João Cotrim Figueiredo interrompeu uma conversa de jornalistas com o seu assessor de imprensa para atacar de forma ainda mais violenta o trabalho da comunicação social sobre a alegação de assédio sexual feita pela antiga assessora da IL, Inês Bichão. Minutos depois de ter criticado o trabalho dos jornalistas, o candidato apoiado pelos liberais voltou a confrontar os elementos da comunicação social presentes com aquilo que alegou ser um mau trabalho jornalístico.
Foi logo a seguir às primeiras críticas que fez na tarde desta quinta-feira, depois de uma visita a uma empresa de Santo Tirso, em que quis fazer uma declaração a acusar os jornalistas de serem “um instrumento e se calhar até cúmplices” de um “autêntico assassinato de caráter brutal”. Nessas primeiras declarações que fez, chegou até a perguntar: “Vocês têm ideia do que é que fizeram à minha vida?”
Na segunda investida, dirigida ao grupo de dezena e meia de jornalistas que conversava com o assessor de imprensa, à frente de duas dezenas de apoiantes e dos responsáveis da empresa que tinha acabado de visitar, João Cotrim de Figueiredo subiu ainda mais o tom: “Algum de vocês perguntou quantas acusações de assédio já fez a Inês Bichão?” Perguntou (várias vezes) quantas. Perante o silêncio dos jornalistas, afirmou que uma vez que ninguém lhe sabia responder, o que está a acontecer não é jornalismo; é “mau jornalismo”.
A seguir, afirmou que os jornalistas não sabem o que ele teve de ouvir por causa deste caso, acusando-os de o terem matado politicamente quando lhe foi colocada a questão sobre a story em que Inês Bichão alegava assédio — sendo que o candidato esteve durante 12 minutos a preparar-se para responder a perguntas relacionadas com o caso e já tinha tido conhecimento da publicação da story na noite anterior. “Mataram-me naquele dia”, voltou a frisar.
Nervoso e a apontar o dedo a jornalistas, João Cotrim Figueiredo criticou em seguida o facto de ter aparecido num site informativo uma frase entre aspas que não disse. Acusou os jornalistas de não terem averiguado a verosimilhança da alegação de assédio e queixou-se de ter ficado com a reputação destruída.
▲ "Interessaram-se sobre o que se está a passar, por exemplo, nesta empresa que eu estou a visitar hoje?”, indignou-se o candidato
Igor Martins
Queixa por difamação: defesa terá pesquisado outras denúncias da ex-assessora
A queixa-crime de que Cotrim tem estado a falar desde o início da semana foi preparada pela sócia de um escritório de advogados de um dos seus apoiantes. Terão sido pesquisadas outras alegações de assédio que a antiga assessora dirigiu a outros homens. É esta investigação em curso que justificará o desafio dirigido por Cotrim aos jornalistas.
Num processo como este, é normal que a advogada peça para ver registos de eventuais trocas de comunicações ou mensagens entre o cliente e a autora da alegação de assédio. Foi ainda identificado o total de amigos e seguidores da antiga assessora no Instagram, mas é preciso perceber que grupo mais restrito de pessoas recebeu aquela publicação — dependerá sempre do número de “Amigos Chegados”.
Aos jornalistas, o candidato sublinhou ainda que o comunicado da antiga assessora da IL acaba por confirmar a autoria da story. A queixa estaria a ser preparada por difamação ou denúncia caluniosa, contra Inês Bichão, mas também contra incertos, por terem disseminado o conteúdo da story.
A queixa iria dar entrada no Ministério Público, em Lisboa, mas a candidatura não confirmou ao Observador se foi de facto entregue esta quinta-feira, como prometeu João Cotrim Figueiredo. A lista de testemunhas e a atribuição de um valor aos danos reputacionais e patrimonais, para efeitos de pedido de indemnização, pode ser feita mais tarde.
Leitão quebra silêncio e ataca jornalistas
Esta quinta-feira de manhã, a sua visita a um centro de dia em Gondomar tinha terminado no exato momento em que saiu a notícia sobre o comunicado de Inês Bichão, a afirmar que tinha reportado internamente o alegado caso de assédio sexual em 2023.
Cotrim voltou a negar que soubesse de alguma coisa, queixou-se de ter a “campanha sequestrada” por este assunto e admitiu que o “dano” já estava causado. Prometeu que a queixa-crime contra a ex-assessora da IL estaria pronta à hora de almoço para dar entrada ainda esta quinta-feira e perguntou se se podia mudar de assunto — horas depois, já em Santo Tirso, seria o próprio candidato a recuperar o tema, desta vez para visar diretamente os jornalistas.
À noite, o candidato liberal fez o seu jantar-comício no Terminal de Cruzeiros de Matosinhos — era para ter sido um roast a Cotrim Figueiredo feito por humoristas, como o próprio anunciou, mas a candidatura não quis correr mais riscos nesta fase delicada da campanha. Perante mais de 400 apoiantes, Cotrim Figueiredo mostrou que os dois ataques que dirigiu durante a tarde aos jornalistas não foram apenas duas explosões — passou a ser estratégia, uma vez que os repetiu no seu discurso, com o incentivo dos apoiantes que assistiam ao comício.
Desta vez, acusou os jornalistas de estarem “entretidos” com outras coisas e não terem dado a atenção que o candidato consideraria adequada a um vídeo de apoio que recebeu do primeiro-ministro dos Países Baixos: “Mesmo que a comunicação social portuguesa não perceba a importância, tenho muito orgulho neste apoio”.
Antes de Cotrim Figueiredo, discursou a líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, que também atacou os jornalistas: “É lamentável que a comunicação social se tenha demitido de fazer o seu trabalho mais básico, ao ponto em que a calúnia fácil sobre matérias graves sem denúncias ou provas passa a ser dada como facto consumado”.
▲ Mariana Leitão garantiu no discurso que não houve qualquer denúncia contra João Cotrim de Figueiredo
Igor Martins
Era a primeira vez que a presidente do partido falava sobre o caso, ainda que Cotrim Figueiredo a tenha envolvido logo na terça-feira, quando disse ter a certeza que, se fosse caso disso, Mariana Leitão tornaria “pública a sua posição”. Desde então, e até esta quinta-feira, o Observador procurou várias vezes, via assessoria de imprensa, uma reação da própria ao tema. As respostas que chegaram foram sempre a título institucional e não em nome de Mariana Leitão.
A líder da Iniciativa Liberal, que era chefe de gabinete do grupo parlamentar à época dos alegados factos, garantiu de viva voz não haver “nenhuma queixa, relato ou denúncia sobre João Cotrim Figueiredo”. Mas o partido demorou três dias a dar essa informação, só o tendo feito depois de ser divulgado o comunicado da antiga assessora. Mariana Leitão, por sua vez, entrou e saiu do jantar-comício sem querer responder a qualquer pergunta de jornalistas.
O candidato que aparecia cheio de otimismo a crescer na primeira semana de campanha passou nesta segunda semana a aparecer mais amargurado e ressentido, o que culminou na sua explosão junto dos jornalistas: “Já percebi que hoje de manhã vocês não se interessaram praticamente por mais nada [além do alegado assédio]”.
Quatro dias depois de o tema do alegado assédio ter aparecido na campanha, e no dia em que a antiga assessora da IL divulgou o seu comunicado, Cotrim Figueiredo dramatizou: “Não pode continuar aquilo que já é uma autêntica perseguição em relação a este tema. Isto vai ser esclarecido em tribunal cabalmente. Mas não posso passar o resto da campanha a falar disto. Não posso, não quero e não vou.”
A campanha termina esta sexta-feira com três ações no distrito de Braga. Cotrim disse no discurso que “Seguro dá sono e Ventura é pesadelo” e apelou aos indecisos para o levarem à segunda volta, confiando que as sondagens confirmarão as suas hipóteses, com uma ressalva: “Se a campanha obviamente não for dinamitada.”
▲ Cotrim de Figueiredo tomou duas vezes a iniciativa de explodir contra os jornalistas
Igor Martins