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[Este texto faz parte de uma série que o Observador está a publicar sobre os terramotos políticos provocados pelos partidos antissistema de direita radical em diferentes países da Europa Ocidental. Pode ler também sobre os casos da Alemanha, Espanha, Reino Unido, Grécia, França, Suécia e Itália]
Sou mãe de três crianças, não posso escolher mais nada (…) Especialmente com a imigração extrema, a falta de integração, a pandemia do coronavírus e a vacinação. E porque nós, mulheres, temos de ter medo. Para mim, não há alternativa.”
Sandra Pangerl não teve vergonha de dizer ao Der Standard que, em setembro de 2024, votou no Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ, na sigla em alemão). A primeira vez que votou no partido da direita radical foi há 11 anos. À data, não se preocupava com imigração ou vacinação, queria apenas dar uma nova vida à sua cidade-natal no norte da Áustria, Wels, que dizia estar “morta”. Agora, aos 43 anos, diz que a presença do FPÖ na localidade foi um sucesso e quis ver esse sucesso replicado a nível federal. Os seus elogios estendem-se ao líder do partido: “Herbert Kickl devia tornar-se chanceler”.
A declaração não é unânime, mesmo entre outros eleitores do FPÖ ouvidos pelo jornal de Viena, que reconhecem que Kickl não é uma figura consensual e que tem um estilo de comunicação “pouco popular”. No entanto, foi sob a sua liderança que o partido mais à direita do Parlamento austríaco chegou aos seus melhores resultados eleitorais. Em junho de 2024, o FPÖ conseguiu a sua primeira vitória nas urnas, nas eleições para o Parlamento Europeu. Três meses depois, repetiu o feito e venceu as eleições federais, ao conquistar 28,8% dos votos e 57 mandatos — a primeira vitória da direita radical no país desde a II Guerra Mundial.
Os resultados de Kickl são ainda mais impressionantes devido à recuperação que empreendeu no partido. Em 2019, o partido integrava uma coligação de governo com o partido do centro-direita ÖVP quando se viu envolvido num escândalo de alegados subornos — o Ibizagate –, que pôs fim à coligação e atirou o país para eleições antecipadas, em que o FPÖ perdeu quase metade da sua bancada parlamentar. A liderança estratégica de Kickl aplicada às crises sucessivas da pandemia e da guerra na Ucrânia ajudaram o partido a recuperar todos os seus deputados e ainda aumentar o grupo.
▲ Kickl chegou à liderança do partido em 2021
Getty Images
No entanto, o resultado histórico de setembro passado não foi suficiente para Sandra ver o seu desejo do líder como chanceler cumprido, já que o FPÖ não chegou à maioria dos 183 lugares do Parlamento austríaco. Kickl viu-se obrigado a negociar uma solução de governo com os restantes partidos no hemiciclo. As negociações arrastaram-se até fevereiro de 2025, quando o FPÖ anunciou que não tinha conseguido chegar a acordo. O governo acabaria por ser formado só 151 dias depois da eleições, fruto de uma coligação entre os conservadores de centro-direita do Partido do Povo (ÖVP), os Sociais Democratas de centro-esquerda (SPÖ) e os liberais do partido Neos.
As particularidades do caso austríaco são fáceis de encontrar. Em Viena, a direita radical começou a integrar governos muito antes de outros países da Europa Ocidental. Na verdade, a coligação que caiu em 2019 era já a terceira de que o partido fazia parte. Das outras duas, a que mais se destaca foi a de 1999, em que a direita moderada escolheu uma abordagem de integração para lidar com o popular Jörg Haider. A sua morte prematura impediu-o de ver o partido a vencer eleições federais, desejo que Kickl, o seu redator de discursos e herdeiro político, acabou por cumprir.
Jörg Haider: o “rosto da extrema-direita na Europa” e o “dragão” que a direita quis “domar”
No final de 1990, no âmbito de uma aula de jornalismo sobre táticas de entrevista, o jornalista austríaco Armin Wolf deu a doze alunos a oportunidade de entrevistarem Jörg Haider. Os alunos partilhavam entre eles uma postura anti-fascista e a crítica de que os jornalistas, incluindo Wolf, eram demasiado brandos no escrutínio ao líder do FPÖ. Depois de 45 minutos de entrevista, os alunos concordaram: “Afinal, [Haider] não é assim tão mau“. O momento foi descrito por Wolf ao Der Spiegel, como prova do charme e do impacto de Haider — o efeito que teve sobre os alunos, ideologicamente distantes, era o mesmo que tinha sobre o seu eleitorado.
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Haider liderou o FPÖ entre 1986 e 2002. Quando se afastou do cargo, levava com ele o título de “rosto dos partidos de extrema-direita na Europa”. A sua popularidade não se devia apenas ao seu charme, mas também à sua flexibilidade política. O partido tinha sido fundado em 1956 por Anton Reinthaller, que tinha sido ministro da Áustria durante o período nazi e líder das SS. Porém, nas duas décadas seguintes procurou uma aproximação ao centro e a políticas liberais, assumindo-se como terceira força política e uma alternativa para os desiludidos com o sistema dominado por dois partidos: SPÖ e ÖVP. Durante as primeiras décadas, o partido nunca passou dos 8% nas eleições federais, mas a aparente moderação levou o SPÖ a aceitá-los como parceiros de coligação em 1983.
Essa tendência mudou em 1986, quando Haider liderou um golpe dentro do partido e assumiu a liderança. Apesar de ter mantido a postura antissistema, a sua maior contribuição para o partido foi a inclusão de uma narrativa anti-imigração e uma exaltação do regime nazi — o seu pai tinha sido membro da organização paramilitar nazi, as SA. Por ocasião dos 50 anos da libertação dos campos de concentração na Áustria, classificou-os como “centros penais”. E, quando era governador regional, criticou as políticas laborais do governo austríaco nomeadamente pelas elevadas taxas de desemprego, pelas quais responsabilizou o aumento da imigração. “[O terceiro Reich tinha] políticas laborais decentes”, atirou.
▲ Jörg Haider conduziu o FPÖ ao seu melhor resultado em 1999
picture alliance via Getty Image
Apesar destas linhas constantes, Wolf destaca a flexibilidade de Haider noutros temas, particularmente na política externa, na relação com os Estados Unidos e com a União Europeia (UE). “Ele era ideologicamente muito flexível e dizia o que parecesse popular”, argumentou. Essa popularidade levou o FPÖ de 18 lugares a 52 no Parlamento durante a liderança de Haider. Apesar da radicalização, o partido saiu das eleições de 1999 como segunda força política, apenas atrás do SPÖ, de centro-esquerda e cujo governo de 1970, que duraria apenas um ano, teve apoio parlamentar do FPÖ.
No entanto, foi à direita que Haider encontrou um parceiro de coligação mais regular. Em vez de um cordão sanitário que alienasse a direita radical e o seu eleitorado, o líder do ÖVP, Wolfgang Schüssel, escolheu “domá-la”, trazendo-a para o arco da governação e tirar-lhe a legitimidade de se assumir como um partido antissistema — “domesticação através da responsabilidade“, resumia o histórico do SPÖ, Helmut Zilk. A única exigência era que Haider não podia assumir o cargo de chanceler.
A solução não foi bem acolhida em Bruxelas, que aplicou sanções a Viena: os candidatos austríacos a cargos europeus seriam chumbados, os embaixadores só teriam credenciais “técnicas” e não seria assinado nenhum “contrato bilateral oficial”. As sanções acabariam por ser retiradas poucos meses depois, quando o Conselho da União Europeia — liderado à data por Portugal — enviou um grupo de três especialistas à Áustria que concluíram que, apesar de o governo austríaco integrar um partido com “elementos radicais”, não se registava qualquer violação dos valores democráticos europeus.
A pressão internacional não perturbou, contudo, a estratégia de Schüssel. A mera inclusão do FPÖ no governo já tinha causado uma queda abrupta nos resultados eleitorais de 2002. Mas a exclusão de Haider do governo e o seu isolamento levaram-no a abandonar o FPÖ e a formar um novo partido, o BZÖ, em abril de 2005. Apesar de ter ganhado três mandatos nas eleições seguintes, o FPÖ caiu para o quarto lugar. Schüssel foi, assim, declarado “o matador de dragões” — “Schüssel não tinham só domado o Partido da Liberdade, tinha-o destruído”, escreveu o Der Standard uma década mais tarde. Haider acabaria por morrer num acidente de carro em 2008, aos 58 anos, e o BZÖ nunca assumiu o lugar deixado vago pelo FPÖ.
Ibizagate. O escândalo que fez cair a terceira coligação
Quando Jörg Haider abandonou o partido, o seu grupo parlamentar estava reduzido a 18 deputados, o número mais baixo desde que assumira a liderança. Depois disso, o FPÖ demorou uma década a reconstruir-se. Heinz-Christian Strache assumiu a liderança, mas as linhas principais de anti-imigração e antissistema mantiveram-se as mesmas. A isto somou-se a criação de uma rede de contactos com os seus pares europeus e a adoção de um discurso anti-europeísta. Contudo, o caso austríaco destaca-se pelo “equilibrismo”, como caracteriza um estudo de 2017: Strache criticou a UE e apelou a reformas, mas nunca defendeu a saída da comunidade, posição que tinha prejudicado outros partidos da direita radical.
▲ Manifestantes protestam contra a coligação com o FPÖ em 2017
MICHAEL GRUBER/EPA
A narrativa anti-imigração ganhou peso em 2015, quando uma grande parte dos países da Europa abriram portas a refugiados e requerentes de asilo, e refletiu-se nas eleições presidenciais do ano seguinte, em que o candidato do FPÖ venceu a primeira volta. No entanto, Norbert Hofer acabou por ser derrotado na segunda volta pelo candidato independente e atual Presidente,Alexandervan der Bellen. A verdadeira viragem no rumo do FPÖ deu-se em 2017, quando alcançou um segundo lugar e quase 26% dos votos, o melhor resultado desde 1999.
O ÖVP do centro-direita, que ficou em primeiro lugar, voltou a estender a mão ao FPÖ. No entanto, desta vez, as negociações revelaram-se mais fáceis. Sob a liderança de Sebastian Kurz, o ÖVP tinha-se deslocado para a direita e assumido uma postura muito dura para lidar com a imigração e com o aumento dos pedidos de asilo. Kurz assumiu o cargo de chanceler e Strache de vice-chanceler. Desta vez, a UE não condenou a inclusão da direita radical no governo: Kurz deixou clara logo à partida a sua postura pró-Europa e o contexto também tinha mudado desde 1999, com governos próximos deste espectro político a governarem a Polónia e a Hungria.
A governação não foi tão fácil como as negociações. Na pasta da Administração Interna, Herbet Kickl foi somando controvérsias, com maior destaque para o raide de 2018 aos serviços secretos austríacos, em que foram apreendidos documentos que mostravam ligações entre o FPÖ e grupos de extrema-direita. Mas o escândalo que pôs fim ao governo de direita só viria a surgir em 2019, quando foram reveladas imagens de Strache a prometer contratos públicos em troca de financiamento da campanha a uma mulher que se identificava como uma empresária russa.
Os vídeos, captados antes das eleições de 2017 num hotel em Ibiza e revelados pelos media alemães, mostravam o líder do FPÖ a prometer a entrega de contratos públicos à empresária, mencionando as empresas austríacas que detinham esses contratos. Em troca, a mulher devia comprar metade das ações do jornal nacional Kronen-Zeitung e mudar a sua linha editorial para ser pró-FPÖ. A conversa incluía ainda referências a esquemas de doação que tudo apontava serem ilegais e elogios à forma como Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, lidara com os media críticos no seu país.
Face às revelações, Strache apresentou a demissão, a coligação desfez-se e o país seguiu para eleições antecipadas, que Kurz ganhou. No entanto, o novo executivo caiu logo a seguir com uma moção de censura e a Áustria ficou entregue, de forma interina, a um governo tecnocrata independente. Ainda assim, a maior queda foi mesmo a do FPÖ. O escândalo refletiu-se nas urnas e o partido perdeu 20 deputados e o segundo lugar.
Depois da queda no início da década de 2000, o FPÖ demorou quase dez anos a regressar ao topo da política austríaca. Contudo, depois de 2019 o partido recuperou de uma queda muito mais pesada de forma mais rápida. Mais: não só regressou aos resultados de 2017, como os ultrapassou. Os especialistas apontam que a justificação para essa ascensão está num homem: Herbert Kickl.
Redes sociais, pandemia, imigração e guerra na Ucrânia. A receita para a recuperação de Kickl
Herbert Kickl só chegou à liderança do partido em 2021. Mas a sua presença começou a fazer-se sentir muito antes disso. Kickl começou no partido como redator de discursos de Jörg Haider. Depois da sua morte, assumiu o cargo de secretário-geral de Strache, ao qual se somou depois a liderança do Ministério da Administração Interna. “Kickl foi a mente por trás do FPÖ nos últimos 20 anos, desenhou muitas das suas campanhas e teve uma influência significativa, até quando era o homem na frente”, argumentou Felix Roesel, professor de Economia na Technische Universität Braunschweig da Alemanha. “Desde que ficou debaixo dos holofotes depois dos escândalos de 2019, ele mostrou a sua visão estratégica. É muito esperto”, acrescentou.
Esta visão sobre o novo líder do partido parece ser unânime entre os especialistas. Enquanto o seu mentor, Haider, usufruía de uma popularidade muito alta, Kickl revela-se um dos líderes austríacos menos populares, segundo um inquérito regular da agência noticiosa austríaca, citado pela Reuters. Em vez da popularidade, apoia-se na estratégia, que chega a ser “agressiva”, aponta o analista Thomas Hofer à agência. Esta postura, mais radical, transparece ainda na alcunha que adotou para si: Volkskanzler, que significa “chanceler do povo” e se popularizou como alcunha de Adolf Hitler.
Enquanto secretário-geral, Kickl foi responsável pela estratégia de comunicação do FPÖ, que se veio a revelar um fator chave para a sua recuperação. Em 2012, foi criada a FPÖ-TV. O canal de televisão estabeleceu-se como a base de “um universo paralelo de media, emancipado do [ambiente] ‘hostil’ dos media tradicionais”, define o centro de investigação da Democracia e Sociedade em Transição da Universidade Krems. Este universo permite a transmissão de mensagens que respondem diretamente ao eleitorado e às suas preocupações, sem filtragem ou escrutínio dos media. A mesma estratégia é aplicada nas redes sociais, em que somam milhares de seguidores. O sucesso desta estratégia comunicacional é visível na popularidade do partido entre os jovens, mais presentes nas redes sociais.
O conteúdo é tão eficaz quanto o formato. Quando a preocupação foi a imigração em 2015, o partido integrou esta realidade na sua narrativa. O mesmo aconteceu com outras duas crises que se seguiram: a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia. No caso do coronavírus, o partido conseguiu capitalizar dois tipos de eleitores descontentes: os que defendiam teorias da conspiração e os que se opunham à obrigatoriedade das vacinas, devido aos confinamentos impostos aos cidadãos não-vacinados. A mesma reportagem onde consta a justificação de Sandra para votar no FPÖ, citada no início deste texto, inclui outros quatro eleitores: todos eles passaram a votar na direita radical devido à sua posição contra a vacinação obrigatória. Para Christina, uma antiga eleitora dos Verdes ouvida pela Reuters, esta também foi a medida que a fez mudar o seu voto.
A questão da Covid-19 não se esgotou em 2020. Na campanha para as eleições do ano passado, o novo líder do ÖVP e então chanceler austríaco, Karl Nehammer, deixou claro que o seu partido não voltaria a coligar-se com o partido liderado por Kickl. “É impossível formar governo com alguém que adora teorias da conspiração e descreve a OMS como o governo do próximo mundo”, declarou.
▲ Polícia confirma que pessoas em locais públicos estão vacinadas, no final de 2021
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Quando a pandemia abrandou, a narrativa virou-se para a guerra na Ucrânia: o FPÖ opõe-se ao apoio da UE à Ucrânia, devido ao esforço financeiro que representa, assim como às sanções económica à Rússia, que dizem ter mais impacto sobre o povo austríaco (que é dependente da energia russa) do que sobre a economia russa. A postura encontra eco no eleitorado de um país que nunca se juntou à NATO — um de apenas quatro Estados membros da UE que não integram a Aliança Atlântica.
Estes dois períodos aprofundaram a insatisfação generalizada que já se fazia sentir, principalmente com a deterioração da economia, e que também beneficiou o FPÖ. A isto ainda se soma a linha original do partido, anti-imigração. O aumento da imigração em 2015 — entraram no país cerca de 215 mil pessoas — já tinha contribuído para o crescimento da direita radical. Mas a imigração na Áustria atingiu o seu pico em 2022, quando entraram quase 262 mil pessoas, ainda que, neste caso, o pico tenha sido causado pela entrada de mais de 67 mil ucranianos, que fugiam à guerra.
Apesar dos números, os alvos de Herbert Kickl são outros: “A Áustria não é responsável por afegãos, sírios ou marroquinos. A responsabilidade cabe ao país seguro mais próximo”, defendeu durante a campanha eleitoral em que argumentou que a “política de asilos” transformou Viena num palco de “atos islamitas antissemitas”. Por oposição, a promessa era simples: transformar o país numa “fortaleza”.
Uma cultura democrática enfraquecida e uma direita radical normalizada
A estratégia imposta por Herbet Kickl teve rápidos resultados nas urnas. Durante o verão de 2024, o FPÖ ganhou as eleições para o Parlamento Europeu, a primeira vitória eleitoral na História do partido. A estratégia que tinha sido aplicada durante a década de 2010, de estabelecimento de alianças na Europa, foi novamente mobilizada. Desta vez, assumiu a forma de uma nova família no hemiciclo de Estrasburgo: os Patriotas pela Europa, fundados no dia 30 de junho, em conjunto com o Fidesz de Viktor Órban e o ANO, partido do primeiro-ministro checo. O Chega foi o primeiro partido a anunciar a adesão aos Patriotas e à medida que os restantes partidos da direita radical se foram filiando, a família tornou-se a terceira maior do Parlamento, só atrás dos dois grupos do centro-direita e centro-esquerda.
O sucesso nas eleições europeias repetiu-se nas eleições federais de setembro. O FPÖ conseguiu o primeiro lugar e Kickl celebrou o “feito histórico” da primeira vitória federal na História do partido. No entanto, o Presidente Van der Bellen quebrou a tradição da política austríaca e não convidou o líder do partido mais votado a formar governo. Em vez disso, realizou uma conferência de imprensa em que convidou os partidos a dialogarem uns com outros, com vista a preservar a “os pilares da democracia liberal“, entre os quais enumerou o Estado de Direito, os direitos das minorias, a independência dos media e a integração europeia. As palavras foram interpretadas como uma oposição presidencial a um governo liderado por Kickl.
Seguindo a decisão do chefe de Estado, os vários partidos procuraram soluções de governo entre eles. Karl Nehammer manteve como linha vermelha a colaboração com Kickl. Ou seja, para o FPÖ chegar novamente ao governo, teria de repetir as ações de Haider em 1999. Os diálogos prolongaram-se durante vários meses, até Christian Stocker assumir o cargo de Nehammer, mas as negociações continuaram bloqueadas, devido a temas fraturantes e à atribuição das pastas. No dia 12 de fevereiro, Kickl informou o Presidente de que não tinha conseguido formar governo e exigiu que o país fosse novamente às urnas, enquanto Stocker acusou Kickl de “não ter feito a transição de papel de líder da oposição para chefe de governo”.
Uma solução de governo acabou por emergir nas semanas seguintes, com uma coligação a três entre sociais-democratas, conservadores e liberais. Mas o bloqueio de Kickl à possibilidade de formar governo distingue-o tanto do seu mentor como dos seus pares europeus — como o neerlandês Geert Wilders, que abdicou de um lugar no executivo para ver o seu partido integrar o governo. Kickl preferiu ser líder da oposição em vez de ver o FPÖ novamente no governo, mas os especialistas consideram que essa decisão não deverá afetar o trajeto do partido a longo prazo.
A explicação para isso está na cultura política austríaca que contribui há 42 anos para a normalização da direita radical — desde que os partidos do centro aceitaram o FPÖ numa coligação pela primeira vez. Apesar de, em 2005, o centro ter proclamado que tinha “matado o dragão”, o tempo mostra que a estratégia de integração no governo não resultou no desaparecimento da direita radical a longo prazo. “Não os tornou mais suaves, mas antes socialmente aceitáveis“, resume o jornal Tagesspiegel.
Konrad Lachmayer, professor de Direito na Universidade de Viena, argumenta que no momento atual não se antevê uma mudança desta cultura em breve. “Um líder populista que foi humilhado e radicalizado ao longo dos anos, uma oposição enfraquecida e uma sociedade, de forma geral, insatisfeita não são um bom ponto de partida para garantir os valores constitucionais”, escreveu, em janeiro deste ano. Lachmayer compara o enquadramento legal austríaco com o húngaro, que foi instrumentalizado por Viktor Órban para pôr em prática o seu programa, e alerta para o perigo de isso também acontecer na Áustria.
▲ O Presidente austríaco quebrou a tradição e não fez um convite direto a Kickl para formar governo
CHRISTIAN BRUNA/EPA
Tendo em conta as leis eleitorais, o sistema federalista e as características do poder judicial no país, o especialista considera que o enquadramento constitucional é mais forte do que na Hungria. “No entanto, estas características também são relativas e podem simplesmente adiar desenvolvimentos no processo de radicalização“, remata.
Se a Constituição não for travão suficiente a essa radicalização, a resposta poderá passar precisamente pela reformulação da cultura política, argumenta Filip Milačić, investigador especialista em processos de (re)democratização. Esse esforço cabe aos partidos tradicionais e poderá passar pela criação de uma narrativa emocional que contrarie a “história clara” que Kickl apresenta: “A identidade e a segurança nacional estão ameaçadas pela imigração”, resume.