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O cardeal George Pell durante uma celebração na Basílica de São Pedro, em Roma, em novembro

POOL/AFP via Getty Images

O cardeal George Pell durante uma celebração na Basílica de São Pedro, em Roma, em novembro

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Cardeal George Pell está de volta ao Vaticano — e diz que houve uma conspiração contra ele na cúpula da Igreja /premium

Depois de um ano preso, George Pell viu a sua condenação revertida. Voltou a Roma, vai lançar um livro sobre os dias da prisão e diz que houve uma conspiração no Vaticano para o condenar à cadeia.

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O caso do cardeal George Pell continua a agitar as águas em Roma. Oito meses depois de ter sido libertado da prisão, onde esteve mais de um ano devido a uma condenação por abusos sexuais que foi revertida pela justiça australiana, o antigo ministro das Finanças do Vaticano acredita que foi vítima de um esquema corrupto orquestrado por elementos do próprio Vaticano. A conspiração teria como objetivo influenciar a sua condenação e afastá-lo da reforma que estava a levar a cabo nas finanças da cúpula da Igreja Católica.

Em março de 2019, o cardeal australiano tornou-se na figura mais destacada da hierarquia católica a ser condenada e efetivamente presa por abuso sexual de menores. Em causa estava o alegado abuso de dois rapazes na catedral de Melbourne. No entanto, um ano depois, o Supremo Tribunal da Austrália absolveu o cardeal e ordenou que fosse libertado: havia “a possibilidade razoável de a ofensa não ter ocorrido” e de um homem inocente estar na prisão. Pell passou 404 dias na cadeia e, depois da libertação, já regressou ao Vaticano — mas, com quase 80 anos de idade, diz que não quer mais responsabilidades; apenas voltar à Austrália e viver a reforma.

George Pell. Como o ministro das Finanças do Papa passou de inimigo público n.º 1 a inocente

Esta semana, George Pell lançou o primeiro volume do seu “Diário da Prisão”, um livro com três partes em que conta ao detalhe a forma como viveu durante mais de um ano preso. À boleia da apresentação do livro, o cardeal multiplicou-se em eventos e entrevistas na capital italiana, que aproveitou para propagar a tese de que foi vítima de uma conspiração no Vaticano.

"Eu próprio estou convicto de que houve dinheiro a ir de Roma para a Austrália nessa altura, mas não tenho provas de onde é que esse dinheiro acabou"
Cardeal George Pell

Pell chegou ao Vaticano em 2014. Nesse ano, o Papa Francisco convidou o então arcebispo de Sydney a assumir a liderança da Secretaria para a Economia, um organismo criado naquele mesmo ano para supervisionar a reforma das contas do Vaticano, ensombradas por anos de escândalos financeiros que marcaram profundamente o pontificado de Bento XVI. O cardeal australiano ocupou o cargo durante três anos, até 2017, ano em que deixou a Cúria Romana para se defender das acusações que pendiam sobre ele na justiça australiana. Agora, Pell não tem dúvidas: devido aos seus esforços para limpar as finanças da Igreja e para as tornar mais transparentes, houve pessoas no Vaticano — que não identifica — que influenciaram os tribunais australianos no sentido da sua condenação.

“Eu próprio estou convicto de que houve dinheiro a ir de Roma para a Austrália nessa altura, mas não tenho provas de onde é que esse dinheiro acabou”, disse Pell aos jornalistas numa sessão de apresentação do livro esta semana. “Há fumo, mas não temos provas do fogo. Mas eu venho de um país de incêndios, e às vezes um estado inteiro está coberto de fumo.” Na mesma conferência de imprensa, o cardeal afirmou que não pretende exigir nenhuma indemnização da justiça australiana e que prevê, nos próximos anos, dividir o seu tempo entre o seu país natal e o Vaticano, como é hábito entre os cardeais. Aliás, Pell tem passado uma grande parte do seu tempo em Roma, já participou em celebrações com o Papa Francisco e em encontros com o Papa emérito Bento XVI.

George Pell já regressou ao Vaticano e encontrou-se com o Papa Francisco em outubro

VATICAN MEDIA HANDOUT/EPA

Durante os três anos em que liderou a Secretaria para a Economia, George Pell fez muitos inimigos entre a chamada velha guarda do Vaticano. Um dos seus principais oponentes foi o Angelo Becciu, que entre 2011 e 2018 foi o Sostituto da Secretaria de Estado e, por isso, um dos homens mais fortes do Vaticano. Em setembro deste ano, Becciu foi demitido da Santa Sé e perdeu, inclusivamente, as honras de cardeal. Embora o Vaticano não tenha divulgado oficialmente os motivos da saída, a verdade é que Becciu estava envolvido em várias polémicas financeiras da Santa Sé — incluindo a controversa compra de um prédio em Londres com dinheiro oferecido pelos fiéis católicos para a caridade.

“Coisas que não parecem limpas.” Como um prédio em Londres obrigou o Papa a reformar as finanças do Vaticano

Depois da demissão de Angelo Becciu, surgiram na imprensa italiana relatos de que aquele cardeal tinha estado envolvido em transferências de dinheiro para a Austrália durante o julgamento de George Pell. De acordo com um artigo publicado em outubro pelo Corriere della Sera, Becciu teria autorizado a transferência de 700 mil euros para uma conta australiana quando trabalhava na Secretaria de Estado. Ao mesmo tempo, o padre Alberto Perlasca, um dos ex-funcionários de Becciu investigados internamente pelo Vaticano, disse durante uma audição às autoridades vaticanas que o cardeal italiano tinha o hábito de recorrer a amigos jornalistas e a outros métodos para desacreditar publicamente os seus inimigos. Os pagamentos enviados para a Austrália teriam feito parte destes esforços de Becciu para desacreditar Pell, que devido ao seu trabalho na Secretaria para a Economia era um dos seus principais inimigos.

O dinheiro enviado para a Austrália teria servido para subornar a testemunha central do processo, uma das supostas vítimas (a única ainda viva), cujo depoimento foi essencial para a condenação de George Pell — embora o advogado da testemunha tenha negado a receção de qualquer valor. Em outubro, a polícia australiana confirmou ter recebido informações sobre a transferência suspeita com origem no Vaticano e adiantou que a iria analisar; mais tarde, a autoridade australiana anti-corrupção disse que as suspeitas não eram suficientes para abrir uma investigação.

"Há criminosos que foram ouvidos a dizer: ‘O Pell está fora de cena, temos uma autoestrada à nossa frente’. Claro que tudo isto ainda é apenas fumo, não o podemos considerar como provas, mas mantém-se a possibilidade"
Cardeal George Pell

A profunda rivalidade entre Angelo Becciu (que entretanto se confirmou estar envolvido em vários esquemas financeiros obscuros) e George Pell (chamado pelo Papa para pôr as finanças eclesiásticas em ordem) nunca foi um segredo. Ainda assim, Pell tem sido cauteloso nas suspeitas que lança em público e não refere o nome do ex-cardeal italiano.

“Aquilo que penso que podemos dizer é que um dos monsenhores que esteve nas investigações de Roma disse que viu provas do dinheiro”, afirmou George Pell esta semana, referindo-se ao depoimento de Alberto Perlasca nas investigações internas do Vaticano. Na conferência de imprensa de apresentação do livro, Pell foi questionado sobre se, nos dois meses que já passou em Roma desde a libertação, se encontrou com Angelo Becciu. “Não haveria muito a conversar entre nós”, disse o australiano, negando qualquer encontro.

Cardeal Angelo Becciu, um dos homens fortes do Vaticano, foi demitido da Santa Sé e perde direitos de cardeal

No dia anterior à conferência de imprensa de apresentação do livro, George Pell tinha feito acusações ainda mais contundentes numa entrevista à RAI News. Quando foi questionado sobre se pensava haver uma ligação entre as reformas financeiras que implementou no Vaticano e a sua condenação na justiça australiana, Pell respondeu perentoriamente: “Claro que suspeitei disso”.

“Na Austrália, nenhuma das pessoas com quem trabalho tem dúvidas de que a ligação é óbvia”, afirmou Pell. “Ainda não temos provas, mas há certamente muito fumo”, acrescentou o cardeal, sugerindo — mas não confirmando — que se encontra a recolher provas dessa ligação. “Há criminosos que foram ouvidos a dizer: ‘O Pell está fora de cena, temos uma autoestrada à nossa frente’. Claro que tudo isto ainda é apenas fumo, não o podemos considerar como provas, mas mantém-se a possibilidade.

George Pell esteve preso durante mais de um ano até ver a sua condenação revertida pelo Supremo Tribunal australiano

Getty Images

O cardeal australiano disse esperar, “para o bem da Igreja”, nunca encontrar provas de que “o dinheiro do Vaticano foi usado, se não para corromper diretamente, pelo menos para envenenar o ar” à sua volta. “A minha família disse-me muitas vezes que teria sido diferente se a máfia me tivesse caçado, ou outros, talvez os maçons, me tivessem caçado. É muito pior se alguém dentro da Igreja te está a tentar destruir”, salientou Pell. Para o australiano, os ataques à sua reputação não são surpreendentes. Na entrevista ao canal italiano, Pell assinalou que, “salvo muito poucas exceções”, quase todos os responsáveis do Vaticano encarregados de levar a cabo reformas no sistema financeiro da cúpula da Igreja “foram atacados pela comunicação social ao nível da reputação de uma forma ou de outra”.

Trump é “um bárbaro, mas é o nosso bárbaro”

Nas entrevistas que deu esta semana, George Pell descreveu os seus dias na prisão como “horríveis”, mas garante que encontrou maneira de lhes sobreviver com uma rotina diária. “Eu sabia que podia recorrer da decisão, que não acabaria ali. Sabia também que se as coisas corressem mesmo muito mal nesta vida podia, com sucesso, apresentar os meus argumentos a Deus na próxima vida”, disse à RAI News.

Na apresentação virtual do livro onde descreve ao detalhe a sua vida na prisão, Pell falou também dos seus pontos de vista sobre vários aspetos da atualidade global — incluindo sobre o fim do mandato de Donald Trump na Casa Branca. “Ele foi um pouco bárbaro, mas foi o nosso bárbaro”, disse Pell, considerando que o Presidente cessante dos EUA contribuiu positivamente para a causa cristã (uma opinião contrária à do Papa Francisco).

Papa coloca em causa as crenças cristãs de Trump

“No geral, penso que Trump deu um contributo positivo à causa cristã”, disse Pell, sublinhando decisões como as nomeações de católicos, como a conservadora Amy Coney Barrett, para o Supremo Tribunal norte-americano, e a decisão inédita de participar na Marcha pela Vida, uma iniciativa contra o direito ao aborto. “Numa democracia, nós, os cristãos, temos o direito, e na verdade a obrigação, de lutar para manter os valores cristãos na vida, porque, no momento em que eles começam a desaparecer, conceitos como verdade, razão e liberdade de expressão” também desaparecem, defendeu Pell.

Por outro lado, o cardeal australiano reconheceu que “noutras áreas” Trump não foi “suficientemente respeitador do processo político”. “Enfraquecer a confiança nas grandes instituições públicas não é coisa pouca”, acrescentou Pell.

Papa emérito deve deixar vestes brancas e voltar a ser cardeal

No livro, o cardeal australiano debruça-se também sobre a necessidade de criar protocolos concretos para o lugar de Papa emérito, que surgiu em 2013 com a surpreendente resignação de Bento XVI, mas que poderá manter-se como uma tradição para o futuro (aliás, para muitos analistas, a resignação de Francisco já não é uma questão de “se”, mas de “quando”). Para evitar confusões, George Pell defende que o Papa emérito devia abandonar as vestes brancas e voltar ao título de cardeal.

“Não conheço ninguém em Roma que não acredite que são necessários protocolos para os papas que se reformem”, disse Pell na conferência de imprensa. “Obviamente, muitos adoram os papas, temos muito respeito por eles, mas a necessidade da situação, a unidade da Igreja, está num nível diferente, que vai além de uma determinada personalidade“, acrescentou.

A existência simultânea de dois Papas já originou alguns embaraços diplomáticos ao Vaticano

Gamma-Rapho via Getty Images

A resignação do Papa Bento XVI em 2013 já deu origem a alguns embaraços diplomáticos na Santa Sé. O alemão continuou a viver no Estado do Vaticano, a receber visitas, a vestir a batina branca e a ser tratado como Papa — e, sobretudo, a pronunciar-se sobre temas em discussão na Igreja Católica. Uma das situações mais problemáticas foi a publicação de um texto, em janeiro de 2020, em defesa do celibato obrigatório, precisamente numa altura em que o Papa Francisco se encontrava a deliberar sobre a possibilidade de abrir uma exceção à regra do celibato na Amazónia, que havia sido sugerida pelo Sínodo dos Bispos. O pronunciamento de Bento XVI foi considerado como uma forma de perturbação de uma decisão que cabia inteiramente ao seu sucessor.

Entre as sugestões apresentadas por George Pell encontra-se a recomendação de um Papa não pregar em público depois de resignar e a de que abandone o título pontifício — para que ninguém duvide de quem é o Papa em funções. Pell assegura que a sua sugestão não é pessoal nem contra Bento XVI, e diz que até espera que Ratzinger venha a ser canonizado e proclamado como Doutor da Igreja.

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