Um mais “proativo e interventivo”. O outro “em melhores condições, noutro campo político”. Assim se qualificaram Marques Mendes e António José Seguro, os principais candidatos do centro-direita e do centro-esquerda, como os próprios também se definiram, nestas eleições presidenciais. E se houve algumas discórdias nos 30 minutos do confronto, houve também várias concordâncias, ainda que com “nuances”, para que um, quase sempre o ex-líder do PSD, se tentasse afastar do adversário.
O primeiro tema em discussão foram as escutas do processo Influencer, sobretudo as de António Costa, reveladas esta quarta-feira pela revista Sábado. Foi a primeira concordância da noite. Seguro disse-se “preocupadíssimo” com o que tinha lido e com o facto de, depois de um comunicado de há dois anos dar conta de que o primeiro-ministro estava a ser investigado, nada se saber ainda da investigação a um cidadão que agora é “presidente da Comissão Europeia” quando o país “perdeu um Governo e a estabilidade”. “Que se peçam e que se assumam responsabilidades”, pediu Seguro, lembrando que “acontece, lamenta-se, mas ninguém é chamado à pedra”. E terminou com um “é grave”, este tema da Justiça.
Marques Mendes concordou quase em tudo, mas quis marcar logo a tal diferença. “Estamos totalmente de acordo, mas temos uma diferença, temos muita coisa em comum — a democracia, a moderação — mas eu sou mais interventivo. A Justiça tem de ser reformada. Usando uma expressão sua, ‘Qual é a pressa?’, eu digo ‘Há pressa’.” Depois recordou as medidas que propõe (um pacto para a Justiça e o primeiro Conselho de Estado dedicado ao tema) e reafirmou que este caso prova o que tem dito: “A Justiça está doente”. Comentando a participação do Ministério Público contra os jornalistas da Sábado, Mendes afirmou que sim, “é mais uma violação do segredo de Justiça, mais uma”, mas “os jornalistas não assaltaram o MP”, por isso considera “lamentável” o tempo do processo, mas também “inqualificável” que ainda ninguém tenha explicado o caso dos “75 mil euros em notas”. E acabou também com um: “Isto é muito grave”.
O candidato apoiado pelo PSD queixou-se ainda de haver “muitas escutas”, considerando-as, no entanto, essenciais no “combate à corrupção” e dando como exemplo a sua importância no caso Sócrates. Já Seguro decidiu atacar, apontando para a consultoria de Mendes em privatizações e defendendo “planos anticorrupção” nesses processos, como o processo da TAP, em que acusou o “Governo de Marques Mendes” de ter feito “orelhas moucas”. Mendes teve de intervir para negar, dizendo que não era o seu Governo, era o de Passos, até Seguro corrigir e afirmar que queria dizer um governo do PSD.
Vieram depois os “ovos todos no mesmo saco”, um argumento que Seguro usa para chamar votos para si, considerando que “existe atualmente um desequilíbrio do sistema político”. Mendes voltou a lembrar os casos de “Soares, Sampaio e Marcelo”, que deram “provas de independência”, frisando que Seguro fez parte de um dos governos com os ovos do mesmo cesto, com Sampaio e Guterres. O candidato apoiado pelo PS acrescentou Cavaco à lista, mas replicou que eram “tempos diferentes”. E, a propósito disso mesmo, veio a pergunta sobre dar posse a um Governo do Chega. Mendes, “o proativo”, disse que o partido de Ventura “passa a vida a ter ideias inconstitucionais” e que se “o programa do Chega tiver essas inconstitucionalidades, como a pena de morte ou a pena perpétua”, não dará posse ao líder do Chega enquanto “não limpar essas propostas”. Seguro, aí, foi mais incisivo: “Não há governos contra a Constituição”.
Na lei laboral, ambos preferem só se pronunciar quando o documento final for conhecido, com pequenas “nuances”. Mendes defende as reformas, Seguro, neste momento, tem uma “tendência negativa” sobre o documento e diz que “compete ao Governo descalçar a bota que calçou”. E, claro, que estão ambos de acordo no combate à pobreza e até sobre o aumento da despesa para a Defesa. “Com pequenas nuances”, claro.
Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quinta-feira, na TVI, temos o confronto entre Catarina Martins e Cotrim Figueiredo (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
António José Seguro, 12,25 – Marques Mendes, 14,25
Alexandra Machado — O melhor desempenho dos dois candidatos. Mas Luís Marques Mendes conseguiu levar melhor a água ao seu moinho – até porque conseguiu ter mais um minuto que o adversário (e um minuto em televisão dá para muito) — mas, abordando diretamente as questões sociais, acaba também por levar a água ao moinho de Seguro. Foi Marques Mendes que introduziu o tema com sugestões concretas (fórum social e vistos gold para equipamentos sociais) e numa altura em que se falava da concentração de todos os poderes no espectro político da direita caso Marques Mendes seja eleito (citaram casos idênticos, esquecendo que é o que acontece hoje com Marcelo Rebelo de Sousa que já vetou diplomas aprovados no Parlamento pelas direitas, com Chega).
Neste debate ficou vincado aquilo que une os dois candidatos. Por isso tinha de ficar claro o que os separa. No primeiro tema do debate, o das escutas a António Costa, quando era primeiro ministro, divulgadas pela Sábado, o que distinguiu os dois candidatos foi uma das afirmações que faz toda a diferença. “A Justiça está doente. A violação do segredo de justiça, mais uma, é grave. Mas não se resolve com a participação-crime contra a revista Sábado”.
Tendo sido atacado por Marques Mendes que considerou que o seu adversário se fica pelas generalidades, Seguro ainda tentou socorrer-se do seu pacto para a saúde. Sem sucesso. O tema não pegou.
António José Seguro – que até se espantou com o moderador por lhe estar a dirigir mais perguntas que ao adversário (não é muito comum o debatente querer ter menos espaço de intervenção) – conseguiu ganhar alguns pontos quando Marques Mendes elogiou João Proença (ex-secretário-geral da UGT) que logo o socialista reclamou como seu apoiante. Mas é um ponto lateral. De resto em nenhum dos temas saiu por cima. Luís Marques Mendes ganhou, mas – e esta é uma questão de forma, não de conteúdo – abusou das interjeições (sim, aham e uhum).
Filomena Martins — Foi um debate entre dois homens que já lideraram os seus partidos sem nunca chegarem a primeiro-ministro — e que agora disputam o mesmo território político: o centro. Um centro que, nas sondagens, é um triângulo apertado entre Marques Mendes, António José Seguro e Gouveia e Melo, com Ventura a subir pela direita e a ameaçar roubar um dos lugares da segunda volta. Nesse mapa, só há espaço para dois — e ambos sabem disso.
Seguro regressa ao palco nacional depois de mais de dez anos fora da política. Marques Mendes nunca saiu: ora ator político, ora comentador, ora veterano do sistema. O contraste deu ao debate uma dimensão biográfica rara: quem volta para transformar o país versus quem sempre lá esteve para o interpretar.
O debate foi elevado e sereno, com um tom quase institucional. Na Justiça — tema incontornável pela revelação das escutas da Operação Influencer — Seguro mostrou indignação: um primeiro-ministro (António Costa) derrubado por suspeições mal explicadas, um país sem responsáveis, uma justiça que falha nos fundamentos. Mendes alinhou no diagnóstico e empurrou para a solução: pacto de justiça, primeiro Conselho de Estado dedicado à reforma e urgência onde antes havia inércia. Foi o momento em que mais se distinguiram: Seguro quer explicações, Mendes quer arranjos estruturais.
Nas leis laborais, uma esquerda prudente e desconfiada — Seguro — frente a uma direita reformista moderada — Mendes. Um avisa que a reforma não tem mandato eleitoral; o outro insiste que não há modernização possível sem mexer no mercado de trabalho. Na revisão constitucional, inverteram posições: Mendes garante que não haverá tentações; Seguro lembra que com a nova aritmética parlamentar tudo é possível — e que o equilíbrio institucional pede um presidente mais atento ao risco do que ao automatismo das maiorias.
Ambos estiveram bem. Concordaram no essencial, divergiram nas nuances e mostraram competência. Mas Seguro, que precisava de ganhar, não conseguiu superiorizar-se. Dou 13 a cada um: sólido Mendes, regressado Seguro — mas nenhuma mudança decisiva no triângulo do centro.
Helena Matos — Isto não foi um debate. Foi uma entrevista de emprego com dois candidatos. Dois senhores muito simpáticos, bem apessoados e cordiais. Tão cordiais aliás que optaram por responder educadamente ao moderador que eles trataram como se fosse um entrevistador. António José Seguro começou mesmo por apresentar-se não como candidato presidencial que estava ali para confrontar Marques Mendes mas sim como oólogo. Ou seja, um estudioso dos ovos. O candidato socialista acha que deve ser eleito não por ser melhor, mais competente e com uma vida que justifique essa aspiração, mas sim por causa da teoria sobre os ovos e o cesto. A teoria tem fundamento e ressonância histórica mas muito francamente Seguro dizer que se deve votar nele para não colocar todos os ovos no mesmo cesto é quase uma forma implícita de dizer que Marques Mendes até pode ser melhor mas por favor votem em mim para que os ovos não fiquem todos no mesmo cesto.
Marques Mendes ganhou aos pontos: marcou, falou, esgrimiu e tentou reduzir António José Seguro a um comentador das suas palavras e propostas. Aliás, Marques Mendes não só fala como se estivesse a fazer comentário, como ainda mantém as habituais muletas de linguagem do comentador que não deixou de ser.
Valha a verdade que se os debates durassem uma hora, o resultado até podia ser outro, pois não só Seguro é mais genuíno que Marques Mendes como espevitou na segunda parte do debate. Mas já era tarde. Para não sairmos do paradigma dos alimentos, Marques Mendes foi o carnívoro deste debate. Seguro ficou a contar ovos.
Rui Pedro Antunes — Marques Mendes e António José Seguro estiveram mais preocupados em defender a própria aldeia do que em atacar a do vizinho. Sabendo que disputam um espaço no centro moderado, à esquerda e à direita, os dois preferiram defender o eleitorado dos partidos que os apoiam em vez de arriscarem roubar votos ao adversário que tinham à frente.
Seguro não se ficou por uma crítica generalizada ao Ministério Público (que também fez) sobre as escutas, como lembrou que o PS (imagine-se, de António Costa) ainda podia governar em maioria absoluta e com estabilidade o País se não fosse a Operação Influencer. Mendes concordou, mas piscou deliberadamente o olho à direita ao lembrar que “os 75 mil euros encontrados” no gabinete de Vítor Escária ainda não foram justificados por ninguém. Nem por António Costa.
Seguro foi depois eficaz a colar Mendes ao Governo, mas o ex-líder não se importou muito com isso. Mesmo tendo uma postura mais pró-Governo na legislação laboral e noutras matérias, afastou-se quando lhe deu jeito (“isso foi a ministra que disse, não fui eu”) e chegou a dizer que “não fez parte” do Governo que privatizou a TAP. Não sendo inocente haver passistas que apoiam Seguro, o que até foi capa do semanário Expresso, chegou a dizer: “Isso foi o Governo de Passos Coelho”. Mendes fingiu também não perceber a acusação de Seguro sobre ter sido “consultor” de privatizações, numa referência à atividade profissional do ex-líder do PSD. Foi uma finta eficaz, até porque morreu ali: não é do “feitio” de Seguro a luta na lama, mesmo que tenha ensaiado uma ida para campos movediços.
António José Seguro quis tanto ser PS, que insistiu no atual domínio da AD, do país às ilhas. Mendes já estava preparado e saiu por cima nesse round, dizendo que na segunda parte dos anos 90 os portugueses puseram os “ovos no mesmo cesto” com Guterres e Sampaio e que “Seguro era ministro desse Governo e, na altura, não se queixou”.
Mendes levava a estratégia de tentar provar que ele e Seguro eram uma espécie de Dupont e Dupond, mas que ele era o gémeo bom e proativo e Seguro o gémeo também bom, mas mole. E por isso debitou tudo e mais alguma coisa de propostas que tem para executar a Belém, desde as presidências abertas na diáspora à recomendação de vistos gold para projetos sociais.
Olhando a todo o debate, Seguro foi bom a segurar o eleitorado do PS e Mendes a segurar o do PSD. O ex-líder do PSD acaba por ganhar o debate por ter conseguido executar a sua estratégia de convencer os que estão em cima do muro — os indecisos, os swing voters. Aí, Mendes conseguiu, com êxito, vender a imagem que será um presidente mais duro, mais determinado, mais proativo e, até, com mais autoridade (não necessariamente mais serenidade).
Recorde aqui:
o debate entre António Filipe e Gouveia e Melo
o debate entre António José Seguro e Jorge Pinto
o debate entre Cotrim Figueiredo e António Filipe
o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto
o debate entre André Ventura e Catarina Martins
o debate entre Jorge Pinto e Gouveia e Melo
o debate entre Marques Mendes e André Ventura
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo