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“Terei isso feito em 24 horas“. A promessa de Donald Trump para pôr fim à guerra na Ucrânia no dia seguinte à sua tomada de posse tinha sido repetida ao longo de toda a campanha eleitoral. Mas, quase um mês depois depois de ter regressado à Casa Branca, a promessa continua por cumprir. Ainda assim, o Presidente norte-americano deu um impulso sem precedentes para alcançar um acordo de paz: esta terça-feira norte-americanos e russos reuniram-se pela primeira vez desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022.
Com as negociações finalmente em curso, o Presidente norte-americano terá estabelecido um novo prazo: o fim da guerra antes da Páscoa, que este ano acontece no dia 20 de abril. Porém, a nova promessa poderá ser igualmente difícil de cumprir, dadas as exigências incompatíveis de Kiev e Moscovo para aceitarem o acordo que está na cabeça de Trump.
Logo à partida, o Presidente Volodymyr Zelensky desenhou uma linha vermelha sobre o facto de a reunião desta terça-feira ter sido bilateral e não ter incluído uma representação ucraniana (nem da União Europeia). “Quero deixar isto muito claro aos nossos aliados: quaisquer negociações bilaterais sobre a Ucrânia sem nós, não aceitaremos”, afirmou o Chefe de Estado ucraniano na passada quinta-feira.
▲ Encontro entre norte-americanos e russos, em Riade
X/mfa_russia
A inclusão de Kiev nas negociações de paz com Moscovo não é o único plano de Zelensky que não se cumpriu desde que Donald Trump tomou posse. A administração Biden tinha dois objetivos para a Parceria Estratégica entre Estados Unidos e Ucrânia: a preservação das fronteiras e a abertura do caminho para a adesão à NATO e à União Europeia. Já a administração Trump considera estas duas medidas como “irrealistas“.
Por outro lado, Trump pôs em cima da mesa um plano novo para explorar recursos ucranianos (os das ricas terras) em troca de apoio militar e financeiro, que deixou Kiev “em pânico“. “Em resposta, Zelensky está a andar num arame diplomático que não é invejável“, avalia o correspondente do The Guardian em Kiev. O equilíbrio é entre manter Trump satisfeito, para que este não retire o apoio, sem sacrificar as suas exigências para a paz. Tudo isto enquanto o Presidente norte-americano se vira em primeiro lugar e se aproxima do seu adversário, Vladimir Putin.
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Fronteiras. Avanços e recuos no terreno e à mesa das negociações
“O apoio da soberania, independência, integridade territorial e inviolabilidade das fronteiras constitui a fundação das nossas relações bilaterais”. Este é o primeiro princípio da Carta de Parceria Estratégica entre Estados Unidos e Ucrânia, assinada em dezembro de 2008. Desde fevereiro de 2022, Volodymyr Zelensky e Joe Biden fizeram eco um do outro sobre este tema e garantiram que a entrega dos territórios ocupados do Donbass à Rússia não era uma opção para pôr fim à guerra.
Mas quase três anos de guerra corroeram as convicções ucranianas e, no final do ano passado, Zelensky reconheceu que a prioridade já não era retomar o controlo dos territórios ocupados, mas garantir a segurança da parte ocidental do país que ainda controla. Este lema “um povo, não um território” reúne consenso entre a maior parte dos ucranianos, mas não é universal.
▲ Biden sempre definiu a integridade territorial da Ucrânia como um tópico em que não se devia ceder
AFP via Getty Images
“Tendo em conta a quantidade de vítimas que esta guerra já teve, pôr-lhe um fim nas condição de outras pessoas [é inaceitável]. Então, por que é que os soldados ucranianos morreram e por que é que defenderam esses territórios”, questionou Oleksandr Sokhatskyi, um ucraniano ouvido pela CNN.
Com o desenvolver de uma guerra de atrito — os avanços no terreno são cada vez menos e mais lentos —, a Ucrânia procura apresentar soluções realistas. Uma delas é a possibilidade de uma troca de territórios: a Ucrânia devolve Kursk e a Rússia devolve territórios no Donbass. A proposta não demoveu Moscovo, mas o analista russo Dmitry Oreshkin considera que é exequível. “Sair da guerra com parte do seu território ocupado por forças ucranianas seria demasiado humilhante para Putin”, afirmou ao Kyiv Independent.
Desde o início da guerra, Zelensky foi-se mostrando mais flexível, ao apresentar alternativas para alcançar um acordo de paz. Porém, o objetivo a longo prazo nunca deixou de ser o que foi assinado com os Estados Unidos em 2008, da manutenção da integridade territorial. Agora, Washington já não acredita nesta possibilidade.
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“Regressar às fronteiras da Ucrânia pré-2014 é um objetivo irrealista e perseguir esse objetivo só prolongará a guerra e causará mais sofrimento”, afirmou o secretário da Defesa norte-americano na passada quarta-feira. A referência a 2014 exclui de um acordo não só o controlo ucraniano do Donbass, mas também da Crimeia, anexada ilegalmente pela Rússia nesse ano.
Soldados ucranianos argumentaram à CNN que a cedência aos desejos de Putin relativamente ao controlo dos territórios ucranianos lhe dá impunidade para uma nova invasão no futuro — tal como aconteceu depois de Minsk. Os Acordos de Minsk foram assinados em 2015 com o objetivo de instaurar um cessar-fogo entre tropas russas e ucranianas na Crimeia.
“Na superfície, os Acordos de Minsk pareciam uma forma razoável de não fazer escalar a guerra. (…) Mas não continham nenhum mecanismo para exigir o seu cumprimento, por isso um cessar-fogo nunca foi implementado”, avalia o jurista Mykhailo Soldatenko, num artigo do Carnegie Endwoment for International Peace. Soldatenko argumenta que o falhanço dos Acordos de Minsk deve servir de lição para a atual ronda de negociações. “Depois da experiência de Minsk e da guerra que se seguiu, a Ucrânia não se pode dar ao luxo de confiar apenas na ‘promessa de pergaminho’ da Rússia”, finaliza.
Adesão à NATO. Garantias de segurança e promessas que não foram feitas
Tenha ou não lido o artigo do jurista ucraniano, Volodymyr Zelensky implementou a política de não confiar nas promessas russas. Mais: apelou a todos os seus aliados que não confiem nas promessas de Vladimir Putin. Mas Trump garantiu que confia nos desejos de paz do Presidente russo.
Com os avisos do Chefe de Estado ucraniano a caírem no vazio, Kiev prepara as suas próprias salvaguardas, caso as cedências territoriais se venham a confirmar. Estas assumem a forma de “garantias de segurança”. “Uma garantia de segurança (ou ‘obrigação de defesa coletiva’ em jargão legal) constitui a obrigação de Estados terceiros ajudarem a defesa da Ucrânia em caso de um ataque armado”, elabora Mykhailo Soldatenko no seu artigo.
Quando reconheceu a possibilidade de fazer cedências territoriais, Zelensky colocou em cima da mesa a garantia desejada: a adesão à NATO. A entrada de Kiev na Aliança Atlântica é uma linha vermelha do Kremlin, mas o pedido do Presidente ucraniano não parecia exagerado. Em agosto do ano passado, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou que a Ucrânia estava num “caminho irreversível para a adesão” à Aliança. E Joe Biden, mesmo não sendo o maior apoiante da adesão rápida, continuava a citar a Carta de Parceria de 2008, em que uma adesão futura está prevista na secção II.
Seis meses depois, os homens em ambos os cargos mudaram e a narrativa também. Na semana passada, o novo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, destacou que a promessa da adesão não foi feita no âmbito do acordo de paz com a Rússia. “A NATO comprometeu-se com a futura adesão da Ucrânia, mas nunca foi acordado que as conversações de paz terminariam definitivamente com a adesão à NATO. Isso nunca foi acordado. Poderia ser, mas nunca foi declarado de forma tão clara”, esclareceu Rutte numa conferência de imprensa na Cimeira de Segurança de Munique.
Outros esclarecimentos foram deixados, durante o mesmo evento, pelo secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth. Na mesma ocasião em que classificou as fronteiras de 2014 como “irrealistas”, Hegseth utilizou a mesma expressão para também se referir à adesão à Aliança Atlântica. No dia seguinte, recuou e esclareceu que “todas as opções” estavam “em cima da mesa”, mas sublinhou que “a nova administração norte-americana quer primar pelo realismo no diálogo”.
Igualmente realista, Zelensky propõe garantias de segurança alternativas à rápida adesão à NATO, que parece cada vez mais distante. “Vamos fazer assim: devolvam-nos as armas nucleares, deem-nos sistemas de mísseis, ajudem-nos a financiar um exército forte com um milhão [de soldados] ou enviem os vossos contingentes para as partes do nosso país onde queremos estabilidade para que as pessoas se sintam seguras”, sugeriu durante uma entrevista no início do mês com o britânico Piers Morgan.
▲ Pete Hegseth e Mark Rutte, no grupo de contacto com a Ucrânia, em Munique
OLIVIER HOSLET/EPA
A preferência de Kiev parece pender para o armamento nuclear, do qual a Ucrânia abdicou nos Acordos de Budapeste de 1994, no âmbito do tratado de não-proliferação de armas nucleares. Contudo, nenhum dos aliados de Kiev respondeu a esta proposta. Mais realista será a última sugestão de Zelensky. A ideia de enviar tropas de manutenção da paz para a Ucrânia foi apresentada pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, há um ano, e é agora, novamente, tema de conversa, especificamente em relação a tropas europeias.
O encontro bilateral entre Moscovo e Washington não foi alvo de críticas apenas em Kiev. Em Bruxelas, a União Europeia sente que está a ser deixada de lado nas negociações da paz para uma guerra que está a acontecer no seu continente e da qual não quer perder o controlo. Numa tentativa de contrariar essa tendência, vários líderes europeus reuniram-se em Paris esta segunda-feira para discutir o processo de paz na Ucrânia e qual pode ser a contribuição da UE. Ficou já marcado um segundo encontro para quarta-feira.
A vontade europeia de afirmação não foi mal recebida na reunião em Riade. Os Estados Unidos afirmaram que, “em algum momento”, a UE terá de fazer parte das negociações de paz, enquanto a Rússia notou que uma vez que não se trata de uma aliança de segurança — como a NATO —, é um “direito soberano” da Ucrânia juntar-se à UE e não apresentou qualquer oposição à adesão ucraniana à comunidade europeia. No entanto, Moscovo já tinha afirmado que, neste momento, está focado é no diálogo com Washington. Já Zelensky não abdica do seu aliado mais poderoso — militar e economicamente. “Garantias de segurança sem a América não são garantias de segurança reais”, afirmou o Presidente ucraniano em entrevista ao The Guardian na semana passada.
Exploração de recursos. O plano de Zelensky para aliciar Trump, que se virou contra Kiev
“O modus operandi de Trump tem sido lidar com a pessoa mais poderosa da sala e ignorar os outros atores”, escreviam dois professores de Direito norte-americanos num artigo publicado no final do ano passado. A previsão confirmou-se este mês, quando a administração norte-americana privilegiou o contacto e posterior encontro com o Kremlin e só depois contactou Zelensky.
A par da aproximação de Trump a Moscovo, a Casa Branca terá planos bem delineados para o futuro da Ucrânia. Ainda antes da eleição de Donald Trump, Zelensky visitou a Trump Tower em Nova Iorque e propôs que os Estados Unidos explorassem terras-raras na Ucrânia, minerais com utilização em tecnologia, que se encontram em jazigos não explorados no Donbass. Isto seria uma forma de pagar pela manutenção do apoio militar norte-americano. “Os americanos ajudaram mais e por isso merecem mais”, explicou, posteriormente, em entrevista à Reuters.
▲ Encontro entre Zelensky e Vance, depois do qual Kiev rejeitou a proposta de Trump
Presidência da Ucrânia
Porém, quando a administração Trump partiu desta ideia e traçou um plano concreto, Zelensky leu-o e recusou-o. “Não deixei os meus ministros assinar o documento, porque, na minha visão, não nos protegia e aos nossos interesses”, afirmou o Presidente ucraniano no sábado, depois de se ter reunido com o vice-presidente norte-americano, JD Vance. “É um acordo colonialista“, justificou um antigo oficial ao Washington Post.
Isto porque a versão norte-americana do acordo não previa apenas a exploração de recursos minerais, mas de portos, infraestruturas, petróleo e gás, revelou o The Telegraph, que teve acesso ao documento “confidencial”. Os Estados Unidos ficariam com 50% de todas as receitas atuais e 50% do valor financeiro de todas as futuras licenças de exploração, com lucros na casa dos 500 mil milhões de dólares (cerca de 479 mil milhões de euros).
O valor vai muito além dos 175 mil milhões de dólares que os Estados Unidos já investiram na Ucrânia, dos quais 40% em produção de armas no país, pelo que tiveram retorno interno. Os termos do acordo são mais pesados para a Ucrânia do que as sanções impostas à Alemanha e ao Japão em 1945, após a derrota na II Guerra Mundial, expõe o jornal.
Ao longo de quase três anos, Volodymyr Zelensky desdobrou-se em alternativas. Aceitou cedências territoriais em troca da adesão à NATO. Quando o processo de adesão não se revelou rápido o suficiente, pediu garantias de segurança. Washington deu um passo atrás no apoio e o Presidente ucraniano pôs em cima da mesa um plano aliciante com retorno económico. Agora que o plano foi transformado num projeto de exploração de pendor colonialista, não parecem restar opções a Kiev.
Leonid Ragozin, antigo correspondente russo da BBC em Moscovo, faz uma leitura pouco animadora desta sucessão de acontecimentos. “As opções que restam à Ucrânia são todas sombrias. Isso ficou patente no discurso de Zelensky na Conferência de Segurança de Munique, que pretendia ser uma demonstração de desafio, mas que roçou no desespero”, escreveu num artigo de opinião na Al Jazeera.
Enquanto a Ucrânia tenta manter à tona a relação com o seu maior aliado, os Estados Unidos ocupam-se a fazer progressos nos diálogos com Moscovo. Um dos negociadores russos avançou que o encontro desta terça-feira “correu bem“. “Foi um processo de como avançar, algumas medidas económicas conjuntas que também podemos tomar no futuro e, definitivamente, resolver diferentes questões políticas”, relatou outro dos negociadores russos.