As regras, os crimes violentos e as vítimas. Tudo o que o Ministério Público diz dos Hells Angels /premium

12 Julho 2019

O Ministério Público acredita que em 2018, quando invadiram um restaurante em Loures, os motards queriam mesmo matar o neonazi Mário Machado para impedir que criasse um motoclube rival.

O Ministério Público (MP) não conseguiu provar que os 89 motards presos há cerca de um ano por suspeitas de crimes tão graves como tentativa de homicídio, agressão e associação criminosa viviam do tráfico de droga e de armas para conseguir financiar a sua atividade. Mas, nas mais de 500 páginas que compõem o despacho de acusação, anunciado esta última quinta-feira, os procuradores descrevem pormenorizadamente como este grupo, cuja atividade foi recentemente proibida na Holanda, se impõe pela violência.

Entrar nos Hells Angels significa passar por um período probatório até poder usar os seus símbolos. E quem violar qualquer regra é imediatamente expulso e proibido de ostentar qualquer imagem. Até as tatuagens que os ex-elementos do grupo têm no corpo devem ser removidas ou tapadas, nem que seja à força pelas mãos dos próprios membros. O Observador conta-lhe tudo sobre os Hells Angels Motorcycle Club (HAMC) o que é revelado na acusação, que será traduzida em cinco línguas, tantas quanto as dos arguidos presos: inglês, alemão sueco, holandês, e romeno

A organização, as regras e os castigos

O HAMC é o principal grupo motard “fora de lei” (outlaw). São os próprios membros que se auto intitulam de “outlaws” porque estão, normalmente, associados à prática de crimes de lenocínio, roubos, homicídios e tráfico de armas ou de droga. É assim que as autoridades suspeitam que se financiem.

Têm uma estrutura vertical organizada, regem-se por regras não escritas definidas a nível mundial, europeu e local. E é neste terceiro nível que funcionam os chamados Chapters. O primeiro a nascer em Portugal foi criado em 2002, em Lisboa. Há um ano, quando a Polícia Judiciária avançou para a megaoperação que acabou na detenção de mais de 50 elementos deste grupo, havia cinco, além da capital — um Chapter em Almancil, o Nomads, um em Cascais, o Southside, outro no Porto, e um quinto em Setúbal, o Darkland (foi o último a abrir portas).

Estas secções dos Hells Angels têm, no entanto, alguma autonomia. Os seus membros Full Colours reúnem-se semanalmente para tomar decisões locais e, por vezes, fazem reuniões nacionais. Existem ainda quatro reuniões por ano que envolvem todas as estruturas europeias e dois encontros internacionais. O Ministério Público explica que um Chapter só pode ser aberto se for certificado pelo topo da própria estrutura, em Oakland, na Califórnia. E que além dos seus membros permanentes, os Full Colours, têm supporters, friends e simpatizantes.

Nessas reuniões são muitas vezes tratados os processos judiciais que os motards têm em curso. São ainda discutidas as ameaças de outros grupos motards que aparecem e que, sendo concorrentes dos Hells Angels, são alvos a abater. Quando os membros dos HAMC não cumprem as normas, são expulsos e obrigados a entregar as suas motas à estrutura. Por vezes, as consequências passam as paredes do clube. Como aconteceu, por exemplo, com o ex-presidente do Chapter de Cascais, Américo M., que foi também afastado da organização do Lisbon Tattoo Rock , descobriu o Ministério Público numa ata apreendida num dos clubes dos HAMC durante as buscas domiciliárias feitas para o processo. Foi também obrigado a eliminar todas as tatuagens que pudessem fazer referência ao grupo e teve mesmo que o provar perante os Full Colours. Caso contrário os próprios Hells Angels retiravam-nas à força.

Em Portugal, as autoridades concluíram que estes grupos recebem quotas mensais para pagar as suas despesas. No interior das sedes dos clubes, ou Chapter, vendem também bebidas e merchandising. E, como se consideram todos irmãos, sempre que é preciso ajudar alguém com um processo em tribunal publicitam e organizam eventos de angariação de fundos. Foi o que aconteceu em março de 2019, poucos meses antes da acusação, quando o Chapter de Antuérpia decidiu fazer o “Benefit Big House Crew 81 Portugal” para ajudar os arguidos presos no âmbito do processo dos Hells Angels em Portugal. Há ainda no site dos Hells Angels camisolas e artigos vários para ajudar a pagar a defesa.

Sempre que os HAMC sabem que vai ser criado ou instalado um Moto Club rival, tentam extingui-lo pela ameaça, pela força física, pelo medo, lê-se no despacho da acusação. Tiram-lhes as motas, a roupa e as tatuagens. O Bandidos Motorcycle Club, também conhecido por “Mexicanos”, é já um adversário histórico dos Hells Angels. Por isso, quando os Hells Angels perceberam que o militante de extrema-direita, Mário Machado, que tinha acabado de sair da prisão, tencionava criar um grupo em Portugal, o Red & Gold, apadrinhado pelos Bandidos, tratou de fazer um plano para o impedir.

O primeiro Chapter dos Hells Angels em Portugal abriu em 2002 em Lisboa. Hoje há cinco

Um apicultor, um reformado e um militar: o que fazem estes motards

A maior parte dos 89 arguidos que podem vir a ser julgados por crimes de tentativa de homicídio, roubo, associação criminosa, dano com violência e agressão são portugueses — mas para o crime mais grave que consta na acusação foram chamados alguns “irmãos” estrangeiros. Um dos 89 arguidos está em parte incerta e dois estão presos na Alemanha à espera de extradição.

Quanto às suas ocupações profissionais, sete dos arguidos trabalham na área da segurança privada, mas há também mecânicos, empresários, motoristas, serralheiros, cozinheiros e, até, um motorista de metro, um apicultor, um sargento da Força Aérea, dois agricultores, um técnico administrativo de justiça e, até, um reformado.

Mais de meia centena foram detidos em julho de 2018, cerca de quatro meses após terem invadido um restaurante em Loures com o objetivo de atacar Mário Machado e impedi-lo de criar um clube motard. Os restantes foram detidos ao longo do ano, conforme a investigação ia avançando. Na verdade, há dois anos que a PJ seguia os passos desta organização. A acusação do Ministério Público não se debruça apenas no crime do restaurante em Loures, juntou também o caso de um motard que tentou fazer parte da estrutura e acabou por ser agredido e obrigado a entregar a Harley Davidson da mulher. Foram também juntas ao processo as suspeitas de tráfico de droga, conta um dos elementos do grupo.

Foram apreendidas várias armas aos suspeitos. O arsenal conta com metralhadoras, carregadores, pistolas alteradas, réplicas de pistolas, cartuchos, facas, martelos de prego, correntes, soqueiras, gás-pimenta, mocas. Algum deste material foi mesmo encontrado nos Chapters dos Hells Angels onde a polícia recolheu, também, atas das reuniões que mostram como este grupo perseguia quem quisesse abrir um clube motard. Das provas constam também registos telefónicos e várias mensagens.

Os arguidos foram ouvidos em primeiro interrogatório no Campus de Justiça. Quase todos ficaram em preventiva

Os crimes de que são acusados

Corria o ano de 2010 quando Helder G. e a mulher, Marina, decidiram fundar o Grupo Motard Almada Bikers, em Almada. Ele era o presidente, ela a tesoureira. O símbolo do clube começou por ser o de um Cristo Rei ao centro, com uma moto, em azul e amarelo, cores de Almada. Tinha também as cores da bandeira nacional. Mais tarde, estas cores foram alteradas para cinzento e preto e o símbolo passou a ter forma tripartida, com a inscrição Almada BiKers em cima e a imagem de um piston com caveiras em chamas na parte central. Em baixo lia-se “Portugal”.

A descrição é do Ministério Público e mostra como um clube de motards se transformou, pela influência dos Hells Angels. E não foi só na imagem. A acusação revela que em 2014, depois de um encontro nacional dos Chapters dos Hells Angels, ficou decidido que aquele motoclube não poderia utilizar a expressão “Bikers”, nem podia ter nenhuma mulher, a não ser que integrasse a South Union Bikers Portugal, criada pela Chapter de Setúbal. Esta decisão foi anunciada a Hélder por dois membros dos Hells Angels, conhecidos por Rambo e Sininho. E ele viu-se obrigado a aceitar.

Em dezembro de 2014, os elementos femininos que faziam parte do Grupo Motard Almada Bikers deixaram de ser membros e passaram a Old Ladys, enquanto o grupo de Almada passou a integrar o South Union Bikers Portugal, criado pelos Hells Angels de Setúbal. Podiam agora percorrer o caminho para serem integrados nos Hells Angels.

Helder G. foi, então, obrigado a participar nas reuniões do grupo, às quartas-feiras, numa altura em que os Hells Angels começaram a apertar o controlo em todo o País dos grupos de motards e das cores e símbolos que usavam. Não podiam de forma alguma utilizar a simbologia própria dos HAMC. Em março 2016, o grupo de Almada fundado por Hélder acabaria por ser extinto por não cumprir o que os Hells Angels ditavam. O seu presidente, no entanto, passou a Hang Around do Chapter de Setúbal — cabia-lhe a ele fazer compras, limpar e manter o espaço. Teria que passar cada degrau da hierarquia se queria chegar a membro do clube.

Meio ano depois, no entanto, um desentendimento comum dos membros fê-lo perder os seis meses já percorridos. Precisava de um ano de provação, Nessa altura foi agredido a murro e a pontapé. Mas ficou. Um ano depois de ter reiniciado as suas funções desentendeu-se, novamente, com outro elemento do grupo. E acabou expulso em dezembro de 2017.

Com a expulsão, Hélder ganhou a qualidade de “Bad Standing”. Foi obrigado a cobrir ou a remover todas as suas tatuagens e símbolos com eles relacionados — caso não o fizesse seria obrigado a fazê-lo à força, com a utilização de maquinas retificadoras para eliminar tatuagens, descrevem os procuradores. Teve também que entregar a mota, avaliada em 11 mil euros e registada em nome da mulher, com uma declaração de compra e venda assinada por ela, mais um capacete e um colete. Temendo pela vida, acabou por aceitar. Este material só foi recuperado em 2019 pela polícia durante uma operação no âmbito deste processo. Estava numa oficina em Loures. O dono é arguido no processo.

Dias antes de dezenas de motards dos Hells Angels invadirem um restaurante em Loures à procura do neonazi Mário Machado, a PSP mandou parar um Peugeut branco com dois homens lá dentro. Os dois pertenciam aos Hells Angels de Setúbal, como se veio a perceber, e traziam uma arma e uma metralhadora semiautomática, munições, uma pistola de alarme e um colete do clube. Nesta altura já os planos de Mário Machado estavam debaixo de olho das autoridades.

Documentos entretanto apreendidos na investigação mostram que nesta altura também os Hells Angels já sabiam que Mário Machado preparava um evento com os Bandidos Motorcycle Club, num restaurante explorado por elementos do grupo. Uma ata de uma reunião, também apreendida pela polícia, descreve como havia “indesejados a viajar” para a área dos Hells Angels e como tinham que atuar para o impedir. E Mário Machado também não o escondeu nas redes sociais.

O dia do ataque ao grupo rival

Naquele dia 24 de março vieram cerca de sessenta elementos dos Hells Angels de todos os Chapters do país em carros próprios e alugados. Do Algarve houve quem se juntasse num posto de abastecimento de combustível para seguir para norte, como atestam as imagens do sistema de videovigilância. Em Lisboa, dois elementos do grupo foram apanhados pelas câmaras do aeroporto à espera de dois “irmãos” vindos da Moldávia — que nessa noite acabaram por pernoitar num hotel no Parque das Nações. Vieram ainda membros do norte do país.

Pelas 12h46 chegaram ao restaurante Mesa do Prior com as funções bem definidas. Cerca de uma dezena entrou no restaurante munida de paus, facas e soqueiras. Cá fora, um grupo cercou a rua para impedir que alguém travasse o plano. Nas imediações havia mais apoiantes dos Hells Angels, que deviam lançar o alerta caso vissem algum carro da polícia. À porta, um dos arguidos, com uma mão dentro do bolso, deu sinal ao fim de dois minutos para voltarem a casa

Os agora acusados deixaram o espaço completamente destruído. Também aqui as imagens em vídeo mostram como os suspeitos entraram munidos de uma machada na mão direita e a guardaram depois debaixo da roupa. Outros iam com martelos, martelos-bola e paus. A acusação fala em cinco elementos dos Bandidos agredidos a soco e com armas brancas, com as quais sofreram golpes. Mas os dois alvos principais, garante o MP, foram Mário Machado e Carlos Seabra. Segundo o Ministério Público, o objetivo era mesmo “tirar-lhes a vida”. Mas ambos acabaram por enfiar-se numa arrecadação e trancar-se à chave.

Os arguidos fugiram de cara tapada e com alguns telemóveis nas mãos. A investigação percebeu que, dias depois, os motards ainda andaram a perseguir os dois. Procuraram Mário Machado no Centro Comercial Alegro, onde trabalha a companheira. Mas em vão — ele não estava  lá. Já Carlos Seabra foi traído pelas imagens que colocou no Facebook a anunciar um evento do Grupo Red&Gold. Um dos arguidos, com dois homens que a polícia não conseguiu identificar, apanhou-o num café em Almada e agrediu-o com uma soqueira. Durante três meses ficou impedido de trabalhar.

A PJ encontrou mensagens trocadas entre alguns elementos dos Hells Angels que mostram como sentiram alguma satisfação ao verem imagens da sua atuação na televisão. “Todos os arguidos podiam ter decidido,  a todo e qualquer momento, por si, conjunta ou isoladamente, evitar a ocorrência de todos os factos, mas nada fizeram para evitar”, constata a acusação.

No dia 2 de abril de 2018, cerca de uma semana após o ataque, um dos membros dos Hells Angels, Alessandro, que também é arguido, sofreu as primeiras consequências do crime no grupo. Foi expulso  dos HAMC como Left. O motivo está também numa das provas recolhidas pela polícia: a “atitude, n entrar; n esperar pelos irmãos”, “aceitou as suas atitudes más”.

Os arguidos são acusados de quatro tentativas de homicídio, de agressão, crimes de associação criminosa, extorsão qualificada, detenção de armas proibidas e roubo qualificado. A defesa pode, agora, tentar abrir a instrução do processo.

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