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À procura de respostas nas perguntas escritas por outros: estes são os 49 livros que mais gostámos de ler em 2024

Literatura sobre vidas pouco ensaiadas, ensaios sobre a vida de um objeto literário, biografias de grandes nomes ou banda desenhada premiada: estes são os nossos títulos favoritos do ano.

    Índice

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Eis o desafio que a época impõe: entre quem escreve habitualmente sobre livros para o Observador, quisemos saber quais os títulos que saem deste 2024 com o carimbo de “leitura obrigatória” e não se ficam por uma simples boa memória. E do resultado do inquérito conseguimos listas distintas em quase tudo, com pontos comuns entre romances e ensaios. Aliás, são estes os principais ingredientes desta receita literária: personagens de ficção que questionam o passado à procura de um lugar no presente e no futuro; o ensaio que coloca a literatura a olhar para si própria; e uma celebração de 500 anos que gerou obras com outra pergunta: conhecemos nós Camões?

Alexandre Borges

Como Escrever
Miguel Esteves Cardoso
(Bertrand)

O problema de gostar muito duma coisa é que ela, amiúde, se nos acaba. Não temos mais episódios para ver, mais livros para ler, mais empadão na travessa. É assim, há muitos anos, com Miguel Esteves Cardoso: quem gosta já leu tudo, há muito tempo, e bem pode dar-se por feliz por tê-lo toda a semana com crónicas no Público para matar o vício. Mas é claro que um livro novo é outra coisa. E este, mesmo longe da sua hora mais brilhante, garante sempre aquele prazer de habitar umas horas na cabeça de MEC. Um manual de iniciação à escrita, prático e desassombrado, cheio de momentos luminosos como este: “Escrever é a solução para o problema da solidão (…). Para escrever, é preciso inventar a solidão que não se tem.”

Diálogos Lusitanos
Onésimo Teotónio Almeida
(Quetzal)

A cultura portuguesa precisava, não há dúvida, de muito mais Onésimos. Mas, como o seu nome singular parece indicar até na língua de que não vem, mas para onde foi, Onésimos destes só há mesmo “One”. Este volume, saído já perto do final do ano, reúne um conjunto de ensaios e conferências acerca de uma galeria de figuras maiores da nossa cultura: de Pessoa a Natália; de Jorge de Sena a Saramago; de Rodrigues Miguéis a Eduardo Lourenço, à procura da modernidade que temos ou nos escasseia. Naquele admirável registo de observador atentíssimo, com a vantagem da distância, provando, como é habitual no autor, que é possível pensar de forma séria em linguagem acessível, com humor e gosto a vida real, longe do bafio de certa academia.

[Já saiu o segundo episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]

Domingos no Cinema
Anthony Marra
Tradução: Inês Amado
(Porto Editora)

Anthony Marra é um dos mais empolgantes romancistas contemporâneos e volta a prová-lo com esta viagem apaixonante à relação entre o cinema e a Segunda Guerra Mundial. Do Mediterrâneo ao Pacífico, de Roma à Califórnia, Maria Lagana fugiu ao passado e trabalha agora como produtora em Hollywood: a fábrica das imagens perpétuas. É seguindo a sua história que entramos num filme muito maior, que nos leva de novo a refletir, depois de O Czar do Amor e do Tecno, sobre o poder das imagens, da propaganda e do confronto das grandes narrativas coletivas contra a irredutibilidade da memória individual.

Carta sem Destinatário – Primeiros Textos e Poemas
Andrei Tarkovski
Tradução: Ana Garcia Ferreira
(Sr Teste)

Uma daquelas pequeninas pérolas que edita a Sr Teste. Cabe no bolso do casaco e enche-nos o cérebro de sinapses. Uma reunião de textos de juventude de Andrei Tarkovski onde se vê nascer o génio, a sua capacidade poética, os seus fundamentos filosóficos, a sua capacidade de produzir imagens, ainda sem câmara de filmar. Entre um ou outro laivo efetivamente adolescente, leva-nos ao frio do interior russo, nas expedições geológicas de onde extraiu uma parte relevante da sua visão do mundo. Belas ilustrações de Francisca Valador.

Deus na Escuridão
Valter Hugo Mãe
(Porto Editora)

Há muito quem se irrite com Valter Hugo Mãe – este que vos escreve, por exemplo, costumava irritar-se antes mesmo de o ter lido. Sabe-se lá porquê. As irritações, pelo menos as boas, são como os amores: assuntos do coração, com razões que a razão desconhece. Até que chega o dia de pendurar a irracionalidade no cabide e experimentar ver do que estamos, afinal, a falar. Deus na Escuridão foi esse dia. A porta de entrada para a linguagem mágica de um autor que parece ter feito o seu próprio acordo ortográfico entre o português dos vários continentes – e com assinalável vantagem em relação ao das Academias. É ela que aqui nos embala através da história de um menino que nasce sem sexo, da natureza humana de seu irmão e de um Deus que ama “exatamente como as mães”.

▲ As escolhas de Alexandre Borges

Andreia Costa

Notas Sobre Uma Execução
Danya Kukafka
Tradução: Catarina Ferreira de Almeida
(Presença)

Ansel Packer vai ser executado — esse é um dado que sabemos logo à partida. É um serial killer e está prestes a pagar pelos crimes que cometeu. À medida que vamos tentando entender os seus atos, enquanto as horas avançam e o desfecho se aproxima, conhecemos em paralelo três mulheres: a mãe, a cunhada e a detetive que o prendeu. São elas e as respetivas histórias que tornam este livro surpreendente, escrito com ritmo, suspense e empatia, deixando pelo caminho questões (para o leitor) sobre as escolhas que determinam a nossa vida ou as vidas que tocamos. É impossível parar de virar as páginas até terminarmos. É impossível não continuarmos a pensar nele muito depois de o terminarmos.

Sonny Boy
Al Pacino
Tradução: João Cardoso e Pedro Elói Duarte
(Presença)

Al Pacino é um dos nomes incontornáveis do cinema. Por isso, com 84 anos, estava mais do que na altura de publicar as memórias, com um relato honesto e excêntrico, exatamente aquilo que queríamos dele. Da infância com uma mãe extremamente batalhadora, mas mentalmente instável, ao pai ausente, passando pela vida nas ruas do Bronx (Nova Iorque, EUA), onde se criou, se perdeu e se apaixonou, até à descoberta da representação. Miséria, dinheiro, pobreza outra vez e o renascer daquele que será sempre Michael Corleone. Uma leitura obrigatória para quem gosta de biografias, sobretudo aquelas que são uma montanha russa de conquistas, desilusões, erros e superações.

Intermezzo
Sally Rooney
Tradução: Marta Mendonça
(Relógio D’Água)

Um pai morre e dois irmãos, homens profundamente diferentes, têm de resolver inúmeras questões das respetivas vidas (sobretudo amorosas) enquanto aprendem a lidar com o luto. Depois de Pessoas Normais e Mundo Belo, Onde Estás, Sally Rooney volta a provar que pessoas banais podem ser protagonistas hipnotizantes. As primeiras cerca de 50 páginas parecem arrastar-se um pouco mas, passando essa barreira, a história descola, embalada por uma escrita crua, real, descritiva e complexa. Sally Rooney sabe como construir personagens com as quais o leitor se relaciona e, mesmo que pareça repetitiva em certas características que lhes atribui, o certo é que a fórmula funciona e esta obra é a mais ambiciosa e experimental da autora até agora.

Canção do Profeta
Paul Lynch
Tradução: Marta Mendonça
(Relógio D’Água)

A Irlanda está à beira do abismo. Sob um governo que se inclina para a tirania, é à porta de Eilish Stack, cientista e mãe de quatro filhos, que numa noite bate à porta a recém-formada polícia secreta. Primeiro querem interrogar o marido, sindicalista, que depressa desaparece. Depois desaparece o filho mais velho. Começa assim a saga de uma mulher disposta a tudo para salvar a família. Vencedor do Booker Prize em 2023, este livro é uma distopia arrebatadora, assustadora, caótica e frenética, com uma escrita peculiar onde não há espaço para parágrafos ou citações. A escolha faz com que o leitor fique preso num estado de ansiedade tal que é impossível respirar até chegar ao fim das cerca de 230 páginas.

Solitária
Eliana Alves Cruz
(À Parte)

Eunice é empregada doméstica num apartamento de luxo, no Brasil. Mabel é a filha dela, que vai crescendo atrelada às obrigações da mãe e confinada a um minúsculo quarto dos fundos. Uma aceita as injustiças como inevitáveis, a outra revolta-se. Nesta dança vai-se escrevendo a história de Solitária, que conta ainda com um acidente (ou crime) que altera a vida das personagens para sempre. O livro é curto, a escrita é simples, mas poética e dilacerante exatamente na mesma medida.

▲ As escolhas de Andreia Costa

António Moura dos Santos

Teoria das Catástrofes Elementares
Rita Canas Mendes
(Elsinore)

“Não nos faltava nada de essencial, mas faltava-nos praticamente tudo o que queríamos.” Assim se descreve a protagonista de Teoria das Catástrofes Elementares de Rita Canas Mendes. No mesmo ano em que chegámos aos 50 anos do 25 de Abril, a escritora e tradutora estreou-se na ficção com um retrato impiedosamente incisivo de uma certa classe média que come esparguete à bolonhesa com carne do supermercado, mas usa o faqueiro de prata ao jantar — ou seja, que perdeu os privilégios económicos de que granjeava antes da Revolução, mas vive agarrada a um capital social como se de uma boia de salvação se tratasse. Ao longo de três gerações, vemos como uma família foi sendo moldada pelos pequenos cataclismos que dão título ao livro. Além de ser uma narrativa frequentemente hilariante, mostra como ainda há muitos tabus que nos recusamos a enfrentar ao fim de meio século de democracia.

O Contrário de Nada
Tess Gunty
Tradução: Eugénia Antunes
(Alfaguara)

Em Vacca Vale, tudo é modorra, tudo é sufoco, tudo se faz de um entorpecimento angustiante e de falta de oportunidades. É uma cidade fictícia, aquela onde se passa grande parte da ação de O Contrário de Nada, romance com que Tess Gunty se deu a conhecer, mas podia ser bem real. A escritora cresceu num lugar assim, num Midwest americano cujas oportunidades enferrujaram e as pessoas sentiram-se deixadas para trás. Recorrendo à polifonia, acompanhamos as várias personagens na sua sonolência, à espera de um acordar violento, numa narrativa sem chavões partidários, mas agudamente atenta à realidade social e política do país. Há uma citação quanto a uma das personagens que o descreve na perfeição: “A fé, a raiva e a geometria. Tudo autoestradas e Deus. Moses só entende a política contemporânea quando está no Midwest”.

As Melhoras da Morte
Rui Cardoso Martins
(Tinta da China)

Entre E Se Eu Gostasse Muito De Morrer e As Melhoras da Morte, espécie de sequela, passámos do 2G para o 5G nos telemóveis, pois distam 20 anos no tempo narrativo, quase tantos como o tempo de publicação entre as duas obras. Encontramos de novo o protagonista Cruzeta, de regresso a Portalegre para o funeral de um amigo, que se matou, pretexto para novas reflexões sobre o esquecimento e a folclorização do Alentejo no país, da morte e do suicídio como pulsões que não desarmam do imaginário nacional. Sempre com o humor ácido — aqui a roçar o delirante — que caracteriza a escrita de Rui Cardoso Martins, pontuado com uma linguagem nostálgica mas nem por isso melodramática.

A Palavra que Resta
Stênio Gardel
(Dom Quixote)

Livro vencedor do National Book Award nos EUA por melhor obra traduzida, não é, contudo, (apenas) por louvores como este que A Palavra que Resta surpreende. É por um romance tão confiante, dono de um estilo impactante às primeiras páginas, ser a estreia do brasileiro Stênio Gardel. Situada no sertão nordestino, a história acompanha Raimundo e a sua desventura amorosa juvenil com Cícero, afastados devido ao conservadorismo de ambas famílias e do ambiente que os rodeia. Violentado mas capaz de violência também, seguimos o protagonista sem maniqueísmos enquanto procura o seu lugar num mundo de precariedade mas também camaradagem, aprendendo a ler já no final de vida para finalmente entender uma carta que guardou desde a separação. O tratamento da linguagem, de uma oralidade burilada, é primoroso, e a história, arrebatadora.

O Lago da Criação
Rachel Kushner
Tradução: Manuel Alberto Vieira
(Relógio D’Água)

Ainda nas primeiras páginas de O Lago da Criação, uma das personagens formula a questão que se segue. “Caminhamos para a extinção num reluzente carro sem condutor, e a pergunta que se impõe é: Como saímos desse carro?” É a essa mesma indagação que Rachel Kushner tenta responder neste romance de ideias, que coloca uma agente provocadora norte-americana a infiltrar-se numa comuna anarquista francesa que quer encetar um modo de vida alternativo ao mesmo tempo que combate mega investimentos agrícolas. Altamente presciente — a escritora adivinhou o tipo de crises que tomariam parte em França ainda destas acontecerem —, o livro tem como coração uma figura anciã descrente no rumo que tomámos como civilização de desgaste e consumo. Podemos não concordar com tudo o que ele defende, mas que dá que pensar, dá.

▲ As escolhas de António Moura dos Santos

Carlos Maria Bobone

Camões: Altos Cumes, Scabeliscastro e Correlatos
Vitor Serrão e Mário Rui Silvestre
(Cosmos)

É um livro desigual. Os ensaios de Vítor Serrão têm um rigor e uma contenção de linguagem com que os de Mário Rui Silvestre beneficiariam, mas dos livros que, neste ano, se publicaram sobre Camões, acaba por ser o que abre mais linhas de investigação. Explora as ligações de Camões com Santarém, que seria a terra da mãe e que os autores defendem ter sido a terra de nascimento de Camões, e com algumas das figuras principais da chamada “Corte de Vaqueiros”, centrada nos Vimiosos, figuras ligadas desde sempre à recepção de Camões. É também apresentado um inédito camoniano, cuja validade não é possível discutir aqui, mas que, no mínimo, acrescenta alguma coisa à lenda camoniana.

O Melhor Duplo
Paulo Bugalho
(Língua Morta)

Trata-se de um livro de ensaios que casam ciência e literatura, nem sempre muito claros naquilo que pretendem dizer – por vezes parece que estamos simplesmente a vaguear pelo complexo mundo do cérebro ou da cultura – mas que denotam, além de uma sensibilidade e uma atenção ao pormenor invulgares, uma mundividência muito incomum. Isto é, não se trata de um compêndio refeito de ideias literárias com base científica, à maneira de um António Damásio, ou de uma apresentação mais ou menos escolar dos tópicos clássicos da literatura; trata-se de um livro feito a partir de problemas teóricos analisados, não a partir da escola (e há muita escola por onde pegar, sobretudo no caso dos sonhos, que têm aqui um papel de dínamo), mas da intuição, o que lhes dá a frescura que de facto têm.

A Coisa Mais Próxima da Vida
James Wood
Tradução: Joana Jacinto
(Zigurate)

É um livro pequeno e, no limite, algo preguiçoso para os padrões de James Wood. A exaustividade da análise que encontramos nalgumas das suas páginas mais famosas não entra nesta espécie de autobiografia assistemática, feita a partir de conferências e leituras. Ainda assim, Wood tem uma inventividade, uma capacidade para transformar em fórmulas enriquecedoras aspectos omnipresentes mas pouco explícitos da literatura, que tornam o livro sempre interessante. Além do mais, o livro está escrito num tom tão vivido, que se percebe de facto a importância vital da literatura, quer a partir de um ponto de vista geracional, quer de um ponto de vista metafísico, quer da própria ideia de solidão, trazida pelo brando exílio numa terra que não é a sua.

Poesia
António Sardinha
(E-Primatur)

António Sardinha não é, nem por sombras, o melhor poeta da sua geração. No entanto, a sua poesia está para lá de uma classificação literária no sentido mais lírico e estético do termo. A verdade é que há uma ligação estética entre a sua poesia e o seu pensamento que o esclarece e, de alguma forma, o aprofunda. A ligação à terra, às tradições, a consciência da perda e do modo como as coisas não cuidadas erodem rapidamente, uma espécie de desgosto pela inconsciência com que são vividos os quotidianos brutos com potencial para se tornarem grandiosos, tudo isso está na poesia de Sardinha. Há, além do mais, um ponto importante neste livro. É que a reunião da poesia dá uma noção da constância e dimensão da sua obra poética, que a partir daqui não pode ser passada para um plano secundário em relação aos seus ensaios.

Conversas Sobre a Fé
Antonio Spadaro e Martin Scorsese
Tradução: Dinis Pires e Pedro Branco
(Casa das Letras)

Scorsese não é um pensador, e a sua ideia de fé não consegue ser articulada discursivamente a ponto de trazer algum tipo de iluminação sobre os modos de relação entre o homem e o sagrado. O que ele diz sobre a fé, sobre o papel da religião no espaço público e na sua educação, tudo isso se pode encontrar em muitos sítios, e é de facto vulgar. O que se torna interessante nestas conversas é outra coisa: é o modo como alguém sem grande habilidade discursiva mas com uma sensibilidade apurada tenta esclarecer um processo mental que ele próprio reconhece como importante mas não tem gramática para explicar. É aí que entram os exemplos, a referência a Silêncio, e os momentos em que transparece uma fé mais viva. São conversas relativamente descontraídas, em que o verdadeiro tesouro não está tanto na profundidade mas numa espécie de pureza de uma experiência pouco filtrada pelo vocabulário teológico.

▲ As escolhas de Carlos Maria Bobone

Guilherme P. Henriques

Camões – Vida e Obra
Carlos Maria Bobone
(Dom Quixote)

Logo no início, é o próprio autor que adverte para a dificuldade de categorização deste seu livro, cujo método transita entre História das mentalidades, estudo psicológico e apreciação estética. Esta abordagem flexível pressupõe a ideia de que compreender Camões exige um movimento constante entre o universo da obra e o mundo que a moldou, bem como a ideia de que venerar o Poeta implica necessariamente venerar outros poetas. Explicá-lo requer engenho e arte; explicá-lo a leitores modernos, de forma tão rigorosa quanto clara, requer o mesmo, mas em dobro.

Sonata para Surdos
Frederico Pedreira
(Relógio D’ Água)

O protagonista deste romance é um modelo extremo do tipo de pessoas habitualmente designadas como “contemplativas”: passeia sozinho, entretém-se com a digressão obsessiva dos seus pensamentos, e costuma ser encontrado por funcionários da biblioteca com o “dedo colado ao queixo junto às prateleiras dos livros”. É através dele (e como ele), que Frederico Pedreira se aventura a explorar os conceitos de “espanto” e “estranheza” em atividades triviais. Os mais teóricos, já se sabe, descrevem-no como “proustiano” e “digressivo”. E têm razão: a história é contada através de rememorações associativas, citações de autores, analogias e propostas de teses. Este romance é no fundo uma sonata tocada com seis mãos, por um “romancista, ensaísta e poeta”, que insiste em seduzir-nos ao mesmo tempo que nos vira as costas.

A Coisa mais Próxima da Vida
James Wood
Tradução: Joana Jacinto
(Zigurate)

James Wood costuma ser descrito como “o mais influente crítico literário da atualidade”, o que suscita, entre outras, a questão de saber o que é um “crítico literário”. Este livro, que mistura análise literária, autobiografia e filosofia da arte, parece querer deixar-nos com pelo menos uma ideia de resposta. Wood concebe a crítica de arte como um objeto artístico em si mesmo; e vê a arte como forma de iluminar questões da vida, muitas vezes vagas e difíceis de articular. O prazer que sentimos quando alguém nos revela o que ainda não foi dito é por isso um prazer que podemos sentir, indistintamente, com bons artistas e com bons críticos literários. Em casos excecionais, sentimos que o prazer de ler um crítico sobre um livro é superior ao prazer de ler o próprio livro. James Wood é um desses casos, um desses críticos, um desses artistas.

Os Nossos Desconhecidos
Lydia Davis
Tradução: Inês Dias
(Relógio D’ Água)

O leitor experimentado em entrevistas a Lydia Davis saberá que a escritora norte-americana passa os dias com um caderno à mão: “I always do make a note of anything I find interesting” (conversa com Christian Lund, em agosto de 2014). Este livro parece o resultado de uma coleção de notas desse seu caderno, sem enredo ou género que as unifique. Morte, conversas antes do jantar, envelhecimento, e-mails de spam e tipos de disposição das mãos no volante do carro são tudo coisas mais parecidas do que diferentes, desde logo porque todas elas nos descrevem. Ora com humor, ora com melancolia, o virtuosismo literário de Lydia Davis está justamente em saber tomar nota dessas coisas: não como quem explica bem, mas como quem sabe apontar.

Vermelho Delicado
Teresa Veiga
(Tinta-da-China)

Nestes setes contos, temos tudo o que precisamos de uma grande contista: ambiguidade, ambivalência, mistério e, sobretudo, poucas palavras. Numa das histórias, um inspetor tenta desvendar a identidade de um criminoso através da observação de detalhes aparentemente insignificantes. É no fundo o que Teresa Veiga faz com a literatura: observando pormenores e lateralidades do espírito, numa espécie de estado mental simultaneamente cómico e especulativo, tão diverso do senso comum e da lógica, a escritora descobre-nos a careca.

▲ As escolhas de Guilherme P. Henriques

João Pedro Vala

Dragon Ball, Volume Triplo: Son Goku e os Seus Amigos
Akira Toryiama
(Devir)

No ano da morte do génio extravagante Akira Toryiama, a Devir fez o que há muito era devido: iniciou a publicação em catorze volumes triplos dos quarenta e dois livros de Dragon Ball. É a primeira vez em que a divertida história de Son Goku, Krillin, Bulma e outros que tais é traduzida diretamente do japonês, em formato mangá e na sua versão integral, o que nos permitirá perceber bem que não há só melancolia no fascínio de uma geração por estes protagonistas tão inconvenientes.

Episódios de Fantasia & Violência
p. feijó
(Orfeu Negro)

Pensado originalmente como performance, o texto de p. feijó é muito mais do que uma reflexão acerca da intolerância cosmopolita em relação às pessoas queer. É uma descrição arguta dos mecanismos de fantasia e violência, que merecia bem mais atenção do que a permitida pela voracidade do nosso mercado editorial.

Camões: Vida e Obra
Carlos Maria Bobone
(D. Quixote)

A celebração do quingentésimo aniversário de Camões teve como vantagens evidentes gerar polémicas online e ensinar-nos a palavra “quingentésimo”. Mas houve ainda outros benefícios talvez igualmente proveitosos, como as várias reedições da obra do poeta e a publicação (ou republicação) de estudos que permitem reacender dentro de nós o fervor camoniano. O livro de Carlos Maria Bobone foi o meu preferido, mas importa também destacar Fortuna, Caso, Tempo e Sorte de Isabel Rio Novo (que ainda não li), a antologia de Frederico Lourenço, e as reedições de Babel e Sião, de Jorge de Sena (que também não li) e de Camões, de António José Saraiva.

Contos, Parábolas, Fragmentos
Franz Kafka
Tradução: António Sousa Ribeiro
(Relógio d’Água)

O centenário da morte de Kafka trouxe consigo o fim dos direitos de autor aplicados à sua obra, abatendo-se com isso uma benigna avalanche de livros do escritor sobre o mercado dos livros em Portugal. Destaco este, mas merecem menções honrosas as reedições de Carta ao Pai (Penguin) e de América (Manufactura) e a antologia de histórias e fragmentos publicada pela E-Primatur.

Por Amor À Língua e à Literatura
Manuel Monteiro
(Objectiva)

O revisor Manuel Monteiro é um obstinado e rabugento amante da língua portuguesa, que, precisamente devido a essa condição, dedica grande parte do seu tempo a repudiar, carregado de razão, o novo acordo ortográfico. Por Amor à Língua e à Literatura deve ser lido por todas as pessoas que aspiram a escrever crónicas, romances e livros de culinária, ou simplesmente a chatear incautos internautas com publicações inspiradoras nas redes sociais.

▲ As escolhas de João Pedro Vala

Joana Moreira

A Desobediente
Patrícia Reis
(Contraponto)

Da pequena “Teresinha” à revolucionária Maria Teresa Horta, a história da última das Três Marias conta-se, por fim, numa biografia há muito merecida. Não se deixando contaminar pela assumida amizade com a biografada, Patrícia Reis resiste à tentação de endeusar quem facilmente o poderia ser e, com notável sensibilidade, aflora todas as dimensões da vida de uma tão sofrida quanto extraordinária mulher que enfrentou um regime e deu voz à causa feminista em Portugal.

Melhor Não Contar
Tatiana Salem Levy
(Elsinore)

Não é a primeira vez que a escritora parte de factos verídicos para escrever, mas é a primeira vez que o faz assim. Esta é, de facto, a sua história — e o assédio de que foi vítima por parte do padrasto é um episódio que decidiu, finalmente, contar. O relato é individual, mas a procura das palavras, o abismo do silenciamento, o medo de ser desacreditada são pensamentos que inquietam todas e todos aqueles que, como Levy, já ouviram: “melhor não contar”.

Taludes Instáveis
José Carlos Barros
(Dom Quixote)

Toda a poesia quotidiana de José Carlos Barros (Boticas, 1963) está compilada em Taludes Instáveis, generoso volume que reúne poemas inéditos e outros retirados dos 12 livros do autor (Prémio Leya 2021), publicados entre 1984 e 2023. Na paisagem que é a poesia de José Carlos Barros observamos os campos, mas também os girassóis em Nova Iorque (caros, para que se saiba) e descobrimos como o amor pode, também, passar por ver um jogo do Olhanense.

As Pequenas Chances
Natalia Timerman
(Tinta-da-China)

Natalia Timerman precisou de escrever para lidar com a morte do pai e o resultado é um retrato do luto com laivos de ficção (ou uma ficção com toques de realidade). A escritora e psiquiatra brasileira parte deste episódio biográfico para encetar uma viagem literária, com notáveis passagens por comentários sobre literatura, cultura, e, sim, também sobre o fim. Antes que este chegue, há duas centenas de páginas para desfrutar da viagem.

Caruncho
Layla Martínez
Tradução: Guilherme Pires
(Antígona)

A escritora espanhola Layla Martínez não viveu a ditadura, mas quis vingar as mulheres que a antecederam. Nesta estreia literária, a autora apropria-se do género do terror para incorrer no que é bem terreno: a violência sobre as mulheres, a sociedade patriarcal, o conflito de classes, a ferida por sarar que é a memória do franquismo. Num pequeno livro contado a duas vozes (de avó e neta) revela-se uma Espanha que não é a que conhecemos, mas que pode ser. Até porque, como Caruncho demonstra, as violências se repetem.

▲ As escolhas de Joana Moreira

José Carlos Fernandes

Napoleão, o Grande
Andrew Roberts
Tradução: José Mendonça da Cruz
(D. Quixote)

A fim de se elogiar uma biografia de uma figura histórica é frequente dizer-se que “se lê como um romance” – como se o mundo não regurgitasse de romances pastosos e mais insulsos do que o Código de Procedimento Administrativo. O sentido implícito da expressão é que o livro tem uma prosa viva e desenvolta e que, sem deixar de se conformar à factualidade exigida ao género biográfico, as personagens saltam das páginas – e é o que acontece com esta biografia de Napoleão Bonaparte. A obra estende-se por quase um milhar de páginas, sem que haja sequer uma linha supérflua, por um lado devido ao talento de Roberts, por outro porque o biografado é uma figura tão rica, multifacetada e contraditória que proporciona matéria inesgotável.

Os Cúmplices de Hitler: Os Rostos do III Reich
Richard J. Evans
Tradução: Miguel Mata
(Edições 70)

Não faltam obras sobre a história do III Reich (e o próprio Evans é autor de uma das mais reputadas e detalhadas, que se espraia por três espessos volumes), nem biografias das suas principais figuras, mas nem todas, apesar da sua erudição, rigor e argúcia, conseguem – ou querem – responder a uma pergunta absolutamente crucial: “O que levou os alemães, e em particular, as elites, a tornarem-se cúmplices dos sinistros desígnios de Hitler?”. Foram fatores psicológicos individuais? Exerceria Hitler um poder magnético sobre os espíritos com predisposição para a crueldade? Estará a explicação na história recente da Alemanha e, em particular, a derrota na I Guerra Mundial e a hiperinflação dos anos 20? Ou deverão procurar-se as causas no carácter nacional germânico? Evans desmonta teses pouco fundadas, desfaz mitos e apresenta hipóteses estimulantes, que têm o mérito adicional de ajudar a compreender a atual ascensão da extrema-direita na Europa.

Propaganda
Edward Bernays
Tradução, introdução e notas: Luís Paixão Martins
(Zigurate)

Este livro de 1928 é visto como “a bíblia do conselho em relações públicas” e o seu autor como o “pai das relações públicas e líder dos opinion makers” e o “profeta dos propagandistas”. Esta reputação tem algum fundamento (e algum marketing à mistura), mas não significa que Propaganda seja uma obra-prima – longe disso, nalguns trechos, mais parece um panfleto de auto-promoção, em que Bernays busca aliciar clientes para os seus serviços de consultoria de relações públicas. Mas, ao expor, num misto de candura e cinismo, a filosofia e os truques do ofício da “manipulação consciente e inteligente dos hábitos e das opiniões coordenadas das massas”, acaba por ser um livro indispensável para compreender o mundo de hoje, que gira vertiginosamente sob o impulso do consumismo infrene, do apetite frívolo pela novidade e da obsolescência planeada, e é hábil e insidiosamente controlado pelo “governo invisível” dos “marqueteiros”.

▲ As escolhas de José Carlos Fernandes

Maria Brás Ferreira

Da Luz à Lucidez: Paulo Nozolino
Rui Nunes; Paulo Nozolino
(Relógio D’Água)

Este livro é sobretudo uma sinfonia negativa, diálogo avesso, escuta no silêncio, no âmbito da relação criativa entre o escritor Rui Nunes e o fotógrafo Paulo Nozolino. Composto de fotografias e textos, trata-se de um objeto que se vira para o sentido da História, quais as suas possibilidades narrativas e experienciáveis, sempre de um ponto de vista que se situa no limiar do dizível, fazendo coincidir interrogações com períodos sentenciosos.

A Árvore Tocada Pelo Raio
José Emilio Pacheco
Tradução de Miguel Filipe Mochila
(Maldoror)

Eis a tradução de um dos poetas mais importantes da literatura hispânica do século XX. A sua poesia é feita contra o (seu) tempo e prefere desiludir quem o lê na expectativa de qualquer sublimação do estado do mundo por via de suposta transfiguração literária do que iludir o leitor, apostando, afinal, numa auto-glorificação desatenta e pífia. E “oxalá pensem / que perfeição / é para sempre alheia a todo o esforço humano.”

Manoel de Oliveira: Catálogo Raisonné
(Edição Cinemateca e Serralves)

Este catálogo reúne — numa edição exímia em cuidado e gosto gráficos — ensaios críticos, fotografias, declarações e apontamentos sobre a obra de Oliveira e do próprio Oliveira, consensualmente considerado o mais relevante realizador português, responsável pela introdução do cinema moderno em Portugal. Trata-se de uma edição para amantes do cinema oliveiriano e para estudiosos da sua obra.

A Coisa Mais Próxima da Vida
James Wood
Tradução: Joana Jacinto
(Zigurate)

Neste livro, o renomado ensaísta e crítico literário James Wood percorre os textos da sua tradição de leitura, do mesmo modo que regressa a momentos da sua vida. O mote é tão franco quanto inebriante: somos escritores das nossas memórias que, por sua vez, constituem a ficção a sondar, ao longo da vida, de modo mais ou menos hospitaleiro. E a conclusão não pode senão apresentar-se ao jeito de uma janela aberta: a ficção como o jogo do “não muito”. Ide descobrir.

Um Ano e Três Meses
Luis García Montero
Tradução: Manuel Alberto Valente
(Officium Lectionis)

Um livro que é uma carta que é uma despedida que é uma biografia. Numa edição bilingue, é vertida para português, pela primeira vez em poemário, a poesia do poeta espanhol Luis García Montero. Nestes poemas, mapeados de objetos e espaços familiares, insurge-se, simultaneamente contra e ao sabor dos dias, algo próximo do clarão, do rasto luminoso das estrelas, das luzes de transição entre um e outro momento, a marcar a diferença coreográfica da luz e da sombra. Da vida à morte. Ou antes o contrário.

▲ As escolhas de Maria Brás Ferreira

Susana Romana

Toda a Mafalda
Quino
Tradução: Maria José Sacadura e Ricardo Pereira
(Iguana)

No ano em que completa o seu 60º aniversário, Mafalda, a filha que é a maior proeza do argentino Quino, surge de novo no compêndio que acompanhou gerações, mas que estava há muito fora do mercado editorial português. A mítica capa vermelha dá origem a uma capa colorida, com várias representações da menina nos seus vários estados de espírito, da curiosa à contestatária, passando pela alegre e pela inquisitiva. Toda a Mafalda continua a ser uma obra essencial, merecedora de todas as leituras e releituras, capaz de conquistar em igual medida crianças e adultos já capazes de ler nas entrelinhas. Não há biblioteca pessoal representativa do século XX que se preze sem ela.

Erva
Keum Suk Gendry-Kim
Tradução: Yun Jung Im
(Iguana)

Acontecimentos recentes têm-nos relembrado que a Coreia do Sul é um país muito sofrido por constantes convulsões. A rivalidade latente com a Coreia do Norte virá logo à memória, mas há outro inimigo antigo com o qual a boa relação é difícil: o Japão. Erva debruça-se numa das feridas mais difíceis da invasão do império japonês à Coreia, que durou até 1945: as chamadas “mulheres de conforto”. Mulheres de conforto é, apenas, um eufemismo para prostituição forçada. Durante mais de 10 anos, cerca de 200 mil mulheres (muitas delas crianças a partir dos 11 anos) foram vendidas ou raptadas e inseridas numa rede de escravidão sexual para “levantar a moral” do exército japonês que ocupava parte da península coreana e da China. Erva, a novela gráfica de Keum Suk Gendry-Kim, conta a história verídica de Ok-Sun Lee, uma criança sul-coreana que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi vendida pela família e explorada como mulher de conforto. Casos como este são de tal modo um golpe profundo na relação problemática e magoada entre Coreia e Japão que os relatos de Ok-Sun Lee — que Keum Suk Gendry-Kim demorou muito tempo a conseguir captar num novelo de um sofrimento que parecia não ter fim — são um documento histórico raro, essencial e corajoso. Erva é um livro que mostra como as novelas gráficas, especialmente neste registo biográfico, podem ser obras maiores que merecem, definitivamente, um reconhecimento que muitas vezes lhes escapa por puro preconceito pelo género literário.

Meus Desacontecimentos
Eliane Brum
(Companhia das Letras)

A nova literatura brasileira vive um momento bastante saudável deste lado do Atlântico. Fenómenos como Carla Madeira abriram a porta a vozes mais jovens do que os grandes clássicos — e, muitas vezes, no feminino. Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, é um livro curto, intimista, poético, cáustico. São fragmentos sobre a família e a infância da autora, hoje a repórter mais premiada do Brasil. Annie Ernaux, Nobel da Literatura em 2022, despertou muitos leitores autoficção (uma espécie de autobiografia romanceada) e, para os apreciadores do género, este livro é um pequeno bombom. “O melhor da minha avó eram as histórias urdidas com retalhos pinçados do território sem fronteiras do ontem. Ela era cheia de contos, e eu tinha ouvidos gulosos”. Meus Desacontecimentos apresenta-se como a história de uma menina resgatada pela escrita e o resultado é de uma maturidade e fragilidade deliciosos, que muitas vezes instalam um sorriso no leitor.

Maus Hábitos
Alana S. Portero
Tradução: Helena Pitta
(Alfaguara)

A escolha ideal para quem procura um daqueles livros que permanecem muito depois de o termos acabado, num incómodo estranhamente viciante. É também uma maneira bela, mas aterradora, de perceber como é viver num corpo que sentimos que não é o nosso, isto numa altura em que a comunidade trans parece ser o bombo de uma festa triste que não interessa a ninguém. A personagem principal, cujo nome nunca conhecemos, sabe desde sempre que é uma mulher, apesar de ter nascido homem. Deambulando por um subúrbio de Madrid, esconde-se, fingindo sentir-se em casa nesse portento de masculinidade tóxica que são as claques do Real Madrid — quando, na verdade, encontra uma família nas travestis prostitutas de bairros de má fama. “A consciência de que necessitamos de um armário para nos escondermos torna-nos espertíssimos no tocante ao jogo da verdade e da mentira, do que deixamos ou não ver”. O livro é acompanhado de um QR code que vai dar a uma playlist de músicas que acompanham a narrativa, uma ótima ideia.

Teoria das Catástrofes Elementares
Rita Canas Mendes
(Elsinore)

A sinopse do romance de estreia de Rita Canas Mendes ressoará bastante em millenials que cresceram nos subúrbios da Grande Lisboa: “Uma família entre Lisboa e Cascais nas décadas de 1990 e 2000, com incursões pontuais pela Guerra Colonial, o Norte de Portugal e a Euro Disney; a identidade, a memória, os traumas íntimos e geracionais de uma família portuguesa”. A autora assume esta obra como uma ficção, mas um pé vincado na memória irá fazer muitos leitores encontrarem trechos da sua própria infância, adolescência e solavancos do início da idade adulta. Uma obra madura, que denota não só um estilo de escrita próprio já bastante cimentado, como um sentido de detalhe, uma graça inesperada, um desenrolar hábil do drama das pequenas e grandes coisas. Teoria das Catástrofes Elementares é composto por fragmentos da vida da protagonista, sem uma ordem aparente, sem um princípio, meio e fim — porque às vezes as nossas vidas não são tão cronológicas como parecem e nem têm uma resolução, mesmo que isso até nos desse jeito.

▲ As escolhas de Susana Romana

Vasco Rosa

Tal como És. Versos e reversos do Ryôkan
Seleção, organização e tradução do japonês de Marta Morais
(Assírio & Alvim)

A Embaixada de Portugal em Tóquio não tem um adido cultural, dizem-me, mas em contrapartida contamos com Marta Morais — entre outros nipófilos — e este seu maravilhoso trabalho de aproximação e tradução de Ryôkan (1758-1831), altamente comentada e apresentada por ela, e num trabalho editorial de composição bilingue que merece ser referido, elogiado pela sua raridade entre nós, e que ao mesmo tempo prolonga e renova o interesse desta editora pelo Japão e a sua poesia ou modos poéticos. Sem dúvida, um grande acontecimento editorial que não merece passar despercebido.

Edifício MUDE. Transformações na perspetiva do design
Coordenação de Bárbara Coutinho
(Museu do Design e Imprensa Nacional)

Apesar das polémicas sobre curadoria e direção, que importa não rasurar, a verdade é que este livro demonstra a grande perspicácia com que o longo processo de quase dez anos de obras estruturais, de reabilitação e de novas funcionalidades (na cobertura, por exemplo) no edifício da Rua Augusta — antiga sede do Banco Nacional Ultramarino — foi sendo administrado, registado e avaliado. As excecionais condições de origem, em termos de design de interiores, tornaram o próprio edifício do Museu um objeto de estudo, histórico e estético, numa campanha que se diria modelar para quaisquer outras do mesmo tipo e impacto. E a intervenção de criadores contemporâneos dá-lhe uma vivacidade luminosa, que denota aproximação e atenção ao que vai sendo feito no país, por vezes com notas de excelência.

Ensaios sobre a Virtude e a Felicidade
Samuel Johnson
(E-Primatur)

Dez anos depois da breve antologia organizada por Francisco José Viegas (Páginas Escolhidas, Quetzal, 160 pp.), temos enfim estes Ensaios, organizados e prefaciados por Pedro Galvão, que nos trazem o essencial do filósofo inglês, numa centena de crónicas publicadas nas revistas The Rambler, Idler e The Adventurer. “São ensaios em que o pensamento filosófico se intersecta, numa feição única, tanto com o virtuosismo literário como com uma análise psicológica autenticamente sagaz.” O livro vale também pela excelente contextualização biográfica que a introdução oferece.

Prova de Vida. Retratos do Portugal Contemporâneo
António Araújo
(Tinta da China)

“Retrato amplo […], mesmo que quase alegórico, das profundas transformações sociais e culturais que Portugal vem sofrendo nas últimas décadas, coincidentes com a génese e a consolidação da nossa democracia” — como o autor diz, na apresentação —, estas 61 “vinhetas biográficas” (sic) publicadas à peça no aliás moribundo Diário de Notícias, entre julho de 2023 e agosto de 2024, iluminam sob intenso holofote o nosso tempo e o olvido ou a obscuridade de figuras ditas públicas que foram marcantes a um certo momento. António Araújo soube perceber que havia aqui matéria fulgente capaz de nos fazer ver a nós mesmos, enquanto país, diante dum espelho que não mente. De alguma maneira, ombreia com Visitas ao Poder, o livro de entrevistas a empresários portugueses por Maria Filomena Mónica publicado no já longínquo 1993. “É o que temos”, diria o outro.

Uma Vida Dura
Jasper Morrison
(Lars Müller Publishers)

Jasper Morrison veio a Lisboa há uma década e fez este livro admirável que nos honra, mas também nos coloca — também ele — a pergunta essencial e inadiável: quando é restabelecido, com a dignidade que merece, o Museu de Arte Popular, em Belém, e quando são dados meios para tornar — após a prolongada, planeada, quase criminosa tentativa interna de aniquilamento, que a demora na apresentação desta edição portuguesa, a todos os títulos escandalosa, também comprova — o Nacional de Etnologia um dos nossos museus-bandeira?

▲ As escolhas de Vasco Rosa

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