugada – os autocratas modernos preferem avançar com pequenos passos e contar com a cobardia e o oportunismo inerentes à alma humana.
Mapa de 1559 com a menção “Golfo do México”
Quiçá de maior monta do que o afastamento da AP por causa da questiúncula “Golfo do México/América” foi a decisão da Administração Trump 2.0, no final de Fevereiro, de alterar as regras de acesso dos jornalistas ao presidente dos EUA e à Casa Branca. Tradicionalmente, a selecção de quem tinha direito a estar presente nas conferências de imprensa na Casa Branca ou no Air Force One era realizada pela Associação de Correspondentes da Casa Branca (WHCA, na sigla inglesa), mas, a partir de Fevereiro de 2025, o gabinete de imprensa da Casa Branca reclamou para si esse poder. Esta política abriu portas a vários pseudojornalistas (maioritariamente podcasters e influencers populares entre o público de extrema-direita), sem qualificações profissionais ou curriculum, e cujas “perguntas” dirigidas a Trump ou à secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, podem ser resumidas como lisonja pura com um discreto ponto de interrogação no final. Por outro lado, o gabinete de imprensa, poderá, se assim o entender, excluir jornalistas que façam usualmente perguntas “impertinentes”. Leavitt apresentou esta alteração como sendo “democratizadora”.
Pela mesma altura, dando indicação do que realmente entende por “democracia” e “liberdade de expressão”, referindo-se à proliferação de livros e notícias sobre os bastidores da sua Administração (ver em Donald Trump pelas palavras dos seus colaboradores mais próximos), Trump publicou este post na rede Truth Social: “Chegará o dia em que irei processar alguns desses autores e editores desonestos, ou até os media em geral, para apurar se as ‘fontes anónimas’ existem sequer […]. Tratam-se de invenções, de ficções difamatórias e deveriam pagar um preço elevado por esta flagrante desonestidade. Fá-lo-ei como um serviço prestado a este país. Quem sabe, talvez criemos uma nova e bela lei!!!”.
O Serviço Geológico dos EUA foi lesto a dar cumprimento ao decreto executivo 14172 e, poucos dias depois, os seus mapas já ostentavam a designação “Golfo da América”
Em guerra com os “inimigos do povo”
Os EUA sempre tiveram orgulho na sua liberdade de imprensa, que é garantida na Primeira Emenda à Constituição e tem sido celebrada na ficção, em particular no cinema de Hollywood, que ajudou a consolidar a ideia do jornalismo como “quarto poder” e fez do “watchdog journalist” um herói – nomeadamente com All the president’s men (1976), Goodnight, and good luck (2005), Spotlight (2015) e Truth (2015).
Se dermos crédito ao Índice de Liberdade de Imprensa, compilado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (Reporters sans Frontières), que é o mais conceituado indicador internacional e que vai de 0 (liberdade nula) a 100 (liberdade total), os EUA registaram uma tendência de declínio ao longo do século XXI, que se acentuou a partir de 2022. Em 2002, os EUA surgiam em 17.º lugar, em 2006 tinham caído para 54.º, recuperaram para 20.º em 2009 e 2010, caíram para 49.º em 2015 e atingiram o seu valor mais baixo (índice 65.49) em 2025, com um 57.º lugar (entre 180 países), que os coloca entre a Serra Leoa e a Gâmbia.
Índice de Liberdade de Imprensa 2025, segundo a Repórteres Sem Fronteiras: azul, bom, 85-100 pontos; azul-claro, satisfatório, 70-85; amarelo, problemático, 55-70; cor-de-laranja, difícil, 40-55; vermelho-escuro, muito grave, abaixo de 40
O top 10 inclui, por ordem descendente, Noruega (92.31), Estónia (89.46), Holanda (88.64), Suécia (88.13), Finlândia (87.18), Dinamarca (86.93), Irlanda (86.92), Portugal (84.26), Suíça (83.98) e República Checa (83.96); os 10 últimos classificados são Egipto (24.74), Rússia (24.57), Nicarágua (22.83), Vietnam (19.74), Turquemenistão (19.14), Afeganistão (17.88), Irão (16.22), Síria (15.82), China (14.80), Coreia do Norte (12.64) e Eritreia (11.32). Não é por acaso que o topo do ranking é esmagadoramente dominado por países associados à civilização ocidental – o primeiro não-ocidental é Trinidad e Tobago, em 19.º lugar (79.71) – e o fundo da tabela é esmagadoramente dominado por países não-ocidentais – a Grécia, em 89.º lugar (55.37), é o país ocidental mais mal classificado.
No relatório de 2025 do Índice de Liberdade de Imprensa, o capítulo sobre os EUA abre com esta síntese: “Após um século de expansão gradual dos direitos do jornalismo nos EUA, o país está a passar pelo primeiro declínio significativo e prolongado da liberdade de imprensa na história moderna e o regresso de Donald Trump à presidência está a exacerbar fortemente a situação”.
A degradação da liberdade de imprensa nos EUA começou bem antes de Trump ter anunciado a sua primeira candidatura a presidente dos EUA, em 2015, portanto, há que encontrar outra explicação para ela. Uma possibilidade é o facto de a população dos EUA ter sido pioneira na adesão em massa à Internet e às redes (dita) sociais, dois factores que contribuíram decisivamente para arruinar o “modelo de negócio” dos mass media tradicionais, o que, por sua vez, levou à degradação da qualidade e rigor do jornalismo praticado; à aposta no sensacionalismo, na tentativa de reter público e anunciantes; e à perda de independência face ao poder político, empresarial e financeiro.
Evolução do Índice de Liberdade de Imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras nos EUA, 2002-2016: Note-se que o eixo vertical do gráfico está invertido: os pontos mais altos correspondem a menor liberdade de imprensa
O Índice de Liberdade de Imprensa baseia-se em cinco indicadores – político, económico, legislativo, social e de segurança – e, entre 2024 e 2025, os EUA caíram em todos; a queda maior registou-se no indicador social (de 54.º para 82.º lugar), o que estará associado, segundo o relatório dos Repórteres Sem Fronteiras, à forte quebra de confiança dos americanos nos media tradicionais e ao aumento do cyberbullying contra mulheres e minorias.
Para a quebra de confiança nos media tradicionais nos últimos anos contribuiu decisivamente a implacável campanha de difamação conduzida por Trump desde que se lançou na política: é sabido que qualquer notícia que o contradiga ou que lhe desagrade é automaticamente rotulada de “fake news”, expressão que Trump reclama ter inventado (tal como reclama a cunhagem de outras palavras e expressões em curso muito antes de ter nascido). Só entre Dezembro de 2016 e Outubro de 2020, usou em público a expressão “fake news” 1900 vezes. A 02.10.2019, numa declaração na Sala Oval da Casa Branca, anunciou uma alteração terminológica: “Agora, chamo às ‘fake news’ ‘notícias corruptas’, porque ‘fake news’ não era suficiente. Fui eu que inventei o termo, estou muito orgulhoso disso, mas creio que a partir de agora usarei ‘notícias corruptas’” (o que, como saberá quem acompanhe as suas intervenções públicas, acabou por não se concretizar).
Não foi Trump quem cunhou o conceito e o termo “fake news”, mas teve papel relevante na sua divulgação: o surto de popularidade do tópico “fake news” no Google Trends (que mede a frequência de uso de palavras no motor de busca da Google) começou com a campanha presidencial de Trump, em 2016
Se alguém esperava que o discurso extremamente agressivo contra os media de Trump enquanto candidato seria moderado após assumir o cargo de presidente dos EUA, equivocou-se redondamente – um narcisista patológico como Trump não só não possui “sentido de Estado” como nem sequer é capaz de compreender a natureza e responsabilidade do cargo presidencial. Pouco depois da sua primeira tomada de posse, em Janeiro de 2017, Trump classificou os media e os jornalistas como “inimigos do povo americano”, acusação que fez também parte do repertório demagógico de tiranos como Stalin e Mao. Trump tem vindo a mimosear regularmente os jornalistas com este rótulo, que costuma complementar com qualificativos como “desonestos”, “corruptos”, “escumalha humana” e “alguns dos piores seres humanos que alguma vez encontrarão”. Em Março passado, queixou-se de que 97.6% do que a CNN, a MSNBC e alguns jornais (que não identificou) afirmam sobre ele é negativo (“escrevem literalmente 97.6% mau sobre mim” [sic]) e de que os media não passam de “armas políticas do Partido Democrata. Na minha opinião são verdadeiramente corruptos e ilegais. O que fazem é ilegal”.
Infortunadamente, a vertiginosa diminuição da confiança nos media não é um fenómeno exclusivamente americano e está também relacionado com o crescente encerramento dos indivíduos em casulos informativos digitais talhados à sua medida (ver capítulo “Os media tradicionais sob suspeição” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital). É possível que, nos restantes países ocidentais, à medida que a alienação e o tribalismo promovidos pelas redes (ditas) sociais aumentam, o descrédito no jornalismo venha a atingir níveis similares aos que hoje se verificam nos EUA (ver capítulo “Verdade” em A covid-19 e um vírus na linguagem).
Semeando divisão e conflito
Um dos principais alvos dos ataques da Administração Trump 2.0 têm sido as políticas designadas genericamente como DEI (Diversity, Equity, Inclusion, i.e., Diversidade, Igualdade, Inclusão), que estão no fulcro das “guerras culturais” americanas. As políticas DEI visam, genericamente, a reparação de injustiças cometidas contra grupos identitários (definidos por etnia, género, orientação sexual, crença religiosa, etc.) que, por terem sido “historicamente oprimidos” e discriminados, têm estado relegados a um estatuto subalterno nos órgãos do Estado, na administração pública, nas empresas, na academia e na sociedade em geral. Esta reparação de injustiças pode passar por conferir maior visibilidade a estes grupos, tornar a sua voz mais audível, estabelecer quotas de representação na força de trabalho, em órgãos de poder ou em conselhos de administração de empresas.
No clima de polarização hoje existente na sociedade americana, as políticas de DEI são vistas pelos simpatizantes de Trump como uma abominação (Trump classificou-as como “ilegais, imorais e discriminatórias”), enquanto os adversários de Trump as defendem à outrance. Resta, assim, pouco espaço para os que, embora concordando com a ideia de que ninguém deve ser prejudicado pela pertença a um grupo historicamente discriminado, entendem, por outro lado, que algumas políticas de DEI foram longe demais, ou discordam, por princípio, de algumas formas de DEI, como seja a imposição de quotas mínimas de representação e contratação para grupos “historicamente oprimidos”.
Assim que iniciou o seu segundo mandato, Trump assinou um decreto presidencial “extinguindo a discriminação ilegal e repondo a oportunidade baseada no mérito”, que, na prática se traduziu numa gigantesca purga visando todos os funcionários, postos de trabalho, programas e iniciativas que tivessem qualquer vínculo (mesmo que episódico e remoto) a DEI, ou que, meramente, fizessem menção a grupos historicamente discriminados. O encarniçamento anti-DEI não se limitou às agências do Governo federal: abrangeu também as forças armadas, as universidades e qualquer indivíduo ou entidade, nacional ou estrangeira, pública ou privada, com a qual o Estado americano tenha acordos de cooperação e financiamento.
Trump identificou a existência de uma distorção – um zelo excessivo nas políticas DEI que dá ensejo a que critérios identitários se sobreponham a critérios meritocráticos – e, como é usual nele, em vez de buscar uma forma racional e equilibrada de corrigir essas distorções, lançou uma cruzada fanática, abrutalhada, disruptiva, divisiva e obtusa que irá criar distorções de sinal contrário e acentuar as clivagens na sociedade americana. Uma das muitas consequências disparatadas do frenesim anti-DEI desencadeado por Trump foi a classificação de 26.000 fotografias dos arquivos do Pentágono como “conteúdos DEI” (logo, destinados a serem eliminados); entre elas estavam imagens do Boeing B-29 Superfortress que lançou a bomba atómica sobre Hiroshima, pela simples razão de alguém ter visto no seu nome, “Enola Gay”, uma alusão à comunidade LGBTQ+, quando qualquer pessoa com algum conhecimento sobre a II Guerra Mundial deveria saber que o avião foi assim baptizado pelo seu comandante, o coronel Paul Tibbets, não para promover a causa “gay” (a palavra só nas décadas de 1950-60 ganharia conotação com homossexualidade), nem para afrontar o cis-heteropatriarcado (conceito que só foi cunhado no final da década de 1990), mas em homenagem à sua mãe, Enola Gay Tibbets.
O coronel Paul Tibbets no cockpit do seu B-29, 1945
Outra faceta assaz ridícula da disposição para reverter direitos – ou, pelo menos, a visibilidade – da comunidade gay é o rebaptismo, ordenado pelo secretário da Defesa, Peter Hegseth, do navio da US Navy Harvey Milk, cujo nome homenageava um célebre activista gay. Para a mentalidade MAGA, estará um navio da marinha de guerra diminuído na sua capacidade de combate (mesmo que o vaso em questão seja, como é o caso, um modesto navio de reabastecimento, desprovido de armamento) por ostentar o nome de alguém que não pertença ao cis-heteropatriarcado? Perderão os tripulantes de um navio com um nome pouco “viril” o espírito combativo? Ou poderá a existência de um navio com tal nome, por si só, incentivar milhares de rapazes heterossexuais a tornarem-se gay? O rebaptismo determinado por Hegseth não diminui os direitos da comunidade LGBTQ+, mas é sintomático da homofobia subjacente a boa parte do movimento MAGA, bem como da sua mesquinhez e tacanhez.
O navio de reabastecimento Harvey Milk
A verdadeira razão da queda do Império Romano
Como já se referiu nos capítulos “O Grande Cisma de 2025: Antecedentes” e “Um plano para reconfigurar os EUA (e a civilização ocidental)”, em Civilização ocidental: O Grande Cisma de 2025 d.C., a moderna extrema-direita, nos EUA e na Europa, não é meramente conservadora, é reaccionária e disruptiva e pretende usar o pretexto do combate aos excessos do wokismo, para reverter conquistas civilizacionais fundamentais, como seja o fim da discriminação com base na orientação sexual.
Um dos mais notórios paladinos da recolocação da sexualidade sob a alçada dos julgamentos morais e dos dogmas do cristianismo é o Republicano Mike Johnson (n.1972), que representa o Louisiana na Câmara dos Representantes desde 2015 e em 2023 foi eleito speaker deste órgão (o cargo de speaker é similar ao de presidente da Assembleia da República em Portugal), o que o coloca em segundo lugar na linha de sucessão do presidente dos EUA. É pertinente recordar que Johnson chegou a este lugar devido ao derrube do anterior speaker, Kevin McCarthy, pela ala radical do Partido Republicano, que entendia que este não era suficientemente intransigente e sectário e estava disposto, pontualmente, a fazer concessões aos Democratas.
Mike Johnson discursa na Câmara dos Representantes, após a sua eleição como speaker, a 25.05.2023
Nos EUA, país que mantém como lema nacional “In God we trust”, a política encontra-se menos separada da religião do que em qualquer outro país ocidental, apesar de a proporção de americanos que se assumem como cristãos ter caído de 90%, no início da década de 1990, para 62% em 2025 (ver capítulo “No país de Deus” em artigos Irmãos inimigos na América pt.1: Será que Democratas e Republicanos ainda são capazes de viver juntos na mesma casa?). A verdade é que o povo americano é muito menos religioso do que o Congresso que os representa: nos seus 532 membros, há, na presente legislatura, 461 cristãos (86.7%), 32 judeus, quatro muçulmanos, três hindus, três budistas e apenas três não-crentes (0.6%), enquanto, por comparação, na Câmara dos Comuns, no Reino Unido, a percentagem de não-crentes ronda os 40%.
Mesmo no contexto da devoção religiosa que domina o Congresso, Johnson destaca-se pela santimónia: proclama que “a minha fé determina tudo o que faço” e defende que a governação do país deve reger-se por princípios cristãos. E, sobretudo, tem vindo a produzir declarações que colidem frontalmente com direitos básicos que se tornaram consensuais no mundo ocidental (e, nalguns casos, colidem também com os factos e distorcem a ciência):
● “É claro que a Constituição não consagra o ‘direito à sodomia’ e que o direito ‘à privacidade do lar’ nunca foi suficiente para colocar todas as actividades domésticas fora da alçada da lei criminal” (The Times (Shreveport, Louisiana), 2003).
● “Os peritos antevêem que o casamento homossexual seja o lúgubre precursor do caos e da anarquia sexual, que serão capazes de fazer ruir a mais robusta república. […] Sexo, de qualquer tipo, fora do casamento entre um homem e uma mulher, é simplesmente destrutivo. As ciências sociais limitam-se a confirmar o que a Bíblia sempre disse” (The Times (Shreveport, Louisiana), 22.02.2004).
● “As relações homossexuais são inerentemente contra natura e, como mostram claramente os estudos, acabam por causar dano e ter custos para todos. A sociedade não pode dar a sua aprovação a um estilo de vida [sic] tão perigoso” (in News-Star (Monroe, Louisiana), Setembro 2004).
● “A tua raça, a tua fé e o teu sexo definem o que és, a enquanto a homossexualidade e o travestimento são coisas que fazes. Estamos num país livre, mas não concedemos protecção especial a todas as escolhas bizarras que as pessoas fazem” (The Times (Shreveport, Louisiana), 20.07.2005).
● “Muitos historiadores – os que são objectivos – reconhecem que a queda de Roma se deveu, não só à depravação da sociedade e à perda de valores morais, como a um infrene comportamento homossexual, que era tolerado pela sociedade” (programa radiofónico Don Crow Show, 2008).
Enquanto Donald Trump e Peter Hegseth vêem a China como a maior ameaça ao poderio e perenidade do Império Americano, Mike Johnson teme que o perigo venha de dentro e que sejam as paradas gay, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e as actividades contra natura praticadas no recato do lar a fazer ruir o colosso americano. Johnson tem, claro, direito a perfilhar as convicções que bem entender, mas é preciso considerar que, por inerência do seu cargo e da sua visibilidade, elas não se confinam ao seu espírito, nem ao seu lar nem ao seu círculo da amigos e familiares – alcançam milhões de americanos, alguns dos quais sentirão as suas inclinações homofóbicas reforçadas pelo que Johnson diz e escreve. Note-se que a aceitação da homossexualidade pela sociedade tem vindo a crescer nos EUA ao longo do século XXI – em 2019, 72% eram desta opinião, contra 21% que se opunham –, ainda que esta estatística nada nos diga sobre a maior ou menor irredutibilidade dos que se opõem à aceitação da homossexualidade.
Percentagem de americanos que entendem que a homossexualidade deve ser aceite pela sociedade (a verde), 1994-2019
Por outro lado, há estatísticas que mostram que nos EUA há uma marcada diferença na aceitação da homossexualidade consoante os inquiridos se identificam com a direita (53%), com o centro (84%) ou com a esquerda (86%). E também é notório que embora exista uma tendência estatisticamente significativa para que a aceitação da homossexualidade aumente com o rendimento per capita dos países, os EUA desviam-se nitidamente desse padrão, registando uma aceitação comparável à das mui católicas Filipinas e do mui católico México.
Percentagem da população que entende que a homossexualidade deve ser aceite pela sociedade (dados de 2020)
Nalguns países europeus também se regista diferença assinalável na aceitação da homossexualidade entre os que se identificam com partidos de extrema-direita e os que rejeitam esses partidos (dados de 2019): em Espanha, 68% de aceitação entre simpatizantes do Vox e 94% de aceitação entre quem se opõe ao Vox; na Polónia, 36% de aceitação entre simpatizantes do PiS (Lei e Justiça) e 59% de aceitação entre quem se opõe ao PiS; na Hungria, 40% de aceitação entre simpatizantes do Fidesz (de Orbán) e 61% de aceitação entre quem se opõe ao Fidesz; em França, 76% de aceitação entre simpatizantes do Rassemblement National e 90% de aceitação entre quem se opõe ao Rassemblement National; na Alemanha, 74% de aceitação entre simpatizantes da AfD e 90% de aceitação entre quem se opõe à AfD.
É imperativo considerar que 1) a realidade compreende complexidades e subtilezas que escapam aos inquéritos de opinião e 2) as massas são volúveis e não é invulgar que perfilhem convicções incongruentes. Estas advertências são particularmente pertinentes quando se considera o desconcertante caso de Alice Weidel, co-líder da AfD (com Tino Chrupalla) desde 2022 e líder do grupo parlamentar do partido desde 2017; contrariando estereótipos, Weidel 1) assume-se como lésbica; 2) vive, desde 2009, em união de facto com uma mulher natural do Sri Lanka, com quem adoptou duas crianças; 3) acusa a Igreja Católica e a Igreja Protestante alemãs de “desempenharem o mesmo papel inglório que desempenharam no III Reich” e reclama para a AfD o estatuto de “único partido cristão da Alemanha”.
Alice Weidel discursando na CPAC Hungria 2025, uma franchise europeia da Conservative Political Action Conference
Para já, os decretos presidenciais de Trump na esfera LGBTQ+ parecem visar sobretudo a comunidade transgénero, talvez por esta ter ganho, nas “guerras culturais”, um protagonismo absurdamente desproporcionado face à sua ínfima expressão numérica na população. Seja como for, muitas das medidas genéricas de Trump para reverter as políticas DEI e combater o que a alt-right designa como “propaganda da ideologia de género” acabam por afectar também os homossexuais e não é improvável que a Administração Trump ceda à pressão de Mike Johnson e de outros cristãos fundamentalistas para que se revertam alguns direitos conquistados pela comunidade gay, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou até se regrida ao tempo em que a homossexualidade era vista como “contrária aos planos de Deus” e, consequentemente, severamente reprimida.
Imigrantes: Anjos e vilões
Cada país tem pleno direito a definir o número e as características dos imigrantes e requerentes de asilo que acolhe – e, inclusive, a estabelecer que esse número é zero – bem como a devolver à procedência os que não cumprem os requisitos legais ou que entram no país de forma ilegal. Também cabe a cada país definir as condições de atribuição de nacionalidade a estrangeiros – há países que atribuem automaticamente nacionalidade a quem nasça no seu território, independentemente da origem dos progenitores (é o usual no continente americano, por razões historicamente compreensíveis), prática genericamente designada como jus soli; outros países vinculam estritamente a nacionalidade das crianças à nacionalidade dos progenitores (jus sanguinis); e outros países ainda – a maioria – que combinam os dois critérios. E, uma vez que são muitos os migrantes económicos (os que deixam o seu país para encontrar trabalhos mais bem remunerados) que invocam o estatuto de refugiados (isto é, de alguém que corre risco de vida no seu país devido à etnia a que pertence, ou à fé ou ideologia que perfilha), também cada país tem direito a escrutinar os requerentes de asilo de forma a destrinçar os refugiados genuínos.
Por exemplo, o Japão – cuja política e instituições se regem, desde 1945, por valores e modelos ocidentais – tem adoptado uma política migratória muito restritiva, que contempla apenas trabalho especializado e residência temporária. No Japão, em sequer os requerentes de asilo são tratados com leniência: em média, apenas 0.2% destes pedidos têm parecer favorável, enquanto na Alemanha a taxa média de aprovação é de 40%. Esta política explica, em parte, que a percentagem de imigrantes na população do Japão fosse, em 1990, de apenas 0.9%; cresceu em 2000 para 1.3% e em 2024 para 3%, ainda assim um número irrisório quando comparado com os da Alemanha (21%), Portugal (15%), União Europeia (14%) e EUA (14%).
Nos anos mais recentes, o Governo japonês, do Partido Liberal Democrático (PLD), de centro-direita (que tem governado o Japão desde 1955, com interregnos apenas em 1993-96 e 2009-12), pretendendo contrariar o decréscimo da população activa que resulta do acentuado envelhecimento da estrutura demográfica japonesa, adoptou uma política de imigração menos restritiva, que explica a subida da percentagem de imigrantes para 3%. Tal bastou para gerar significativas repercussões políticas, com o PLD a perder a maioria nas duas câmaras do Parlamento nas eleições de 2024 (câmara baixa) e 2025 (câmara alta) e com o Sanseitō, partido de extrema-direita fundado em 2020, a obter substanciais ganhos, estribado numa agenda ultranacionalista e no lema “Os japoneses primeiro” (onde já ouvimos isto?). Vale a pena sublinhar que Sohei Kamiya, fundador e líder do Sanseitō, após breve e apagada carreira no PLD, ganhou notoriedade através do seu canal de YouTube, onde começou a propagar o que viria a ser o ideário do Sanseitō, assente na retórica anti-semita, na oposição à igualdade de género, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à imigração e no imperativo da remilitarização do Japão e do desenvolvimento de armas nucleares.
Evolução da percentagem de pessoas nascidas no estrangeiro na população residente, na União Europeia, 2010-24
O debate sobre imigração no Ocidente foi sequestrado pelo sectarismo e pela bipolarização política, o que leva a que raramente seja esclarecedor e produtivo.
Os sectores mais à esquerda, abandonados (em resultado da evolução sociodemográfica e por sua própria culpa) pela sua base de apoio tradicional, de operários e camponeses, e precisando de uma nova classe de “oprimidos” que lhe sirva de pretexto à exibição pública das suas impecáveis virtudes humanistas, e impelidos por um universalismo irresponsável, advogam escassas ou nenhumas restrições ao acolhimento de estrangeiros e classificam qualquer medida restritiva da imigração como “recuo civilizacional”. Ao mesmo tempo, fingem ignorar que o súbito crescimento da percentagem de imigrantes com etnias, religiões, costumes e valores muito diferentes dos “nativos” cria problemas de integração e pode causar graves conflitos e disrupções sociais e que o afluxo de tantas pessoas dispostas a trabalhar por muito pouco e em condições penosas puxa para baixo os salários dos “nativos” na parte inferior da pirâmide social.
Os sectores mais à direita, tomados por fervores patrióticos e temendo que o influxo de estrangeiros dissolva a identidade nacional ou represente mesmo o fim da civilização ocidental, defendem políticas migratórias draconianas e (à extrema-direita) até a “remigração”, ou seja, a expulsão de imigrantes de segunda geração, já nascidos no país e gozando de pleno estatuto de cidadania. Ao mesmo tempo, fingem ignorar que em muitos países ocidentais, os imigrantes são hoje o grosso da mão-de-obra em muitos sectores de actividade (no caso português: agricultura e pescas, jardinagem e trabalhos de manutenção, construção civil, limpeza e salubridade, cuidados a crianças, idosos e enfermos, restauração e turismo, entregas e logística) e que a baixa taxa de fertilidade e o envelhecimento da população “nativa” no Ocidente se traduz, na ausência de imigração, numa diminuição da população activa e no escasso crescimento (ou até contracção) do PIB.
Sim, podemos abrir as portas a todos os que queiram entrar, mas teremos de aceitar que tal poderá dar origem a grandes comunidades de estrangeiros não-integrados e gerar tensões tão fortes que poderão dilacerar a sociedade. Sim, podemos cerrar completamente as portas a estrangeiros e preservar a nossa suposta pureza étnica e cultural, mas teremos de aceitar que a economia estagne ou entre em recessão e resignar-nos a voltar a desempenhar as tarefas árduas, sujas, penosas e mal remuneradas, de que hoje todos os “nativos” fogem e que ninguém almeja para os seus filhos. Não podemos é ter uma política sem as suas consequências, embora essa seja a atitude que domina os pseudo-debates sobre imigração.
Sujeitos a pressões contrárias, acometidos de desvarios ideológicos, sendo incapazes de identificar causas e prever consequências e navegando ao sabor de conveniências elçeitoralistas, os governos vão adoptando políticas migratórias erráticas, incongruentes e hipócritas. Por exemplo: o apertar da política migratória pelo presente Governo da AD prevê uma excepção para imigrantes qualificados, parecendo não se dar conta de que 1) o afluxo maciço de imigrantes não-qualificados a Portugal é uma resposta à forte procura da economia portuguesa por trabalhadores não-qualificados; e 2) a fuga maciça de jovens diplomados portugueses para o estrangeiro é uma resposta à fraca procura da economia portuguesa por trabalhadores qualificados. O que gera ambos os fluxos, o de entrada e o de saída, não são percepções erradas e decisões insensatas dos que querem entrar e dos que querem sair – é o desencontro entre um sistema de ensino que, há anos, se afadiga a produzir fornadas de licenciados, mestres, bimestres, doutores, pós-doutores e hiperdoutores e uma economia que continua, em média, a ser pouco sofisticada e a pagar salários baixos. A inclusão, numa lei restritiva da política de imigração, de uma cláusula que excepciona os imigrantes qualificados é impotente para anular esse desencontro fundamental que, aliás, a maioria dos governantes, dos políticos e dos reitores das universidades se recusam sequer a admitir que exista. Diga-se de passagem que a sobrequalificação dos jovens trabalhadores (que, em muitos casos, é apenas sobrediplomação) está longe de ser um problema português: a percentagem de trabalhadores com ensino superior, no escalão 25-34 anos, que desempenham trabalhos para os quais são sobrequalificados é de 20% em Portugal, 23% na UE e de 37% em Espanha e na Grécia.
A crueldade como espectáculo e lição
A civilização ocidental não tem sido, necessariamente, mais benévola com os imigrantes do que outras civilizações, mas há que dar-lhe crédito por ter elaborado um quadro legal para as políticas de imigração que, sejam estas permissivas ou restritivas, determina que sejam conduzidas com humanidade, ponderação, equilíbrio e garantias de devido processo legal (“due process of law”). Ora, se Trump fez da desumanização dos imigrantes um dos eixos do seu discurso político (ver capítulo “O guardião da pureza do sangue americano” em Donald Trump pelas suas próprias palavras), a prática da sua Administração tem seguido a mesma via, ao projectar, ostensivamente, uma imagem de dureza, implacabilidade e até crueldade no tratamento de imigrantes ilegais.
A expulsão de imigrantes ilegais dos EUA pelo ICE (Immigration and Customs Enforcement) nem sempre tem observado o devido processo legal e, sobretudo nos casos de (alegados) membros de gangs violentos, tem sido efectuada de forma ostensivamente humilhante, com os deportados a serem exibidos perante as câmaras de televisão algemados de mãos e pés e a terem o seu cabelo rapado. Tal encenação pretende, quiçá, dissuadir outros imigrantes de demandar os EUA, mas, a quem tenha alguma memória, estas imagens de seres humanos a serem “processados” como gado não podem deixar de evocar alguns dos momentos mais sinistros da história do século XX. Esta bambochata aviltante foi coroada a 26.03.2025, com a visita da secretária da Segurança Interna (Homeland Security), Kristi Noem, ao CECOT (Centro de Confinamiento del Terrorismo), em Tecoluca, El Salvador.
Kristi Noem visita o CECOT, El Salvador, 26.03.2025
Esta prisão de alta segurança tem capacidade para 40.000 presos, o que faz dela o maior estabelecimento prisional da América Latina, embora El Salvador seja o mais pequeno país da América Latina – tem o dobro da área do distrito de Beja. É para essa prisão que os EUA, mediante acordo com o Governo salvadorenho, têm estado a enviar os imigrantes que o ICE associou – por vezes empregando critérios subjectivos, falaciosos ou arbitrários – a gangs violentos. O facto de Noem ter julgado que esta visita lhe proporcionaria excelentes “photo ops” não é de estranhar, já que, em 2024, também tinha entendido que iria beneficiar a sua imagem pública ao incluir na sua (segunda!) autobiografia a descrição da forma expedita e fria como abatera a tiro um dos seus cães, após ter concluído que nunca seria um bom caçador (ver capítulo “Interlúdio recreativo: Concurso de talentos” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital).
Cartaz (em estilo “retro” do ICE, apelando à denúncia de imigrantes ilegais, Junho de 2025
Porém, as ameaças hiperbólicas e as encenações aviltantes que têm sido as facetas mais visíveis da política de imigração da Administração Trump 2.0 ocultam uma reduzida eficácia: o registo médio de deportações da presente administração é de 14.700 imigrantes não-documentados, enquanto em 2013, a Administração Obama deportou em média 36.000 por mês (fonte: NBC News, citada por Fareed Zakaria, no programa GPS, da CNN, 20.07.2025). Trump prometera deportar um milhão de “ilegais” por ano, de um total estimado de 11 milhões, e Stephen Miller, actual conselheiro de segurança interna da Casa Branca e um dos mentores da “caça ao imigrante’, proclamara que “A América é para os americanos e só para os americanos”, mas a actuação da presente administração tem sido tão desorganizada e errática que precisaria, ao ritmo presente, de cinco anos e meio para deportar o primeiro milhão e de meio século para “limpar” a América de “bad hombres” (no duvidoso pressuposto de que, entretanto, não voltariam a ocorrer entradas ilegais de imigrantes).
[Comício de campanha de Trump, Madison Square Garden, Nova Iorque, 27.10.2024: Miller reclama a América “para os americanos e só para os americanos”, embora sem esclarecer quem serão estes americanos de gema. Os Sioux? Os Nez Percé? Os Cherokee?:]
Talvez o fito de Trump não seja expulsar todos os “ilegais”, mas projectar uma imagem de Homem Forte e satisfazer os mais rasteiros e primitivos impulsos do seu eleitorado, nomeadamente o “ódio ao estrangeiro” e a figura do estrangeiro como bode expiatório de todas as frustrações (sentimentos assaz paradoxais numa nação de imigrantes). A combinação de retórica violenta contra os imigrantes com uma baixa eficiência na sua remoção não será surpreendente para quem se recorde de que, em 2024, quando, após laboriosas negociações entre os partidos Democrático e Republicano, o Congresso se preparou para aprovar uma “lei bipartidária” que tornaria mais estritas as regras de imigração, indo ao encontro do reclamado pelos Republicanos e, em particular, pelo movimento MAGA. Perante esta situação, Trump moveu-se nos bastidores e persuadiu as figuras-chave do partido a fazer abortar tal iniciativa, pois esta iria privá-lo de uma das suas “causas”. Ou seja, para Trump, o imigrante ilegal é menos um corpo indesejável a remover urgentemente da sociedade americana, como amiúde proclama, do que um espantalho conveniente para agitar no circo espaventoso e sectário em que está convertida a política americana. E Obama, que tem reputação de ter sido um presidente compassivo, foi, afinal o campeão das deportações…
Liberdade para ensinar, aprender e investigar
A Administração Trump 2.0 desencadeou um ataque à independência das universidades americanas, a pretexto de expurgá-las da dupla praga do wokismo e do anti-semitismo, usando como pretexto 1) as manifestações e ocupações pró-palestinas organizadas por grupos restritos de estudantes que tiveram lugar nalgumas delas e que, nalguns casos, incluíram palavras de ordem e atitudes anti-semitas, e 2) a relativa passividade das direcções dessas instituições perante os agitadores (ver, por exemplo, Administração Trump bloqueia financiamento de universidades por alegado antissemitismo e Trump critica Harvard e diz que a universidade “é uma piada”). Nos casos em que o Estado federal controla parte substancial do financiamento das universidades, conseguiu a pronta capitulação destas; só um número muito restrito de universidades, dotadas de sólida base financeira, ousou, pelo menos temporariamente, fazer frente a Trump e mesmo estas estão sujeitas a outro tipo de pressões, como a retirada pelo Estado das isenções fiscais de que gozam, ou o lançamento de investigações parlamentares à sua actuação (ver Republicanos iniciam investigação a Harvard no Congresso dos EUA).
A resistência determinada de Harvard, a universidade americana mais antiga (foi fundada um século e meio antes de os EUA se terem tornado um país independente) e uma instituição excepcionalmente abastada e prestigiada, despertou a ira de Trump e levou-o a recorrer, com o rancor e a mesquinhez que lhe são inatos, a várias medidas direccionadas especificamente contra Harvard, nomeadamente proibindo a inscrição de alunos estrangeiros e a revogação dos vistos dos alunos estrangeiros que já se encontram inscritos – alunos estrangeiros que são um dos maiores activos de Harvard e do sistema universitário americano e que explicam em boa parte os últimos 70 ou 80 anos de supremacia científica e tecnológica dos EUA. Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, nem sequer tentou disfarçar a natureza vingativa do encarniçamento contra Harvard: “Que isto sirva de aviso a todas as universidades e instituições académicas do país”.
O Harvard College, em Cambridge, Massachusetts, em 1767: gravura por Paul Revere, herói da Revolução Americana
As instituições de ensino superior estrangeiras que recebem financiamentos do Estado americano também não escaparam à sanha anti-woke e receberam questionários (ver As 36 perguntas enviadas pelos EUA a universidades portuguesas) focados nos ódios de estimação de Trump e do movimento MAGA e que emanam um odor paranóico que traz à memória o infame senador Joseph McCarthy. Nestes questionários, após exigir-se a identificação de eventuais colaborações ou vínculos, presentes ou pretéritos, envolvendo “entidades/pessoas na lista de terrorismo, cartéis, traficantes de drogas/pessoas, organizações ou grupos que promovem a migração em massa”, “entidades associadas a comunistas, socialistas ou partido totalitários ou qualquer partido que expresse crenças anti-americanas”, e “organizações internacionais ou estruturas de governação global (por exemplo, ONU ou OMS)” (o novo Eixo do Mal, no imaginário MAGA), pede-se que se confirme não ter recebido “nenhum financiamento da República Popular da China, Rússia, Cuba ou Irão” – a ideia de que o paupérrimo e decrépito Estado cubano, que é incapaz de assegurar os serviços básicos à sua população, terá meios para financiar universidades de países desenvolvidos dá uma medida fiel da ignorância, sectarismo e estultícia de quem concebeu e aprovou estes questionários.
Dito isto, é claro que o Estado americano tem o direito de impor as condições que bem entender às instituições que financia, no próprio país e no exterior. Uma vez que o dinheiro é seu, assiste-lhe mesmo o direito de fazer depender o financiamento de respostas a perguntas ainda mais intrometidas e despropositadas, como por exemplo, “Algum membro do vosso corpo docente crê que as alterações climáticas são reais? A vossa instituição concedeu um doutoramento honoris causa a Slavoj Žižek? Algum dos vossos projectos de investigação visa a produção de ‘ratos transgénero’? A biblioteca da vossa instituição contém algum exemplar de O Capital? Em caso afirmativo, é facilmente acessível por menores?”.
Apesar das prerrogativas do Estado americano, estes questionários não deixam de ser uma intromissão na soberania das outras nações, uma tentativa de cerceamento da autonomia universitária e um ataque à liberdade para ensinar, aprender e investigar. Acontece que esta liberdade, duramente conquistada, ao longo de séculos de luta contra a prepotência e a sede de controlo do Estado e a rigidez e obscurantismo da religião organizada, constituiu-se (com a preciosa ajuda de duas inovações tecnológicas importadas do Oriente – o papel e a imprensa) num dos pilares da civilização ocidental e explica, em boa parte, a posição preponderante que o Ocidente assumiu no globo, sobretudo a partir da Era das Luzes e, mais pronunciadamente, do arranque da Revolução Industrial, como explicaram David S. Landes, em The wealth and poverty of nations: Why some are so rich and some are so poor (1998), e Nathan Rosenberg & L.E. Birdzell Jr., no artigo “Science, technology and the Western miracle” (Scientific American, 1990). Porém, há que reconhecer que, nas últimas duas ou três décadas, a China conseguiu quebrar esta acoplagem, ao guindar-se à dianteira da ciência e da tecnologia apesar de ser um regime de partido único, autocrático e totalitário, onde as liberdades de expressão, de circulação de informação e de ensinar, aprender e investigar estão coarctadas.
Trump, na peugada do seu conselheiro económico Peter Navarro, acusa a China de roubo maciço e continuado de propriedade intelectual americana, mas, se esta acusação já correspondeu à verdade, hoje a China é líder em inovação tecnológica: em 2024 registou 798.000 patentes, mais do que a soma combinada dos quatro países seguintes no ranking, EUA, Japão, Coreia do Sul e Índia; e no domínio da inteligência artificial o domínio chinês é ainda mais avassalador, com um número de patentes, em 2024, que quase se equipara ao de todos os outros países do mundo juntos.
Patentes registadas na área da inteligência artificial, por país, em 2024
A percepção do mundo de Trump, de muitos membros da sua entourage e de alguns líderes europeus é toldada por uma arreigada convicção da superioridade e perfeição da civilização ocidental em todos os planos e por preconceitos racistas (mais ou menos conscientes e mais ou menos intensos) relativo aos chineses e outros povos da Ásia Oriental. Assim sendo, apesar do inexorável acumular de provas dos formidáveis progressos em curso na Ásia, continuam a não admitir que esta já suplantou (ou se prepara para suplantar) os EUA e a Europa em vários domínios e, mesmo quando reconhecem o crescente poderio asiático, só conseguem explicá-lo através do “roubo”, do plágio e da desonestidade, não de algum tipo de mérito.
Evolução da repartição mundial de patentes pelas grandes regiões do mundo, entre 2013 e 2023
Quer as elites quer as massas ocidentais só na presente década despertaram para o facto de o Ocidente poder estar a perder terreno, em termos científicos, tecnológicos e económicos, em favor do Extremo Oriente e, em particular, da China. Foi com um misto de inquietação e incredulidade que, em 2020, se acolheu a notícia de que a Huawei se tornara no maior fabricante mundial de smartphones, e que, em 2023, se soube que a BYD se tornara no maior fabricante mundial de veículos eléctricos. Porém, esta mudança tectónica estava em curso há algumas décadas: em 1987, a Europa Ocidental fora ultrapassada pela Ásia Oriental em número de pedidos de patente submetidos; em 2003, a Ásia Oriental igualara a América do Norte neste indicador; em 2013, a Ásia já representava 58.4% dos pedidos de patentes a nível global.
Evolução da repartição mundial de patentes pelas grandes regiões do mundo, entre 1980 e 2018
É previsível que o recuo do Ocidente face à Ásia em termos científicos, tecnológicos e económicos se torne mais nítido. Os estudos do PISA (Program for International Student Assessment) têm mostrado que o desempenho dos alunos do ensino básico e secundário dos EUA se situa na média (ou ligeiramente acima da média) dos países da OCDE, e fica nitidamente atrás dos países da Ásia Oriental em matemática e ciência. Os EUA têm contrabalançado a mediania nestes escalões de ensino com uma reputação de excelência no ensino superior: no top 50 do World University Ranking 2025, 23 universidades são americanas, contra 7 britânicas, 4 chinesas e 3 alemãs. Porém, a vantagem americana tem vindo a minguar e tenderá a erodir-se mais rapidamente graças às políticas educativas da Administração Trump 2.0. As medidas restritivas da admissão de estudantes estrangeiros nas universidades americanas de topo podem ser mesmo vistas como suicidárias, pois parte da supremacia dos EUA na ciência e tecnologia tem-se estribado na capacidade do país para atrair espíritos talentosos e empreendedores de todo o planeta – nos anos mais recentes, mais de metade dos pedidos de patentes submetidos nos EUA provêm de indivíduos e entidades estrangeiras, uma percentagem várias vezes superior à que se regista nas outras grandes potências tecnológicas (China, Japão, Coreia do Sul, União Europeia, Índia).
Despachar a educação com um chokeslam
Apesar de o topo da Administração Trump 2.0 estar povoado com pessoas inadequadas ao cargo, em resultado da sua incompetência, cegueira ideológica, falta de experiência, instabilidade mental, conflito de interesses ou duvidosa integridade, o caso de secretária da Educação merece ser destacado (ver capítulo “A porta escancarada entre a Casa Branca e Mar-a-Lago” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 1: Poder e dinheiro). Boa parte da vida de Linda McMahon foi passada na promoção de eventos desse grotesco espectáculo pseudo-desportivo que é o wrestling; fundou, com o seu esposo, Vince McMahon, a Titan Sports, depois rebaptizada como World Wrestling Entertainment Inc. (WWE), da qual foi presidente e CEO entre 1980 e 2009, e parece ter sido assaz competente nesse mister, uma vez que a WWE se converteu, nesse interim, num colosso multinacional e a fortuna pessoal do casal Linda e Vince McMahon ascende hoje a 3200 milhões de dólares.
O “chokeslam” é um dos golpes do “repertório” desse gracioso e cavalheiresco “desporto” que é o wrestling e consiste em agarrar um adversário pelo pescoço, erguê-lo no ar e atirá-lo vigorosamente contra o tapete
Em 2009, McMahon anunciou ao mundo que sempre tivera um profundo interesse por educação e tornou-se membro do Conselho de Educação do Connecticut, demitindo-se do cargo no ano seguinte, quando lançou a sua carreira política. Apesar de se ter candidatado por duas vezes ao lugar de senador pelo Connecticut, não foi eleita. Em 2016, mudou de estratégia: em vez de gastar dinheiro na sua própria candidatura, fez donativos à campanha presidencial de Trump e este, uma vez eleito, recompensou-a com um cargo político: a liderança da Small Business Administration. Em 2019, McMahon trocou este posto pela direcção do America First Policy Institute, um think tank destinado a promover as ideias políticas de Donald J. Trump, e, nesse mesmo ano, assumiu a direcção da America First Action, uma organização de angariação de fundos para a campanha de Trump.
[Linda McMahon, actual secretária da Educação da Administração Trump, poderá ser incapaz de nomear uma obra de Aristóteles e de confundir Rimbaud com Rambo, mas está como peixe na água no mundo do wrestling: nesta sofisticada rábula pode ser vista a (fingir) esbofetear a sua filha, a wrestler profissional Stephanie McMahon – um exemplo edificante para os milhões de jovens por cuja educação tem o dever de zelar:]
A capacidade de McMahon para gerir empresas e angariar donativos contrasta com a falta de conhecimento e sensibilidade que tem manifestado no campo da educação e que ganhou notoriedade planetária quando de uma conferência sobre educação em San Diego, promovida por investidores de Silicon Valley, a 08.04.2025, em que partilhou com o público esta madura reflexão: “O desenvolvimento da AI… como podemos nós educar à velocidade da luz se não tivermos a melhor tecnologia disponível para fazer isso? Ouvi dizer, creio que foi um artigo ou um relatório que ouvi esta manhã, gostava de me lembrar da fonte, mas há um sistema escolar que vai assegurar que os alunos do 1.º ano [do ensino básico] ou até os alunos da pré-primária tenham aulas de A1 [a-um], sabem, todos os anos, começando nos primeiros anos. E isto é mesmo uma coisa maravilhosa. Os miúdos são esponjas. Eles absorvem tudo. Não foi assim há tanto tempo que, ‘vamos ter Internet nas nossas escolas! whoop!’. Bem, agora vamos fazer A1 [a-um] e como pode isso ser útil? Como pode ser útil na aprendizagem personalizada? Como pode ser útil na absorção, sabem, de mais informação para os que aprendem rapidamente?”. McMahon tornou-se alvo de chacota por ter confundido AI, ou seja, “artificial intelligence”, com A1, uma marca de molhos criada em 1831 e muito popular nos EUA e no Reino Unido, mas o que mereceria ter sido realçado é o facto de toda a sua intervenção ter sido de uma indigência e de uma banalidade estarrecedoras e não ter fornecido o mais pequeno indício de que McMahon está mais informada sobre educação do que sobre o fabrico de queijo Gorgonzola.
No ponto de vista de Trump este lastimável curriculum não representa um impedimento, já que o papel de McMahon é presidir à demolição do Departamento de Educação, conforme o presidente deixou bem explícito: “A minha administração tomará todos os passos legais necessários para extinguir o departamento. Iremos extingui-lo e tão depressa quanto possível. Não tem utilidade alguma”.
Não, ainda não se comercializa inteligência artificial líquida, é apenas uma conhecida marca de molhos
Purga e revolução no ensino superior
No Ocidente, onde, genericamente, continua a acreditar-se na autonomia das universidades e na liberdade para ensinar, aprender e investigar, a investida da Administração Trump contra as universidades foi recebida com surpresa e indignação, talvez por os comentadores e a opinião pública não terem estado atentos às proclamações, denúncias, ameaças, promessas e anúncios vindos do universo MAGA nos anos mais recentes.
No domínio do ensino superior, o programa eleitoral do Partido Republicano (Republican Party Platform) prometia “tornar as faculdades e universidades sãs e acessíveis: Os Republicanos irão despedir os certificadores da esquerda radical e fazer baixar os custos do ensino para os estudantes”. A purga a fazer entre os certificadores, que Trump acusou de “terem permitido que as faculdades ficassem nas mãos de maníacos e lunáticos marxistas”, tem também o objectivo de reduzir os padrões mínimos de qualidade dos estabelecimentos de ensino superior, que, nos EUA, já são baixos (os EUA dominam a parte superior do ranking mundial de universidades, mas também têm uma legião de universidades confrangedoramente beras).
Cartaz de 1902, da autoria de John E. Sheridan, promovendo a Universidade de Columbia (Nova Iorque), com origens que remontam a 1754 (então com a designação King’s College) e que se tornou em 2025 num alvo preferencial de Trump
É tentador ver na raiz desta intenção de afrouxar o nível de exigência exigido às universidades pelas instituições de creditação um ressabiamento pessoal de Trump. A Trump University, que fundou em 2005, nunca recebeu creditação e foi ingloriamente encerrada em 2011, após uma investigação do Ministério Público do estado de Nova Iorque ter descoberto numerosas irregularidades . A Trump University era menos um estabelecimento de ensino do que uma empresa de venda de diplomas e Trump acabou por ter de indemnizar os estudantes defraudados em 25 milhões de dólares.
“Certificado de intrujice”: Em 2016, quando o senador Ted Cruz era rival de Donald Trump nas eleições primárias do Partido Republicano, Cruz usou a “endividada e não-creditada” Trump University para denunciar Trump como vigarista
Os novos certificadores a recrutar não terão como principal preocupação a qualidade do ensino, pois, a dar crédito a Trump, os padrões de avaliação a considerar serão “a defesa da tradição americana e da civilização ocidental, a protecção da liberdade de expressão” e as acções prioritárias serão a “eliminação de lugares administrativos inúteis que só fazem subir espectacularmente os custos e [a remoção de] todos os burocratas marxistas responsáveis pela diversidade, equidade e inclusão [DEI]”.
Para alcançar a redução dos custos para os estudantes, o programa eleitoral do Partido Republicano previa “a criação de alternativas adicionais, drasticamente mais baratas, à tradicional licenciatura de quatro anos”. Sob este propósito, aparentemente louvável, de democratização (a frequência das universidades americanas conceituadas tem custos exorbitantes), oculta-se um plano para uma revolução no ensino universitário dos EUA, assim explicada pelo próprio Trump num vídeo da Agenda 47, de Novembro de 2023: “Gastamos mais dinheiro no ensino superior do que qualquer outro país e, todavia, ele está a transformar os nossos estudantes em comunistas e terroristas e simpatizantes de muitas, muitas dimensões diferentes [sic]. Não podemos permitir que isto aconteça. É altura de oferecer algo dramaticamente diferente. […] Iremos recolher muitos milhares de milhões de dólares ao taxar, multar e processar judicialmente as grandes universidades privadas, e utilizaremos esse dinheiro para financiar uma nova instituição, denominada American Academy. […] A sua missão será tornar acessível a todos os americanos uma educação de verdadeira classe mundial, a custo zero e sem adicionar um cêntimo sequer ao deficit do Estado federal. Esta instituição reunirá um inteiro universo de conteúdos da mais alta qualidade, cobrindo todo o espectro do conhecimento humano, e disponibilizará este material online a qualquer cidadão americano, gratuitamente. […] Será estritamente não-política e não será permitido qualquer wokismo ou jihadismo – nada disso será permitido”.
Enquanto o sistema educativo da China tem vindo a dar passos de gigante – em 2012 era o 49.º país no ranking de qualidade do ensino, em 2024 subiu para 23.º; em 2018 tinha apenas duas universidades no top 100, em 2024 tinha sete, duas das quais já perto do top 10 – em resultado do investimento maciço do Estado neste domínio, pelo seu lado os EUA parecem dispostos, com a American Academy, a afrouxar os padrões de exigência e atribuir diplomas a quem apresente meia dúzia de artigos confeccionados pelo ChatGPT.
Biblioteca Norte, uma das seis bibliotecas da Universidade de Tsinghua, em Pequim, a universidade chinesa mais bem cotada no World University Ranking 2025 (12.º lugar)
É verdade que o crescimento imparável da estrutura administrativa e dos custos dos cursos para os alunos são dois problemas sérios do ensino superior nos EUA (ver capítulo “A universidade-empresa, o estudante-consumidor e o conúbio entre ciência e cupidez” em Platão, Nietzsche e Mick Jagger: Entre guerras culturais e crises civilizacionais) e que alguns departamentos de humanidades foram tomados pelo wokismo (ver capítulo “As guerras culturais na América do século XXI” no mesmo artigo), mas o projecto American Academy não representa uma alternativa séria, antes se afigura como uma máquina que produz diplomados nos moldes em que os aviários industriais produzem frangos e que apenas trará benefícios às empresas tecnológicas que forem contratadas para a implementar.
Há, finalmente, que realçar que as furibundas catilinárias do sector MAGA contra as universidades americanas deixam por explicar o insólito facto de, após cinco ou seis décadas de lavagem ao cérebro dos universitários americanos com doutrinas marxistas, o Partido Comunista Americano (CPUSA) nunca ter elegido um presidente, um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, um governador, um congressista ou sequer um congressista estadual, e só conte, em 2024, com 20.000 membros (0.006% da população dos EUA), quando chegou a ter 70.000 na década de 1930 (quando a população dos EUA era um terço da actual).
Cartaz da campanha do CPUSA para as eleições presidenciais de 1976, propondo Gus Hall como presidente e Jarvis Tyner (irmão do pianista de jazz McCoy Tyner) como vice-presidente. Hall concorreu às eleições presidenciais de 1972, 1976, 1980 e 1984, obtendo, respectivamente, votações de 0.03, 0.07, 0.05 e 0.04%
“Os professores são o inimigo”
O eleitorado Republicano com menores habilitações académicas há muito que nutre desprezo e desconfiança pelos “intelectuais”, pelas “elites educadas”, pelos cientistas, pelos jornalistas e pelo conhecimento em geral, e as redes (ditas) sociais, ao inculcarem em cada indivíduo a ilusão de que a sua opinião, por mais ignara, preguiçosa, incipiente, superficial e preconceituosa que seja, é tão boa como qualquer outra, consolidaram essa atitude de auto-suficiência e sobranceria. Portanto, esse vasto segmento da população acolhe favoravelmente a ideia de sufocar as universidades de prestígio e de dar primazia a um sistema universitário que não peça grandes esforços ao aluno e não tenha custos significativos para o utilizador nem para o contribuinte. Já é mais difícil de compreender que a elite republicana, muita da qual fez os seus estudos nas universidades da selecta Ivy League e até lecciona nelas e está consciente do valor da educação superior de qualidade, também lance um anátema generalizado sobre as universidades.
É disso exemplo o discurso de J.D. Vance, diplomado pela respeitada Faculdade de Direito da Universidade de Yale, na National Conservatism Conference, a 11.02.2021, em que defendeu que “temos de, frontal e agressivamente, atacar as universidades deste país” e proclamou ser “ultrajante que as universidades no nosso país sejam fundamentalmente corruptas e devotadas ao logro e à mentira e não à verdade”. Vance concluiu a sua exprobração de 30 minutos com estas palavras: “Eu queria mesmo acabar esta intervenção com uma frase inspiradora e, assim sendo, consultei as Sagradas Escrituras e alguns dos santos e dos Padres da Igreja, considerei os maiores heróis da civilização ocidental e, obviamente, pensei em alguns dos grandes líderes americanos, e a pessoa que acabei por eleger foi o grande profeta e estadista Robert Milhous Nixon […] Existe um tempo para tudo neste país e creio que que neste movimento nacional conservador aquilo de que precisamos é, mais do que de inspiração, de sabedoria e há sabedoria no que Richard Nixon disse há cerca de 40, 50 anos. Ele disse, cito, ‘os professores são o inimigo’”.
[JD Vance discursa na National Conservatism Conference, 11.02.2021:]
Em Fevereiro de 2021, quando fez este discurso, J.D. Vance começara a ganhar notoriedade no meio Republicano, perfilando-se como candidato ao lugar de senador pelo Ohio, contando para isso com 1) o apadrinhamento do seu “patrão”, o empresário multimilionário e guru do conservadorismo libertário Peter Thiel, e 2) a fama e fortuna obtidas com o best-seller Hillbilly Elegy: A memoir of a family and culture in crisis (2016), um relato da sua juventude em Middletown, Ohio, uma autobiografia simplória, destituída de valor literário e impregnada de sentimentalismo, que caiu no goto não só das massas americanas (que adoram “histórias de superação”) como da crítica literária, que, com inexplicável generosidade, viu nas memórias de Vance uma comovente e penetrante análise sociológica do penoso fado da classe operária do Rust Belt (a fábrica de aço da American Rolling Mill Company em Middletown, fundada em 1900, ainda funciona, mas a actividade industrial na cidade está longe dos seus dias de glória). O livro vendeu 400.000 exemplares só em 2016 (e mais 3 milhões desde então), foi publicado em Portugal no ano seguinte, com o título Lamento de uma América em ruínas: Memórias de uma família e de uma sociedade em crise, e foi adaptado ao cinema em 2020 (a crítica de cinema foi menos leniente do que a crítica literária: o filme tem a abissal pontuação de 24% no website Rotten Tomatoes).
[Uma épica e lacrimogénia história de superação, na variante, “from rags to Yale”, baseada nas memórias de J.D. Vance e realizada por Ron Howard, diligente funcionário da indústria de enchidos de Hollywood:]
Poucas semanas após a intervenção de Vance na National Conservatism Conference, em Fevereiro de 2021, Peter Thiel, deu um duplo empurrão à carreira política do seu “protegido”: fez um donativo de 10 milhões de dólares para sua campanha eleitoral e arranjou-lhe um encontro com Donald Trump, sobre quem Vance tecera várias considerações desagradáveis e assertivas (ver capítulo “J.D. Vance” em Donald Trump pelas palavras dos seus correligionários), mas sem cuja aprovação qualquer carreira no Partido Republicano está condenada ao fracasso. O encontro fez Vance descobrir um Trump que desconhecia, Trump perdoou as farpas que Vance desferira contra ele, Vance passou a elogiar Trump e, com a bênção deste e o dinheiro de Thiel, venceu as eleições primárias Republicanas para a corrida ao Senado e, em 2022, venceu o candidato Democrata.
A afinidade entre Trump e Vance desembocou, no Verão de 2024, na escolha do segundo como candidato a vice-presidente – e a subsequente campanha eleitoral, comprovou o perfeito alinhamento de Vance com as ideias de Trump e do movimento MAGA. Também revelou que Vance em dificuldade em interagir com outros seres humanos e que os seus esforços para activar os seus músculos faciais de forma a simular emoções humanas muito raramente são bem sucedidos: por exemplo, é frequente que, quando, sicofanticamente, tenta exprimir aprovação e regozijo pelos actos ou palavras de Trump, a expressão no seu rosto sugira antes que acabou de levar com uma marreta num pé.
Dia Um da segunda presidência Trump: Trump assina uma enxurrada de decretos presidenciais que tornarão a América “grande outra vez”, sob o olhar de J.D. Vance
Esta nota biográfica sobre Vance justifica-se por 1) ele ter vindo a ser apontado quase consensualmente por comentadores e analistas políticos como a faceta racional, ponderada e estruturada do “trumpismo”, por oposição ao seu volúvel, incongruente e impulsivo caudilho; por 2) ser visto como o mais provável sucessor de Trump na liderança do Partido Republicano e, logo, como provável 48.º presidente dos EUA (perspectiva partilhada pelo próprio Trump, nos dias em que não está a acalentar a ideia de tornear a Constituição e cumprir um terceiro mandato); e por, portanto, 3) ser provável que a ideologia MAGA domine a Casa Branca durante os próximos 12 anos.
Acontece que as apreciações sobre a estatura intelectual de J.D. Vance tendem a ser excessivamente generosas: a sua petulância e assertividade disfarçam mal uma argumentação débil, o seu pensamento político limita-se a replicar os lugares comuns do ideário MAGA e é ferozmente sectário. A conclusão do seu discurso na National Conservatism Conference é reveladora: após, segundo as suas palavras, ter examinado maduramente a sabedoria e a doutrina produzidas desde os alvores da fé cristã (de que se apresenta como devoto praticante e profundo conhecedor), Vance acabou por preferir citar “o grande profeta e estadista Robert Milhous Nixon”, aparentemente esquecido de, há uns anos, o ter classificado como “um cretino cínico” (ver capítulo “J.D. Vance” em Donald Trump pelas palavras dos seus correligionários).
Após ter-se oposto à divulgação das gravações – comprometedoras – das conversas decorridas na Casa Branca que fossem relevantes para o caso Watergate, a 29.04.1974, Nixon, acabou por, num discurso à nação, anunciar a divulgação das transcrições
A antiga impressão de Vance sobre Nixon estava muito mais próxima da realidade do que a actual: Nixon não é conhecido pelo seu contributo para a filosofia política ou para as reflexões sobre o sistema de ensino, ou sequer como pensador, tout court – tem a seu crédito uma dezena de livros, mas são preenchidos com memórias soporíferas e ruminações estéreis e ele mesmo confessou “não tenho muito jeito para a escrita”. Além disso, é sistematicamente cotado no terço inferior dos rankings de desempenho dos presidentes dos EUA (entre 25.º e 37.º), foi forçado a renunciar ao cargo devido ao escândalo Watergate, e é lembrado pela maioria dos que com ele conviveram como frio, distante, desconfiado e azedo. Após as revelações do caso Watergate, o jornal The Chicago Tribune – que tinha apoiado a sua candidatura presidencial – descreveu Nixon assim: “A sua falta de sentido de humor raia o inumano. É tortuoso. É tíbio. É ordinário. Deixa-se levar facilmente. Tem falhas de conhecimento abissais. Desconfia da sua equipa. A sua lealdade é quase nula”. Richard Reeves, um dos seus biógrafos, resumiu-o, lapidarmente, como alguém “que pensava o pior das outras pessoas e que delas conseguia extrair o pior”. Que Vance veja nele um “grande profeta e estadista” diz imenso sobre Vance.
9 de Agosto de 1974: Nixon abandona a Casa Branca, no dia seguinte a ter apresentado a sua demissão do cargo, após perceber que a sua impugnação pelo Congresso seria inevitável
Apesar da aura de mediocridade intelectual e de ética duvidosa que envolve Nixon, até um relógio parado marca horas certas duas vezes por dia, pelo que não teria sido difícil a Vance respigar dos discursos e escritos de Nixon uma linha minimamente válida e instrutiva. Ora Vance também conseguiu extrair o pior de Nixon, ao seleccionar “O professor é o inimigo”, uma frase de uma estupidez e de uma maldade invulgares, digna de figurar entre as frases mais infames de sempre, ao lado de “Viva la muerte!”, da sua gémea “Muera la inteligencia!” (ambas creditadas ao general nacionalista José Millán-Astray), de “Sempre que ouço falar de cultura, destravo a minha pistola” (proveniente de uma peça do dramaturgo nazi Hanns Johst) e de “Greed is good!” (colocada na boca da personagem Gordon Gekko, no filme Wall Street). Do alto da sua obtusidade presunçosa e auto-satisfeita, Vance, esteio intelectual do Partido Republicano e autoproclamado paladino da civilização ocidental, não se dá conta de que a frase que escolheu para coroar as suas pífias e sectárias ruminações sobre ensino superior nega os valores nucleares não só da civilização ocidental como de qualquer civilização.
Próximo artigo na série: Civilização ocidental: Quando o crepúsculo desce