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Michael Verfürden e Sönke Iwersen
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▲Michael Verfürden (à esquerda) e Sönke Iwersen (à direita), jornalista que falou com o Observador, são os autores do livro "The Tesla Files"

Direitos Reservados

▲Michael Verfürden (à esquerda) e Sönke Iwersen (à direita), jornalista que falou com o Observador, são os autores do livro "The Tesla Files"

Direitos Reservados

Entre as promessas de Musk e milhares de dados, o que revela o livro que desmonta a "caixa negra" da Tesla?

O jornalista alemão Sönke Iwersen teve acesso a 23 mil ficheiros que expõem falhas de segurança e dados internos da Tesla. A investigação deu origem a um livro, sobre o qual fala com o Observador.

A Tesla é uma “caixa negra”. Os trabalhadores mantêm-se em silêncio por terem contratos de confidencialidade e os clientes, incluindo aqueles que tiveram más experiências, também se mostram relutantes em fazer críticas. O paradigma começa a mudar em novembro de 2022, quando um denunciante, um antigo trabalhador da fabricante automóvel na Noruega, aborda o jornal alemão Handelsblatt alegando ter informações para partilhar.

Num primeiro momento, Sönke Iwersen, que comanda a equipa de investigação do jornal desde 2012, está cético, mas aceita ouvir o denunciante, que inicialmente deseja manter o anonimato e cuja identidade só mais tarde é revelada. Trata-se de Lukasz Krupski, que diz ter tido acesso a milhares de ficheiros internos da Tesla. Mas vai mais longe: diz que qualquer trabalhador da fabricante automóvel consegue aceder às informações, que incluem dados de funcionários e de clientes e até extratos bancários.

Poucos minutos após estabelecer o primeiro contacto com o denunciante, através de uma aplicação de mensagens encriptadas chamada Threema, Sönke Iwersen começa a receber os ficheiros. Dados pessoais de cinco mil pessoas que a empresa tinha despedido, uma base de dados com nomes, emails, datas de nascimento e números de segurança social de mais de 70 mil trabalhadores da Tesla, incluindo Musk, e informações sobre salários. É a ponta do icebergue de um total de 23 mil documentos e 100 Gigabytes de dados que revelam falhas na forma como o império de Musk funciona. Todos os ficheiros são abertos pelo menos uma vez.

Capa do livro "The Tesla Files"
No livro "The Tesla Files: The Inside Story of Musk's Empire", Sönke Iwersen e Michael Verfürden revelam segredos sobre a fabricante automóvel. Mas também contam "a história por detrás da história" de como tiveram acesso a 23 mil ficheiros e publicaram uma das maiores investigações sobre a empresa, até então uma "caixa negra".

Os jornalistas da equipa de investigação do Handelsblatt fazem centenas de entrevistas a funcionários e clientes da Tesla e começam a publicar artigos na primavera de 2023. A investigação dá origem a um livro, intitulado The Tesla Files: The Inside Story of Musk’s Empire (Os Ficheiros da Tesla: Por dentro do Império de Musk, em tradução livre). Sönke Iwersen aliou-se a Michael Verfürden, também jornalista, para contar como teve acesso aos documentos e o que estes revelam. O livro, bestseller na Alemanha, foi recentemente publicado pela primeira vez em inglês. Chegou às livrarias do Reino Unido em julho e fica disponível dentro de dias (a 9 de setembro) nos Estados Unidos. Para já, não há previsão para uma versão portuguesa.

Para perceberem a fabricante automóvel, os jornalistas tiveram de compreender também a forma de pensar de Musk, um CEO que exige devoção e lidera com a cultura do medo. O livro atualiza a história do homem mais rico do mundo, contada na biografia de Walter Isaacson, por já incluir a sua chegada à Casa Branca, terminando antes da zanga pública com Trump. O piloto automático (autopilot) tem destaque e é descrito como o “projeto mais perigoso e ambicioso da Tesla”, provocando reclamações de clientes que se queixam que os carros aceleram ou travam sem motivo aparente.

O “modo demónio” e atração pelo caos de um “tonto no amor” que não tira férias (e mora em casa arrendada). O que revela a biografia de Musk

É também o ponto de partida para a conversa, à distância, de Sönke Iwersen com o Observador, em que recorda os testemunhos das mulheres que perderam os maridos em acidentes pelas quais culpam a Tesla e fala sobre o papel do denunciante, com quem mantém contacto regular e que outrora se considerava um “discípulo de Musk”. Há ainda espaço para falar sobre o homem mais rico do mundo e a “grande surpresa” que foi vê-lo entrar na política. Mas também sobre o divórcio público com o líder norte-americano: “Quem é Trump aos olhos de Musk? É um anão. Portanto, há um certo desdém mútuo.”

“Era completamente inacreditável que alguém na Tesla não só tivesse acesso aos dados, como dissesse que qualquer pessoa os poderia tirar do sistema”

Muito se escreve, regularmente, sobre a Tesla na imprensa. Muitos artigos, muitos rumores. Para quem não leu o livro, até porque em Portugal não existe uma versão traduzida, quais são as maiores novidades que apresenta sobre a fabricante automóvel?
Acho que a maior está relacionada com o que Musk considera ser a coisa mais importante da empresa, que é o piloto automático. Eu já tinha ouvido falar sobre o piloto automático, mas quando pesquisámos é que vimos há quanto tempo Musk fazia promessas sobre ele. Tinha prometido em 2014, em 2016 e por aí em diante que os problemas estavam resolvidos. Em 2019 até disse que até 2020 haveria um milhão de robô táxis nas ruas. Um milhão. Agora que já passaram cinco anos, eram três na altura em que comecei a escrever [sobre a Tesla], encontrámos milhares e milhares de reclamações de clientes que dizem que os seus carros aceleravam sozinhos, travavam sozinhos, mudavam de faixa sozinhos. Vimos que os clientes estavam muito insatisfeitos com a forma como eram tratados pela Tesla. Nunca lhes pediram desculpa. Diziam-lhes que estava tudo bem, que tinham feito alguma coisa errada ou que deviam esperar pela próxima atualização, que não havia problema. Quando publicámos os primeiros artigos, mais pessoas se chegaram à frente, incluindo viúvas de homens que morreram em acidentes de carro e suspeitavam que o piloto automático fosse a razão. Porque a estrada estava limpa, fazia sol, não chovia, quase não havia trânsito, era uma reta e eles não eram conhecidos por conduzir de forma imprudente. As viúvas simplesmente não conseguiram obter quaisquer dados da Tesla. Sabemos que Musk diz que a Tesla é a fabricante automóvel mais transparente do mundo e que a Tesla partilhará sempre dados críticos sobre acidentes, porque o contrário seria perigoso. No entanto, temos aqui acidentes fatais e a Tesla diz à polícia que não há dados, ou dados relevantes. Pensemos que somos um polícia ou um procurador e dizemos a uma empresa que precisamos desses dados para investigar adequadamente um caso e a empresa nos diz que não há dados relevantes, imagino que os exigiríamos. Mas isso não aconteceu na Alemanha. Disseram às viúvas que não há dados, que nada pode ser provado e, pronto, o caso está encerrado.

Quão difícil foi ouvir os testemunhos das viúvas e dizer-lhes que não lhes poderiam dar as respostas que procuravam?
Faz parte do trabalho. É difícil. As pessoas começam a chorar e assim. Gostaríamos de lhes dar uma resposta, mas esse não é o nosso trabalho, na verdade. Quero dizer que não estamos do lado delas. Só queremos descobrir a verdade. E, sim, gostaríamos de ter encontrado os dados, claro, mas não conseguimos. E só agora é que houve um caso em que uma vítima, aparentemente com mais recursos e advogados, conseguiu. Foi na América, por isso é um sistema diferente. Conseguiram obter os dados, embora a Tesla tenha dito inicialmente, uma vez mais, que não havia dados, que os dados estavam perdidos ou que não existiam. Agora têm de pagar mais de 240 milhões de dólares [nos EUA], enquanto na Alemanha nada.

Na Florida, Tesla foi considerada parcialmente culpada por acidente fatal com piloto automático

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No início de agosto, um júri da Florida considerou que a Tesla era parcialmente culpada de um acidente que fez um morto e um ferido grave em 2019. A fabricante automóvel terá de pagar 243 milhões de dólares, mas já anunciou que vai recorrer por considerar que a decisão está “errada” e prejudica os avanços feitos na “segurança automóvel”.

Segundo a BBC, o condutor de um Tesla Model S estava a utilizar o piloto automático quando, perto de um cruzamento, se baixou para apanhar o telemóvel, que tinha caído. O carro continuou a avançar e embateu num outro, que estava estacionado. Nem o condutor, nem o piloto automático travaram. Naibel Benavides Leon, de 22 anos, morreu e o namorado, Dillon Angulo, ficou gravemente ferido.

A Tesla foi processada pela família de Naibel Benavides Leon, que defendeu que o piloto automático deveria ter alertado o condutor e ativado automaticamente — antes de se ter dado o acidente — os travões.

Recuando até ao início da investigação à Tesla, como recorda o momento em que recebe uma chamada de um colega a falar sobre um denunciante? E qual foi a primeira reação que teve à informação que recebeu, ficheiros com dados de trabalhadores (desde emails a números de segurança social)?
Incredulidade. Era completamente inacreditável que alguém na Tesla não só tivesse acesso aos dados, como também dissesse que qualquer pessoa os poderia tirar do sistema. Qualquer pessoa. Vemos a Tesla de forma diferente agora do que víamos há três anos. E também vemos Elon Musk de forma diferente. Mas, naquela altura, Musk já era um dos homens mais ricos do mundo, um ícone tecnológico, o senhor Silicon Valley. E a Tesla era, e ainda é, mais valiosa do que todas as outras empresas automóveis do mundo juntas. Musk é um programador de raiz, foi assim que começou o seu percurso nos negócios. Mesmo em criança já programava. O próprio diz que os dados são o mais importante. Não é o carro, os pneus, o design, nada disso. São os dados. Portanto, sim, imaginar-se-ia que alguém tivesse muito mais cuidado com os dados. E, por isso, nós simplesmente não acreditávamos. Nem eu, nem o meu colega, nem o meu chefe, nem os nossos advogados. Durante semanas e semanas. Até descobrirmos que, afinal, era mesmo verdade.

Parecia-lhe, então, inacreditável que uma empresa como a Tesla, com um CEO como Musk, pudesse ser tão descuidada com os seus dados internos?
Sim, todos pensámos que era impossível. Lembro-me de falar com o meu chefe e de lhe mostrar os dados, um dos ficheiros Excel, e ele dizer ‘sim, isso parece ótimo, mas não pode ser possível, deve ser outra coisa’. Como é que sabes que não é um tipo da informática que tem um acesso superior? Como é que sabes que não é um hacker? Como é que sabes que não é um deepfake criado pelo ChatGPT? Na altura, o ChatGPT tinha acabado de ser lançado. Toda a gente falava da inteligência artificial e do mundo que teríamos se a inteligência artificial pudesse manipular tudo ou criar tudo. Já nem se podia acreditar nas imagens ou nos vídeos que víamos. Tivemos de ser extremamente, extremamente cautelosos.

Essa cautela de que fala é descrita no livro. Nele, escreve que o propósito não é mostrar apenas o que está a acontecer na Tesla, mas contar a história por detrás da história. Porque é que foi importante mostrar os bastidores? As dificuldades em confirmar a veracidade das informações e em conseguir que trabalhadores, antigos e atuais, falassem?
Para ser sincero, não foi uma ideia minha. Tal como escrever o livro não foi uma ideia minha. Um antigo jornalista, agora agente literário, veio ter comigo, tinha visto a reportagem que fizemos sobre o Lukasz Krupski, um grande perfil sobre ele enquanto denunciante. E disse-me ‘isto é um livro, tens de escrever um livro’. Eu respondi que não tinha tempo para escrever um livro. Depois, acabámos por escrever o primeiro capítulo e enviámo-lo à editora. E eles questionaram-me onde estava eu na história. Enquanto jornalista, tu não és a história. Não fazes parte da história. Mas quando me disseram aquilo, comecei a pensar. Em conjunto com o meu colega Michael [Verfürden], o coautor, percebi que para quem está fora do jornalismo isso faz parte da história. Depois, quando acabámos o livro e começámos a falar com pessoas, em livrarias e noutros espaços, diziam-nos sempre que uma das partes que mais gostavam era precisamente essa, perceber como é que o jornalismo funciona, como é que os jornalistas trabalham, o que acontece quando uma fonte liga e não pára de falar, ou, quando deixa de falar, como se faz para que volte a falar. Foi uma lição que aprendi ao escrever e depois ao vender este livro: faço parte da história, quer queira quer não.

Lukasz Krupski chegou a intitular-se “discípulo de Musk”. Agora, “é uma parte da vida que ele preferia esquecer”

Mencionou o denunciante, Lukasz Krupski. É uma peça chave na investigação, que sem ele não existiria. Foi difícil fazê-lo confiar em si? No livro explica que ele estava disposto a falar, mas ao mesmo tempo não queria levantar muito o véu, nem sequer revelar a sua identidade.
Ele tinha medo da Tesla, especificamente de Elon Musk. E dizia sempre ‘eles vão matar-me’, coisas desse género. Era um bocado exagerado. Não tenho razão nenhuma para acreditar que a Tesla tenha um assassino contratado. Mas sim, foi complicado. No início pensei que era mais do mesmo. Muitas pessoas que falam comigo não querem que eu saiba o nome delas. Ou, se souber, nunca querem que seja mencionado. E está tudo bem. Mas neste caso percebemos ao fim de algumas semanas que se publicássemos uma reportagem com base naqueles dados todos, a Tesla ia perceber de onde é que tinham vindo. Porque só havia uma pessoa no mundo inteiro que tinha acedido a todos eles. Apenas uma pessoa acedeu a todos os 23 mil documentos. Isso não seria difícil de rastrear, mesmo sendo eles tão descuidados como vimos que eram. Quer dizer, até se esqueceram de lhe tirar o portátil de trabalho. Não sei como é que isso é possível. Mas, sim, sabíamos que haveria um momento em que teríamos de contactar a Tesla com as questões que queríamos abordar. E que nessa alturas eles iam, sem dúvida, começar a analisar de que ficheiros estávamos a falar e quem tinha tido acesso a eles. E foi exatamente isso que fizeram. Foi aí que falei com o Lukasz e lhe disse que achava que isto não era evitável. Ele respondeu que sabia, mas que queria na mesma que a história fosse escrita. E assim fizemos. Seis dias depois de publicarmos a primeira história, a polícia estava em casa dele. Tudo aconteceu, de certa forma, como esperado. Nunca pensei que fosse acontecer tão depressa, a Noruega fica bastante longe do Texas, mas aconteceu.

Ainda estão em contacto? Quando foi a última vez que falaram?
Trocámos emails há cerca de duas horas. Portanto, sim, ainda estamos em contacto. Não tanto como antes. Houve uma altura em que falava muito mais com ele do que com a minha mulher [risos]. Era de dia, à noite, aos fins de semana. Sempre. Agora diminuiu e acontece por fases. Se surge um tema, ele está mais presente na minha vida — e talvez eu na dele. Depois, pode haver semanas em que não falamos, de todo.

Como geriu a relação que tinha com o denunciante durante a investigação? Ou seja, o facto de não ser um amigo, mas ser uma fonte e uma pessoa pela qual tem simpatia porque o está a ajudar?
Espero que isso fique claro no livro. Este é um dos aspetos, talvez estranhos, do nosso ofício. Aproximamo-nos das pessoas, tem de haver confiança. Já tive experiências em que a outra pessoa pensa que sou amigo dela e depois acontece alguma coisa, descubro que essa pessoa fez algo de errado, e tenho de escrever sobre isso ou reescrever a história, e aí ficam chateados, zangados, acham que os traí. Ou então dizem que estou a fazer perguntas a mais. Faz parte. Há uma parte no livro em que lhe faço [a Lukasz] todo o tipo de perguntas sobre a infância e há ali algo que ele não me conta — e não tem de contar, claro. Mas quando nos tornamos incómodos ou chatos, enquanto jornalistas, isso faz parte do trabalho. Às vezes, sinto que há duas pessoas dentro de mim: há a pessoa normal e há o jornalista. Quando ele [o denunciante] me liga e diz que a casa foi alvo de buscas e que está assustado, a pessoa pensa ‘coitado’ e dirige-lhe palavras de consolo. Mas o jornalista pensa ‘isto é ótimo, a fonte foi alvo de buscas, a Tesla chamou a polícia, há algo novo a acontecer’. E depois pensas se é suficiente para escreveres sobre isso, o que dirão os advogados, se a polícia lhe deixou algum documento a dizer porquê [que foi alvo de buscas], se ele ficou com o documento, se pode fazer uma cópia, se mo pode enviar. Tudo isto acontece quase em simultâneo. Acho que há uma expressão em francês para isso, déformation professionnelle [deformação profissional]. Há profissões em que tens de ter uma barreira entre os dois [lados, o profissional e o humano]. Mas também é verdade que a barreira está na tua cabeça. O profissional e o pessoal estão sempre interligados.

O Lukasz chegou a autointitular-se de “discípulo de Musk”. Falou com outros trabalhadores da Tesla ao longo da investigação, existe um denominador comum de admiração pelo empresário?
Bem, agora já não. Mas num certo momento das suas vidas, sim. Não posso falar por todos e certamente não falei com todos, mas falei com muitos para perceber que há esse padrão, sim. Ele é [para eles] um visionário, um ícone, um super-herói. O que é curioso é que agora o Lukasz fica quase zangado quando se usa a palavra discípulo. Acho que é uma parte da vida que ele preferia esquecer. Já não quer ser o fanboy. E claro que eu lhe digo, aliás, disse-lhe há poucas horas, que não o estou a chamar fanboy agora. Mas ele contou-me como estava mesmo feliz quando começou a trabalhar lá. Viajou da Polónia para a Noruega só para começar a trabalhar lá, mesmo ganhando menos do que podia ganhar noutro lado. Então, segundo a sua própria descrição, era um membro da seita. Acho que isso só torna a história ainda mais interessante. Porque, bem, há aquele ditado: nunca conheças os teus ídolos.

Porque podes desiludir-te…
É exatamente isso que quero dizer. Se conheceres o Michael Jordan, ou, sei lá, a Rihanna, ou quem quer que seja o teu ídolo e depois essa pessoa tem um mau comportamento, é arrogante, então acaba por ser pior para ti.

Como descreveria a cultura de trabalho da Tesla? Lembro-me de um exemplo em particular, que é sublinhado no livro. Durante uma reunião para a apresentação de resultados, Musk tem o microfone desligado enquanto está a falar e ninguém se atreve a avisá-lo.
Não sei se é uma história conhecida em português, o Rei Vai Nu [de Hans Christian Andersen]. É uma história famosa, em que alguém engana o rei, não lhe vende nada e diz-lhe que é o melhor traje que alguma vez usou. E, então, ele anda nu. E, como é o rei, ninguém se atreve a dizer-lhe. Até que passa por uma criança que diz ‘o rei vai nu’. Como é uma criança, não tem medo. Não entende que há consequências por dizer a verdade ao poder, por assim dizer. Musk é tão enaltecido, tão colocado num pedestal, que ninguém se atreve a contrariá-lo.

“Quem é Trump aos olhos de Musk? É um anão. Portanto, há um certo desdém mútuo”

No livro, a Tesla é descrita como uma “missão” para realizar todos os desejos de Musk. Está a resultar?
Não. Quer dizer, sim e não. Algumas ideias más foram implementadas, como os puxadores retráteis. Quando o técnico disse que era má ideia, Musk disse que não queria saber. Ouvi relatos de pessoas que disseram que ele entra [em reuniões], ouve durante dois minutos e depois diz ‘sabem o que têm de fazer? Têm de fazer isto, isto e aquilo’. E toda a gente à volta da mesa sabe que é impossível, mas todos acenam com a cabeça e dizem que é boa ideia. Depois, ele vai-se embora, para um dos seus outros 100 mil projetos, e as equipas continuam a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Alguém chamou a isto gestão pombo: ele voa, faz cocó em cima de toda a gente e depois vai-se embora. Também houve casos como aquele em que o piloto automático não estava a funcionar bem porque não conseguia detetar as faixas de uma parte da estrada. Ele foi ficando cada vez mais irritado porque o piloto automático não se comportava como devia. A equipa repintou a estrada durante a noite porque não conseguiu resolver o problema. Não conseguiram e ninguém se atreveu a dizer ao chefe. Ele ficou feliz quando o carro se comportou corretamente, mas não sabia que eles tinham acabado de repintar a estrada. Outro caso que também incluímos no livro foi quando Musk pensou que o carro estava a seguir um trajeto errado para o destino. Queria ter virado à esquerda e o carro queria seguir em frente e só virar à esquerda mais tarde. Então, ele disse-lhes que o piloto automático estava errado e que era preciso corrigir. Os programadores tiveram mesmo de ir ao código-fonte e dizer ao computador para não ir em frente e virar à esquerda, como Elon quer. Para ele não basta dominar a IA naquele momento. Ele quer que a IA tenha a mesma opinião que ele. Tem um ego e tanto.

Vimos isso com o Grok, o chatbot da xAI, que Musk por vezes corrige publicamente por não estar alinhado com os seus ideais.
Eu não uso o Grok, mas ouvi pessoas dizerem que o chatbot dizia que não tinha bem a certeza [das respostas sobre o que era questionado] e ia procurar o que Elon pensava sobre isso. Depois, voltava com uma resposta alinhada com Musk, o que é uma loucura porque quando ele comprou o Twitter disse especificamente que era para salvar a liberdade de expressão. Achava que estava inclinado para a esquerda, para os democratas, que era demasiado woke. E depois o que acontece é que ele torna a IA nele próprio. Depois, combinas isso com aquela afirmação dele, ao The New York Times, que a necessidade do ser humano de ser gostado é uma fraqueza que ele não tem. Diz ao público que pode odiá-lo, que não tem problema nenhum em ser odiado. Mas quando alguém o critica, ele reage como se fosse a pessoa mais sensível do mundo. Portanto, nada disto encaixa muito bem.

Como é que o Grok, chatbot de Elon Musk, aprendeu a elogiar Hitler?

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▲ Donald Trump e Elon Musk eram aliados próximos e foram protagonistas de uma zanga pública

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Quando estavam prestes a terminar de escrever o livro, Musk passa a ter um papel ativo na política norte-americana. Como é que viu o apoio à candidatura de Donald Trump?
Isso foi uma grande surpresa. Tínhamos começado a escrever há três meses e já tínhamos estruturado o livro. Sabíamos o que era o capítulo um, dois, e por aí fora. O último capítulo estava, mais ou menos, reservado para a queda [da Tesla]. Acho que foi em abril que ele anunciou que ia cortar a força de trabalho, as vendas estavam a estagnar… não estava a correr bem. As investigações estavam a decorrer e pensámos que 10% do livro era para a queda. Temos a ascensão, mais alta do que qualquer outra pessoa alguma vez subiu. Talvez Steve Jobs, mas o Steve Jobs não pôs humanos no espaço, nem os trouxe de volta. E depois julho acontece, com a tentativa de assassinato de Donald Trump. E Musk começa a entrar na política, primeiro financeiramente. E, de repente, ligas a televisão ou pegas no telemóvel e lá está ele, ao lado de Trump num palco, dia após dia, aos saltos, a pedir que Trump volte a ser Presidente. A dizer que se a Kamala Harris for Presidente será o fim dos EUA, o fim da democracia, o fim da humanidade. Ficámos surpreendidos, mas ao mesmo tempo foi completamente lógico porque ele disse, e até a mãe dele o disse, que é ‘autodefesa’. Ele achava que todas as investigação estavam erradas, que ninguém o deveria investigar. Que deviam recuar, deixá-lo fazer a sua magia e isso seria melhor para ele, melhor para a humanidade, para todos. Para pôr fim a todas as investigação estúpidas, ele tinha de pôr alguém no poder que as travasse. Antes das eleições, ele diz que Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio, tem de sair. E que o líder da SEC [o regulador] também tem de sair. E eles saem. Musk também diz que consegue cortar o orçamento das instituições que existem para o regular — e isso aconteceu e ele foi muito bem sucedido nesse aspeto. Claro, agora está a acontecer aquilo que muitos previam, que a sala era demasiado pequena para dois egos, para Trump e Musk. Não são companheiros naturais. Trump sempre foi contra os veículos elétricos, assim como é contra as turbinas elétricas. Não gosta de subsídios e de toda a ideia das energias renováveis e de tudo o que seja ambiental, proteções ambientais. E Musk, eu ainda acho e defendo que ele é superinteligente. Ele é muito, muito inteligente. É um empresário muito melhor do que Trump. Quer dizer, Trump tenta dizer ao mundo que é o maior empresário do mundo. Mas é apenas uma fantasia de televisão, das pessoas que criaram o The Apprentice. Ele não era bem sucedido, mas interpretou uma pessoa bem sucedida na televisão. E foi isso que as pessoas viram. E todos pensaram que ele era bem sucedido. Mas, quem é Trump aos olhos de Musk? É um anão. Portanto, há um certo desdém mútuo.

Mas será que Musk esperava que a Tesla fosse ressentir-se com a sua presença no governo norte-americano? Existiram protestos e a empresa chegou a desvalorizar mais do que qualquer outra de que é proprietário.
Parece que ele não pensou, de todo, nisso. Esta ideia do odeiem à vontade e de andar a dizer aos alemães que deviam na AfD, o partido de extrema-direita, dizer ao Reino Unido para libertar aquele nazi do Tony Robinson e dizer aos juízes italianos que estão errados… todas estas coisas que ele fez, incluindo uma saudação que a maior parte das pessoas no mundo interpreta como nazi, se ele realmente não tem problemas em ser odiado então parece que simplesmente não antecipou que isso podia ter repercussões negativas para a sua marca. Parece estar completamente alheio ao facto de que há uma ligação, o que é estranho, porque desde os primeiros tempos da Tesla, como também descrevemos no livro, ele ficava zangado porque achava que devia receber pelo menos o mesmo reconhecimento do que os fundadores. E depois acabou por expulsar os próprios fundadores. Portanto, sempre foi claro que Musk é a Tesla e a Tesla é Musk. Temos materiais de formação nos ficheiros da Tesla onde as pessoas são instruídas a encontrar uma maneira de incorporar mais do ADN de Elon no seu trabalho diário. Então, não antecipar que alinhar-se com os nazi poderia ter consequências negativas para o seu produto, não vejo como poderia ter ignorado isso. Mas, aparentemente, ignorou.

Como mencionou, Musk não se posicionou politicamente apenas nos EUA, mas também na Alemanha. Entretanto, disse que tem planos para criar um terceiro partido em território norte-americano. Vai acontecer ou é bluff?
Seria muito estranho ele fazer isso porque não tem nada a ver com tecnologia. Ele é um tipo da tecnologia e acho que os seus objetivos são muito mais ambiciosos. Levar a humanidade ao espaço é realmente o seu grande amor, pelo que percebi. Criar um partido é um projeto gigantesco, há tantos detalhes minuciosos em que é preciso pensar. Ele nunca se envolveu na política antes, quero dizer, até julho passado [2024]. Não sei se é apenas para provocar Trump, mas há pouco tempo soube-se que ele lhe deu mais cinco milhões de dólares. Na Alemanha, durante muito tempo, agora já não, agora temos cinco/seis partidos, mas durante muito tempo havia três partidos, os democratas cristãos, os sociais-democratas (os dois grandes) e depois havia um pequeno, os liberais, que às vezes se aliavam à esquerda. Eles tinham seis, oito, às vezes dez por cento [da votação], mas, na verdade, decidiam quem seria o chanceler [mediante o partido que escolhiam apoiar]. Se Musk conseguir oito por cento dos votos e depois disser ao Trump ou à Kamala o que quer e conseguir, acho que ele também gostaria muito dessa posição. Embora o seu ego seja sempre… ele quer sempre ser o número um e, oficialmente, continuaria a ser apenas um sócio júnior. Não sei, é muito difícil entender o que está a acontecer. Não me atreveria a fazer uma previsão.

Elon Musk tem o dinheiro, os votos libertários e um objetivo firme. O seu terceiro partido pode ameaçar a hegemonia bipartidária?

Tesla ameaçou, mas não avançou com ação judicial: “Não tivemos qualquer contacto”

Voltando a falar sobre o livro, durante a investigação enviaram questões à Tesla e a empresa emitiu uma resposta. O Sönke foi o primeiro a ver o email que enviaram. Esta foi a única vez que responderam?
Sim. Foi a única vez, até à sexta-feira [1 de agosto] em que lhes perguntámos sobre o caso da Florida. Esse caso é tão, tão grave, que diria mesmo que é histórico. Isso, claro, não está no livro, porque aconteceu há apenas alguns dias. Mas, sim, enviámos-lhes perguntas e recebemos uma carta a dizer que não podíamos usar os dados. Que se o fizéssemos, haveria problemas. Nunca mais ouvimos nada da parte deles. Nós, como jornalistas, pedimos sempre respostas ou declarações sobre as coisas que escrevemos.

Na resposta que recebem são ameaçados com uma ação legal. A Tesla chegou a avançar judicialmente?
De todo. O que aconteceu foi a rusga à casa do Lukasz. O Lukasz ainda está numa batalha judicial [com a Tesla], embora já tenha vencido, penso que, quatro vezes no total. Mas ainda está em curso. É essa a situação. Nós não tivemos qualquer contacto por parte da Tesla. E, claro, era com isso que estávamos preocupados.

E Elon Musk? Alguma vez fez comentários públicos sobre a investigação?
Ele nunca disse ‘estes alemães estão a publicar notícias falsas’ ou isto ou aquilo. Nada. Houve um caso em que noticiámos sobre as pessoas de baixa médica na fábrica alemã, que eram cerca de 17%. Que os dirigentes da Alemanha foram bater à porta de casa das pessoas doentes. Alguém tweetou sobre esta invasão às pessoas e houve um tweet de Musk a dizer que era uma loucura e que ia investigar. A história já tinha uma semana quando ele publicou isso, mas depois voltou a ganhar destaque. Isso aconteceu. E outra coisa foram as chávenas de café, quando um diretor da fábrica da Tesla na Alemanha acusou os funcionários de roubarem as suas chávenas de café. Havia muitas notícias dessa história espalhadas pelo mundo, uma pessoa tweetou e Musk respondeu ‘We were mugged!’ [trocadilho em inglês porque a palavra mug tanto pode significar chávena como assalto]. E, por causa disso, começou outra vaga de notícias sobre o assunto. Foi engraçado, admito. Claro que não consigo ler-lhe os pensamentos, mas penso que ele não quer… quantos seguidores tem agora? 220 milhões? Ele não quer chamar a atenção de 220 milhões de pessoas para um descuido. Um jornal alemão tem 100 Gigabytes da sua informação mais privada, mais confidencial, mais secreta e mais valiosa. Eu acho que foi inteligente da parte dele [manter-se em silêncio].

O desaparecimento de 65 mil chávenas de café na fábrica da Tesla na Alemanha

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Na única fábrica da Tesla na Alemanha, a determinada altura, os olhos estiveram todos postos em chávenas de café. Em julho de 2024, o jornal Handelsblatt recebeu uma gravação áudio de uma reunião de equipa, que começa com uma discussão acerca da forma como os trabalhadores devem comunicar que vão faltar por estarem doentes.

De seguida, André Thierig, o diretor da fábrica, dirige-se aos trabalhadores com um tema específico em mente: o desaparecimento de 65 mil chávenas de café. “Todos vocês esperam que o armário seja magicamente abastecido todos os dias com chávenas de café limpas e novas”, começa por dizer. “Deixem-me dar-vos um número. Desde que a produção começou aqui [na Alemanha], comprámos 65 mil chávenas de café. Sessenta e cinco mil. Estatisticamente falando, cada um de vocês tem cinco chávenas da Ikea em casa”, acrescenta.

Agora que já passou algum tempo desde o início da investigação, em 2022, e da sua publicação, como é que a Tesla mudou? Se é que mudou.
Bem, já não têm todos acesso [aos dados]. Isso acabou. Tirando isso, não acho que tenha havido muitas mudanças. Tiveram de comunicar à SEC que nós temos os dados. Quando enviámos as perguntas em maio [de 2024], um ou dois dias depois, apareceu uma mensagem interna de Musk para toda a gente a dizer que a partir daquele momento ninguém poderia ser contratado sem a sua autorização. Não há uma referência direta [à investigação], mas há, pelo menos, a coincidência temporal. A Tesla tem quase 100 mil pessoas. E uma taxa de rotatividade de 30%, 35%, às vezes mais, 40%. Como é que faz sentido uma só pessoa analisar tantas pessoas? E como é que ele faz isso? Não pode ter tantas reuniões, então olha para fotografias? Ou para emails e pensa ‘este é bom’, ‘este pode ser um denunciante’? Mas acho que muitas coisas permanecem iguais. O problema imediato dos dados estarem acessíveis a toda a gente parece estar resolvido. Tirando isso, ainda temos muito para relatar. Por outro lado, uma coisa que realmente mudou é que agora há muito mais pessoas a querer falar. Agora que já publicámos dezenas de artigos e um livro, as pessoas querem-nos contar mais sobre o que sabem. Nós sabemos muito e elas querem, por vezes, corrigir-nos ou dar-nos informações que consideram mais importantes ou querem ajudar-nos. Muitas pessoas disseram-nos que a história do Lukasz é também a história delas. Também eram fãs de Musk e ficaram desiludidas com o que aconteceu.

A nível pessoal, já conseguiu desligar-se um pouco da Tesla, agora que já não investiga a empresa 24/7?
Isso também faz parte do trabalho. Claro, levo-o para casa e, quando estou a levar os meus filhos ao futebol ou algo assim, alguém pode ligar e eu nunca deixo de atender o telefone. Mas tudo bem. Não é um peso nos meus ombros. Eu gosto.

E nunca se sente stressado? No livro diz que o stress nunca foi um problema para si.
Não. Às vezes, quando o teu chefe te diz que quer uma história diferente até à manhã do dia seguinte e tens de trabalhar a noite toda, isso é stressante. Mas faço isto há tempo suficiente para saber que stress e jornalismo são uma coisa só.

No início da nossa conversa, disse que o denunciante temia pela sua segurança, mas que não pensava que a Tesla tivesse um assassino atrás dele. E quanto a si? Alguma vez, durante a investigação, temeu pela sua segurança?
Eu, pessoalmente? Não. Não, nunca achei que isso fosse um problema. Não tenho motivos para isso.

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