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Foi uma hipótese colocada em cima da mesa. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, propôs, no início desta semana, “trocar territórios” com a Rússia num possível acordo de cessar-fogo. O Kremlin cedia algumas parcelas das regiões que controla dentro da Ucrânia, ao passo que Kiev faria o mesmo com os avanços que fez em terras russas. Para os ucranianos, seria o princípio de um acordo justo — para os russos é algo impensável. Apesar de Moscovo ter dito não a este ponto da proposta, diplomaticamente, por conta dos esforços do Presidente norte-americano, Donald Trump, a guerra pode estar mais perto do fim. Porém, no campo de batalha, a situação está longe de estar resolvida.
No Donbass, no leste da Ucrânia, os russos continuam a avançar lentamente. O ponto mais quente do conflito localiza-se em redor de Pokrovsk, na província de Donetsk. Enquanto a Rússia garante ter o controlo daquela cidade, Kiev recusa um cenário de rendição de um importante ponto logístico. “A batalha por Pokrovsk ainda está ativa e está a ser bastante intensa. Está a ter lugar a sul e a sudoeste”, afirmou esta quinta-feira um porta-voz das Forças Armadas da Ucrânia, Viktor Trehubov.
Já dentro da Rússia, a Ucrânia prossegue com a ofensiva na região fronteiriça de Kursk, perto de Sumy. Entre avanços e recuos registados desde o início da operação militar que surpreendeu o Kremlin em agosto de 2024, Kiev mantém o controlo de 500 quilómetros quadrados na província russa. Ainda que garanta que não deseja ficar com territórios da Federação Russa, as autoridades ucranianas reconhecem que o controlo de parte da província de Kursk é uma vantagem — que querem usar como moeda de troca.
▲ Pokrovsk é o ponto mais quente da linha da frente na guerra na Ucrânia
STATE EMERGENCY SERVICE OF UKRAINE HANDOUT/EPA
Esta quarta-feira, após ter falado ao telefone com o Presidente russo Vladimir Putin, Donald Trump declarou a abertura imediata das negociações de paz. No terreno, por sua vez, quase três anos depois de o conflito ter começado — após os fulminantes avanços russos nos primeiros dois meses da guerra e de uma contraofensiva ucraniana bem sucedida até ao final de 2022 —, têm-se assistido a avanços lentos, que não deixam, contudo, de representar um elevado custo para Moscovo e Kiev.
A Rússia pode estar na ofensiva no Donbass, mas não significa que esteja a fazer ou a consolidar ganhos territoriais. A Ucrânia mantém-se à defesa e os avanços são limitados em Kursk, tendo a ofensiva perdido o efeito surpresa. Neste momento, o que controla cada uma das partes?
Rússia tem Lugansk praticamente controlada e sonha com Donetsk, Zaporíjia e Kherson
Existem quatro províncias dentro da Ucrânia que a Rússia deseja controlar totalmente: Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporíjia. Em setembro de 2022, Moscovo organizou quatro referendos — não reconhecidos pela generalidade da comunidade internacional — para integrar aquelas regiões dentro da Federação Russa. O ‘Sim’ ganhou de forma convincente (apesar das suspeitas de fraude) em todos eles e, desde aí, o Kremlin entende que aqueles territórios são seus, fazendo tudo para militarmente os controlar.
▲ O referendo em 2022 que integrou Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporíjia na Federação Russa
STRINGER/EPA
No terreno, ainda assim, esse cenário está longe de se concretizar. Apenas a província de Lugansk, uma das que integra o Donbass, a par de Donetsk, está praticamente sob controlo russo — cerca de 99%. Todas as restantes estão parcialmente controladas pela Rússia, apesar de a invasão total à Ucrânia ter começado há três anos.
Ainda assim, a guerra no Donbass começou efetivamente em 2014. Após a anexação da Crimeia, milícias pró-russas iniciaram um conflito no leste da Ucrânia, controlando parcelas do Donbass perto da fronteira com a Rússia. Desde o começo da invasão de larga escala, a 24 de fevereiro de 2022, as tropas de Moscovo deram uma nova força a essa ofensiva, conquistando vários territórios em Lugansk e Donetsk.
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A Rússia dominava militarmente nos primeiros dias da guerra; no norte, em Kharkiv, Chernihiv e Sumy, desde território bielorrusso, os militares da Rússia avançavam rumo a Kiev. No sul, em Kherson e Zaporíjia, Moscovo também avançava sem grande contestação.
Caso a Rússia tivesse controlado Kiev e tivesse substituído a presidência por uma figura próxima do Kremlin, a guerra teria terminado rapidamente devido às cedências que essa figura (que se especula que tivesse sido Viktor Medvedchuk, amigo pessoal de Vladimir Putin) faria a Moscovo; esse era, aliás, o plano inicial do Presidente russo. Ora, isso não aconteceu: em grande parte por causa do apoio militar do Ocidente, Volodymyr Zelensky manteve-se no cargo e a Ucrânia foi resistindo.
Em consequência, a guerra não terminou nos três dias estipulados por Vladimir Putin. Após uma primeira fase de domínio russo, a Ucrânia passou, no verão de 2022, à ofensiva pela primeira vez. Expulsou as tropas inimigas completamente do oblast de Kharkiv. No sul, em Kherson, obrigou a uma retirada das tropas russas, que tiveram de se retirar para a margem esquerda do rio Dnieper.
Durante o inverno de 2023, a Rússia e a Ucrânia mediram forças na batalha sangrenta por Bakhmut, em Donetsk. Ao mesmo tempo, as tropas russas reforçavam as suas capacidades defensivas, sendo que a Ucrânia preparava uma contraofensiva que teria como objetivo reconquistar vários territórios ocupados pela Rússia — mas que nunca teve êxito.
Falhada a contraofensiva e com os russos a conquistarem Bakhmut, o conflito entrou numa fase — que dura até hoje — em que a Rússia vai fazendo avanços lentos, em particular nos pontos mais quentes da linha da frente no Donbass, mantendo-se a Ucrânia à defesa. Até agora, Moscovo controla totalmente cerca de 65% do Donetsk, esperando brevemente controlar localidades como Chasiv Yar ou Siversk.
A sul, os combates têm hoje em dia menos intensidade em comparação com os que ocorrem no Donbass, ainda que as tropas de ambos os lados estejam atentas às movimentações do adversário. Atualmente, a Rússia controla cerca de 60% da província de Kherson e 70% de Zaporíjia, havendo zonas contestadas.
Além destas quatro províncias que a Rússia já encara como suas por causa do referendo, as tropas leais a Vladimir Putin ainda controlam algumas localidades na província de Kharkiv, após uma ofensiva iniciada em maio de 2024. Porém, os ganhos foram muito limitados e a Ucrânia continua a dominar grande maioria da região, que faz fronteira com Belgorod.
▲ Rio Dnieper separa as tropas russas e ucranianas em Kherson
Getty Images
Numa possível mesa de negociações, a Rússia deverá querer assumir o controlo das quatro regiões que assume como suas. O Presidente russo, Vladimir Putin, já admitiu que está disponível para um cessar-fogo, caso a Ucrânia ceda os territórios que ainda controla em Donetsk, Kherson, Lugansk e Zaporíjia. “Assim que declarem em Kiev que estão prontos para essa decisão e começarem a retirada das tropas desde essas regiões […], literalmente nesse minuto seguir-se-á um cessar-fogo”, declarou o líder da Rússia em junho de 2024.
Como argumento para ganhar vantagem num processo negocial, a Rússia vai sublinhar que está a assumir uma posição ofensiva no campo de batalha e que tem vindo a conquistar alguns territórios na Ucrânia. No entanto, a realidade é que as tropas russas não têm tido muito sucesso — e têm enfrentado militares ucranianos que, embora exaustos, têm sabido não ceder à pressão.
Ucrânia tem Kursk como trunfo, mas está na defensiva no Donbass
Em quase três anos de guerra, as tropas russas controlam aproximadamente 20% do território ucraniano. Com a ajuda do Ocidente, os militares da Ucrânia têm resistido à sucessiva ofensiva russa desde 2023. Para evitar ficar somente na defensiva, as tropas ucranianas decidiram surpreender as russas ao levarem a cabo uma fulminante ofensiva em Kursk durante agosto de 2024.
▲ Tropas russas em Kursk
RUSSIAN DEFENCE MINISTRY PRESS SERVICE/HANDOUT HANDOUT/EPA
A ofensiva foi igualmente uma demonstração de força com a finalidade de obter uma moeda de troca, numa altura em que já se especulava que Donald Trump poderia regressar à Casa Branca em novembro. Apanhando a Rússia desprevenida, a Ucrânia conseguiu controlar mais de metade de Kursk, o correspondente a aproximadamente 1.400 quilómetros quadrados, no que inclui uma das principais cidades da região, Sudzha.
Neste momento, o cenário é menos positivo para Kiev. Numa contabilização feita esta quinta-feira pelo chefe das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrskyi, a Ucrânia controla agora cerca de 500 quilómetros quadrados em Kursk. É uma redução significativa face ao que mantinha em sua posse em agosto do ano passado, mas o líder militar continua a acreditar que é uma “zona de segurança” que Kiev possui dentro “do território da Federação Russa”.
A redução do território controlado em Kursk deve-se ao facto de a Rússia ter contra-atacado com algum sucesso e recuperando o controlo de algumas localidades. Resistindo com algum custo, a Ucrânia ainda esta segunda-feira tentou recomeçar uma ofensiva naquela região russa, mas ainda não é claro qual será o desfecho.
A extensão de 1.400 quilómetros que a Ucrânia chegou a controlar na Rússia
Como já foi sugerido por Volodymyr Zelensky, as autoridades de Kiev pretendem usar Kursk como uma forma de pressionar a Rússia na mesa das negociações a fazer algumas cedências. O Kremlin, por sua vez, considera “absurda” a proposta do Presidente ucraniano. “A Rússia nunca discutiu e não discutirá a troca de territórios”, assegurou o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov.
Kursk é efetivamente um trunfo, mas, numa mesa das negociações, a Ucrânia terá muitas dificuldades em convencer a Rússia a trocar apenas 500 quilómetros quadrados por 20% do seu território. Para além disso, em termos estritamente negociais sobre as províncias ucranianas, Kiev está numa posição mais complexa, dado que está na defensiva há mais de um ano na zona do Donbass.
Em termos militares, o Presidente ucraniano já reconheceu que o país “não tem força” para recuperar o Donbass e a Crimeia por meios militares. “Apenas podemos contar com pressão diplomática da comunidade internacional para forçar Putin a sentar-se à mesa das negociações”, assinalou Volodymyr Zelensky, numa entrevista em dezembro.
▲ Zelensky já admitiu que a Ucrânia "não tem força" para recuperar o Donbass e a Crimeia
VOLODYMYR TARASOV/EPA
Também o secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, frisou, esta quarta-feira, que não é “realista” que a Ucrânia regresse às suas fronteiras antes de 2014, ou seja, que o país volte a controlar a totalidade do Donbass e da Crimeia. “Perseguir esse objetivo ilusório apenas vai prolongar a guerra e causar mais sofrimento”, disse, ressalvando, porém, que os EUA querem ver uma Ucrânia “livre e próspera”.
Nas negociações, o cenário mais provável é, na opinião do cientista político ucraniano Volodymyr Fesenko, que a Rússia, apesar da retórica, ceda as localidades que mantém sob seu controlo em Kharkiv, em troca de a Ucrânia sair de Kursk. “Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson estão ocupadas e, mais importante, anexadas. Essas regiões foram incorporadas no território da Federação Russa. A região de Kharkiv não”, explica o especialista, em declarações à imprensa ucraniana.
Quase inalterável há vários meses, é praticamente impossível resolver a guerra no campo de batalha. A Rússia pode ter mais tropas e equipamentos militares, ainda que também esteja a viver uma difícil situação financeira — e não esteja disposta a investir num conflito longo e custoso. Por sua vez, a Ucrânia tem armas do Ocidente e a população ainda está mobilizada, mas são visíveis os problemas para colmatar a falta de tropas. A guerra deverá mesmo acabar na mesa das negociações, mas há questões — como a possível troca de territórios — que ainda estão longe de estar respondidas.