O Chega ambiciona eleger “milhares de autarcas”, vencer câmaras municipais e implantar-se, em definitivo, a nível local. As maiores apostas do partido estão a Sul do país, em particular na região do Algarve, e em locais onde o Chega venceu ou teve resultados acima da média nas últimas eleições legislativas. Ao Observador, fonte da Comissão Autárquica Nacional do Chega aponta para a possível eleição de oito mil autarcas por todo o país, entre presidentes da Câmara, vereadores, deputados municipais e presidentes da Junta — quando o partido parte de um universo de 400 eleitos.
De acordo com as contas do próprio partido, os municípios em que venceu nas últimas eleições legislativas são os que oferecem possibilidades mais fortes de vitória nas próximas autárquicas. Ao Observador, a mesma fonte do partido aponta alguns alvos evidentes, como Faro, Albufeira, Olhão e Portimão, no Algarve, ou então Odemira e Viana do Alentejo, no Alentejo.
Com uma nota adicional: câmaras como Viana do Alentejo, por exemplo, têm cinco vereadores e podem vencer-se ao conquistar apenas dois, tendo um voto a mais do que o segundo partido, o que aumenta a indefinição em torno do resultado e, em teoria, as hipóteses do Chega. Ao mesmo tempo, e mantendo o mesmo raciocínio, o partido liderado por André Ventura acredita convictamente que pode disputar autarquias como Sintra, Vila Franca Xira, Seixal, Sesimbra e Loures.
Ora, uma vitória em Faro ou em Sintra, por exemplo, significaria que André Ventura se veria privado de dois dois maiores ativos da bancada parlamentar, no caso, Pedro Pinto e Rita Matias. Mas não é isso que tira o sono ao líder do Chega. “Exigi a todos os deputados que participassem nas autárquicas. Não há vacas sagradas, não há ninguém acima de privilégios”, garantiu o próprio em entrevista à CNN.
Líder vai para a estrada. Exemplo de Lisboa anima o partido
Assim, e apesar de a estratégia de campanha ainda não estar fechada, há uma motivação acrescida para que André Ventura se faça à estrada ao estilo de legislativas, pelo país todo, com foco, segundo o secretário-geral Pedro Pinto, “certamente em municípios onde o Chega tenha mais hipótese de ganhar” — sendo a presença do presidente do partido é sempre o trunfo mais forte em qualquer eleição.
Há quatro anos, o Chega conquistou 19 vereadores, 173 deputados municipais e pouco mais de 200 mandatos de freguesia, e que, nessa altura, André Ventura era deputado único na Assembleia da República, eleito com 1,29% dos votos. Agora, o Chega é o segundo partido na Assembleia da República, com 60 deputados e 22,76% dos votos.
Pedro Pinto, secretário-geral do Chega com a pasta das autárquicas e também candidato a Faro, reconhece que é “perfeitamente normal” que a “aposta seja maior” nos municípios em que o partido venceu nas últimas legislativas, até por crença de que existe um “eleitorado fiel” ao Chega e que isso pode não mudar nas legislativas.
As expectativas, aliás, são enormes. Basta olhar para o que parece estar a acontecer em Lisboa. De acordo com a última sondagem publicada pelo semanário Expresso, o candidato do partido, Bruno Mascarenhas, perfeito desconhecido para a generalidade das pessoas (é, atualmente, apenas deputado municipal), surge com 14% nas intenções de voto, quando o partido de Ventura teve 14,53% neste concelho nas eleições legislativas. O que significa que a marca “Chega” está a conseguir viver para lá de Ventura. Ora, se os eleitores se comportarem assim um pouco por todo o país, as hipóteses do partido aumentam exponencialmente.
De todo o modo, as contas do Chega são relativamente simples: “Partimos de uma situação confortável porque não temos nenhuma câmara; qualquer uma é lucro”, nota Pedro Pinto, reconhecendo que ganhar uma Câmara já permitiria ao partido subir um patamar a nível autárquico e que a conquista de cinco, por exemplo, seria um “sucesso”.
Ventura chamou deputados e corre risco de perder alguns
À exceção de André Ventura, os deputados do Chega foram todos chamados a ir a votos. De autarquias mais pequenas a grandes câmaras e assembleias municipais, de médios a pequenos desafios, o presidente do Chega não permitiu que ninguém ficasse fora da batalha eleitoral. Tal como o Observador foi escrevendo ao longo dos últimos meses, a escolha não só traz mais garantias a André Ventura — que tenta evitar os erros de casting que deixaram o Chega em maus lençóis no passado — como funciona do lado mais mediático, tendo em conta que, à partida, os deputados serão as figuras com mais notoriedade em vários círculos eleitorais.
Porém, corre riscos com a estratégia: os deputados que vencerem as eleições às câmaras municipais vão deixar a bancada na Assembleia da República, sendo que André Ventura colocou elementos do núcleo duro e deputados relevantes em autarquias onde o Chega tem hipóteses, pelo menos se a fasquia for comparada com as legislativas.
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Na mesma entrevista à CNN, o líder do Chega destacou o caso de Sintra, em que Rita Matias, uma das personalidades mais mediáticas do partido, é cabeça de lista. Depois de nas legislativas de 18 de maio o Chega ter conseguido vencer em Sintra (distrito de onde Ventura é natural) com 26,07% dos votos, a jovem deputada foi desafiada a ser candidata ao segundo maior município do país em termos populacionais, com a ambição de repetir o feito.
André Ventura, que estabeleceu estas eleições como uma prioridade, está “convicto” de que a deputada vai ser eleita presidente da autarquia, mesmo que isso provoque a saída de Rita Matias do Parlamento: “Claro que fará falta no Parlamento, mas estas autárquicas para o Chega são fundamentais, temos de mostrar que conseguimos governar bem, com qualidade, sem corrupção e com capacidade de intervenção, a Rita Matias tem tudo isso.”
Rita Matias e Pedro Pinto não são os únicos em risco. André Ventura, sem estabelecer uma meta, recordou que o Chega venceu em 60 municípios — o que, do ponto de vista do Chega, naturalmente, abre excelentes perspetivas para as próximas autárquicas. Mantendo esse critério, figuras como Bruno Nunes (Loures), José Barreira Soares (Vila Franca de Xira), Marta Silva (Seixal), Nuno Gabriel (Sesimbra), Rui Cardoso (Vieira do Alentejo), Ricardo Dias Pinto (Barrancos), Rui Cristina (Albufeira), João Paulo Graça (Portimão) ou Ricardo Moreira (Olhão).
Depois dos erros do passado, Chega vai dar formação a autarcas
A curtíssima história autárquica do Chega é repleta de problemas: autarcas que alinharam ao lado de pontos de vista opostos aos valores do partido, vereadores que viraram as costas ao Chega e se tornaram independentes, eleitos a quem foi retirada a confiança política. Problemas atrás de problemas, alguns assumidos como “erros de casting” numa fase em que a estrutura do partido dificilmente tinha capacidade para avaliar os candidatos que levou a voto.
Com essa realidade somada aos casos e casinhos embaraçosos nos primeiros meses do ano, André Ventura apertou os critérios de seleção para candidatos autárquicos e pediu o registo criminal, declaração de compromisso de honra em como não têm processos a decorrer na justiça e declarações de não dívida às Finanças e Segurança Social, à semelhança do que já tinha feito nas legislativas. E, apesar de haver alguns repetentes, “não muitos”, o partido levou meses a escolher os candidatos e as suas equipas, num processo que implicou entrevistas pelo menos aos cabeças de lista.
Mais do que isso, se é verdade que os autarcas, principalmente no rescaldo das últimas eleições autárquicas, tiveram formação e que em alguns locais foi havendo um acompanhamento mais constante, também é verdade que o partido sabe o desafio de ter milhares de autarcas pelo país, muitos deles sem qualquer experiência. Assim, confirmou Pedro Pinto ao Observador, no pós-eleições vai haver formações com todos os eleitos e será criada uma equipa de trabalho para acompanhar estes autarcas, “com muito mais proximidade do que aconteceu no passado”.
Tendo em conta que estas podem ser umas eleições “partidas em três” em muitas autarquias pelo país, o Chega reconhece que pode vir a ter “muita influência” mesmo em câmaras que não vença, pelo que é preciso haver um apoio constante aos autarcas. O partido, explica o secretário-geral, fará com que o “espírito do Parlamento passe para as câmaras”, trabalhando “caso a caso”, “não como uma força de bloqueio” e com “responsabilidade”, mas deixando claro que o Chega “não quer nada com o PS” — o que, dependendo da força eleitoral, pode bem dificultar a vida a muitos executivos.