China. O Papa Francisco está a vender a Igreja ao regime?

20 Fevereiro 2018309

Sem relações diplomáticas desde 1951, Vaticano e China tentam a reaproximação. Mas a que custo? Dois bispos 'clandestinos' terão de sair e o Papa é acusado de ceder às exigências do regime comunista.

Numa noite de terça-feira no início de janeiro, o cardeal Joseph Zen Ze-kium, arcebispo emérito de Hong Kong, meteu-se num avião com destino a Roma, determinado a falar com o Papa Francisco. Aterrou na manhã seguinte, já atrasado para a audiência geral, que se realiza habitualmente às quartas-feiras no Vaticano. Sem uma audiência privada na agenda, as sessões de cumprimentos no final destes eventos semanais são uma rara oportunidade para transmitir uma mensagem ao Papa. Mas o cardeal também não precisou de mais do que breves segundos para cumprir a única missão que o levou a atravessar metade do planeta naquele dia: colocar nas mãos de Francisco uma carta escrita por um idoso bispo chinês, Zhuang Jianjian, a manifestar a sua tristeza e preocupação pela ordem que tinha recebido da parte da Santa Sé.

Zhuang, de 88 anos, foi um dos dois bispos ‘clandestinos’ (ou seja, que seguem as orientações de Roma e foram nomeados e ordenados à revelia do regime) que, no final do ano passado, foram abordados por uma equipa negocial do Vaticano que lhes propôs que resignassem aos seus lugares e dessem lugar a dois bispos nomeados pelo governo chinês. O outro foi Guo Xijin, de 59 anos, a quem foi proposto ficar como coadjutor do bispo ‘oficial’. A notícia, avançada pelo portal Asianews.it, foi logo confirmada pelo bispo emérito de Hong Kong, Joseph Zen — uma das vozes mais críticas da política de aproximação entre a Santa Sé e Pequim, que não têm relações diplomáticas desde 1951, depois da revolução comunista e da subida ao poder de Mao Tsé-Tung.

Imediatamente, a notícia teve eco internacional. Estaria o Vaticano tão desesperado por restabelecer as relações diplomáticas com Pequim ao ponto de estar disposto a ceder ao governo chinês no ponto mais sensível da tensão, a nomeação dos bispos? Iria destituir os bispos ‘clandestinos’, que durante décadas recusaram as ordens do partido comunista e sofreram perseguições violentas por se manterem fiéis ao Papa, para aceitar a nomeação de bispos ‘oficiais’, alinhados com o governo e considerados ilegítimos pela Igreja por não terem sido nomeados pelo pontífice?

“Se eu acho que o Vaticano está a vender a Igreja Católica na China? Sim, definitivamente, se forem na direção óbvia depois de tudo o que têm feito nos últimos anos e meses”
Cardeal Joseph Zen Ze-kium, arcebispo emérito de Hong Kong

“Se eu acho que o Vaticano está a vender a Igreja Católica na China? Sim, definitivamente, se forem na direção óbvia depois de tudo o que têm feito nos últimos anos e meses”, escreveu o cardeal Joseph Zen no comunicado em que confirmou a notícia e contou o episódio da entrega da carta a Francisco. A posição é compartilhada por muitos católicos e analistas, como Yi-Zheng Lian, comentador de assuntos asiáticos no The New York Times, que publicou na semana passada um texto de opinião intitulado “Porque o Papa se está a ajoelhar perante a China”, em que nota como, com esta iniciativa do Papa de destituir os bispos que lhe eram leais, “milhões de fiéis católicos na China se podem sentir abandonados, até traídos, após terem sofrido décadas de opressão”.

Um país, duas Igrejas Católicas?

Para perceber esta crise, é preciso recuar 69 anos, até 1949, ano em que Mao Tsé-tung proclamou a República Popular da China, implementando um regime comunista e ateísta. Historicamente, aquela época ficou marcada por uma forte perseguição às comunidades religiosas: templos e escolas foram confiscados, e pastores e líderes religiosos foram expulsos do país, presos ou mesmo mortos. Mais tarde, consciente de que o fenómeno religioso era impossível de erradicar completamente, o governo chinês optou por outra abordagem, reconhecendo oficialmente cinco religiões: o Confucionismo, o Budismo, o Taoismo, o Islão e o Cristianismo. Para cada uma destas religiões foi criada uma Associação Patriótica — organização estatal responsável por controlar a atividade das comunidades religiosas, escolher os seus líderes e até definir muitos aspetos das doutrinas.

Milhares de chineses participaram esta semana nas celebrações da Quarta-feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma (AFP/Getty Images)

Este controlo foi relativamente fácil de assegurar na maioria das comunidades religiosas, com exceção dos católicos. “Ao contrário das outras religiões, que são comunidades locais ou nacionais, sem uma organização centralizada, a Igreja Católica tem uma estrutura unificada, tem o Papa que é o líder supremo de todos os católicos, e, sobretudo, tem o Vaticano, um estado estrangeiro, a determinar as ações dos fiéis. Se o governo chinês, que é comunista, quer seguir a ideologia ateísta e tomar o controlo de todas as organizações religiosas, não pode aceitar que um outro estado, alguém fora do controlo governamental, interfira. Por isso, os católicos são uma preocupação particular do governo chinês”, explica ao Observador Fenggang Yang, diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue, por telefone, a partir dos EUA. O ponto fulcral da discórdia reside na nomeação dos bispos: as normas da Igreja Católica dizem que essa é uma função exclusiva do Papa, mas na China é a Associação Patriótica quem tem essa prerrogativa.

Outros fatores complicam o relacionamento entre o Vaticano e a China. A chamada ‘controvérsia dos ritos’, nos séculos XVII e XVIII, é um deles. Durante anos a fio, fações da Igreja discutiram de forma acesa se os ritos chineses podiam ser ou não considerados formas de idolatria, e por isso contrários à doutrina católica. Acabaria por ser o Papa Clemente XI a colocar um fim ao conflito, ao determinar que aqueles ritos constituíam efetivamente uma forma de idolatria, contrariando argumentos apresentados pelos missionários jesuítas na China, que procuravam uma aproximação entre as culturas ocidental e oriental. “O modo como evoluiu a controvérsia dos ritos e o desenlace final da mesma tinha mostrado aos chineses que a Igreja era uma realidade estrangeira e incompatível com a tradição nacional chinesa”, afirma o padre alemão Wilhelm K. Müller, especialista em questões chinesas e antigo membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, no texto “O fenómeno religioso e eclesial na China atual”, no livro “Cristianismo na China – percursos e proximidades” (Fundação Ajuda à Igreja que Sofre).

“Se o governo chinês, que é comunista, quer seguir a ideologia ateísta e tomar o controlo de todas as organizações religiosas, não pode aceitar que um outro estado, alguém fora do controlo governamental, interfira. Por isso, os católicos são uma preocupação particular do governo chinês”
Fenggang Yang, diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue

Também a questão de Taiwan afasta Pequim e a Santa Sé, uma vez que o Vaticano é um dos 23 Estados que reconhecem diplomaticamente o território. Insistindo na política de ‘uma China’, Pequim tem reiterado que qualquer Estado que reconheça Taiwan não poderá ter relações diplomáticas com a República Popular da China. Neste contexto complexo, e com o problema da nomeação dos bispos no centro, a China e o Vaticano romperam as relações diplomáticas em 1951 e desde então os católicos chineses têm vivido tempos de tensão, divididos entre a chamada ‘Igreja oficial’ (liderada por bispos nomeados pelo governo e controlados pela Associação Patriótica, sem a bênção papal) e a ‘Igreja clandestina’ (composta por bispos e padres nomeados pelo Vaticano, sem autorização governamental).

Ao longo das décadas, os papas têm considerado o restabelecimento das relações diplomáticas uma das principais prioridades da Santa Sé, até porque a Igreja Católica tem vindo a perder terreno para os protestantes na China. Há hoje entre 10 e 12 milhões de católicos no país. Ou seja, entre 0,7 e 0,9% da população chinesa é católica, a mesma percentagem que na década de 1940, antes da revolução comunista. Já os protestantes, que na altura eram apenas um terço dos católicos, são hoje cinco vezes mais.

10-12

milhões é o número estimado de católicos que existem hoje na China. Os números variam devido à dificuldade em obter estatísticas credíveis e muitas organizações católicas acreditam que, contabilizando todos os que frequentam as igrejas clandestinas, o número seja significativamente superior.

Ao mesmo tempo, o Vaticano tem recusado legitimar a Associação Patriótica Católica Chinesa. Em 1958, um ano depois da fundação daquela organização estatal, o papa Pio XII, na encíclica Ad Apostolorum Principis, descreveu-a como “a nova e mais insidiosa tentativa de aumentar e levar às extremas consequências” a perseguição aos cristãos. “Com premeditação cuidadosamente disposta, foi fundada junto de vós uma ‘associação patriótica’, a qual os católicos são obrigados a aderir com toda a espécie de pressões”, escreveu o Papa, dirigindo-se aos católicos chineses. “Sob o falso pretexto de patriotismo, com efeito, a associação quer gradualmente levar os católicos a aderir e apoiar os princípios do materialismo ateu, negador de Deus e de todos os princípios sobrenaturais”, continuava o documento.

Em 2007, o papa Bento XVI voltou ao assunto, numa carta enviada aos fiéis chineses. No texto, o pontífice cita os próprios estatutos da Associação Patriótica, lembrando que esta tem a finalidade de fazer valer “os princípios de independência e autonomia, autogestão e administração democrática da Igreja”, e conclui que tal associação “é inconciliável com a doutrina católica”, que professa a Igreja “una, santa, católica e apostólica”.

Porém, neste documento, Bento XVI deu um passo significativo rumo a uma possível normalização das relações, ao referir que os bispos que foram “ordenados sem o mandato pontifício e não pediram, ou ainda não obtiveram, a necessária legitimação”, apesar de não estarem “em comunhão com o Papa, exercem validamente o seu ministério na administração dos sacramentos, mesmo que de modo ilegítimo”. Ou seja, o Papa sublinha que os bispos nomeados pelo governo chinês para liderar as comunidades ligadas à Associação Patriótica estão em condições de celebrar de forma válida os sacramentos — a missa, o batismo, o matrimónio, o crisma, a confissão, a unção dos doentes e até a ordenação de novos padres e bispos.

“Os bispos da Associação Patriótica são muito politizados, seguem a linha comunista, repetem o discurso oficial e pregam sobre o partido, deixando muitos fiéis desconfortáveis”
Fenggang Yang, diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue

Na verdade, a maioria dos bispos que foram nomeados unilateralmente pelo governo chinês e ordenados sem mandado papal acabaram por pedir aprovação ao Papa, sendo admitidos como bispos legítimos e entrando em comunhão com Roma, mais tarde ou mais cedo. “Não é uma divisão quanto aos princípios da Fé, mas antes uma divisão na interpretação da função do Papa e da sua autoridade para dirigir concretamente a Igreja em todo o mundo”, escreve Wilhelm K. Müller. “A diferença entre os dois grupos está no grau de disponibilidade para colaborar com os órgãos oficiais do Estado e do Partido”, afirma ainda o sacerdote.

“Os bispos reconhecidos pelo governo agora formam uma Conferência Episcopal. Apesar de os bispos individualmente estarem em comunhão com o Papa, a Sé Apostólica não reconhece a ‘Conferência Episcopal’, porque é obrigada a seguir as normas do Governo e do Partido Comunista e é completamente controlada pela Associação Patriótica”, continua Wilhelm K. Müller, acrescentando que “a Conferência Episcopal com a Associação Patriótica, decide sobre a eleição e nomeação de novos bispos, a ereção, abolição e definição dos limites das dioceses, privilégios estes que, segundo o Direito Canónico e a tradição da Igreja, competem unicamente ao Papa”.

Embora este historial possa levar à ideia de que existem duas igrejas Católicas na China, será mais correto afirmar que existem duas hierarquias paralelas numa mesma Igreja. Segundo explica Fenggang Yang, “as igrejas clandestinas são bem conhecidas das autoridades”, portanto o termo underground é apenas usado no sentido figurado. “A diferença é que esses bispos recusaram juntar-se à Associação Patriótica e preferiram estar em comunhão com o Papa. Celebram missas em igrejas, tal como os outros, mas não são membros da associação”, destaca Yang.

O académico sublinha ainda que, “para as pessoas normais, a diferença, hoje, interessa menos, porque podem ir a qualquer celebração”. Contudo, “quando têm conhecimento do status do padre ou do bispo, metade prefere ir às dos padres e bispos considerados leais ao Papa”, detalha Yang, acrescentando que “os bispos da Associação Patriótica são muito politizados, seguem a linha comunista, repetem o discurso oficial e pregam sobre o partido, deixando muitos fiéis desconfortáveis”.

Segundo escreve Wilhelm K. Müller, “é falsa” a distinção entre duas igrejas, uma alinhada com o Vaticano, clandestina, e outra alinhada com o governo chinês, oficial. “Os jovens sacerdotes chineses que estudam no estrangeiro sentem-se ofendidos quando se lhes pergunta se pertencem à ‘Igreja Patriótica’ ou à ‘Igreja fiel a Roma’ (…). Melhor pergunta seria se os seus bispos estão em comunhão com o Papa ou não”, defende, sublinhando que a diferença está nos bispos e não nos padres e fiéis.

"Não é uma divisão quanto aos princípios da Fé, mas antes uma divisão na interpretação da função do Papa e da sua autoridade para dirigir concretamente a Igreja em todo o mundo. A diferença entre os dois grupos está no grau de disponibilidade para colaborar com os órgãos oficiais do Estado e do Partido"
Padre Wilhelm K. Müller

A verdade, porém, é que há quase setenta anos que os católicos chineses vivem divididos entre estas duas hierarquias, uma delas a atuar na clandestinidade por não estar alinhada com o governo chinês. Aliás, um dos grandes obstáculos nas negociações de restabelecimento das relações é precisamente o de perceber o que irá acontecer a mais de 30 bispos que pertencem à hierarquia leal ao Papa — se irão ser legitimados pelo governo em contrapartida da aceitação pelo Vaticano de bispos nomeados pelo regime.

O plano do Papa Francisco pode resultar?

Neste contexto, a notícia de que o Papa terá pedido a dois bispos da Igreja clandestina para resignarem em favor de bispos nomeados pelo governo chinês caiu que nem uma bomba. “O objetivo claro do Vaticano é restabelecer relações com a China. Para atingir esse objetivo, tem de desviar alguns obstáculos, e a nomeação dos bispos é o obstáculo mais relevante”, diz Fenggang Yang. Para o diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue, “os desenvolvimentos recentes só mostram que o lado do Vaticano está disponível para ceder, mas o lado chinês mostra que não muda a sua posição, que é a de que nomear os bispos faz parte da soberania chinesa”.

“Se as coisas se desenrolarem no sentido de retirar bispos da Igreja clandestina para colocar bispos nomeados pelo governo, parece mesmo que o Vaticano está a render-se ao governo chinês”, continua o académico, sublinhando que “se o Vaticano aceitar todas as condições da China, será possível restabelecer as relações diplomáticas, mas importa perguntar se isso vai ser ou não significativo”.

“Os desenvolvimentos recentes só mostram que o lado do Vaticano está disponível para ceder, mas o lado chinês mostra que não muda a sua posição, que é a de que nomear os bispos faz parte da soberania chinesa”
Fenggang Yang, diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue

Em dezembro do ano passado, numa conversa com jornalistas no voo de regresso da viagem que fez a Myanmar e ao Bangladesh, o papa Francisco admitiu que “gostaria muito de visitar a China”, apesar de uma viagem ao país não estar nos planos do pontífice para o futuro próximo. Contudo, o Papa garantiu que “as negociações com a China são de alto nível cultural”, lembrando uma exposição do Museu do Vaticano realizada na China e uma exposição no Vaticano com obras de museus chineses. “Temos as relações culturais, científicas, os professores, sacerdotes que ensinam na universidade estatal chinesa… Isto é um ponto. Depois temos o diálogo político, relativo sobretudo à Igreja chinesa — com o caso da Igreja patriótica e da Igreja clandestina –, que se deve realizar passo a passo, com delicadeza, como se está a fazer”, sublinhou Francisco.

Uma parte significativa dos católicos chineses frequenta igrejas 'clandestinas', cujos bispos não foram aprovados pelo governo (AFP/Getty Images)

Segundo as informações publicadas na imprensa internacional, a operação de persuasão destes dois bispos decorreu no passado mês de dezembro (apesar de o cardeal Zen confirmar que um dos bispos tinha recebido uma primeira comunicação já em outubro) e terá sido tudo menos delicada. Segundo descreve o The New York Times, o bispo Zhuang Jianjian, 88 anos, ordenado de forma secreta em 2006 com aprovação papal, foi escoltado da cidade de Shantou, no sul da China, em dezembro, e levado para Pequim. Aí, encontrou-se com uma comitiva liderada pelo arcebispo Claudio Maria Celli, que está à frente das negociações com a China, que pediu a Zhuang que resignasse e desse o seu lugar a Huang Bingzhang, um bispo que faz parte do Congresso Nacional do Povo — o parlamento chinês — e que foi excomungado em 2011 por ter aceitado a nomeação episcopal pelo governo.

O mesmo relato dá conta de que a equipa se deslocou de seguida para Fujian, para se encontrar com o bispo Guo Xijin, outro dos bispos da Igreja clandestina. Ali, o pedido foi ligeiramente diferente: a Guo foi pedido que se mantivesse como bispo coadjutor de Zhan Silu, outro bispo nomeado pelo governo e que tinha visto a sua ordenação considerada inválida pelo Vaticano.

“Temos as relações culturais, científicas, os professores, sacerdotes que ensinam na universidade estatal chinesa... Isto é um ponto. Depois temos o diálogo político, relativo sobretudo à Igreja chinesa - com o caso da Igreja patriótica e da Igreja clandestina –, que se deve realizar passo a passo, com delicadeza, como se está a fazer”
Papa Francisco

De imediato, o bispo Zhuang pediu ajuda ao cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong, que se tem pronunciado repetidamente contra as cedências do Vaticano face à China. E foi nesse momento que Zen decidiu intervir, primeiro com uma carta enviada à Congregação para a Evangelização dos Povos, e depois com a viagem a Roma. A viagem, aliás, daria frutos: na mesma quarta-feira em que entregou a carta ao Papa, recebeu um telefonema da Casa de Santa Marta a agendar uma audiência privada, de meia-hora, com Francisco. Mesmo estando a preparar-se para viajar para o Chile na manhã seguinte, o Papa considerou o assunto de tamanha importância que chamou o cardeal para discutir a aproximação à China.

No comunicado que publicou quando a notícia chegou à comunicação social, Zen revela o que o papa Francisco lhe respondeu quando questionado sobre se tinha pensado no assunto. “Sim, eu disse-lhes (aos seus colaboradores na Santa Sé) que não criassem outro caso Mindszenty”, terá dito Francisco. A referência não era inocente: o cardeal húngaro József Mindszenty, antigo arcebispo de Budapeste e primaz da Hungria, foi preso pelo regime comunista em 1949. Conseguiu sair em liberdade no curto período da revolução húngara em 1956, mas, no mesmo ano, teve de se refugiar na embaixada dos Estados Unidos durante quase duas décadas para evitar a prisão, quando a União Soviética aniquilou a revolução. Acabou exilado na Áustria por ordens da própria Santa Sé, que cedeu à pressão do governo húngaro, e foi substituído por um bispo com fortes ligações ao governo.

Já em 2016, o cardeal Joseph Zen tinha tecido duras críticas ao acordo que o papa Francisco procurava fazer com o governo chinês, com vista ao reconhecimento papal de quatro dos oito bispos ‘oficiais’ que tinham sido declarados ilegítimos. Zen considerou mesmo que o acordo era “uma traição a Jesus” e que “talvez o Papa seja um pouco ingénuo”, já que “não tem conhecimento sobre os comunistas na China”.

A resignação dos dois bispos ‘clandestinos’ a pedido do Vaticano pode agora abrir um novo capítulo nas negociações de reaproximação, pelo menos no sentido em que as críticas internas colocaram novamente o assunto sob os holofotes em todo o mundo. Mas poderá ser sol de pouca dura. Num artigo publicado no portal Crux, o vaticanista John Allen explica como nas últimas décadas os esforços de reaproximação entre o Vaticano e a China têm sido marcados por “uma dinâmica bem reconhecida” que se repete. Primeiro, um “degelo aparente”, causado por uma “notícia positiva sobre o Papa na imprensa chinesa, ou um bispo libertado da prisão”, motiva entusiasmo em torno de um possível avanço. Depois, há “um passo atrás”, quando “uma igreja é demolida em algum lugar, um padre é preso ou os chineses ficam irritados por alguma coisa dita por um responsável do Vaticano”, e “o progresso parece parar”. Por fim, “seis meses depois, tudo volta a estar como de início”.

Mesmo que os desenvolvimentos mais recentes sejam apenas a primeira fase de mais um destes ciclos, a verdade é que esta tentativa de aproximação através da demissão de bispos ‘clandestinos’ está a provocar mais celeuma do que qualquer outra tomada de posição do Vaticano até aqui sobre o tema. Numa fase inicial, ainda se teorizou na imprensa que os diplomatas do Vaticano estariam a ir mais longe do que pretendia o papa Francisco, mas a ideia logo se desfez. Os ânimos inflamaram-se ainda mais depois de o porta-voz da Santa Sé, Greg Burke, ter publicado uma nota a garantir que “o Papa está em contacto constante com os seus colaboradores, em particular na questão chinesa, e é informado por eles de maneira fiel e detalhada sobre a situação da Igreja Católica na China e sobre os passos do diálogo em curso, que segue com especial atenção”. Foi a confirmação de que nada foi feito de forma alheia ao Papa.

Durante o mandato do presidente Xi Jinping, a China tem aumentado o controlo sobre os cristãos, como parte de uma política destinada a tentar neutralizar aquilo que o governo considera como uma ameaça à autoridade do regime comunista. Aliás, em janeiro deste ano, o governo ordenou a demolição de uma das principais igrejas evangélicas do país, onde mais de 50 mil cristãos rezavam habitualmente. A crescente perseguição aos cristãos na China tem dado origem a histórias como a de Wei (contada nesta reportagem do Observador), um cristão chinês que se refugiou em Portugal para escapar à violência e tortura que sofreu no seu país, precisamente por ser cristão.

Fenggang Yang não acredita que esta cedência do Vaticano no que toca aos bispos seja eficaz para acabar com a divisão entre as duas hierarquias. “O objetivo último do Papa será, a meu ver, reconciliar as duas igrejas, torná-las uma. Mas penso que para os católicos chamados ‘clandestinos’ vai ser muito difícil aceitar essa concessão”, explica o diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue. “Eles são leais ao Papa e não veem os bispos nomeados pelo governo como verdadeiros bispos, como verdadeiros cristãos”, acrescenta.

Para o académico, o resultado do processo pode acabar por ser o oposto do pretendido. “Penso que pode continuar a haver duas igrejas. As pessoas na igreja ‘clandestina’ podem não estar disponíveis para aceitar estas condições e pode haver alguns setores que, na eventualidade de uma reabertura dos canais diplomáticos e de uma reconciliação com a Associação Patriótica, mantenham em funcionamento uma hierarquia à margem, em protesto contra as cedências”, explica Fenggang Yang.

"Muitos dos chineses que estão abertos ao cristianismo é porque não estão satisfeitos com a ideologia comunista. Se a Igreja Católica se torna submissa ao governo comunista, penso que não conseguirá atrair muita gente nova"
Fenggang Yang, diretor do Centro para a Religião e Sociedade Chinesa da Universidade de Purdue

O especialista sublinha ainda que a estratégia pode ter impactos negativos na própria Igreja Católica. “Se a intenção é melhorar a sua capacidade de evangelização, chegar a mais chineses, penso que o impacto pode ser negativo e não positivo. Muitos dos chineses que estão abertos ao cristianismo é porque não estão satisfeitos com a ideologia comunista. Se a igreja Católica se torna submissa ao governo comunista, penso que não conseguirá atrair muita gente nova”, diz.

Já este mês, o bispo Guo Xijin, um dos dois bispos a quem foi pedida a resignação, admitiu em declarações ao The New York Times que estaria disponível para respeitar qualquer acordo entre China e Vaticano, incluindo deixar a sua posição e dar lugar a um bispo nomeado pelo governo, se lhe for apresentado um documento oficial do Vaticano com essa ordem. “Temos de obedecer às ordens de Roma”, disse, sublinhando que “a igreja Católica chinesa tem de ter uma ligação com o Vaticano”, que “não pode ser danificada”.

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