A tensão entre Caracas e Washington crescia há vários meses quando, a dia 16 de dezembro, Donald Trump anunciou um novo passo: “Um bloqueio total e completo de todos os navios petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela”. Na sequência do anúncio, ainda em dezembro, a Guarda Costeira norte-americana apreendeu dois navios petroleiros, o Centuries e o Skippers, que faziam parte da lista de embarcações alvo de sanções do Departamento do Tesouro. Cinco dias depois, as autoridades norte-americanas identificaram um novo alvo: o navio Bella 1, que estava sancionado desde 2024 por alegadas ligações ao Irão.
Mas foram precisas duas semanas de “perseguição ativa” para os EUA conseguirem intercetar este petroleiro — a abordagem aconteceu apenas esta quarta-feira, muitos quilómetros a norte do Mar das Caraíbas, e já muito perto de águas islandesas. Na distância entre os dois pontos, o navio começara a navegar com bandeira russa e a ser acompanhado por um submarino, também russo. A nova bandeira e a proximidade de um submarino de Moscovo não dissuadiram a operação, relataram responsáveis norte-americanos à Reuters, que acrescenta que não há indicações de qualquer confronto entre as duas forças militares.
Porém, mesmo sem confronto, o momento é de enorme tensão, já que não há nenhuma memória recente de os Estados Unidos terem intercetado um navio da Rússia. Moscovo apressou-se a condenar “a utilização da força” contra um navio registado com bandeira russa. Ainda assim, a apreensão do petroleiro não parece ter sido uma ação ponderada de Washington contra um navio da chamada “frota fantasma” russa, mas antes uma consequência do recente ataque militar à Venezuela. “O bloqueio de petróleo venezuelano sancionado e ilícito continua em PLENO EFEITO — em qualquer parte do mundo”, escreveu o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, nas suas redes sociais, destacando a abordagem no âmbito do bloqueio à Venezuela e sem qualquer referência à Rússia.
Neste contexto, a apreensão por parte dos Estados Unidos de um navio de bandeira russa pode não levar a um escalar das tensões diretas entre os dois países, apontam os especialistas ouvidos pelo Observador. Mas isso não quer dizer que o caso seja insignificante. Pelo contrário, o incidente desta quarta-feira pôs a nu o estado muito mais complexo (e desigual) das relações entre dois países que há apenas algumas décadas dominavam de forma clara a ordem internacional.
▲ O petroleiro Bella 1 foi intercetado esta quarta-feira pelos Estados Unidos
US EUROPEAN COMMAND HANDOUT/EPA
Um único petroleiro apreendido que dá resposta a desafios dos EUA em duas frentes
O Bella 1 aproximou-se da Venezuela no final de dezembro. Segundo o site especializado TankerTrackers, seguia sem qualquer mercadoria ou petróleo a bordo. Ao ser confrontado pelo bloqueio norte-americano, recusou ser abordado e continuou navegar. Ainda no Mar das Caraíbas, os sistemas de identificação foram desligados. Quando voltaram a ser ativados, a 1 de janeiro de 2026, o petroleiro ia já no Atlântico Norte. O nome tinha sido mudado para Marinera e a tripulação tinha pintado no casco uma bandeira russa, segundo informações de fonte aberta, compiladas pelo The Guardian. Agora, em vez de ser um navio apátrida, com bandeira da Guiana, era um navio russo.
Oleg Ignatov, analista especializado na Rússia no think tank Crisis Group, diz ao Observador não compreender o que levou Moscovo a reivindicar um navio da frota fantasma, mas apresenta uma possibilidade: “Eles estavam a tentar prevenir isto que aconteceu”. Porque, ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, um navio com bandeira nacional fica protegido de ser abordado, explicou o almirante Fred Kenney, antigo diretor legal e de relações externas da Organização Marítima Internacional, ao Wall Street Journal.
Ou seja, a identificação do navio por parte da Rússia protege-o de ser intercetado e permite a Moscovo condenar a abordagem norte-americana como uma violação do Direito Internacional. “Não é uma questão retroativa, não se pode dizer que era apátrida há duas semanas, por isso vamos dizer que é apátrida agora”, acrescentou Kenney. Além da questão legal, a Rússia ativou outra precaução, ao mobilizar um submarino para acompanhar o navio que circulava em águas internacionais — a estratégia de acompanhamento e proteção já tinha sido utilizada noutros navios da frota fantasma que navegam no Atlântico.
Tendo em conta os detalhes do incidente com o Bella 1 (ou Marinera), este parece ter sido motivado principalmente pelo interesse dos Estados Unidos na Venezuela e no seu petróleo. Mas isso não quer dizer que o “pequeno” incidente não seja revelador da política externa dos Estados Unidos face à Rússia, argumenta Arkady Moshes. O analista especializado na Rússia do Finnish Institute of International Affairs (FIIA) salienta a necessidade de olhar para a relação entre Washington e Moscovo, desde o legado histórico da Guerra Fria, às ações dos anteriores Presidentes, até às recentes tentativas de mediação de Donald Trump. Daí considerar que a relação não caminha para a normalização — nem nunca caminhará, devido às diferenças estruturais. Ainda que menos assertivo, também Oleg Ignatov argumenta que “americanos e russos não estão numa trajetória de normalização, estão longe disso”.
Neste contexto estrutural, a ação dos Estados Unidos ganha uma outra leitura, mais focada na relação bilateral, argumenta Arkady Moshes ao Observador. “[Isto mostra] que Trump está a falar a sério sobre travar ou pelo menos diminuir a exportações de petróleo russo”, afirma. “Eles não estão felizes, porque sabem que as exportações de petróleo sustentam a agressão russa na Ucrânia. E tornam-se mais sérios sobre a necessidade de travar isso. É aqui que a necessidade de travar as operações dos russos podem ser somadas a outras coisas, incluindo a Venezuela”, elabora. Ou seja, com apenas uma ação, os Estados Unidos puderam responder a dois problemas, em duas partes diferentes do globo.
▲ Os analistas argumentam que Estados Unidos e Rússia não estão a normalizar as relações
SERGEY BOBYLEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL/EPA
A “inveja” de Putin e a falta de recursos que explicam o silêncio e dificultam uma resposta “simétrica”
No rescaldo do ataque norte-americano contra a Venezuela, foram várias as vozes que se levantaram contra a ação de Washington. Entre elas, a Rússia, país amigo de Maduro. Contudo, a imprensa internacional foi rápida a notar que a condenação de Moscovo não foi equivalente à de um parceiro próximo que, ainda no ano passado, assinou acordos de segurança. Mais: o próprio Vladimir Putin mantém-se em silêncio. Já esta quarta-feira, a condenação da abordagem norte-americana foi feita em primeiro lugar pelo Ministério dos Transportes, só depois pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. E o silêncio do Kremlin continua.
Oleg Ignatov aponta uma possibilidade simples para a inatividade russa: as férias do Natal, que, na tradição cristã ortodoxa, se celebra esta quarta-feira. “O primeiro dia de trabalho [depois das férias] será na próxima segunda-feira”, explica. Porém, Abbas Gallyamov, antigo redator de discursos de Putin, tem outra explicação. “Putin deve estar (im)possivelmente invejoso [de Trump]. O que Putin prometeu fazer na Ucrânia [tomar Kiev num dia], Trump fez em meia hora [na Venezuela]”, comparou o Politico. A “inveja” e a “vergonha” de Putin não são apontados apenas por antigos membros tornados críticos do regime russo. Na comunidade online próxima das Forças Armadas russas, impera o mesmo sentimento.
“A operação [na Venezuela] foi conduzida de forma competente. O mais provável é que era exatamente assim que a nossa ‘operação militar especial’ devia ter acontecido: rápida, dramática e decisiva. É difícil imaginar que [Valery] Gerasimov [Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas] planeou estar a lutar durante quatro anos”, lê-se no canal do Telegram “Two Majors”, um de múltiplos bloggers que acompanham a guerra na Ucrânia.
A guerra na Ucrânia pode ser a chave para explicar não apenas o silêncio do Kremlin sobre a Venezuela, mas a eventual resposta (ou ausência dela) à apreensão de um navio russo pelos Estados Unidos. Isto porque o esforço de guerra às portas da Rússia incapacitou Moscovo de responder militarmente noutros palcos, apontam os especialistas ouvidos pelo Observador. Todos os recursos económicos e logísticos do Kremlin estão apontados à guerra na Ucrânia, cujo desfecho “irá definir a segurança da Rússia e o futuro da Rússia”, aponta Oleg Ignatov.
Isto não quer dizer que Moscovo deixe passar em branco o incidente desta quarta-feira, apenas que não será uma resposta “simétrica”, salienta Arkady Moshes. “Eles tentarão fazer algo que consigam. Talvez criar problemas nos aliados dos EUA, nos países da NATO”, pondera. Mas os analistas colocam de lado a possibilidade de a Rússia escalar as hostilidades com os Estados Unidos em resposta, dada a falta de alternativas realistas e equivalentes à apreensão de um navio.
“Quando falamos da ‘Escalation Ladder’ [modelo que organiza de forma crescente possíveis respostas num cenário de conflito], o Ocidente, a começar pelos Estados Unidos, tem muito mais possibilidades de impulsionar [o conflito]. Se os russos quiserem responder, rapidamente terão de chegar às armas nucleares. Há muito pouco que possam fazer exceto utilizar armas nucleares ou ameaçar utilizá-las. E isso é um passo demasiado grande”, diz. Isto quer dizer, nas palavras de Oleg Ignatov, que a Rússia “vai ter de aceitar a realidade”.
Rússia abdica da esfera de influência dos Estados Unidos. Mas o contrário não se verifica
No final de 2019, a diretora para os assuntos europeus e russos da Casa Branca (à data também sob o comando de Donald Trump) disse, numa audiência perante o Congresso, que a Rússia tinha feito uma proposta aos Estados Unidos no início desse ano. Moscovo estaria disposto a cortar relações com Caracas se, em troca, os Estados Unidos abdicassem da sua esfera de influência na Ucrânia. Passados seis anos, Fiona Hill é agora analista no think tank Brookings e defende que o ataque à Venezuela abre a porta a uma nova oferta semelhante da Rússia. “Se nós temos o direito de ser agressivos no nosso quintal, porque é que eles não têm?”, questionou, citada pelo New York Times.
Na prática, uma oferta como esta seria o “regresso à política das grandes potências”, como define o Washington Post. “O que aconteceu é, até certo ponto, uma confirmação da visão russa de que a ordem liberal está a acabar e no seu lugar uma ordem global baseada em esferas de influência está a emergir”, argumentou um académico russo próximo dos círculos diplomáticos ao jornal norte-americano. Mas esta leitura da ordem global não é partilhada pelos especialistas ouvidos pelo Observador.
▲ Putin e Maduro eram "parceiros" e não "aliados", defendem os especialistas
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O Kremlin nunca confirmou sequer o relato de Fiona Hill em 2019, mas a parte improvável da oferta não é Moscovo cortar laços com Caracas. Os analistas apontam que, apesar dos acordos assinados, Maduro e Putin não eram “aliados”, mas “parceiros”. E, na hora de necessidade, a Rússia não têm interesse — ou capacidade — em defender parceiros que não conseguem defender-se a eles mesmos. A queda de Maduro, sem qualquer assistência russa é neste sentido, paralela à queda de Bashar Al-Assad na Síria em 2024. A parte improvável da oferta era mesmo que Donald Trump a aceitasse.
“Trump não está a tentar fazer outro Tratado de Tordesilhas entre Espanha e Portugal: ‘Isto é meu, isto é teu'”, desvaloriza Arkady Moshes. “O que ele está a fazer é a dizer ‘nós fazemos o que temos de fazer em qualquer parte do mundo‘”. Apesar do foco da nova estratégia de segurança nacional no Hemisfério Ocidental, no continente americano, o Presidente dos EUA não recusa intervenções noutros pontos do globo — por exemplo, o Irão — o que deita por terra a possibilidade de uma “esfera de influência” ocidental.
Mais especificamente no caso da Rússia, os Estados Unidos continuam a mostrar-se interessados em mediar o fim de um conflito na Ucrânia. “Os russos podem estar insatisfeitos com a posição atual na Ucrânia, mas não acreditam que os americanos vão abandonar a Ucrânia ou mostram sinais de que vão abandonar a Ucrânia”, considera Oleg Ignatov. O analista destaca ainda que o caso é mais “complexo” porque, apesar de os Estados Unidos insistirem no papel de “mediador”, “os russos ainda acreditam que os americanos estão a desencadear uma guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia”.
O interesse dos Estados Unidos pela Ucrânia — seja por causa da segurança europeia, seja por causa de possíveis oportunidades de negócio — foi novamente vincado esta semana, quando Washington marcou presença pela primeira vez num encontro da Coligação das Vontades e declarou o apoio ao grupo de Estados europeus que a compõem. Ao interesse norte-americano soma-se outro fator, já mencionado, que dificulta a aplicação desta “nova” ordem mundial: a desigualdade económica e militar entre Rússia e Estados Unidos. “Eles não são pares. Não são iguais. Não apenas [no que diz respeito a] navios e submarinos ou num petroleiro individual, mas estruturalmente em toda a economia”, remata Arkady Moshes.