O cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé e número dois do Vaticano, reconhece que a diplomacia de hoje se encontra numa situação de grande “debilidade”, tendo fortes dificuldades em “encontrar vias para resolver os conflitos” que dilaceram o mundo. Ao Observador, o chefe da diplomacia vaticana — uma das mais discretas, mas mais influentes do mundo — fala sobre os esforços que a Santa Sé tem desenvolvido para alcançar a paz nos principais conflitos mundiais, como a guerra Rússia-Ucrânia ou o conflito israelo-palestiniano, ao mesmo tempo que admite que os esforços diplomáticos parecem não estar a surtir qualquer resultado.
Numa entrevista ao Observador na Nunciatura Apostólica de Lisboa, a pretexto de uma passagem de dois dias por Portugal para participar numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian (e que incluiu também encontros com Marcelo e Montenegro, uma passagem por Fátima e uma paragem no local da tragédia do Elevador da Glória), Pietro Parolin frisou aquilo que diz ser “um dos cavalos de batalha da Santa Sé em todos os fóruns internacionais”, o “desarmamento geral e controlado” proposto pela Doutrina Social da Igreja.
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Vincando que esta questão se coloca hoje “de uma forma muito mais aguda do que no passado” — basta pensar no programa de 800 mil milhões de euros para “rearmar a Europa” anunciado este ano por Ursula von der Leyen —, o chefe da diplomacia do Vaticano lamenta que o mundo esteja a andar “exatamente no sentido oposto” ao do desarmamento e mostra-se bastante alarmado com o desenvolvimento tecnológico que tem permitido novas “armas de destruição em massa” e com as “novas fronteiras da inteligência artificial”, que apontam para armas capazes de destruir “por si próprias”, sem o envolvimento do homem. Para o cardeal Pietro Parolin, o mundo encaminha-se para cenários que se tornam cada vez “mais assustadores” e, usando uma palavra com especial significado no contexto da Igreja Católica, que “arriscam tornar-se cenários apocalípticos”.
Num mundo onde, recorda Parolin, há 53 conflitos armados em aberto, a proliferação descontrolada de armas cada vez mais forte é “verdadeiramente preocupante, porque, quando as armas existem, infelizmente, as armas são usadas”. Poucos dias depois de a tensão bélica em plena Europa ter escalado significativamente com a incursão de drones russos em território polaco, o chefe da diplomacia do Vaticano avisa que, num mundo com mais armas, o “perigo do erro” também está à espreita: “Pode acontecer alguma coisa que não estava previsto, mas que pode desencadear, de facto, o inferno.”
Na entrevista, Pietro Parolin fala ainda sobre o conflito israelo-palestiniano, dizendo esperar que a comunidade internacional se mobilize em força para reconhecer um Estado palestiniano, sobre o complexo acordo entre o Vaticano e a China para o reconhecimento da Igreja Católica no país e sobre a incapacidade de o diálogo entre diferentes igrejas cristãs (por exemplo, entre católicos e ortodoxos) contribuir de forma eficaz para que seja alcançada a paz entre a Rússia e a Ucrânia. Sobre uma eventual visita do Papa Leão XIV a Portugal, o secretário de Estado garante que o novo pontífice não deixará de visitar Fátima, como os seus antecessores, mas não se compromete com qualquer plano concreto.
▲ O cardeal Pietro Parolin é o secretário de Estado da Santa Sé desde 2013
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Ao longo dos últimos anos do seu pontificado, o Papa Francisco aprofundou o trabalho diplomático da Santa Sé em prol dos esforços de paz, com o envio de representantes a Kiev e a Moscovo, com os famosos telefonemas diários para a Faixa de Gaza e com as repetidas referências e condenações a partir de Roma. Estamos habituados a ouvir falar da diplomacia do Vaticano como uma das mais discretas, mas mais influentes do mundo. Concretamente, o que é que a diplomacia do Vaticano conseguiu fazer em relação a estes dois conflitos?
A diplomacia da Santa Sé, como todas as diplomacias, está ao serviço da paz. Portanto, ao serviço da prevenção dos conflitos, na medida do possível, e da resolução pacífica dos conflitos quando eles, infelizmente, acontecem. Naturalmente, como recordou, da parte do Papa Francisco houve um grande empenho pessoal. Nós dizemos sempre que o Papa é o primeiro diplomata da Santa Sé. Isto porque é ele que define as linhas orientadoras, as indicações da estratégia da Santa Sé. Mas o Papa Francisco fê-lo de forma particularmente oportuna e intensa, porque interveio pessoalmente em muitos desses conflitos — recordou as várias iniciativas que ele levou a cabo.
Provavelmente, com o Papa Leão, há menos esta exposição pessoal, mas continua o empenho da diplomacia da Santa Sé para resolver os conflitos hoje em curso. Sobretudo estes dois conflitos. Não são os únicos, porque diz-se que hoje há 53 conflitos abertos em todo o mundo — basta pensar, por exemplo, no Sudão, de quem ninguém fala — , mas, ainda assim, os dois maiores conflitos são a Ucrânia e Gaza, a Terra Santa. Além da importância e dos sucessos da diplomacia, falaria também de uma certa debilidade da diplomacia de hoje. Vemos como a diplomacia se debate para cumprir a sua missão, ou seja, para encontrar vias para resolver os conflitos, apesar das tentativas que se repetem.
Evidentemente, também a diplomacia da Santa Sé sofre um pouco com esta situação geral. Contudo, aquilo que gostaria de sublinhar é que continuamos a trabalhar, mesmo se não existem resultados imediatos. A guerra na Ucrânia não parou; pelo contrário, parece ter-se tornado ainda mais cruel. Em Gaza, não há perspetivas de uma solução, mas continuamos a trabalhar para que a paz prevaleça e, através do diálogo e da negociação, se possa chegar a uma solução temporária — que seria um cessar-fogo — e, depois, sobretudo, permanente, quando falamos de uma paz justa e duradoura.
Em 2014, o Papa Francisco convidou Shimon Peres e Mahmoud Abbas para uma celebração simbólica de paz nos jardins do Vaticano. Dez anos depois, o Vaticano seria capaz de reunir os líderes palestiniano e israelita numa nova cerimónia de paz?
Seria o ideal. Isso seria o ideal. Nós comemorámos o décimo aniversário, mas não vieram os chefes de Estado, apenas os embaixadores dos respetivos países. Hoje, penso que seria muito difícil imaginar uma repetição desta iniciativa, porque, obviamente, a divisão — e também estamos a falar de ódio — aumentou imensamente. Por isso, encontrar uma forma de os juntar seria, repito, o ideal porque, para nós, a solução para o problema da Terra Santa, das relações entre Israel e a Palestina, só pode ser alcançada através do diálogo direto. Por isso, se houvesse a possibilidade de um encontro, já seria um pequeno começo, certo? Para já, vejo-o muito difícil. Muito difícil.
O Vaticano é um dos países que reconhecem, há vários anos, o Estado da Palestina. Esta é uma decisão que outros países também devem tomar?
Sim, penso que temos sido muito abertos e muito claros neste ponto. Temos sempre dito que a solução dos dois Estados é a solução mais adequada para resolver o problema entre palestinianos e israelitas. Dois povos que tenham igual dignidade e que vivam em dois Estados, com fronteiras seguras e com uma relação de confiança e colaboração. Acreditamos nisto e, atualmente, não vemos outras fórmulas. Mas parece-me que cada vez mais países, em todo o mundo, sobretudo após os acontecimentos em Gaza, estão a seguir esta linha. Esperamos que o facto de a comunidade internacional finalmente se ter mobilizado e estar a pedir o reconhecimento do Estado palestiniano possa, efetivamente, conduzir ao nascimento deste Estado e à sua consolidação.
▲ Como secretário de Estado da Santa Sé, Parolin lidera a diplomacia do Vaticano
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Considerando a importância histórica e espiritual do território de Israel e da Palestina, a paz naquele lugar é uma prioridade para o Vaticano?
Sim, é uma prioridade. Estamos extremamente preocupados com o que está a acontecer naquela terra, que é particularmente querida para nós, uma vez que é a terra onde nasceu, morreu e ressuscitou o nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, estamos muito atentos aos confrontos. E pensamos que a primeira coisa a alcançar é a paz. Por duas razões. Em primeiro lugar, pela paz em si mesma. Não é possível que dois povos continuem a lutar desta maneira. Não nos podemos esquecer do ataque do Hamas, que foi extremamente brutal. Digamos que foi também um ato de guerra. Depois, a resposta de Israel, sabemo-lo, já dissemos que foi desproporcional em relação à resposta que deveria ter sido dada. Há isto, a questão da paz em si mesma, para o futuro destes povos.
Estamos também muito preocupados porque há toda a questão dos cristãos. Enquanto não houver paz na Palestina, não haverá paz na Terra Santa, não haverá paz em Israel. Os nossos cristãos estão, verdadeiramente, a ser submetidos a grandes provas e a tentação é fugir, a tentação é sair, como está de facto a acontecer. O número de cristãos reduziu drasticamente na Terra Santa e isto é inaceitável para nós porque, como os papas têm dito, a Terra Santa corre o risco de se tornar um museu e deixar de ser uma realidade viva, onde há pessoas que levam a fé adiante. Creio que isto é do interesse de todos. Israel também o reconheceu. Por exemplo, o Presidente Herzog, que recebemos há algumas semanas, também diz que a presença cristã é uma presença de moderação no panorama geral da Terra Santa. Por isso, acredito que todos têm motivos para fazer com que os cristãos permaneçam. Mas a permanência dos cristãos está ligada, antes de tudo, à paz.
O Papa Francisco fez história com o encontro inédito com o patriarca de Moscovo em 2016. O Vaticano poderia, através da via do diálogo ecuménico — e mesmo sabendo a situação de cisma em que o Patriarcado de Moscovo se encontra em relação à comunhão ortodoxa —, participar numa forma diferente de diálogo entre o Ocidente e a Rússia? Uma alternativa ao diálogo protagonizado, por exemplo, por Donald Trump?
Hoje, o movimento ecuménico encontra-se em alguma dificuldade, precisamente pelas razões que salientou, sobretudo no que diz respeito ao mundo ortodoxo, que está muito dividido, desde o famoso Concílio de Creta [em 2016] e, depois, com os acontecimentos na Ucrânia. Portanto, acredito que poderia tornar-se um instrumento de diálogo, ou de facilitação do diálogo, mas parece-me que, hoje, as condições não são particularmente favoráveis a isso. Naturalmente, procuramos manter sempre abertos os canais de comunicação, inclusivamente com o Patriarcado de Moscovo, mas estamos a viver um momento difícil e, portanto, a minha opinião não é a de que as relações ecuménicas, as relações entre as Igrejas, sejam particularmente favoráveis e úteis para a questão da paz.
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O Papa Leão XIV dedicou as suas primeiras palavras depois da eleição à paz, pedindo ao mundo uma paz desarmada e uma paz desarmante. São palavras que ressoam num mundo que voltou a uma corrida ao armamento, no sentido contrário ao que a Igreja propõe na sua Doutrina Social, que é o desarmamento geral…
…e controlado.
Como se sente o Vaticano a propor este desarmamento controlado na Europa?
Pretende continuar a propô-lo. Esse tem sido um dos temas, um dos cavalos de batalha da Santa Sé em todos os fóruns internacionais. Insistimos continuamente no desarmamento geral e controlado. Hoje, a questão do desarmamento coloca-se de uma forma muito mais aguda do que no passado, devido ao desenvolvimento de novas armas, que são armas de destruição em massa. Quando pensamos na bomba atómica e no uso da energia nuclear para fins militares, quando pensamos nas novas fronteiras da inteligência artificial, nestas armas que até destroem por si próprias, sem terem de ser guiadas pelo homem, controladas pelo homem. Então, os cenários estão a tornar-se agora mais assustadores e arriscam tornar-se cenários apocalípticos.
Parece-nos que hoje se coloca cada vez mais esta exigência do desarmamento. Ainda que seja verdade que estamos a ir contra uma tendência que se move na direção oposta. Hoje, infelizmente, todos os Estados tendem a rearmar-se. Como dizia recentemente o diretor da AIEA, a Agência da Energia Atómica, em Viena, hoje não há só o assunto da não-proliferação, mas também o facto de haver Estados que antes não tinham armas nucleares, que agora as querem ter e que começaram a trabalhar neste sentido. Esta é uma tendência que vai exatamente no sentido oposto do desarmamento. Mas é uma perspetiva verdadeiramente preocupante, porque, quando as armas existem, infelizmente, as armas são usadas. E, depois, há sempre o perigo do erro. Pode acontecer alguma coisa que não estava previsto, mas que pode desencadear, de facto, o inferno.
O acordo provisório com a China continua em vigor até, pelo menos, 2028. Na semana passada, o Papa Leão XIV criou uma nova diocese na China, no território onde antes funcionava uma outra diocese criada pela Igreja estatal há vários anos. O bispo cessante, da Igreja clandestina, que foi perseguido pelo governo chinês, foi substituído por um novo bispo, de acordo com as regras que dão ao governo o poder de propor nomes de futuros bispos. Isto não é render-se perante o regime chinês e o seu controlo da Igreja?
Bom, per se, o acordo dá à Igreja local a oportunidade de propor nomes nativos e o governo não está envolvido. Portanto, é um procedimento que foi acordado com o governo, mas que diz respeito à Igreja local. Depois, as interferências, isso é outra coisa, mas, de um ponto de vista jurídico, é a Igreja local, são os padres e os representantes dos religiosos e dos leigos que propõem os nomes.
▲ Parolin alerta para os perigos da proliferação de armas de destruição em massa
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Acredito que o acordo, apesar das muitas dificuldades que temos de honestamente reconhecer, é uma grande ajuda para a Igreja chinesa porque, em primeiro lugar, permite que exista uma Igreja que está em comunhão com o Papa. Já não são bispos ordenados fora do mandato pontifício, o que permite, gradualmente, instaurar uma certa normalidade. Esperamos, verdadeiramente, que se possa superar esta divisão, esta separação entre a ‘Igreja patriótica’, a Igreja oficial, e a chamada ‘Igreja clandestina’ e que possa haver uma comunhão entre estas Igrejas.
Mas diria que, no caso da China, precisamos sempre de muita paciência e de pensar não em termos de anos, mas talvez em termos de décadas. Ter esta visão, que é típica de Santa Sé, que pensa um pouco em termos de eternidade, pelo que não devemos buscar resultados imediatos. Alguém falava não só da paciência, mas também do martírio da paciência. E isto é um verdadeiro martírio. Mas é a única maneira de andar em frente. Creio que, com a China, lentamente se estão a dar passos em frente.
Uma última pergunta, sobre Portugal. Há informações sobre uma possível viagem do Papa Leão XIV a Portugal em 2027, associada a uma viagem à Península Ibérica na qual o Papa passará também por Santiago de Compostela. O que é que já pode confirmar?
Vejo que já fizeram o programa, portanto, o que posso dizer? Notei, nestes dois dias em que estive aqui, um grande desejo de que o Papa venha. E posso dizer, mesmo talvez arriscando dizer algo que não devia, que me parece normal que o Papa venha a Fátima. Não só para visitar Portugal, para fazer uma visita oficial a Portugal, mas também a Fátima. Vieram todos os últimos papas, desde Paulo VI, que foi o primeiro que aqui veio. Por isso, penso que, seguramente, o Papa fará uma visita, mesmo que, neste momento, não haja ainda planos pré-estabelecidos. Também porque, evidentemente, ele recebeu convites de praticamente todo o mundo. Será uma questão de organizar a sua agenda, de modo a que ele possa visitar, aos poucos, todos esses países.
Genericamente, digo que hoje é normal que os papas viajem, não por turismo, mas como parte da sua missão. O mundo está globalizado, mas uma presença em pessoa faz a diferença. Vemos, em todos os países que o Papa visitou, o bem que fez. Disseram-me, ou li nalgum lado, agora não lembro, que no último país que ele visitou estão a aumentar as vocações sacerdotais, depois da visita do Papa. Portanto, há também uma certa renovação da Igreja, uma certa melhoria. Continua a ser, sobretudo para a Europa, o tema da evangelização, o tema da fé. Assim, acredito que, mais cedo ou mais tarde, o Papa virá aqui, fará uma bela visita a Portugal e irá rezar a Fátima.
▲ O cardeal Parolin, entrevistado pelo Observador na Nunciatura Apostólica, em Lisboa
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR