Em mais um passo para facilitar o acesso dos doentes com obesidade aos medicamentos injetáveis já aprovados em Portugal para o tratamento da doença, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um guia, esta segunda-feira, no qual recomenda a utilização dos fármacos da classe dos GLP-1 (como o semaglutido, o liraglutido e tirzepatida). É uma posição reforçada pelo próprio diretor-geral da OMS, que defendeu que “as terapias com GLP-1 podem ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e reduzir os seus efeitos adversos”. Entretanto, o Infarmed está a realizar um estudo, a pedido do Governo, que vai avaliar a possibilidade de comparticipação destes medicamentos — uma análise que deverá ficar concluída antes do Natal e que, se for positiva, será uma ajuda decisiva para que mais doentes se possam tratar com estes medicamentos.
Em Portugal, o preço é o maior obstáculo ao acesso aos fármacos eficazes contra a obesidade, que registaram um aumento exponencial da procura nos últimos anos. Mas o Ozempic, o Trulicity e o Victoza só são comparticipados pelo SNS se usados para o tratamento da diabetes.
Além disso, estes fármacos integram uma lista de cinco já aprovados em Portugal — mas não comparticipados pelo SNS — para o tratamento da obesidade. Estão sujeitos a receita médica, mas o doente paga o preço total. Se isso mudasse, os especialistas insistem que se sentiria uma redução das doenças associadas à obesidade (cancro, doenças cardiovasculares, diabetes), o que geraria elevadas poupanças ao SNS.
▲ OMS considera que tratamentos com GLP-1 podem "ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade" e insta a comunidade global a aumentar o acesso
SALVATORE DI NOLFI/EPA
Que decisão foi tomada pela OMS e que impacto poderá ter?
A OMS recomendou pela primeira vez a utilização de uma classe de medicamentos no tratamento da obesidade. Trata-se dos chamados GLP-1, fármacos injetáveis que permitem imitar os efeitos da GLP-1 (uma hormona que estimula a produção de insulina), controlando, dessa forma, os níveis da glicose em pessoas com diabetes tipo 2 e levando à perda de peso.
“A obesidade é um grande desafio global de saúde que a OMS está empenhada em enfrentar, apoiando países e pessoas em todo o mundo para a controlar de forma eficaz e equitativa. As nossas novas diretrizes reconhecem que a obesidade é uma doença crónica que pode ser tratada com cuidados abrangentes e ao longo da vida”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Por isso, o organismo publicou um guia em que aponta que os agonistas dos recetores de GLP-1 ou os agonistas duplos GIP/GLP-1 podem ser usados como “tratamento de longo prazo para a obesidade”. A OMS sublinha que existe evidência do benefício de pelo menos três substâncias ativas no tratamento da obesidade: o semaglutido (a substância que compõe o Ozempic e o Wegovy), o liraglutido e a tirzepatida. “Embora a medicação sozinha não resolva essa crise global de saúde, as terapêuticas com GLP-1 podem ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e reduzir os danos associados”, refere a OMS, defendendo que estes tratamentos, usados para tratar a diabetes e a obesidade, sejam universalmente e financeiramente acessíveis.
“As novas diretrizes apelam à comunidade global para que considere estratégias para ampliar o acesso, como aquisição conjunta, preços escalonados e licenciamento voluntário, entre outras”, lê-se no comunicado divulgado pela OMS na passada segunda-feira.
A OMS incluiu em setembro estes medicamentos na lista de medicamentos essenciais — que conta com 523 fármacos para adultos e 374 para crianças — que a organização considera indispensáveis para um sistema de saúde básico e universal.
Para os especialistas ouvidos pelo Observador, esta tomada de posição da OMS é um importante passo no sentido de pressionar os governos a aumentar o acesso dos doentes com obesidade a estes fármacos. “Pela primeira vez de uma forma clara, a OMS vem reconhecer que a obesidade tem tratamentos farmacológicos certificados. E pede aos governos que os doentes possam ter acesso a eles, seja através de uma maior produção ou menores custos”, diz o cirurgião Gil Faria, especialista em cirurgia da obesidade. O médico, do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, considera que esta recomendação “fará com haja maior interesse em comparticipar os fármacos contra a obesidade ou em negociar com os fornecedores melhores condições”.
Uma posição corroborada pelo presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). “Esta publicação da OMS é uma mais-valia e pode sensibilizar os governos no sentido de terem uma visão diferente”, antecipa José Silva Nunes.
Quais os fármacos indicados para o tratamento da obesidade?
Neste momento há cinco fármacos indicados para o tratamento da obesidade em Portugal, segundo o Infarmed. Trata-se do Wegovy (semaglutido), do Saxenda (liraglutido), do Mounjaro (tirzepatida, sendo que os três são da classe dos GLP-1), do Mysimba (bupropiona + naltrexona) e do Beacita (orlistato). Nenhum destes fármacos tem comparticipação.
O mais recente é o Wegovy, na formulação de 2,4 mg, com um custo de cerca de 245 euros. Este fármaco, disponível em Portugal desde abril de 2025, tem uma eficácia comprovada, permitindo uma perda de peso média de 17%. Tem ainda benefício na redução do risco cardiovascular, segundo o estudo SELECT. O Wegovy é constituído pela mesma substância ativa do conhecido Ozempic mas a dose é reforçada. É também produzido pela mesma farmacêutica, a ‘gigante’ dinamarquesa Novo Nordisk.
Já quanto ao Saxenda, disponível desde 2015, o custo é semelhante, rondando os 244 euros. Segundo a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês), este fármaco, também produzido pela Novo Nordisk, demonstrou ser eficaz na “redução do peso corporal em 5 estudos principais”, com uma média de redução de peso de 7,5%.
▲ O Wegovy tem a mesma substância ativa que o Ozempic (o semaglutido), numa dosagem superior, e não é comparticipado. Cada embalagem custa 245 euros
UCG/Universal Images Group via G
Já o Mounjaro é o mais caro de todos os fármacos para combater a obesidade disponíveis em Portugal. Fabricado pela norte-americana Eli Lilly, na sua formulação mais potente (de 15 mg) pode custar 430 euros. Na mais vendida, a de 10 mg, o preço atinge os 337 euros. Do ponto de vista da proporção de perda de peso, os dados de um estudo partilhados no Congresso Europeu de Obesidade de 2025 apontam para uma redução média do peso corporal entre os 9 e os 31% com a toma de Mounjaro, resultados que se poderão manter até três anos depois do tratamento.
Já o Mysimba, disponível em Portugal há uma década, tem um custo de 124 euros, mas não é tão eficaz como os concorrentes mais diretos. “Em três dos estudos, a perda média de peso nos doentes tratados com o Mysimba variou aproximadamente entre 3,7 e 5,7 %”, sublinha a EMA.
O Beacita é o mais antigo dos fármacos aprovados em Portugal para a obesidade. Comercializado por várias farmacêuticas, tem um custo a rondar os 30 euros por embalagem. O estudo Alli concluiu que os pacientes que tomaram o orlistato registaram uma perda média de 4,8 Kg de peso corporal ao fim de um ano, comparativamente a uma perda de 2,3 kg nos pacientes que receberam placebo.
Qual o custo associado à obesidade em Portugal?
Em Portugal, os custos totais associados à obesidade são difíceis de contabilizar, dada a abrangência dos efeitos negativos da doença, mas há algumas estimativas que podem dar uma ideia da dimensão do impacto económico da doença. Um estudo feito pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) estima custos diretos anuais na ordem dos 1,14 mil milhões de euros. Em 2021, o Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa estimou os custos totais da obesidade num valor semelhante: 1,2 mil milhões de euros. As doenças relacionadas com a obesidade que mais contribuem para este custo são a diabetes, o acidente vascular cerebral, a doença cardíaca isquémica e a doença renal crónica.
Outras estimativas, citadas pelo cirurgião Gil Faria, indicam que o tratamento da obesidade e das doenças associadas “corresponde a 10% de todos os gastos em saúde, cerca de 1,5 mil milhões por ano”.
Gil Faria sublinha o impacto que a obesidade pode ter na saúde global de cada pessoa, nomeadamente potenciando o aparecimento de outras doenças. “Ter obesidade aumenta em 80% o risco de diabetes, em 40% o risco de cancro, em 70 a 80% o risco de uma doença cardiovascular. E sabemos que o cancro e as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal”, lembra o especialista, vincando que “tratar a obesidade, significa prevenir outras doenças”.
Os fármacos contra a obesidade vão ser comparticipados?
Tudo indica que sim. Há anos que os endocrinologistas e associações de doentes pedem a comparticipação dos medicamentos contra a obesidade. Em 2024, as duas maiores sociedades científicas da área (a SPEO e a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo) apelavam à existência de “vontade política” para que os fármacos fossem comparticipados. Para o endocrinologista José Silva Nunes, o uso destes fármacos tem várias vantagens. “Tem benefícios demonstrados em termos de saúde, na redução de doenças associadas à obesidade, mas também em termos financeiros. Este investimento inicial colhe frutos no futuro”, sublinha o presidente da SPEO, alertando, no entanto, que os resultados demoram alguns anos, senão décadas, a surgirem.
Para os médicos que lidam diariamente com utentes com obesidade, não restam dúvidas: a comparticipação permitiria aumentar o acesso ao tratamento (particularmente no que diz respeito às classes sociais mais desfavorecidas, que são também aquelas mais atingidas pela obesidade) e melhorar os cuidados, evitando ao mesmo tempo que o SNS tivesse de suportar, anos mais tarde, os encargos relativos às doenças potenciadas pela obesidade. “A alternativa é que as pessoas continuem a viver com obesidade, e continuarmos a gastar dinheiro mais tarde a tratar as doenças associadas”, vinca também Gil Faria.
O presidente da SPEO sublinha que o Governo informou que, até ao final de 2025, alguns destes fármacos seriam comparticipados. “Este ano, a Secretária de Estado da Saúde [Ana Povo] comunicou que até ao final de 2025 teríamos comparticipação dos fármacos contra a obesidade”, relata José Silva Nunes, que tem a expectativa de que a promessa ainda se possa concretizar.
Para avaliar a comparticipação, o Ministério da Saúde precisa de ter um parecer técnico que suporte a decisão. No dia 6 de novembro, a Secretária de Estado da Saúde solicitou formalmente à Autoridade Nacional do Medicamento, o Infarmed, a realização de um estudo de avaliação económica, que está já em andamento. “Estamos a trabalhar para entregar o estudo à tutela como pedido”, diz fonte oficial do Infarmed, adiantando que o prazo máximo para a conclusão dos trabalhos é o dia 22 de dezembro.
Esta quarta-feira, numa ação para promover a vacinação sazonal, a ministra da Saúde deixou indicações nesse sentido. Quanto questionada sobre as novas diretrizes da OMS, que recomendam que estes fármacos sejam mais acessíveis (nomeadamente a nível financeiro) Ana Paula Martins disse que “é uma recomendação que quer o Infarmed, no âmbito dos peritos que avaliam os medicamentos e as suas indicações, quer a Direção Geral da Saúde, que olha os processos assistenciais integrados, terão em conta”.
“Tem de ser avaliado pelos peritos e tem de estar dentro das indicações definidas pela DGS para situações consideradas graves, onde se comprove que há o tal custo-efetividade”, sublinhou a ministra. No fundo, os peritos do Infarmed estão a avaliar se os custos com a comparticipação dos medicamentos para tratamento da obesidade poderão compensar relativamente à despesa gerada pela a doença e pelas comorbilidades associadas, e em que situações.
No entanto, a comparticipação deverá ser limitada, com restrições quer no que diz respeito ao nível de compartipação atribuída quer nos grupos de doentes com obesidade abrangidos.
Segundo José Silva Nunes, o Ministério da Saúde deverá optar por restringir quer o nível de comparticipação atribuída (que deverá ficar no patamar mais baixo, nos 37% do valor total) quer os grupos de doentes que podem aceder aos fármacos com comparticipação.
“A abertura para comparticipação vai aplicar-se a todos os fármacos. No entanto, é provável que tenhamos restrições. Noutros países a comparticipação é utilizada só a partir de um determinado índice de massa corporal ou está dependente do local de prescrição ou só pode ser feita por algumas especialidades médicas”, diz o também diretor do serviço de Endocrinologia da Unidade Local de Saúde de São José, antecipando que as mesmas restrições sejam adotadas também em Portugal.
Em novembro, a propósito da publicação do Programa Nacional de Prevenção e Gestão da Obesidade Secretária de Estado da Saúde, Ana Povo salientou à Lusa que, “mesmo restringindo a comparticipação dos medicamentos a uma população com grau de obesidade II e III [os mais graves], a despesa seria superior a 600 milhões de euros/ano”, um valor cerca de quatro vezes superior a “todos os gastos atuais com doenças cérebro-cardiovasculares em Portugal, que rondam os cerca de 115 milhões de euros”. Fonte do gabinete de Ana Povo esclarece que o valor avançado pela governante é o cenário numa situação em que os preços se mantivessem iguais aos atuais — o que não é provável, uma vez que, com o aumento do acesso e do número de embalagens vendidas, o preço deverá baixar, por via das negociações entre os governos e as farmacêuticas.
O Observador sabe que a intenção da tutela é avançar com a comparticipação dos fármacos aprovados para o tratamento da obesidade.
Se a decisão do Governo for a restrição da comparticipação por graus de obesidade, deixando de fora todos os doentes com grau I, o menos grave (e que são a maioria dos doentes com obesidade), José Silva Nunes considera que não é a melhor decisão. “Se for essa a decisão, vai deixar de fora a maioria da população, de classe I, que já tem a doença e comorbilidades associadas, e que não é elegível para tratamento farmacológico nem para cirurgia. Vamos esperar que essas pessoas ou deixem de ser obesas ou teremos que evoluam para outros graus para depois tratar”, critica o médico, vincando que não subscrevo essas limitações. Isto apesar de ressalvar, no entanto, que, havendo 2,3 milhões de pessoas com obesidade em Portugal, “se todas procurassem tratamento, era incomportável para o SNS”.
Como evoluiu a procura por Ozempic?
A despesa do SNS com o fármaco Ozempic — indicado para o tratamento da diabetes, mas frequentemente prescrito para a perda de peso — disparou nos últimos dois anos, tendo atingido, em 2024, quase 40 milhões de euros. Os dados foram enviados ao Observador pelo Infarmed dias depois de ter sido conhecido o caso da endocrinologista Graça Vargas, que terá registado prescrições de mais de 9 milhões de euros só com este fármaco e poderá ter lesado o Estado em pelo menos 3 milhões nos últimos 11 anos.
Em 2024, a despesa com as comparticipações de Ozempic chegou a cerca de 39,4 milhões de euros, um aumento ligeiro em relação a 2023 (ano em que o valor gasto foi de 37,5 milhões de euros). No entanto, se a comparação for feita com o ano de 2022, a evolução da despesa é expressiva. Nesse ano, os gastos do SNS com as embalagens de Ozempic vendidas nas farmácias comunitárias foram de cerca de 27,3 milhões de euros. Ou seja, num período de dois anos, a despesa com este fármaco aumentou 44%. O nível de procura levou a Autoridade Nacional do Medicamento a admitir que o mercado enfrenta uma “situação de escassez” deste medicamento, com as farmácias a reportarem várias falhas.
O Ozempic é, de resto, o quinto medicamento que mais despesa gera para o SNS. Comercializado em Portugal desde 2021, foi no ano seguinte que se verificou um grande aumento da despesa do SNS com o Ozempic — o que levanta a hipótese de ter começado a ser prescrito, como no caso da médica Graça Vargas, a não diabéticos para a perda de peso, apesar de o sistema só permitir que seja comparticipado para diabéticos. O elevado volume de prescrições do fármaco fora das indicações aprovadas fez a despesa do SNS disparar em 2022 e anos seguintes. Com um custo de 106,85 euros, o Ozempic é comparticipado a 90% pelo erário público.
A utilização off label (ou seja, para tratar a obesidade, uma patologia não incluída nas indicações oficiais) deste medicamento generalizou-se, o que tem levado à rutura de stock do Ozempic (nome comercial do semaglutido) em vários países, nomeadamente em Portugal.
Em 2025, o Infarmed adianta que “foi notificada uma rutura para a dosagem de 0.5 mg/0.37 ml e uma rutura para a dosagem de 1 mg/0.74 ml”, ambas resolvidas através da “aprovação de introdução de medicamento com rotulagem em língua estrangeira”. Contudo, alerta o regulador, o Ozempic apresenta um elevado número de faltas notificadas pelas farmácias, isto é, encontra-se numa “situação de escassez, porque as quantidades colocadas no mercado pela empresa responsável não são suficientes para a elevada procura que se regista atualmente”.
Ao Observador, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, que comercializa o Ozempic, garante que tem sido possível assegurar o fornecimento do medicamento. “Nos últimos meses, a Novo Nordisk tem implementando diferentes medidas que têm permitido o aumento, constante, da disponibilidade do medicamento indicado para o tratamento da diabetes tipo 2″, assegura fonte oficial da empresa em Portugal.
A Novo Nordisk destaca que, “apesar da elevada procura por medicamentos pertencentes à classe dos agonistas de recetores de GLP-1 em toda a Europa, incluindo em Portugal, a colaboração entre todas as partes envolvidas, numa gestão partilhada da disponibilidade dos medicamentos desta classe terapêutica, tem permitido assegurar o fornecimento contínuo e de forma crescente de arGLP-1 [antagonistas dos recetores da GLP-1] da Novo Nordisk à população que deles beneficia”.