À hora de almoço, a paragem de José Manuel Anes num café próximo da casa onde passava boa parte do seu tempo era quase sagrada. Ali, sentava-se quase sempre na mesma mesa, e comia. Quase sempre sozinho. Na passada segunda-feira, saiu de casa já depois da hora de almoço, mas o destino era outro. “Ensanguentado”, “com os olhos negros” e “irreconhecível”, saiu a pé, apoiado nos braços de dois bombeiros em direção a uma ambulância.
Caso Anes. A violência de filhos contra pais está a crescer?
Momentos antes, o mediático criminalista terá sido atacado pela filha. Ana Anes — que, nas redes sociais, breves momentos depois, se referiu ao ataque como tendo sido ela própria a autora — tinha entrado no prédio na rua Quirino da Fonseca onde estava o pai, subira ao apartamento e atacara-o. “Acho que deixei o meu pai sem olhos, mas devem ouvir dizer que ele morreu pacificamente”, escreveu. Antes de ser apanhada pela Polícia Judiciária, ainda deixou uma mensagem à suposta companheira de José Manuel Anes: “Gostaste da prenda? És a próxima.”
Um vizinho recorda ao Observador que foi a empregada de limpeza do prédio quem reparou no que tinha acontecido. À PSP, testemunhas disseram que viram uma mulher a sair do local e tiveram receio de que a sua presença no prédio pudesse indicar algo pior — porque, relatam, tinham “conhecimento do histórico de violência doméstica”. Ao Observador, PSP, GNR, PJ, colegas de Anes e mesmo os vizinhos dizem que não têm conhecimento de qualquer passado de agressões.
Esta terça-feira à noite, o criminalista e presença regular em vários painéis de comentários nas televisões estava ainda no Hospital de São José, onde foi alvo de uma cirurgia devido aos ataques na barriga de que foi alvo e que, por sorte, “não atingiram órgãos vitais”, segundo relata ao Observador Tiago Ghira Campos, Grande Correio-Mor da Grande Loja Legal de Portugal — membro, tal como José Manuel Anes, da Maçonaria.
Criminalista saiu de casa “irreconhecível”. “Tinha os olhos escuros, pisados”
José Manuel Anes divide o tempo entre a casa onde foi atacado pela filha, numa zona muito movimentada de Lisboa, e a sua residência na Costa da Caparica. Conta um vizinho que aquele apartamento onde o criminalista estava era da sobrinha, mas era lá que, segundo várias fontes, residia a maior parte do tempo.
Não há quem não se lembre da cara do criminalista nos poucos metros que separam a entrada do prédio e o café onde Anes almoça praticamente todos os dias. “Ele está sempre aqui no café, fala com as pessoas, está sempre alegre e sempre bem disposto. É muito educado, muito cordial, muito afável”, elogia outra mulher que tem o local de trabalho perto desse café. Reforça que o homem “estava sempre, sempre sozinho”.
Por conhecê-lo bem, ficou em choque com o que aconteceu na segunda-feira. Quando saía da loja, viu uma pessoa num estado “lastimável”, longe de saber quem era. “Tinha os olhos escuros, negros, pisados”, relata, lembrando que foi nisso que se focou quando foi contar à colega o que tinha acabado de ver. “Pareciam bolas negras”, descreve. “Cheguei aqui e a primeira coisa que disse à minha colega foi dos olhos, que me fizeram impressão”. Anes saía do prédio a pé, com os bombeiros a apoiá-lo e com a PSP atrás. Enquanto assimilava a situação, a vizinha apercebeu-se que ainda não tinha reparado que conhecia a pessoa que se dirigia para a ambulância. Aproximou-se para falar com um vizinho que, mais perto dos acontecimentos, lhe explicou quem era. “Fiquei chocada. Nunca imaginei”, reagiu.
“Testemunhas informaram que teria sido visualizada uma suspeita do sexo feminino, alegadamente familiar da vítima do sexo masculino, a sair da residência, sendo que, temendo pela integridade física do mesmo, já tendo [esses vizinhos] conhecimento do histórico de violência doméstica, [a PSP] deslocou-se de imediato à sua residência onde se deparou com o homem de 81 anos prostrado no solo ensanguentado”, descreveu a PSP através de um comunicado.
Anes seguiu de pé até à ambulância dos Bombeiros Sapadores do Beato e Penha de França. No curto trajeto, a mulher que relatou tudo ao Observador lembrou o sangue e as calças “todas rasgadas” que levava. “Parecia que tinha sido chicoteado.”
No café onde era um cliente regular, quem o serviu à mesa muitas vezes prefere não falar. Entre limpar copos e empilhar pratos, assume que o criminalista ia ao estabelecimento muitas vezes, mas prefere não se alongar muito sobre o assunto. Às mesas e na esplanada, são muitos os que ainda falam sobre o episódio estranho que ali aconteceu, lamentando e expressando estranheza com um ataque realizado pela própria filha. Ana Anes também é uma incógnita para os moradores da rua, que não se lembram de tê-la visto com o pai.
O Comando Metropolitano de Lisboa da PSP foi acionado às 13h54 — cerca de meia hora antes, Ana Anes publicava as primeiras mensagens com o relato do ataque ao criminalista. Já no local, os agentes acompanharam Anes no percurso até à ambulância, sendo transportado de imediato para o Hospital de São José, onde deu entrada pelas 14h50. Inicialmente, foi diagnosticado com um “quadro reservado por causa de um hematoma cerebral”, mas rapidamente deixou de correr perigo de vida. Esta tarde, segundo Ghira Campos, Anes já estava desperto, “consciente e bem disposto, como é habitual”. “Dentro em breve estará a responder às mensagens como costume”.
▲ Foto com Gouveia e Melo, depois de uma entrevista conduzida por Anes para a revista Seguranca e Defesa, em agosto de 2024
@RodrigoMaria
Filha ameaçou advogado depois de atacar pai
O comunicado da PSP mencionava um “historial” de agressões que teria sido relatado pelos vizinhos aos agentes que estiveram no terreno para responder à chamada — na rua, os vizinhos abordados pelo Observador dizem desconhecer situações de violência anteriores. A PJ, que assumiu a investigação, diz que, para já, se desconhece “em absoluto se há queixas ou se não há”. Por esse motivo, o Observador contactou a PSP e a GNR (responsável pelo policiamento na Costa da Caparica, onde Anes também tem residência) para saber se existe registo de denúncias anteriores, mas nenhuma das forças de segurança respondeu a tempo da publicação deste artigo.
[A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]
Certo é que, pelo menos no Facebook, as ameaças de Ana Anes têm sido constantes. “A seguir devia fazer uma visita ao idiota do #joaoanes que aparece com o frufru das #IDF [Forças de Defesa Israelitas]. As contas dele também devem estar bem recheadas”, escreveu já depois de ter atacado o próprio pai.
“O meu paizinho estava on fire hoje. (…) Finalmente ao fim de 4 anos entrei na casa da #carlapinheiro e ele entre mordidelas, arranhões — o velho está ainda arrogante — a chamar me p…: e a dizer que me odeia, lá disse que tinha uma fortuna paga ao longo dos anos pela #Mossad numa conta em nome da #carlapinheiro… Depois deixo fotos das minhas mãos. Coitado a dentadura voou, um olho voou. Isto de se mandar os filhos servirem cafés”. Nesse texto, publicado pouco depois de ter estado em casa do pai, ameaçou ainda o advogado Luís de Belo Morais. “É um aviso.”
Ao jornal Público, o advogado admitiu que foi contactado na semana passada pela mulher agora detida, para ajudá-la numa questão patrimonial e para que formalizasse uma queixa-crime contra a alegada companheira de José Manuel Anes. Luís de Belo Morais assume que começou a ter medo das mensagens da cliente e suspendeu os seus serviços. “Se ela não fosse presa, eu corria perigo de vida”, disse ao Público. “Sinto-me abençoado, protegido. Quando soube que ela foi presa, fiquei aliviado”. O advogado conta que depois das agressões ao pai da antiga cliente, recebeu um vídeo da sua casa filmado por Ana.
A Polícia Judiciária confirmou ao Observador que a mulher não ofereceu resistência quando foi intercetada pelas autoridades, ainda na noite de segunda-feira. A detenção foi formalizada pela noite dentro.
Colegas do OSCOT surpreendidos com ataque. “Ainda por cima uma filha”
José Manuel Anes fundou o Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), há cerca de 20 anos. Pouco depois, assumiu a presidência do organismo durante dois anos (apenas entre 2010 e 2012), Há pouco tempo, passou por uma situação de saúde mais complicada, mas nunca se afastou do grupo e continuou, de resto, ligado ao Conselho Consultivo. A notícia de que tinha sido atacado — e alvo de uma tentativa de homicídio — também apanhou de surpresa os elementos do OSCOT. “Fiquei bastante surpreso” com o que aconteceu, diz Francisco Rodrigues, atual presidente do organismo. “Ainda por cima de uma filha.”
O coronel diz que manteve ao longo dos anos uma “relação próxima” com José Manuel Anes. Procurava-o com frequência para discutirem assuntos de segurança. “Quem nos visse, diria que estava ali uma amizade de longa data”, admite, apesar de garantir que, entre os dois, nunca houve conversas sobre a “intimidade” nem eram abordados assuntos mais pessoais. Nas conversas que mantiveram nas últimas horas sobre o ataque de Anes foi alvo, no grupo WhatsApp que reúne os elementos da direção, essa foi uma tónica comum: ninguém estava à espera.
“Quando vi as primeiras notícias, pensei que fosse alguém que o tivesse atacado por alguma coisa que ele tivesse dito”, conta Francisco Rodrigues. Aos 81 anos, Anes continua a ser presença recorrente nas televisões para falar sobre os temas que estudava, entre os quais terrorismo e criminalidade organizada. Pouco minutos depois, a história do ataque evoluiu para referências a uma tentativa de homicídio — e a filha era a principal suspeita. “Nada indicava”, garante o presidente do OSCOT.
No comunicado que divulgou sobre o ataque, a PSP fazia referência à resposta dos vizinhos, que se deslocaram ao apartamento onde Anes vivia por temerem que estariam em curso um novo episódio de violência. A referência poderia indicar que o episódio desta segunda-feira não tinha sido um caso isolado. Mais uma vez, Francisco Rodrigues insiste que foi totalmente inesperado. Até porque a Ana Anes já tinha sido tema de conversa e em nenhum momento o antigo presidente do OSCOT tinha sinalizado qualquer situação estranha. Em alguns momentos, Francisco Rodrigues já tinha lançado um convite a Anes para almoçarem juntos. E por mais de uma vez ouviu uma resposta negativa — o antigo presidente do OSCOT explicava que já tinha planos para almoçar com a filha.
Foram, aliás, recorrentes as publicações que foi fazendo nas redes sociais a dar conta desses encontros com a filha. Um em setembro de 2023, depois outro em novembro, mais um em fevereiro de 2024 e, finalmente, em abril do ano passado, assinalado com uma foto durante o encontro. Logo a seguir, mais uma imagem dos dois, lado a lado, publicada no Facebook: “Os dois Anes, pai e filha!”, referia a legenda da imagem de 3 de abril. Depois, os posts pararam — pelo menos, não foi possível encontrar mais publicações no Facebook de José Manuel Anes com a sua filha.
▲ José Manuel Anes utiliza o Facebook para partilhar, sobretudo, participações em programas de comentário nas televisões
Filha acusava pai de ter ficado fora do testamento. Ana é sexóloga e foi colunista
Já Ana Anes mantinha uma produção frequente nas redes sociais, onde se apresentava como Ana Rawson. Foi a própria quem explicou que a opção por um apelido diferente do de Anes se devia ao facto de acreditar que o seu verdadeiro progenitor era o seu padrasto, Jean Pierre Rawson, um cineasta francês que morreu em 2020. “Eu e o meu paizinho @jeanpierrerawson sempre juntos #sociedadesecreta”, escrevia há apenas três dias no seu Instagram, numa legenda que acompanhava uma fotografia dos dois.
Nas mesmas redes sociais em que assumia ter acabado de atacar o pai, esta segunda-feira, Ana Anes foi publicando mensagens repletas de acusações e suspeições que visavam sobretudo o pai. Num momento, acusa-o de estar por detrás de um atentado contra o antigo primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, em 1980; noutro momento, diz que Anes teria “muito dinheiro escondido” da Mossad, que se dedicaria a “lavar” com a ajuda de uma antiga aluna, e acusava-o ainda de ter excluído a filha do seu testamento.
A filha de José Manuel Anes é sexóloga e autora do livro “Sete Anos de Mau Sexo”. Chegou também a publicar crónicas na área da Sexologia no Correio da Manhã, alimentou um blogue e participou no lançamento da edição portuguesa da revista Playboy. Num texto publicado no jornal Público, em 2010, com o título “O que sei sobre os homens”, escrito na primeira pessoa e assinado por Ana Sousa Dias, mas que parte de uma conversa com Ana Anes, lê-se: “Eu vejo o pior da natureza humana e às vezes tenho vontade de afastar-me, de entrar em recolhimento porque são coisas que me chocam, e não tenho um colete à prova de perversões. Apetece-me fechar a porta, preciso de tempo para digerir. O que me safa é o sentido de humor, porque se não já tinha desistido da humanidade.”
Depois, o texto aborda uma situação limite por que tinha passado pouco tempo antes. “Há uns meses, desisti, tentei o suicídio. Sentia que nunca ninguém me viu como eu era. Como escrevi no novo livro: por mais que nos amem não nos conseguem acompanhar. Foi um momento de profunda tristeza e solidão, depois de várias perdas. Saí disso com muita psicoterapia, com o apoio da minha mãe e do meu pai II, que apostaram tudo em mim.”