Em época de presidenciais a independência é traje de gala. Não há candidato que não a envergue com proclamada propriedade, mesmo que no passado mais ou menos recente tenha militado de forma completamente empenhada numa estrutura partidária. Ou até mesmo aqueles que, sendo de facto independentes, fazem dela a sua capa de glória, num meio que normalmente garantem estar capturado pelos interesses partidários. Depois, vêm os desfiles de apoios, a exibição de figuras do lado de lá da barricada partidária para mostrar força política e a independência parece passar, no fim de contas, a adorno de lapela.
A dança não é de hoje, é tão antiga como a disputa pelo cargo presidencial. E em 2025, o país político volta a assistir a mais uns passos ao ritmo da mesma melodia de sempre. É preciso mostrar influência máxima e capacidade de ir mais além do que o espaço político onde normalmente se acomoda o candidato. E no caso dos independentes, garantirem que sabem mover-se nesse meio (como todos os outros de que se querem evidenciar). Conclusão: todos os apoios que vêm à rede são motivo de partilha imediata e os que vêm de outro campo político surgem logo à cabeça, tendo em conta o potencial de estilhaço no campo adversário.
As presidenciais de janeiro são, de novo, palco para a repetição da coreografia. E o independente Henrique Gouveia e Melo é o candidato que mais impacto tem trazido a este nível, ao apresentar ao seu lado muitas figuras dos partidos, sobretudo da direita (incluindo três ex-líderes deste espaço). Embora agora também comecem a surgir ao seu lado figuras relevantes do PS, partido onde António José Seguro não convence e que, por sua vez, também tenta entrar no centro-direita e… nos militares. E o campo de Marques Mendes também não está cingido ao candidato que o PSD e o CDS apoiam. Cruzam-se apoios, trocam-se partidos, mistura-se tudo com guerras antigas e aí está a corrida presidencial de apoiantes.
Almirante coleciona políticos, Seguro é mais militares e Mendes tenta preservar os seus
Por ser independente, o almirante Gouveia e Melo é o candidato que mais apoios divergentes com as linhas oficiais dos seus partidos congrega e ao mais alto nível. Na sua lista de apoiantes conta logo com um mandatário que é um ex-líder do PSD, Rui Rio, somando também dois antigos líderes do CDS nas suas fileiras, José Ribeiro e Castro e Francisco Rodrigues dos Santos.
É na área do PSD que mais colhe simpatias, com o histórico Ângelo Correia a declarar-lhe apoio, bem como o ex-presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, o antigo autarca de Sintra Fernando Seara e, ainda no campo dos veteranos do partido, o antigo secretário-geral do PSD António Capucho e Alberto João Jardim, o líder histórico da Madeira. Integram também a associação cívica da candidatura “Honrar Portugal” o antigo ministro e deputado do PSD Fernando Negrão, Adão Silva, António Martins da Cruz e Henrique Chaves. Embora já não milite há muito no PSD, Isaltino Morais também está na lista de entusiastas da candidatura de Gouveia e Melo — nunca perdoou a Marques Mendes o bloqueio, em 2005 quando era líder do PSD, a candidaturas de autarcas investigados por corrupção (que o fez desfiliar-se do partido e tornar-se um candidato independente desde então). E esta terça-feira José Manuel Rodrigues, ex-líder do CDS/Madeira, também manifestou apoio à mesma candidatura.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O campo socialista está longe de correr para os braços de António José Seguro, ainda que seja essa a indicação oficial do PS — decidida depois de uma área do partido ter tentado por tudo que surgisse uma alternativa nesta área política, como António Vitorino ou António Sampaio da Nóvoa. O quadro de divisão interna sobre este tema não ficou pacificado com a decisão sobre Seguro e ainda se registam muitas hesitações e até apoios já declarados ao candidato independente Gouveia e Melo — que podem não ficar pelos poucos que já se conhecem. O mais recente é o de Manuel Pizarro que esta segunda-feira esteve mesmo numa ação da candidatura do almirante, onde o considerou “a pessoa mais bem qualificada” para o cargo de Presidente da República.
Seguro. No PS já se “engole o sapo”, mas ainda há resistências. Ferro continua “em reflexão”
António Correia de Campos faz parte da Comissão Nacional do PS que aprovou, há três semanas, o apoio oficial do partido a António José Seguro para Belém, mas absteve-se na votação porque já tinha a sua escolha feita para esta corrida: o almirante. Os socialistas têm sido mais discretos na manifestação de simpatia por Gouveia e Melo e, até agora, para além dos já referidos, conhecem-se apoios menos sonantes como o do ex-secretário de Estado do Planeamento, Ricardo Pinheiro, o antigo secretário de Estado da Administração Interna (da era Guterres), Manuel Diogo, e também do ex-deputado do PS Diogo Leão.
Seguro tem tentado entrar no campo à direita do PS, com declarações comedidas não só sobre o apoio do partido que liderou no passado — depois dessa oficialização reafirmou ser um candidato suprapartidário –, mas também sobre o seu posicionamento à esquerda, rejeitando um rótulo. O Expresso noticiou também que o socialista promoveu um almoço com personalidades políticas da direita em busca de apoios nessa área, conseguindo um nome próximo de Pedro Passos Coelho para o seu lado, Vasco Rato. Um nome que teve impacto não só por essa proximidade com o antigo líder, mas também por ter feito parte da direção nacional do partido liderada por Marques Mendes, o candidato que o partido agora apoia — e abandonou esta mesma direção, com críticas à estratégia seguida, poucos meses depois de Pedro Passos Coelho ter feito o mesmo.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
A manobra de Seguro junto desta área procura também explorar problemas que Luís Marques Mendes possa ter nessa frente, nomeadamente entre os mais próximos de Passos Coelho e no próprio antigo líder do PSD. Passos já disse que não sente “obrigação” em apoiar Marques Mendes. E há dez anos, como líder do partido, até Marcelo Rebelo de Sousa acabou por apoiar, mesmo depois do recado que enviou, na moção que levou ao congresso de 2014, ao dizer que o PSD não apoiaria, nas Presidenciais de 2016, um “catavento de opiniões erráticas” — o que encaixava no perfil do então comentador Marcelo.
[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]
Apesar da relação conturbada entre os dois, a sua direção acabou por aprovar, em 2015, o apoio oficial à candidatura de Marcelo. Agora, o candidato presidencial que André Ventura preferia ter visto avançar pela direita quer “deixar tudo em aberto” em relação ao seu apoio — o que por si só é mensagem suficiente para a candidatura de Mendes, que já está no terreno há meses, já tem o apoio oficial do PSD (aprovado por larga maioria do Conselho Nacional do partido, mas continua sem convencer (pelo menos por agora) três antigos líderes do partido que também ele já liderou. Não só Passos e Rui Rio, como também Pedro Santana Lopes, que já disse que Mendes “não desperta o mínimo entusiasmo” — mas ainda não disse quem apoia nesta corrida onde ele mesmo chegou a ponderar entrar.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Noutra área, à direita do PSD, Mendes vê ainda o ex-militante do partido Rui Gomes da Silva entre os apoiantes de Ventura — depois de o ter visto a promover e apoiar a candidatura do almirante. Com a entrada de André Ventura na corrida a Belém, o antigo ministro de Santana Lopes saltou do lado Gouveia e Melo para o lado Ventura (também já integrava o seu grupo de “ministros sombra”). Para o ex-social-democrata, nesta volta, qualquer um menos o social-democrata Marques Mendes.
Ainda assim, Mendes é, até agora, o segundo candidato presidencial a conseguir pescar mais apoios nas águas dos adversários — ainda assim, nada que se compare ao independente almirante, nem em número nem em relevância partidária. Na área socialista tem, até agora, para exibir os apoios do ex-deputado do PS, Sobrinho Teixeira, o secretário de Estado Adjunto e do Ambiente do Governo de António Costa, José Gomes Mendes, e ainda o socialista que é presidente da Câmara de Fafe (cidade com a qual Mendes tem especial afinidade), Antero Barbosa.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Neste capítulo de entrar no partido do lado parece, ainda assim, conseguir mais do que Seguro que tem apostado sobretudo em evidenciar apoios independentes e também de militares — afinal há um almirante na reserva em jogo. O socialista conta com o capitão de Abril Vasco Lourenço, o general Manuel Monge, que foi assessor militar do Presidente Mário Soares, o general do Exército Arnaldo Cruz, o almirante Augusto Pinho e o tenente-general da Força Aérea Alfredo Cruz.
Já no campo partidário, Seguro começou por — numa primeira fase em que o PS ainda hesitava sobre o apoio presidencial — mostrar que não era um enjeitado do partido que tinha liderado e que tinha essa relação política firme, com figuras como Manuel Alegre ou Maria de Belém ao seu lado, por exemplo. Depois também tentou à tal investida na direita — que fez barulho sobretudo por entrar no passismo — e tem também entre os seus apoiantes figuras como Basílio Horta, que fundou o CDS mas que nos últimos 12 anos foi autarca eleito em listas do PS, ou João Varandas Fernandes, ex-líder do CDS.
Ou ainda Ricardo Sá Fernandes, ex-membro da Comissão de Ética do Livre, que já disse que apoia Seguro nas presidenciais. Aliás, o Livre fez primárias para decidir sobre o seu apoio presidencial no final da semana passada e Seguro teve quase um quinto das preferências, mais do que António Filipe ou Catarina Martins. Tem mais dificuldade em convencer o seu partido e ao nível de ex-líderes enfrenta as mesmas dificuldades que Marques Mendes. Eduardo Ferro Rodrigues revelou ao Observador que desde 1980 apoia o candidato indicado pelo seu partido, mas que desta vez ainda está “em reflexão” sobre o que fazer. Já António Costa pode voltar a refugiar-se no exercício de um cargo europeu, tendo fixado que isso o impede de participar em atividades políticas ao nível nacional — disse-o numa entrevista ao Observador há um ano, quando confrontado com o eventual apoio a Seguro (que na altura era apenas uma hipótese).
ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA
À direita, a divisão é imensa, com os avanços de André Ventura (apoiado pelo Chega) e também de João Cotrim Figueiredo (apoiado pela IL). Mas até agora, a julgar pelas sondagens e disputa de apoios, não parece estar a fazer grande mossa — como se antecipava — nas contas de Marques Mendes. Já entre as duas candidaturas há, por estes dias, um movimento a registar: Nuno Afonso, que esteve na fundação e foi vice-presidente do Chega (braço direito de Ventura acabou por sair do partido com estrondo), esteve na apresentação de candidatura de Cotrim. Além disso, o antigo líder da Iniciativa Liberal também tem como mandatário nacional da sua candidatura José Miguel Júdice, figura influente da direita e antigo militante do PSD que também já disse que se Cotrim não passar à segunda volta, passa o apoio para Seguro (se o socialista lá chegar).
Dissidências e divisões. Apoiantes que saltaram de lado e até o atual candidato que reatou desavindos presidenciais
A história das presidenciais é feita de dissidências deste género, quase tão profundas como as ruturas que estiveram na sua origem. Foi o caso da cisão Soares/Zenha, no PS, e a disputa presidencial onde ambos os socialistas concorreram — que, por sua vez, nasceu noutra corrida a Belém, aquela em que Soares rompeu com o partido que queria apoiar Ramalho Eanes, nas eleições de 1981, autosuspendendo-se de líder para não ter de aprovar o apoio à recandidatura presidencial do general — Francisco Salgado Zenha liderou os críticos internos, o grupo do “ex-secretariado”, que defendia o apoio a Eanes.
LUSA
Cinco anos depois, em 1986, os dois “irmãos” socialistas acabaram mesmo por se enfrentar em campanha, nas Presidenciais que Soares acabou por vencer à segunda volta. Zenha avançou já depois de Soares ter convencido o partido (mesmo importantes nomes que estiveram contra ele na guerra do secretariado, como por exemplo Jorge Sampaio). Ao seu lado, o antigo número dois de Mário Soares teve, no entanto, vários socialistas, como António Arnaut, Medeiros Ferreira, João Soares Louro ou Mário Mesquita.
Soares tinha a estrutura do partido, mas também recolhia alguns apoios na área social-democrata, como Miguel Veiga ou Helena Roseta — e até chegava a apostar com quem o ouvia, como conta Joaquim Vieira na biografia de Soares, que Francisco Pinto Balsemão, com quem tinha uma boa relação, tinha acabado por votar nele (afinal Diogo Freitas do Amaral era figura vinda do CDS). Do famoso Movimento de Apoio Soares à Presidência I faziam ainda parte figuras como Guilherme d’Oliveira Martins, que tinha saído do PSD há poucos anos e também António Barreto, que tinha saído do PCP no final da década de 60, aproximou-se do PS para, com um grupo de dissidentes (onde também estavam José Medeiros Ferreira e Francisco Sousa Tavares), integrar a AD de Francisco Sá Carneiro pelo Movimento dos Reformadores.
Helena Roseta acabou por se filiar no PS no ano seguinte — abandonando o PSD precisamente depois do apoio a Soares –, e 19 anos depois estaria, mais uma vez, na lista de apoiantes de alguém que se candidatava contra o nome apoiado pelo seu partido (e desta vez contra Soares). Em 2006, Mário Soares teve o apoio do PS para as presidenciais e voltou a ter um adversário na corrida vindo do seu grupo mas próximo: Manuel Alegre. Nessa altura, a já socialista foi uma das principais dinamizadoras da candidatura (e acabou por abandonar o PS, em 2007, para se candidatar como independente à Câmara de Lisboa, acabando por aproveitar a dinâmica do movimento independente saído da candidatura de Alegre).
No apoio a Manuel Alegre estiveram também outros socialistas, como António Arnaut — que voltava a estar do lado oposto a Soares, 20 anos depois — ou Edmundo Pedro, os ex-deputados do PS José Leitão e Joaquim Sarmento ou ainda a deputada e sua irmã Teresa Portugal. Da sua comissão política faziam também parte três ex-dirigentes e antigos deputados do PCP, Carlos Brito, Jorge Leite e José Manuel Mendes, e ainda a ex-deputada do Partido Ecologista “Os Verdes” Isabel Castro.
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Já Mário Soares, o candidato oficialmente apoiado pelo PS liderado por José Sócrates, recolheu o apoio de toda a estrutura do partido e dos principais senadores. Não valeu de muito. Numa eleição em que a esquerda à esquerda do PS apresentou candidaturas fortes, como Jerónimo de Sousa (PCP) e Francisco Louçã (Bloco de Esquerda), Alegre conseguiu um resultado expressivo, ficando em segundo lugar, com 20,7% (mais de um milhão de votos), enquanto Soares ficou no terceiro lugar, com 14,3%. Em 2011, Alegre voltaria a candidatar-se, já com o apoio do PS, mas voltou a perder. Na duas rodadas, Cavaco Silva tinha feito o pleno à direita, sem candidaturas dissidentes nesse espaço político.
Na sequência do capítulo presidencial de 2006, Soares e Alegre ficaram de costas voltadas durante vários anos, até que em 2013, voltaram a aproximar-se. Curiosamente a ponte para esse reatar de amizade foi estabelecida por um atual candidato presidencial que era então líder do PS, António José Seguro.
Com António Costa na liderança do partido e do Governo, a partir de 2015 o PS não apoiou mais nenhum candidato presidencial oficialmente. Mas nem por isso deixou de haver uma divisão. Nas eleições de 2016, com Marcelo Rebelo de Sousa a surgir como candidato único no espaço da direita e centro-direita, os socialistas dividiram-se no apoio à candidatura do antigo reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, e a antiga presidente do partido Maria de Belém. E em 2021, nas últimas presidenciais, ainda que tivesse a socialista Ana Gomes na corrida, o apoio fugiu até para Marcelo.
Foi o que fez saber um grupo de 22 socialistas que, na altura, expressaram mesmo oficialmente o seu apoio à recandidatura do Presidente em funções. Na lista constavam nomes como o então presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina, José António Vieira da Silva, Correia de Campos, o eurodeputado Pedro Marques, e o então líder regional açoriano Vasco Cordeiro.
A recandidatura de Marcelo teve mesmo a curiosidade de ter sido lançada pelo então primeiro-ministro socialista António Costa que, numa vista a dois à Autoeuropa, em 2020, desafiou (ou atrapalhou) Marcelo que estava ao seu lado: “Se viemos cá no primeiro ano do atual mandato do Presidente da República, e agora voltamos cá no último ano do mandato, a terceira data é óbvia: é no primeiro ano do próximo mandato do Presidente da República, e faço-me desde já convidado para acompanhar o senhor Presidente da República para aqui virmos para o ano partilhar essa refeição.”
Voltaram, mas já mais distantes do que no ano anterior e entre um momento e o outro, Marcelo já tinha também revelado o seu desconforto com o que Costa fizera em 2020, sobretudo pela colagem que aquela declaração poderia significar do PS em relação à sua candidatura. É que daquela vez teria, pela primeira vez, candidatos à sua direita: Tiago Mayan, mas também André Ventura. Não se justificou a preocupação: reforçou a votação e passou dos 52%, em 2016, para 60%, em 2021.