As seis vidas de Theresa May (e a última que lhe resta) /premium

12 Dezembro 2018

A primeira-ministra derrotou uma moção de censura interna, quando muitos já a declaravam morta. É um padrão habitual na sua carreira — mas, com o Brexit, os dias de Theresa May estão contados.

Os jornais chamam-lhe “Maggie May”, quando querem compará-la a Margaret Thatcher; “Maybot”, quando destacam o seu estilo robótico; “Theresa Maybe”, quando apontam as frases vagas que por vezes usa. No Parlamento, os ataques sucedem-se a um ritmo semanal, em cada sessão de perguntas e respostas nos Comuns. No início desta semana, uma frase sua foi até recebida com gargalhadas sonoras.

Ao longo dos últimos anos, foram várias as vezes em que colunistas e repórteres escreveram o seu obituário político. Esta quarta-feira, perante um cenário em que o seu acordo para o Brexit está mais periclitante do que nunca, irrompeu pela manhã o anúncio de que a sobrevivência política da primeira-ministra conservadora podia estar ainda mais em causa, com a votação de uma moção de censura interna. Ao final do dia, repetem-se as mesmas ideias de sempre: o anúncio da sua morte foi manifestamente exagerado. Pelo menos por hoje.

May está habituada a que decretem o seu fim. Foi assim enquanto ministra, primeira-ministra e agora, mais recentemente, a cada mês que passa e um acordo para o Brexit teima em ser afinado. Discreta, poupa nas palavras e prefere a frieza dos documentos ao calor do debate, o que tem levado muitos a questionar se tem a energia e o carisma necessários para levar o Brexit a bom porto. Mas também é uma política focada, determinada e muito — muito — resiliente.

A carreira política de May tem sido marcada por momentos em que a maioria lhe previu o final da linha — e, em todos eles, a primeira-ministra conseguiu dar a volta por cima. O Brexit, contudo, é o maior desafio político da sua carreira. E, apesar de, esta quarta-feira, May ter sobrevivido uma vez mais, é possível ouvir-se ao longe o toque de finados pelo provável chumbo do seu acordo nos Comuns em janeiro. Essa poderá mesmo ser a última vida de Theresa May, enquanto política. Depois de todas as outras.

1ª vida: A ministra do Interior que esteve mais tempo no posto nos últimos 60 anos

Em 2010, Theresa May, deputada conservadora e membro fiel do partido, que chegou a ocupar alguns cargos como ministra sombra de pastas menores, foi nomeada ministra do Interior do Governo de David Cameron, depois de este ter vencido a eleição. A escolha foi surpreendente porque ultrapassou Chris Grayling, que tinha a pasta do Interior do Governo-sombra dos tories até então.

May, que até aí não tinha ocupado nenhuma pasta governamental, agarrou um ministério complicado, onde poucos cumprem o mandato até ao fim. Ela própria enfrentou dificuldades: um ano depois da chegada ao poder, a BBC já escrevia “Theresa May debaixo de fogo por causa de afirmação sobre deportação por causa de gato”. Em causa estava um mini-escândalo com a ministra, quando esta afirmou que era necessário alterar a legislação sobre imigração ilegal, dando como exemplo a história de um imigrante que não pôde ser deportado pelo facto de ter um gato como animal de estimação no Reino Unido. A história viria a ser desmentida pelo próprio tribunal que julgou o caso e May ficou debaixo de uma chuva de críticas da oposição e até de organizações como a Amnistia Internacional.

Theresa May (fila de cima, ao centro), com outros ministros do Interior europeus. A britânica acabou por bater recorde de maior duração no cargo dos últimos 60 anos (JOHN MACDOUGALL/AFP/GettyImages)

Foi uma das polémicas do seu mandato no Interior e logo num dos temas que mais alarido provocou: a imigração. Para além dos cortes que impôs às forças policiais e dos ataques terroristas que teve de enfrentar, a sua postura de mão pesada face à imigração foi, muitas vezes, criticada pela oposição. Foi assim quando o ministério colocou anúncios para os imigrantes ilegais que diziam “Está no Reino Unido ilegalmente? Vá para casa ou arrisque prisão” (sobre os quais May acabaria por recuar, dizendo que foram apenas “uma experiência” demasiadamente “incisiva”), ou quando colocou como fasquia mínima de rendimento para os imigrantes as 35 mil libras (cerca de 38 mil euros).

May, ainda assim, sobreviveu ao mandato — e com tanto sucesso que se tornou a ministra a ocupar o cargo durante mais tempo nos últimos 60 anos (seis anos e dois meses), desde que James Chuter Ede esteve à frente do ministério do Interior, durante exatamente o mesmo tempo.

2ª vida: A primeira-ministra não-eleita aguenta-se no poder

“Theresa May, um par de mãos seguras como primeira-ministra? Não acreditem nisso.” May era primeira-ministra há apenas três meses e a jornalista Abi Wilkinson já titulava assim a sua coluna de opinião no jornal Guardian. Uma semana depois, o coro engrossava: “Não tenham dúvidas — Theresa May é fraca”, escrevia Jay Elwes na Prospect Magazine.

Em causa estava uma performance desapontante no Parlamento. Os colunistas apontavam a falta de energia de May perante Jeremy Corbyn e a sua fuga às perguntas difíceis. E começavam a questionar se a imagem de escolha sólida com que May tinha surgido na corrida à liderança dos tories não começava a abalar.

David Cameron demitiu-se do Governo e da liderança do Partido Conservador, abrindo caminho a May (Toby Melville - WPA Pool/Getty Images)

Para trás tinha ficado a demissão de David Cameron, que deixou ao seu sucessor a batata quente do Brexit. Para líder, perfilaram-se cinco pessoas: Theresa May, Michael Gove (ministro da Justiça de Cameron), Stephen Crabb, Andrea Leadsom e Liam Fox. Essa corrida, escrevia Wilkinson, tinha sido ganha por May graças à incompetência dos adversários: “A sua estratégia foi simplesmente a de ficar calada, enquanto os outros participantes se imolavam à vez”.

Mesmo quando o embate ficou reduzido a May vs. Leadsom, a adversária acabou por desistir, depois de um tiro no pé: numa entrevista com o Times, sugeriu que estava melhor qualificada para lidar com o Brexit por ter “algo a perder”. “Eu tenho filhos, que terão filhos, que vão ser diretamente afetados por isto”, disse, deixando implícito que May, por não ter filhos, não estaria tão qualificada para decidir algo tão importante quanto o futuro do país. Leadsom acabaria por pedir desculpas e, à última hora, retirou-se da corrida, deixando a liderança do Partido — e do país — entregue a May. Poucos meses depois, já choviam críticas ao estilo ”robótico” da primeira-ministra. Mas, na prática, isso não fez mossa e May foi-se mantendo no cargo.

3ª vida: As eleições que iam reforçar May — e que acabaram por ser um desastre

Em abril de 2017, a primeira-ministra “gélida” e “robótica” surpreendeu tudo e todos com uma decisão arrojada: a de convocar eleições antecipadas, na tentativa de reforçar o seu mandato e poder entrar com mais força nas negociações sobre o Brexit — o Artigo 50, que inicia o processo de saída de um país da União Europeia, tinha sido ativado em finais de março, na sequência de um referendo em que a maioria dos britânicos votou “Sim”.

A votação, em junho, revelou-se um balde de água fria: o Partido Conservador conseguiu ser o mais votado, é certo, mas a campanha de May não convenceu por inteiro os britânicos. Os tories conseguiram apenas 318 lugares no Parlamento, ou seja, perderam 13 deputados e a maioria que tinham na Câmara dos Comuns. O Financial Times não hesitou e invocou o título “Jogada de May faz ricochete”. Alguns deputados do seu próprio partido, como a anti-Brexit Anna Soubry, sugeriram até que May deveria demitir-se.

Capa do "Evening Standard" no dia das eleições de junho de 2017. "Você decide", diz (PAUL ELLIS/AFP/Getty Images)

Poderia ter sido o fim da primeira-ministra, mais uma vez. Mas eis que, um dia depois, May surgiu com uma solução de Governo: garantiu o apoio dos unionistas da Irlanda do Norte (DUP) e, com os seus 10 deputados, alcançou maioria na Câmara. Politicamente, estava enfraquecida — sobretudo dentro do seu próprio partido —, mas conseguia sobreviver para lutar mais um dia — outra vez.

4ª vida: O plano de Chequers para o Brexit, atacado por todos os lados

“A humilhação em Salzburgo de Theresa May confirma que uma crise política plena está a caminho.” Tom Peck, colunista do jornal Independent, não tinha dúvidas, a 20 de setembro, de que o falhanço do plano de Chequers, gizado por May como proposta para resolver o impasse do Brexit, ditava o princípio do fim para a primeira-ministra. “Quando a primeira-ministra está a suar em bica, a tropeçar nas palavras e a morder os lábios como se estivesse perdida ao regressar da tenda de dança em Glastonbury às quatro da manhã… bem, não é injusto concluir que é mesmo isso que vem a caminho”, escrevia.

Theresa May, em Chequers, apresenta o seu plano aos ministros do Governo (Joel Rouse - Crown Copyright via Getty Images)

Não era para menos: em julho, May reuniu o Conselho de Ministros na sua residência de férias em Chequers para lhes apresentar uma proposta de acordo com a UE, que foi imediatamente rejeitada por alguns membros-chave do seu Governo. David Davis e Boris Johnson, dois dos seus ministros que defendiam uma linha mais dura para o Brexit, demitiram-se de imediato, em protesto. May respirou fundo, inspirou-se no slogan britânico Keep Calm and Carry On (“Mantenha-se calmo e siga em frente”), nomeou novos ministros e avançou com a proposta. Só que, chegada a Salzburgo, levou um “Não” redondo dos europeus, que consideraram que a proposta não respeitava os princípios do mercado comum. No Instagram, Donald Tusk publicou uma foto a servir alguns bolos a May com a legenda “Quer uma fatia de bolo, talvez? Peço desculpa, não há cerejas”.

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A piece of cake, perhaps? Sorry, no cherries. #brexit #salzburgsummit2018 #theresamay #donaldtusk #europeancouncil #europeanunion #euco

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May sentiu-se humilhada. “Tratei a UE sempre com respeito. O Reino Unido espera o mesmo.” Mas o acordo, esse, estava em risco. E, em casa, afiavam-se as facas. Na convenção do partido, um mês depois, havia rumores de que Boris Johnson poderia desafiar abertamente a primeira-ministra, mas este ficou-se pelas palavras, pedindo aos deputados que rejeitassem Chequers. Tal não foi preciso: May deu um passo atrás, voltou à mesa das negociações e comprou mais tempo — só que, entretanto, gastou uma das suas vidas.

5ª vida: Sete demissões no Governo não chegaram para demover a primeira-ministra

Em novembro, finalmente, luz ao fundo do túnel para o Brexit: May anuncia ter chegado a acordo nas negociações com a UE, apresenta a sua proposta ao Conselho de Ministros e recebe um OK. No dia seguinte, contudo, acorda com a demissão do seu ministro para o Brexit, Dominic Raab, dizendo que não pode, “em consciência”, apoiar aquele acordo por causa da solução do backstop nas Irlandas.

Às 10h30 da manhã, já a jornalista da Spectator Kathy Balls escrevia que “a demissão de Dominic Raab pode ser o prenúncio do fim do plano para o Brexit de May”. De facto, Raab foi só a primeira de sete demissões nesse dia, incluindo a de outra ministra de peso, Esther McVey, e de outros membros menores do Executivo. Mas enquanto as cartas de demissão iam sendo apresentadas, May seguia em frente, aparentemente inabalada. No Parlamento, defrontou Corbyn e o resto da oposição, mantendo-se firme ao defender aquela proposta de acordo.

Dominic Raab, ex-ministro para o Brexit, de saída de Downing Street depois de ter apresentado a sua demissão (Dan Kitwood/Getty Images)

Nos corredores, contudo, afinavam-se preparativos entre os que queriam afastar May — mesmo dentro do próximo partido. O eurocético Jacob Rees-Mogg anunciava a meio da tarde que tinha entregado a primeira das 48 cartas necessárias para abrir um processo de moção de censura interno à primeira-ministra. Os que o acompanharam, no entanto, não foram suficientes para atingir o número mágico de 48 — tal só seria alcançado esta terça-feira, depois de ser anunciado por May que iria adiar a votação do seu plano. À altura, contudo, ninguém sabia quanto tempo demoraria até os tories questionarem a liderança de May. E ela respondia nessa noite, desafiadora, comparando-se ao jogador de críquete Geoffrey Boycott, que “se comprometia e no final conseguia os runs [os pontos]”.

6ª vida: Uma moção de censura interna derrotada com vantagem

As 48 cartas de tories acabariam por ser reunidas na noite desta terça-feira, juntando-se aos eurocéticos os que ficaram irados com a decisão de May de adiar a votação do seu plano nos Comuns, marcada inicialmente para o mesmo dia.

A primeira-ministra arrancou o dia de quarta-feira garantindo, uma vez mais, que não iria atirar a toalha ao chão. “Continuo de pé, pronta para acabar este trabalho”, declarou, referindo-se ao Brexit. A meio da tarde, a Spectator tinha em manchete um artigo com o título “Porque é que Theresa May deve partir”, deixando bem claro o desejo dos Brexiteers.

Sabendo disso, perante os deputados do seu partido, May ofereceu uma concessão: afastar-se da liderança na altura de enfrentar novas eleições, em 2022. Mas pediu que confiassem nela para conseguir o Brexit para os britânicos. Os deputados assim o fizeram e 200 dos 317 tories declararam o seu apoio à primeira-ministra, inclusivamente aqueles que, como Heidi Allen, já asseguraram que não vão apoiar a proposta de acordo de May no Parlamento.

7ª vida: A que começa agora — passar o Brexit no Parlamento

“Theresa Maybe”, “Maybot”, “Maggie May” ou simplesmente Theresa, ela enfrentou todos os obstáculos que lhe foram colocados no caminho e, até agora, saiu sempre por cima. Mas Theresa May pode bem ter gasto a sua penúltima vida neste combate — e a que lhe sobra será a última.

A primeira-ministra, na noite desta quarta-feira, a reagir aos resultados da moção de censura chumbada (Jack Taylor/Getty Images)

Tendo em conta a aritmética do Parlamento, a pouca vontade de Bruxelas para negociar mais e o desagrado gritado bem alto pelos parceiros do DUP e por alguns tories com este acordo para o Brexit, o mais provável é que os obituários políticos de Theresa May venham a fazer sentido em breve. Até 21 de janeiro, May comprometeu-se em apresentar perante os Comuns a sua proposta de acordo para ser votada. O tempo extra, explicou, serve para conseguir arrancar “garantias” aos europeus de que não têm intenções de utilizar o tal temido backstop.

Os sinais, contudo, não lhe são favoráveis. O DUP está inflexível e os eurocéticos, como Jacob Rees-Mogg, não querem aceitar um acordo que consideram uma “humilhação”. Estão, aliás, dispostos a arriscar uma saída sem acordo, se for caso disso. Sem maioria na Câmara, não há resiliência que valha à primeira-ministra: o mais provável é que o acordo para o Brexit seja mesmo chumbado. Basta pensar que não foi por acaso que a própria May decidiu adiar a votação, que devia ter acontecido esta semana — a ser feita no dia marcado, a derrota estava garantida e seria esmagadora.

Depois disso, com o tempo cada vez mais apertado e sem ninguém disposto a renegociar, Theresa May estará encurralada. O que se segue? Uma moção de censura do Parlamento todo? Eleições antecipadas? Um novo referendo? Em qualquer dos casos, a sétima vida da primeira-ministra britânica pode bem vir a ser a mais curta de todas.

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