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▲Efeito dos incêndios em Pasadena, em Los Angeles

Getty Images

▲Efeito dos incêndios em Pasadena, em Los Angeles

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Chuva de cinzas, sem luz e chamas perto de casa. O "cenário apocalíptico" que quatro portugueses viveram nos fogos de Los Angeles

Ana Rita esteve três dias sem água e sem luz, Mariana viu chamas perto de casa e Justin saiu de Los Angeles e foi para viver com amigos. Portugueses relatam catástrofe dos fogos na Califórnia.

“Um desastre natural de proporções absolutamente gigantescas.” Ana Rita Guerra, jornalista portuguesa que vive há onze anos em Los Angeles, conta ao Observador que “nunca tinha visto” algo idêntico aos incêndios que desde terça-feira continuam a arder sem controlo na capital do cinema, em pleno estado norte-americano da Califórnia. “Nunca pensei sequer ia ficar três dias sem água, nem eletricidade. Que ia haver pessoas a fugir de carros a deixá-los estacionados de qualquer maneira na Sunset Boulevard”, a grande avenida que atravessa a cidade com 22 milhões de habitantes em direção ao Pacífico.

Vivendo na zona de North Hollywood em Los Angeles, Ana Rita Guerra relata que lavrou um fogo “bastante perto” de sua casa na noite de quarta para quinta-feira. “Esse fogo [em Sunset], entretanto, foi contido e essa ameaça passou”, sublinha a jornalista portuguesa, realçando, contudo, que durante estes dias os céus estão cobertos com uma “nuvem de fumo” e o ar “cheira a queimado”.

Também em declarações ao Observador, a jornalista da National Geographic, Mariana van Zeller, diz, por exemplo, que, da janela de sua casa, conseguiu ver ao longe os incêndios em Pacific Palisades, uma das regiões de Los Angeles em que vivem várias celebridades. “Na quarta-feira, comecei a ver o incêndio de Sunset, a exatamente seis quilómetros de minha casa. Vi mesmo uma explosão, um crescimento enorme desse incêndio.” 

epa11814027 A plane drops water on a section of the Sunset wildfire in Los Angeles, California, USA, 08 January 2025. According to data from California Department of Forestry and Fire Protection (CAL FIRE) multiple wildfires are burning across thousands of acres and forcing thousands of evacuations and destroying hundreds of homes in the Los Angeles area.  EPA/ALLISON DINNER

▲ Sunset Fire em Los Angeles

ALLISON DINNER/EPA

Se o fogo de Sunset já foi dominado, os maiores incêndios — o de Palisades e do Eaton, outras zonas de mansões de famosos — ainda continuam a arder e estão longe de estar controlados. Os dois fogos já destruíram mais de nove mil infraestruturas, revelaram as autoridades numa conferência de imprensa esta quinta-feira, num balanço ainda provisório. Kristin Crowley, chefe dos bombeiros de Los Angeles, caracterizou mesmo o incêndio de Palisades como um dos “desastres naturais mais destrutivos da história” da cidade californiana.

Nas redes sociais, várias celebridades — como a socialite Paris Hilton ou o ator Mito Ventimiglia — partilharam como as suas mansões milionárias (falamos de ebtre 6 a 10 milhões de dólares) foram destruídas pelos fogos. Também Mariana van Zeller diz que alguns dos seus amigos “perderam as casas”. “Na escola do meu filho, várias famílias perderam as casas, incluindo a diretora da escola”, lamenta.

Ana Rita preparou uma “mala” para prevenir, Justin e a família decidiram fugir para “casa de amigos”

O realizador luso-canadiano Justin Amorim estava a jantar, na terça-feira, quando decidiu sair da localidade de Pasadena, onde vive em Los Angeles e onde arde atualmente o fogo de Eaton. À Rádio Observador, conta que decidiu fugir assim que começou um incêndio nas redondezas. “Vi o fogo a aproximar-se. Numa questão de minutos, saí”, frisa.

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▲ Casa a arder no fogo de Eaton

AFP via Getty Images

Esta “evacuação voluntária”, como lhe chamou, não foi imune a dificuldades — foi mesmo “muito complicada”. “Havia ventos muito fortes, árvores a cair. Tive de desviar e mudar a rota. Havia muito lixo e coisas que voavam contra o carro. Foi muito assustador”, narra Justin Amorim. A culpa é dos centos ciclónicos de Santa Ana, conhecidos das autoridades e dos meteorologistas, que surgem todos os anos nesta época, mas que este ano ganharam velocidades avassaladoras devido a vários fatores climatológicos combinados. Agora, Justin está na casa de uns familiares “a cem quilómetros do centro de Los Angeles” numa zona perto do mar.

Ana Rita Guerra decidiu não sair de sua casa, mas viu o fogo perto e, por isso, optou por “fazer uma mala” para uma possível ordem de evacuação. “Foi uma iniciativa própria. Temos uma aplicação chamada Watch Duty que toda a gente está a usar. Nessa aplicação, podemos ver os fogos que estão ativos e qual é a zona de evacuação. Houve um fogo muito perto daqui que dava para ver”, explica a jornalista, que preparou a “mala com documentos vitais, como certidões de nascimento, passaporte, número de segurança social, tudo isso”.

O fogo em questão era o que deflagrou no bairro de Studio City, que entretanto já foi dominado. Mas há outro em Los Angeles que ainda preocupa Ana Rita Guerra. “Ontem [quinta-feira], houve a deflagração no Vale de São Fernando — o Kenneth Fire. Dá para ver da estrada as grandes nuvens de fumo. Ainda não está contido. Portanto, ainda há uma ameaça”, refere, salientando que esse incêndio pode chegar a Calabasas, outra zona “onde muitas celebridades têm as suas casas”.

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▲ Kenneth Fire ainda arde esta sexta-feira em Los Angeles

Anadolu via Getty Images

Mesmo assim, segundo Ana Rita Guerra, os “ventos baixaram de intensidade”, esperando-se que a “situação melhore”. Neste sentido, a jornalista voltou a ter, esta sexta-feira de manhã, eletricidade e água quente, após três dias sem esses serviços básicos. “Fui tomar banho a casa de amigos. Não tinha água quente, eletricidade e tinha dificuldades em carregar telemóveis e computadores, em estar em contacto com pessoas. [A rede] 5G teve vários momentos em que falhou. Portanto, não conseguimos entrar em contacto com ninguém.” 

A obrigatoriedade de acatar as ordens de evacuação — são obrigatórias — ainda pode ocorrer a qualquer momento, sendo que Ana Rita Guerra conta que existem três abrigos perto de si e sabe qual é o mais próximo. “Temos três abrigos espalhados pela cidade. O Airbnb também está a permitir que as pessoas que tenham de evacuar tenham estadia gratuita durante uma semana. E há ginásios que estão a abrir portas para as pessoas poderem ir tomar banho, se for necessário.”

A população de Los Angeles, assinala Mariana van Zeller, é instruída a ficar em casa — e apenas sair em caso de ordem de evacuação. “As pessoas são aconselhadas a não sair de casa, portanto, estou a ficar por casa. Dizem às pessoas para não irem, especialmente aquelas que não são profissionais a lidar com fogos, a não saírem para zonas de grande risco.”

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▲ Os fogos em Los Angeles

DigitalGlobe/Getty Images

O grupo de portugueses e o encontro para “trazer roupa e comida”

“Parece que uma bomba atómica caiu em algumas áreas.” As palavras são do xerife do condado dos Los Angeles, Robert Luna, que descrevia esta quinta-feira os efeitos devastadores dos incêndios, que já causaram dez vítimas mortais. Tendo em conta que alguns fogos ainda estão muito longe de estar controlados, as autoridades locais temem que os danos — e o número de mortos — possam ser ainda maiores.

“Infelizmente, acho que se vão encontrar mais corpos. É uma tragédia enorme. Tenho muitos amigos que perderam casas. A destruição é bastante elevada”, lamenta Mariana van Zeller, acrescentando que não são apenas casas destruídas, são também escolas e hospitais. Por causa desta destruição, existem manifestações de solidariedade por parte de particulares e empresas um pouco por toda a cidade de Los Angeles.

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A jornalista da National Geographic assinala que, na escola onde anda o filho, foi “organizado um encontro” solidário, em que as famílias podem levar “roupa, comida e oferecer quartos e casas para outras famílias dormirem”. “Houve famílias que viveram na mesma casa durante décadas e décadas e perderam tudo. Todas as memórias e lembranças de infância.”

"Houve famílias que viveram na mesma casa durante décadas e décadas e perderam tudo. Todas as memórias e lembranças de infância"
Mariana Van Zeller, jornalista da National Geographic em Los Angeles

Já Ana Rita Guerra tem tido conhecimento de histórias através de um “grupo de portugueses” em plataformas de mensagens instantâneas em que “partilha experiências, dicas e até se demonstra solidariedade”: “Há pessoas a abrir as suas casas” para acolher quem viu perder o local onde vivia ou teve necessidade de abandonar a sua residência.

Tal como aconteceu com Justin Amorim, Ana Rita Guerra enfatiza que muitos dos seus amigos também decidiram “ir embora” de Los Angeles de “forma preventiva” — “não se sentiam confortáveis, principalmente aqueles que têm famílias e filhos”. Muitos, prossegue, “foram para casas de amigos até o perigo passar”. Em todas as pessoas com quem contactou, a jornalista diz que existe a perceção de que esta é uma “catástrofe absolutamente inédita”, apesar de os incêndios florestais serem normais na Califórnia — mas não no inverno e não com esta intensidade.

As cinzas no ar e o vento. As condições meteorológicas anormais que levaram aos incêndios

Esta sexta-feira, no momento em que Mariana Van Zeller falou com o Observador, havia partes do céu azul, uma situação que não aconteceu nos últimos dias, em que uma  “nuvem de fumo” cobriu os céus de Los Angeles. Para além dos céus escuros, detalha a jornalista, “choveu cinza” durante quinta-feira.

▲ Chuva de cinzas

Mariana Van Zeller

Ao Observador, Gonçalo Sousa, outro português que vive em Los Angeles (em concreto em Pasadena), confirma que está um “dia de sol” por “entre as cinzas que ainda estão no ar”. “A qualidade do ar é terrível e, olhando as montanhas a norte, temos ainda muito fumo que chega de Eaton Canyon”, constata. Sublinha, contudo, algo positivo: “Desde ontem que os ventos acalmaram. Essa tem sido a nossa salvação”.

Para além do vento forte que se fez sentir em Los Angeles, durante o mês de janeiro de 2025, as temperaturas têm estado “mais elevadas do que o normal”, nota Ana Rita Guerra. E não é só isso: a intensidade do vento nos últimos dias também foi “muito forte”. Os ventos de Santa Ana — um fenómeno meteorológico que acontece duas a três vezes ao ano — são normalmente intensos e trazem temperaturas elevadas na Califórnia. Porém, garante a jornalista, nunca tinha sentido “ventos desta magnitude”.

“Aqui, na minha rua, algumas estradas foram cortadas por conta das árvores que caíram. São ventos muito fortes. Desta vez atingiram a força de um furacão de categoria 2 em algumas zonas”, destaca Ana Rita Guerra, que também aponta para a seca que vive a região de Los Angeles. “Não temos chuva desde maio do ano passado. Está tudo muito seco. Não há água”, diz a jornalista.

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▲ Cinzas espalham-se com os ventos de Santa Ana

Getty Images

Todas estas condições foram, por isso, uma tempestade perfeita que causaram este incêndio. “Com ventos dessa magnitude, sem chuva e com temperatura elevadas, o perigo de incêndio é, de facto, muito elevado. É difícil de controlar e conter”, vinca Ana Rita Guerra. “O cenário que nós temos visto é praticamente apocalíptico.”

Duas famílias portuguesas foram afetadas pelos incêndios, famosos em Los Angeles revelam destruição

À RTP, o secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, adiantou que duas famílias portuguesas foram “seriamente afetadas” pelos incêndios em Los Angeles, ainda que não haja detalhes concretos sobre quantas pessoas foram afetadas e se há feridos. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, diz estar a acompanhar a situação.

Para além dos portugueses ouvidos pelo Observador, outros têm partilhado o que têm vivido em Los Angeles. O ator Joaquim de Almeida recorreu às redes sociais para mostrar uma fotografia em que se vê o “fumo dos fogos” em Santa Mónica, na Califórnia.

A atriz Daniela Ruah também garantiu que a sua família “continuava em segurança”. “A cidade que chamo de lar está em chamas. Apocalíptica. Tantas pessoas e animais deslocados. O meu coração afundou no estômago. Estamos imensamente gratos aos bombeiros, primeiros socorros e civis que estão a fazer tudo o que podem para ajudar uns aos outros. Rezo, espero e estou a doar para ajudar aqueles que estão na linha de frente”, escreveu no Instagram.

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