André Luiz Gomes. Quem é o advogado “brilhante” por trás dos negócios de Berardo /premium

17 Maio 2019877

Polémico, benfiquista ferrenho — e brilhante. André Luiz Gomes, o advogado de Joe Berardo, mostrou-se ao país numa audição ao estilo dos dois. Um retrato do homem por detrás dos negócios do comendador

“The best lawyer in the world” (O melhor advogado do mundo). Estas palavras são, como não podia deixar de ser, da autoria de José Manuel Rodrigues Berardo, mais conhecido por Joe Berardo. Não só demonstram o apego e o reconhecimento do empresário madeirense pelo trabalho do seu advogado desde há quase 30 anos como evidenciam as qualidades profissionais de André Luiz Gomes — que está na origem do complexo edifício jurídico que continua a proteger o património reunido por Joe Berardo da execução dos diversos penhores dados aos três principais bancos portugueses (CGD, BCP e BES/Novo Banco).

Apesar de terem histórias familiares e pessoais diametralmente opostas, Joe e André têm alguns pontos em comum. São ambos polémicos junto dos respetivos colegas de profissão e são particularmente impetuosos e aguerridos na defesa dos seus pontos de vista. E adoram uma boa guerra para conseguirem conquistar o território do adversário.

Aliás, e como diz um amigo de André Luiz Gomes, Rodrigo Guimarães, “que outro advogado distinto em Portugal se sentaria ao lado de um cliente com o perfil de Joe Berardo — difícil e sem filtros — numa audição tão sensível como a da comissão parlamentar de inquérito à Caixa?” Se estas duas almas não são gémeas, serão, certamente, da mesma família.

Apartes, avisos e um desenho

Conhecido entre os empresários e na banca, André Luiz Gomes é — no entanto — um desconhecido para o comum dos portugueses. Ou melhor, era. A audiência de Joe Berardo na Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão e recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, a 10 de maio, acabou com esse anonimato. Verdade seja dita que alguns dos seus amigos dizem que André Luiz Gomes sempre gostou de ter “notoriedade.”

Daí o à-vontade que manifestou durante uma audição que estava a ser acompanhada pela comunicação social em peso. O país viu um advogado a ditar as respostas a Berardo, a iniciar acesas discussões com os deputados, a contestar decisões do presidente da comissão e mesmo a fazer apartes audíveis aos procedimentos parlamentares.

Logo no arranque, e apesar de Joe Berardo estar sentado a menos de um metro, foi André Luiz Gomes quem leu uma declaração inicial em nome do empresário — Berardo haveria de justificar essa opção com o facto de ser um pouco disléxico, o que o leva a atrapalhar-se no discurso e durante a leitura. E foi André Luiz Gomes quem protagonizou mais uma originalidade: pediu e argumentou a favor de a audição a Berardo não ser transmitida – como é de norma – no Canal Parlamento. Algo que o presidente da Comissão Parlamentar recusou. Tal como recusou – várias vezes ao longo das cinco horas de audição – a palavra a André Luiz Gomes.

“O senhor advogado não está aqui para contestar e avaliar as perguntas dos deputados, mas sim para aconselhar o depoente. E ele é que responde”, avisou o presidente da comissão. Mas o advogado não se coibiu de fazer comentários e apartes, como quando disse a Berardo: “Só nos estão a fazer perguntas que não interessam para nada.”

“O senhor advogado não está aqui para contestar e avaliar as perguntas dos deputados, mas sim para aconselhar o depoente. E ele é que responde”, avisou o presidente da comissão, Luís Leite Ramos.

André Luiz Gomes ainda haveria de ripostar – “tenho de defender o meu constituinte!” —, mas acatou. Porém, não se coibiu de fazer comentários e apartes, como quando disse a Berardo a frase “Só nos estão a fazer perguntas que não interessam para nada”. A pergunta em causa era sobre a forma como funcionam as empresas e a associação que detém a famosa Coleção Berardo. André Luiz Gomes chegou a fazer um desenho a Berardo com um esquema da estrutura das suas próprias empresas e fundações.

“A Associação Coleção Berardo tem a coleção, e celebrou um contrato com a Fundação Coleção Berardo, que explora o Museu”, explicou André Luiz Gomes ao comendador, de folha e caneta na mão. Berardo interrompeu-o: “Fifty percent nossos e fifty percent deles”. “Não! Não há cá percentagens”, cortou o advogado, alertando para o perigo de dar aos deputados esse trunfo. E Berardo nem hesitou. Não tocou nessa parte.

André Luiz Gomes também haveria de argumentar que o comendador tinha direito ao silêncio. “Não, não tem, senhor doutor. Teria se fosse arguido. Aqui não tem”, respondeu-lhe a deputada Cecília Meireles, do CDS. “E sim, o senhor José Berardo tem mesmo de responder”, confirmou o social-democrata Luís Leite Ramos, presidente da Comissão.

O primeiro encontro com Joe Berardo no Sheraton

Joe Berardo e André Luiz Gomes conheceram-se no início dos anos 90 quando Portugal estava no auge de um auspicioso crescimento económico acima dos 7% do PIB, os milhares de milhões de fundos europeus eram o combustível de um dinamismo económico nunca visto depois do 25 de abril e as privatizações animavam — e muito — os negócios loucos da Bolsa de Valores de Lisboa e Porto.

Rodrigo Guimarães, um dos fundadores da gestora de fundos Explorer, que então trabalhava na corretora Midas, conta ao Observador que foi um dos responsáveis pela apresentação de Joe Berardo a André Luiz Gomes, que também estava na sociedade financeira. Na altura estava a ser preparada uma oferta da Jerónimo Martins sobre a cadeia de supermercados Inô e Joe Berardo foi um dos investidores contactados para a operação.

Um amigo de André Luiz Gomes, que prefere não ser identificado, conta que foi Joaquim Luiz Gomes, que também trabalhava na Midas, que se lembrou de chamar o irmão André para uma reunião no Hotel Sheraton, em Lisboa, com o investidor Joe Berardo. Primogénito, Joaquim queria dar uma oportunidade ao seu irmão mais novo de 26 anos — que era um advogado estagiário no escritório da família, a Luiz Gomes, Abecasis & Associados. Todas as versões ouvidas pelo Observador, contudo, confluem num ponto: a André cabia fazer uma análise jurídica sobre os riscos jurídicos da operação.

Certo é que Berardo ficou impressionado, aprovou o investimento e, desde aí, nunca mais se largaram. “Sou advogado dele há muitos anos, e ao fim de tantos anos posso dizer que somos amigos. É um bom amigo”, disse André Luiz Gomes ao Diário de Notícias.

O comendador é o mais conhecido cliente de André Luiz Gomes, mas não é o único que lhe é fiel há vários anos. Rodrigo Guimarães também não lhe poupa elogios. Assume que tem uma grande admiração pessoal e profissional pelo advogado, que descreve como “brilhante”. É “um dos melhores advogados de fusões e mercado de capitais em Portugal”. Isso é “indiscutível e reconhecido pelos seus pares”, diz.

André Luiz Gomes e Joe Berardo durante a audição na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos

Outros advogados contactados pelo Observador confirmam as qualidades profissionais de André Luiz Gomes. “É um tipo esperto, muito vivo e muito aguerrido — e com uma cultura muito acima da média”, diz um amigo. Outro, contudo, enfatiza a “personalidade muito forte e pouco flexível”: “É um imediatista — com pouca visão estratégica”.

Advogado de dois amigos que se afastaram

André Luíz Gomes tem sido presença permanente na assessoria jurídica dos negócios a Joe Berardo e quase se tornou a sua sombra. Era também um advogado da confiança de Francisco Capelo, o gestor que esteve por trás das principais operações que correram bem nos anos 90. Descrito como um homem de grande perspicácia e visão, Capelo foi também o grande arquiteto da coleção de arte moderna, sendo apontado como o responsável pela aquisição das obras mais importantes. Por motivos não totalmente conhecidos — há quem fale em divergências de estratégia ou numa opção pessoal pela arte em vez dos negócios —  Capelo afastou-se do mundo empresarial de Berardo no início do milénio. E muitos apontam este afastamento como o princípio do fim do sucesso do comendador como homem de negócios. Ainda que essa realidade tenha demorado alguns anos a vir ao de cima. Capelo nunca daria o seu acordo ao investimento massivo que o comendador fez no BCP quando o preço das ações estava já inflacionado, ilustra uma das fontes ouvidas pelo Observador.

Já André Luiz Gomes manteve-se firme nas operações de Berardo. Apesar de ter outros clientes e de trabalhar no escritório Gonçalves Pereira Castelo Branco & Associados, passou a ser conhecido como o “advogado de Berardo”, sobretudo depois dos dias quentes do conflito no BCP.

Berardo já era um grande cliente de crédito do banco, mas só na célebre assembleia geral de 27 de maio de 2007, quando as duas partes em confronto no BCP mediram forças pela primeira vez, é que a maioria ficou a conhecer André Luiz Gomes. Ele estava ao lado de Berardo e dava-lhe instruções em voz baixa antes das intervenções do comendador, à semelhança do que aconteceu na audição do Parlamento.

À medida que a guerra aquece no banco privado, André Luiz Gomes ganha protagonismo. Terá sido ele quem organizou, a partir de informação confidencial do próprio banco, o dossiê sobre as offshores secretas criadas pela administração de Jardim Gonçalves para participarem nos processos de aumento de capital do BCP com crédito cedido pelo próprio banco.

“Que outro advogado distinto em Portugal se sentaria ao lado de um cliente com o perfil de Joe Berardo -- difícil e sem filtros -- numa audição tão sensível como a da comissão parlamentar de inquérito à Caixa?" -- pergunta, de forma retórica, o amigo Rodrigo Guimarães

As informações comprometedoras para a gestão de Jardim Gonçalves chegaram à imprensa e ao Banco de Portugal e estariam de tal forma bem fundamentadas que Vítor Constâncio chamou os acionistas do BCP para os avisar que teriam de mudar a equipa de gestão, afastando os gestores implicados nas operações. O caso deu origem a um processo de contra-ordenação que levou a multas milionárias contra Jardim Gonçalves e restante administração e a uma acusação mediática do Ministério Público contra os antigos gestores poderosos do BCP, que foram condenados em primeira instância. Berardo e André Luiz Gomes anunciaram uma ação milionária a pedir uma indemnização de mais de mil milhões de euros, que, segundo notícia recente do Correio da Manhã, está a correr no Tribunal do Comércio.

Os elogios e as críticas

As valias jurídicas de André Luiz Gomes também terão sido fundamentais no acordo de reestruturação de dívida de Joe Berardo à banca assinado em 2012. É neste acordo que os bancos conseguem o penhor sobre 75% dos títulos da Associação Coleção Berardo, dona das obras de arte moderna. Mas esta vitória da banca, e que terá sido escudada em pareceres jurídicos, veio a revelar-se enganadora, já que o desenho deste compromisso blindou o acesso dos credores ao bem mais valioso do comendador.

André Luiz Gomes tem acompanhado Berardo em todas as tentativas de negociação da dívida com os bancos. No ano passado chegou a haver alguma aproximação e na banca acreditava-se que seria possível chegar a um compromisso menos mau para as partes. Os bancos conseguiam o acesso à coleção e aceitavam perdoar uma parte da dívida. Berardo salvava a honra, ainda que do ponto de vista reputacional esta solução implicasse grandes dores de cabeça para as instituições bancárias junto da opinião pública. Mas na reta final o acordo falhou e as partes foram para a guerra: o processo de execução sumária.

Ainda que o seu nome esteja invariavelmente associado ao do comendador, André Luiz Gomes não desvaloriza os outros clientes. Rodrigo Guimarães diz que nunca se sentiu preterido por qualquer prioridade dada aos assuntos de Berardo.

Aliás, o advogado tem estado envolvido em outros processos importantes, como o litígio sobre a herança de Horácio Roque, amigo e parceiro de negócios de Berardo, onde representou uma das filhas contra a mãe. Surgiu também ao lado de Paula Amorim na proposta bem sucedida de compra do fundo imobiliário dono da Comporta. A intervenção de André Luiz Gomes no dossiê deixou os outros envolvidos em estado de alerta por causa da reputação que tem de ser um advogado duro nas negociações e com bons resultados para os seus clientes.

O fundador da Explorer Investments também realça este lado de “profissional duro” do advogado quando está a defender os interesses dos seus clientes, razão pela qual é procurado. E quando lhe perguntam sobre eventuais conflitos ou inimizades, responde que é normal que quando se tem sucesso isso possa gerar reações negativas e rivalidades.

O sucesso de André Luiz Gomes, contudo, não é visto de forma tão benevolente pelos seus colegas. Dos cinco advogados contactados pelo Observador — sendo que a maioria já trabalharam com ele —, a maioria não esconde as críticas aos métodos pouco ortodoxos que André Luiz Gomes gosta de utilizar.

Por exemplo, os seus colegas vêem com alguma perplexidade que o advogado tenha defendido a Caixa Geral de Depósitos no caso da venda da cimenteira Cimpor em 2012, precisamente o mesmo ano em que negociou em nome de Berardo um Acordo Quadro de reestruturação da sua dívida com a própria Caixa (e o BCP e o Novo Banco/BES). Acrescente-se ainda que a Cuatrecasas Gonçalves Pereira — o escritório onde André Luiz Gomes esteve entre 2005 e 2017 — também trabalhava com o banco do Estado.

A infância e juventude

André Luiz Gomes nasceu em Lisboa numa família de classe média-alta. Com bisavô, avô e pai juristas, era praticamente impossível fugir ao destino de ser advogado. Mas já lá vamos.

Nascido em 1966, quando Salazar estava no final do seu consulado como presidente do Conselho, André Luíz Gomes cresceu no Bairro Alto. Naquela altura, o bairro não era sinónimo de vida noturna juvenil e turismo. Era um bairro típico, onde os principais jornais da cidade tinham a sua sede mas onde ainda havia muitos palacetes construídos entre os séculos XVIII e XIX.

André Luiz Gomes vivia num desses palacetes, mais propriamente na rua Luz Soriano — praticamente ao lado das instalações do “Diário Popular”, da família de Francisco Pinto Balsemão. Os pais, Joaquim Luiz Gomes e Maria Manuela Luiz Gomes, tinham alugado ao Marquês de Ficalho o último andar do palacete e foi aí que André Luiz Gomes passou a infância e uma parte da juventude. Hoje, o palacete está a ser remodelado para se tornar um condomínio de luxo.

André Luiz Gomes contou a história da sua família ao Diário de Notícias, mas os amigos já lhe ouviram a história centenas de vezes, tal é o seu orgulho nos seus ascendentes. Trata-se de uma família republicana (quando não era fácil sê-lo) e influente:

Como bom filho da burguesia lisboeta, André Luiz Gomes entrou para o Liceu Francês logo aos 4 anos. Os pais apreciavam o rigor e o método de ensino e André por lá andou até aos 17 anos.

André Luíz Gomes nasceu em Lisboa numa família de classe média-alta. Com bisavô, avô e pais juristas, era praticamente impossível fugir ao destino de ser advogado. Cresceu no Bairro Alto, paredes-meias com o Chiado, e viveu num dos palacetes daquele bairro típico de Lisboa -- mais no último andar do palacete dos Marqueses de Ficalho que os pais tinha alugado.

Extrovertido, o futuro advogado fez na escola situada nas Amoreiras grandes amizades para o resto da sua vida. Entre elas estão, por exemplo, Miguel Esperança Pina (advogado, sócio do escritório CMS Rui Pena & Arnaut).

André Luíz Gomes era um bom aluno mas, para entrar da Faculdade de Direito de Lisboa, tinha de melhorar a média. Daí ter saído um ano mais cedo do Liceu Francês  para se inscrever num liceu público (o Pedro Nunes), de forma a ‘levantar a nota’ — o que conseguiu sem grande dificuldade.

Enquanto uns amigos foram estudar Direito para a Universidade Católica, André e outros foram para a Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa.

Estávamos em 1984 e Portugal era o país das bandeiras pretas da fome que a CGTP e o PCP tinham desfraldado para combater o governo do Bloco Central e a segunda intervenção do FMI, iniciada em 1983. Na Faculdade de Direito de Lisboa, contudo, as batalhas ideológicas do PREC já pertenciam a um passado considerado longínquo.

Não há registo, por exemplo, que André Luíz Gomes se tenha aproximado do mundo associativo ou da política. Na ressaca dos anos quentes da revolução, ninguém ligava muito à política. Ferrenho, ferrenho só do Benfica.

André Luiz Gomes destacou-se em diversas cadeiras na universidade mas numa delas (História do Direito) foi mesmo eleito como o melhor aluno, ganhando o respetivo prémio. Acabou por terminar o curso com uma média de 14, em 1989.

O gosto pelas finanças e a entrada no escritório do pai

Se André Luiz Gomes sempre quis ser advogado, é igualmente certo dizer que, na faculdade, ganhou um especial gosto por finanças. A área da advocacia de negócios já estava na sua mira. Começou por fazer o estágio no escritório dos pais, a Luiz Gomes, Abecasis & Associados — um dos principais escritórios lisboetas dos anos 70 e 80. Na prática, o escritório era uma parceria entre o seu pai Joaquim e Henrique Abecassis — outro advogado conhecido da Lisboa do pré-CEE.

O seu pai Joaquim tinha um perfil forte e muito marcado — um pouco como André. E a sua marca era clara e inegável no escritório. Apesar de ter sido uma das primeiras sociedades de advogados nos anos 80, a Luiz Gomes, Abecassis & Associados começou a ver a sua influência a decair com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia. A verdadeira economia capitalista começou então a surgir, com uma concorrência feroz entre os advogados e sem que a sociedade acertasse o passo com a modernização da economia portuguesa.

Primeiro, Joaquim Luiz Gomes e Henrique Abecassis desentenderam-se em 1992 e o escritório acabou, ficando apenas a designação Luiz Gomes & Associados. Pouco depois, o patriarca Joaquim começou a ter problemas de saúde, o que diminuiu a sua influência no dia a dia do escritório. André tornou-se sócio em 1995 e apostou todas as fichas na advocacia de negócios. Joe Berardo, esse, nunca mais o largou. Um autêntico tubarão da bolsa e com muita influência nos negócios da Madeira por via da sua proximidade a Horácio Roque e ao regime de Alberto João Jardim, Berardo foi contribuindo cada vez mais para a faturação da sociedade de advogados.

Foi precisamente Berardo que veio a ser importante como seu trunfo na negociação de entrada para sócio da Gonçalves Pereira, Castelo Branco & Associados. Estávamos em 2005, o escritório da família nada tinha a ver com o que tinha sido antes e surgiu uma hipótese de entrar para um dos principais escritórios de Lisboa na época — e logo um que rivalizava com a Morais Leitão, a Vieira de Almeida e a PLMJ na advocacia de negócios. Este era o local de trabalho ideal para um advogado que gostava de negociar aquisições (amigáveis ou hostis), mediando fusões ou ajudar a fazer crescer o negócio do seu cliente. Quase a fazer 40 anos, André sentia-se pronto para dar um salto na carreira.

Afilhado de discípulo de Marcello Caetano e a entrada na primeira liga da advocacia

André Luiz Gomes é afilhado de André Gonçalves Pereira, o discípulo de Marcello Caetano, professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa e ex-ministro dos Negócios de Estrangeiros do Governo da AD liderado por Francisco Pinto Balsemão que fundou a sociedade com Castelo Branco. Mas não foi o seu padrinho que sugeriu o seu nome. Foi o seu grande amigo Diogo Perestrelo, que já era sócio do escritório.

“Muito vivo e aguerrido, esperto e com uma cultura acima da média” — é assim que é descrito por um antigo colega da Gonçalves Pereira, Castelo Branco & Associados. E foi com essas características que André Luíz Gomes não só consolidou a sua relação com Joe Berardo, como este o terá ajudado a chegar a Horácio Roque e ao Banif.

André, contudo, não se ficou por aqui. E começou a aprofundar relações com fundos de investimento. Uma dessas sociedades é a Explorer Investments, criada em 2003 por Rodrigo Guimarães e por Elisabeth Rothfield, da qual André Luiz Gomes foi presidente da Assembleia Geral. Especialista em capital de risco, a Explorer gere e assessora fundos com ativos superiores a mil milhões de euros no mercado português.

É a partir da guerra que Paulo Teixeira Pinto e Joe Berardo declaram a Jardim Gonçalves no BCP que André Luiz Gomes vai ganhar ainda mais influência e poder — seja no banco, seja no próprio escritório.

Homem da estrita confiança de Berardo — uma ex-colega de André Luiz Gomes diz mesmo que o empresário madeirense não faz nada sem a autorização do seu advogado –, vai ser escolhido para presidente da assembleia geral de uma série de empresas de Berardo, como a Metalgest, a Bacalhôa, a Quinta do Carmo, entre outras — e começa por ser indicado para diversos cargos no BCP.

Inicialmente, foi perito do Conselho de Remunerações e Previdência (entre 2009 a 28 de fevereiro de 2012) e membro do conselho de administração da Fundação Millennium bcp (ao longo de 2012). Mais tarde é mesmo eleito para os seguintes cargos: vogal do Conselho de Administração, vogal do Conselho de Administração, vogal da Comissão de Governo Societário, Ética e Deontologia, vogal da Comissão de Avaliação de Riscos. Uma vez mais, vários colegas criticam um eventual conflito de interesses, visto que André Luiz Gomes, como advogado de Berardo, tinha negociado um acordo de reestruturação de créditos com o próprio BCP em 2012.

As guerras no escritório Cuatrecasas

Tal como acontece sempre que alguém começa a trabalhar num novo local de trabalho muito desejado, os primeiros anos foram de total encantamento na Cuatrecasas. André Luiz Gomes trabalhava muito, conseguia resultados e dava um contributo importante (e cada vez mais crescente) para a faturação do escritório — ao fim e ao cabo, o principal objetivo de qualquer advogado de negócios.

A relação com Manuel Castelo Branco, o management partner do escritório, também começou por correr bem. Um dos principais advogados portugueses, Castelo Branco pertencia à velha escola e geria o escritório com rigor e mão de ferro. A área dos negócios era também a sua área principal e foi por aí que começaram os problemas com André Luiz Gomes.

Na guerra do BCP, por exemplo, o advogado de Berardo entrou com uma ação contra a administração de Jardim Gonçalves por alegada má gestão — um dos episódios mais conhecidos do chamado “assalto ao BCP”. Mas, de acordo com fontes do escritório que acompanharam o caso, tudo terá sido feito sem o conhecimento de Castelo Branco e dos sócios que acompanhavam a área do contencioso. “O Manuel [Castelo Branco] ficou furioso”, conta um dos advogados.

Outro episódio de conflito com o homem que comandava o escritório relacionou-se com a Ongoing, de Nuno Vasconcelos e de Rafael Mora. Manuel Castelo Branco era o advogado histórico de Isabel Rocha dos Santos, a principal acionista da holding do Grupo Ongoing. Quando a dupla Vasconcelos/Mora começou a entrar no capital da Portugal Telecom e de outras empresas com o financiamento do BES de Ricardo Salgado, Castelo Branco tentou proteger a matriarca da família, uma vez que estava desconfiado da falta de sustentabilidade dos investimentos definidos pelo Nuno Vasconcelos e por Rafael Mora. A situação chegou a um ponto em que Castelo Branco e Nuno Vasconcelos quase terão chegado a vias de facto num aeroporto do Brasil. O principal sócio do escritório sempre pensou que André Luiz Gomes estava por detrás da dupla Vasconcelos/Mora.

"O André é muito individualista. Não tem espírito de equipa e a sua atitude é incompatível com a cultura de trabalho que hoje em dia marca as grandes sociedade de advogados", diz um ex-colega na Cuatrecasas. Outra advogada diz que Luiz Gomes "queria sempre as coisas feitas à maneira dele. Não tem grande flexibilidade e tem mau-feitio".

“O André é muito individualista. Não tem espírito de equipa e a sua atitude é incompatível com a cultura de trabalho que hoje em dia marca as grandes sociedade de advogados”, diz um ex-colega na Cuatrecasas. Outra advogada, que também o conheceu no mesmo escritório, diz que André Luiz Gomes “queria sempre as coisas feitas à maneira dele” e resume assim as suas críticas: “Não tem grande flexibilidade e tem mau-feitio”.

Certo é que o conflito com Manuel Castelo Branco atingiu o seu auge quando, após os espanhóis da Cuatrecasas terem entrado no capital da sociedade, André Luiz Gomes começou a colocar-se ao lado dos sócios estrangeiros. “O Manuel fazia frente aos espanhóis e o André e outros sócios aliaram-se aos novos donos”, conta um ex-sócio da sociedade. Alguns ex-colegas na Cuatrecasas dizem que André Luiz Gomes se “deslumbrou com o seu próprio sucesso”.

Algum tempo depois de Manuel Castelo Branco ter saído da sociedade por conflito com os espanhós da Cuatrecasas, André Luiz Gomes também se foi embora. Começou a negociar a saída no final de 2015 e pouco tempo depois mudou-se para a sociedade de José Pinto Ribeiro, ex-ministro da Cultura de José Sócrates. Em 2017, fundou a sua própria sociedade chamada Luiz Gomes & Associados — ao fim e ao cabo, um regresso às origens, pois era esse o nome da sociedade dos pais onde começou a trabalhar.

André Luiz Gomes é ainda o responsável pela ligação de Berardo à Quinta da Bacalhôa — não à empresa de vinhos, mas ao palacete onde vive o comendador. O palacete que Berardo apresentou a Manuel Luís Goucha numa célebre entrevista no início do ano. É nessa conversa com o apresentador da TVI que Berardo revela que “foi o André [Luiz Gomes]” quem o alertou para o negócio de compra do palacete. Os anteriores proprietários tinham posto a quinta à venda e o advogado viu o anúncio na revista da Christies. “Estávamos nos Estados Unidos. Entre Las Vegas e Washington fizemos o negócio”. É a mesma Quinta da Bacalhôa que Berardo diz não possuir.

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